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3TEETH: PESADELO INDUSTRIAL

O metal industrial nunca foi e nunca será o gênero musical mais extremo de que se tem notícia, mas a verdade é que a forma como identificam, exploram, esmiuçam e posteriormente expõe musical e visualmente temas pouco confortáveis do nosso dia a dia transformam a música dessas bandas em um algo perigoso e visceral, como você certamente já sentiu em canções de bandas como Ministry, Godflesh, Fear Factory, Rammstein e tantos outros. Vindo da ensolarada Los Angeles, o 3Teeth é muito mais novo do que os nomes anteriormente citados, mas já coleciona muitos feitos dignos de atenção. Depois de turnês com os principais nomes do cenário industrial, e com seu terceiro álbum completo lançado, o vocalista fundador Alexis Mincolla conversou com a ROADIE CREW. 

 

Já que esta é a primeira entrevista da 3Teeth para nossa revista, gostaria de começar falando um pouco sobre seu passado. Como você se apaixonou pela música, e quando decidiu seguir carreira musical?  

Alexis Mincolla: A música tem sido uma paixão minha desde que eu era criança, pois meu pai e meu irmão mais velho eram músicos excepcionais e tocavam em bandas. Então eu fui exposto à música ao vivo em uma idade ainda muito jovem. Nasci e fui criado em Boston, e um dia a minha mãe me levou a um show do Aerosmith, quando eu tinha doze anos. Ela me levou ao ‘backstage’, para conhecer a banda. Nunca esquecerei de tirar uma foto com Steven Tyler, quando ele me disse para olhar para a câmera e dizer “me lambe”, que até hoje me deixa perplexo (risos).  Quanto à decisão de seguir uma carreira musical, foi só quando me mudei para Los Angeles e comecei esta festa underground conhecida como Lil Death em 2011, ela serviu como o ponto primordial que mais tarde se transformaria no 3Teeth. Xavier Swafford e eu nos conhecemos durante a festa, e assim que soubemos que morávamos na mesma rua, começamos a nos reunir em noites aleatórias, em que nós dois estávamos livres, para começar a fazer alguma música.  Tudo sobre essa banda era muito casual, não tínhamos expectativas, só queríamos fazer a música que queríamos ouvir. Queríamos que a nossa imagem e o nosso som remetesse ao industrial dos anos 90 que tanto amávamos, mas queríamos adaptá-lo a um contexto moderno. Minha formação como estudante de ciência política e diretor de arte começou a realmente influir no processo criativo em termos da direção que o som e a mensagem da banda tomaram. Eu queria sonicamente sugar o veneno da sociedade de produção em massa em que vivíamos e cuspi-lo de volta em sua própria cara. 

O 3Teeth foi sua primeira banda, ou você já teve outros projetos musicais antes? Como foram seus primeiros passos nessa direção? 

Mincolla: Sim, o 3Teeth é minha primeira banda e tudo aconteceu com muito poucas expectativas. Inicialmente eu só queria criar um álbum meio que como para ‘ticar’ um item da lista criativa na minha vida. Algo que eu pudesse olhar para trás e que marcasse um momento na minha consciência, um momento em que senti que tinha tanto a dizer que estava quase extrapolando de mim, então eu queria marcar esse momento com algo.  Depois Xavier e eu escrevemos três faixas juntos, Pearls 2 Swine, Master of Decay e Nihil, e disponibilizamos elas on-line. Eu criava uma forte propaganda visual e memetica para apoiar os lançamentos, e as pessoas realmente pareciam gostar. Parecia um bônus completo e inesperado que alguém se importasse com a nossa música, mas foi então que dissemos a nós mesmos: “Talvez devêssemos transformar isso em uma banda real enquanto desenvolvemos nosso som e terminamos este álbum”. Foi aqui que conhecemos Andrew, que literalmente apareceu na festa usando um manto e estava chapado com ácido (risos). Tivemos conversas muito interessantes e imediatamente nos demos bem. Mais tarde soube que ele era um incrível multi-instrumentista e músico de formação clássica. Então nós o convidamos para as sessões de composição que provaram que ele era fundamental para a formação do som. Foi através de Andrew que conhecemos Chase, e assim tínhamos formado a banda.  

 Pode nos contar a história por trás do nome da banda? 

Mincolla: 3Teeth é sobre a arma divina dos deuses, o tridente.  Um antigo instrumento de criação e destruição que se concentra na eterna batalha do caos contra a ordem. O deus sumério Marduk derrubou Tiamat com o tridente, supostamente trazendo a ordem ao derrotar o caos, determinando assim a criação do universo. No entanto, acredito que esta história é uma das primeiras mentiras já contadas e o caos está vivo e passando muito bem. 

Seu álbum de estreia autointitulado foi lançado em 2014. O álbum de estreia foi muito bem recebido, e o 3Teeth começou a ser citado entre os melhores novos nomes do metal industrial. Foi um resultado para o que você estava preparado? 

Mincolla: Eu definitivamente não estava preparado para isso. Para ser totalmente honesto, eu realmente não tinha a intenção de fazer um projeto de música ao vivo a partir disso, pois eu não tinha certeza se poderia mesmo entrar no palco. Mas quando começamos a receber ofertas de agendamento de datas para tocar shows e festivais , eu disse para mim mesmo, é melhor resolver isso.  Então começamos a ensaiar e descobrir como seria nosso show ao vivo. Comecei a projetar visuais para os palcos para tornar o show realmente atraente e ajudar a guiar a narrativa do set e o ‘layout’ para a história. Fizemos uma turnê do primeiro álbum por dez países, e depois o Tool nos convidou para sair em turnê com eles, o que foi absolutamente insano.   

Para o segundo álbum, Shutdown.exe, você contou o produtor Sean Beavan, uma lenda do metal industrial. Como foi o trabalho com ele? 

Mincolla: Trabalhar com Sean tem sido uma experiência incrível, e somos basicamente como uma família agora. Tudo começou quando terminamos o Shutdown.exe e estávamos procurando alguém para mixar o disco. Nós estávamos essencialmente olhando os créditos de alguns de nossos álbuns favoritos, e toda hora víamos esse nome, Sean Beavan, aparecendo como engenheiro de mixagem. Vi que ele estava baseado em Los Angeles, então disse para mim mesmo “nós bem que poderíamos simplesmente fazer o convive e ver se ele vai nos estender a mão, se ele estaria interessado em mixar o disco”. Também me lembro de estar muito nervoso, pois ninguém tinha ouvido o disco ainda e estava com medo que ele fosse dizer não porque não gostava do disco ou algo assim. Felizmente, ele adorou o disco e concordou em mixá-lo, que foi essencialmente o primeiro passo para construir uma relação de trabalho com Sean, que só continua a crescer à medida que passamos inúmeras noites trabalhando juntos em seu estúdio, com sua esposa nos preparando o jantar todas as noites e construindo uma relação de trabalho realmente intuitiva e autêntica. 

Devo dizer que o Shutdown.exe se tornou um dos meus álbuns de metal industrial favoritos em tempos recentes. Há muitos grandes momentos nele, e eu ainda ouço músicas como Pit Of Fire e Atrophy todos os dias. O que você pode nos dizer sobre este segundo passo do 3Teeth no estúdio, e o que ele representa em sua carreira? 

Mincolla: Eu posso dizer que não foi um registro fácil de fazer por um monte de razões. Por um lado, tínhamos movido todas as nossas coisas para este local em uma área terrível do centro de Los Angeles, sem ar condicionado e sem janelas, e era um calor infernal todos os dias. Costumávamos nos trancar lá dentro, suar e beber cervejas quentes. Foi bastante torturante saber como todos os outros caras estavam em ‘festas da piscina’ ou na praia, ou ainda fazendo passeios de verão enquanto estávamos trancados dentro de uma caixa escaldante brigando uns com os outros (risos).   Foi também a turnê com o Tool, algo que por alguma razão colocou uma tonelada de pressão sobre nós para escrever um álbum que provasse que não éramos um acaso total. Então lutamos com nossa própria síndrome de impostor enquanto tentamos descobrir como desenvolver nosso som para esta versão do segundo disco. De alguma forma, conseguimos e fizemos um disco que marcou uma evolução em nossa direção musical, mas ainda assim manteve muito verdadeiras as raízes do nosso som original. O álbum em si é conceitualmente centrado em torno de reformatizar um túnel de realidade própria e percepções com as quais eu estava pessoalmente lutando na época, com base nas várias circunstâncias que cercaram o projeto na época. Acima de tudo, estou muito feliz com o álbum, mas ouço uma grande quantidade de coisas que eu gostaria de ter feito diferente. Você sabe, é como dizem “o trabalho nunca está terminado, é apenas abandonado”.

Metawar – Century Media – IMP (2019)

Finalmente temos seu novo álbum, Metawar. O álbum foi lançado em julho de 2019, então como você sente as respostas até agora? 

Mincolla: A resposta tem sido muito positiva em termos de vendas e críticas em geral. Acho que ele atingiu todas as métricas quantificáveis de sucesso da indústria musical, mas isso é algo que interessa muito mais a gravadora, que  parece se preocupar muito mais com isso do que nós, para ser franco.  

 O que você acredita ser a maior diferença entre ele e os álbuns anteriores? 

Mincolla: Acho que este álbum soa mais como uma banda em uma sala, uma banda que tocou um monte de shows na estrada e que ficou muito coesa ao longo dos anos. Eu também acho que este álbum foi criado com a intenção de escrever músicas para preencher espaços maiores. Quando você tem a oportunidade de dividir o palco com bandas maiores como Rammstein, Tool, Ministry, Danzig, etc, você começa a querer escrever músicas para preencher esses ambientes, os locais onde essas bandas costumam estar.  

 Pode nos contar um pouco sobre a capa da Metawar? Qual é a ideia por trás dela? 

Mincolla: O conceito por trás da arte do álbum para Metawar é a mão de Mammon segurando a terra enquanto seus dedos afiados sugam óleo de suas perfurações. O óleo representa uma entidade teluriana consciente que esteve aqui muito antes do homem e está ancorando uma agenda misteriosa que vai muito além da geopolítica superficial e se profunda em uma ordem psico-celestial.  

 Antes de falarmos um pouco sobre as músicas, o que você pode nos dizer sobre o título do álbum? 

Mincolla: Metawar é um ataque célere aos sistemas de gerenciamento de informação em larga escala que atualmente dominam nosso mundo. É uma contramedida na guerra invisível do silício da ideologia que está constantemente movendo peões avatares no campo de batalha de nossas redes sociais.  Vivemos em um mundo onde estamos todos e cada um amarrados ao mesmo sistema nervoso digital protético em massa, incentivado a conduzir nossa ideologia, a qual somos perpetuamente manipulados. Mesmo os pensadores mais independentes estão sendo fixados de um lado ou de outro como resultado disso. Nosso objetivo é colocar este álbum nas engrenagens cognitivas que perpetuam essa retórica ferozmente divisiva, expondo a hipocrisia de todos os lados.  É hora de esculpir um espaço não conformista entre a esquerda e a direita, que não tenha um psicográfico definível para corporações e políticos explorarem. 

 Uma das minhas coisas favoritas sobre Metawar é que este é um álbum verdadeiramente dinâmico e variado. Ao mesmo tempo que tem canções pesadas e cheias de groove como Exxixt e President X, também tem canções mais densas e lentas como Time Slave e Surrender. 

Mincolla: Sim, a dinâmica é absolutamente algo que consideramos enquanto escreviamos Metawar.  Foi algo pelo qual realmente nos criticamos quando olhamos para trás no Shutdown.exe, já que esse álbum é totalmente mid-tempo e não tem certas dinâmicas que queríamos alcançar com Metawar.  Quanto ao nosso processo criativo, não nos limitamos a um processo singular e uma música pode realmente começar em qualquer parte, sem distinções. Acho que a única constante é o quanto tendemos a dissecar e separar as coisas, camada de camada. Nosso passo-a-passo é como fazer monstros frankenstein bizarros, onde juntamos partes de coisas que inicialmente não deveriam ficar juntas.  

Você se referiu ao conceito por trás da canção Exxxit e é uma metáfora para o desejo inerente da humanidade à autodestruição. Pode explicar seu ponto de vista sobre esse assunto? Qual é o principal perigo, as mudanças climáticas ou nosso desejo de nos matarmos em uma guerra? 

Mincolla: Bem, eu acho que autodestruição é uma forma de libertação às vezes. Nós tendemos a apertar o botão de autodestruição quando nos sentimos presos e isso pode ser em pequenos níveis, ou seja, a maneira como as pessoas trabalham a semana toda e, em seguida, na sexta-feira amam ir ao bar e ficar absolutamente entorpecidos em bebidas alcoolicas, drogas e cigarros, apesar de saber que está essencialmente se matando. Buscamos o empoderamento de fazer escolhas que só nós podemos fazer, como o que fazer com nossos corpos. A maioria das pessoas realmente tem muito pouco controle sobre suas vidas, uma vez que são apenas uma engrenagem básica no gigantesco rolo-compressor do capitalismo em seu estágio final. Trabalhamos sessenta horas semanais só para sobreviver, e depois de anos e anos isso se torna absolutamente esmagador para o espírito, e eu acho que a autodestruição se torna algo como uma inclinação natural de empoderamento em uma situação opressiva.  

Você acredita que há uma maneira de a humanidade escapar da completa obliteração? Como escapar de um fim que nós mesmos estamos procurando? 

Mincolla: Acho que é através do fim que encontraremos um novo começo. Acho que é a única saída, e por mais assustador que seja, continuo otimista quanto a resiliência do espírito humano. . Somos todos muito mais capazes de coisas milagrosas do que nos damos crédito. 

Eu também gostaria que você falasse sobre a música affluenza. Vi uma declaração na internet atribuída a você explicando algo que envolvia a bunda de Kim Kardashian (risos). 

Mincolla: (rindo muito) Sim, isso foi mais uma piada do que qualquer coisa. Às vezes, a imprensa me pede uma citação sobre uma música para que possam publicar junto com a estreia da música ou algo assim, e eu senti vontade de ser totalmente absurdo sobre essa música. Então eu disse “Affluenza é a epidemia que consome nosso tempo. É uma doença socialmente transmitida que infecta através do sistema nervoso digital protético quando exposta às infotoxinas baseadas no consumo das partículas emitidas pela bunda dA Kim Kardashian” (risos gerais). 

Outra música que eu amo que me intriga é Bornless. Pode nos contar um pouco sobre essa música? 

Mincolla: Bornless é uma canção sobre não ser governado por limitações geográficas e linhas escritas na areia. Só somos governados pelas leis naturais do homem, que são a própria natureza. Robert Anton Wilson disse que o mapa não é o território, e o menu não é a refeição. No entanto, os governos o vinculam a contratos sociais que você nunca assinou, baseado apenas onde você nasceu. Para mim isso é muito antinatural e remonta à batalha essencial entre o caos e a ordem que discutimos anteriormente.  O homem cria ordem com medo do caos, apesar do caos ser a ordem natural do universo.

E você tem uma música cover em Metawar também, uma versão para Pumped Up Kicks, do Foster The People. Essa é uma escolha incomum, você curtiu a música, ou o tema da música? 

Mincolla: Eu realmente não era fã da canção original, mas eu gostei demais da mensagem e do contexto da música. Eu nunca tinha desejado fazer uma música cover e eu especialmente não gostaria de fazer a versão de uma música que eu gostasse muito, porque para mim isso é muito difícil. Eu queria quase que ‘geneticamente’ modificar uma música que fosse muito pop, que quando reformulamos seu tom e vibração isso realmente mudaria a essência da música. Basicamente, eu realmente amei a letra e sabia que se procedessemos com essa música através da sensibilidade do 3Teeth, ela sairia mais ameaçadora e relevante para uma situação que se tornou quase absurda aqui nos Estados Unidos. 

Para terminar essa conversa, o que bandas como Alice Cooper, Marilyn Manson, Rammstein e Fear Factory representam para você, musical e artisticamente? Muito obrigado pela entrevista, deixe aqui uma mensagem para seus fãs no Brasil. 

Mincolla: Acho que todas essas bandas têm um impulso conceitual por trás delas. Algo maior do que apenas fazer música, havia uma abordagem holística na mensagem de sua arte.  Eles não só disseram alguma coisa, elas te mostraram algo. Elas construíram experiências sensoriais que transmitiram para seus públicos, a fim de retratar a gravidade de suas narrativas. Obrigado por me fazer perguntas tão atenciosas e agradecemos muito a todos os nossos fãs brasileiros, especialmente nestes tempos difíceis.  Nós realmente esperamos chegar até vocês em breve, então continuem espalhando o nosso nome pelo mundo. Um grande abraço, e até mais!

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