
Uma noite de sexta-feira para celebrar Satanás. Ok, era mesmo uma noite de sexta-feira quando a versão latino-americana da turnê The Unholy Trinity, com Nidhogg, Deicide e Behemoth, chegou ao Rio de Janeiro. O ar profano no Sacadura 154 era óbvio, mas a celebração ao anjo que se rebelou contra Deus saiu primeiramente da boca de Nidhogg, o vocalista e líder do Nidhogg – sim, a banda polonesa que leva seu nome e é completada por Dariusz Daron Kupis e Jacek Kieller (guitarras), Jakub Boruta Śliwowski (baixo) e Paweł Jaroszewicz (bateria).
Infelizmente, a convocação de Nidhogg, que literalmente faz valer o uso de corpse paint, foi um dos poucos momentos que puderam ser agraciados por este que vos escreve, afinal, cruzar a Zona Sul para chegar à zona portuária da cidade na hora do rush requer (mais) tempo e (muita) paciência, e o evento começou pontualmente no horário anunciado – e mais um ponto para a produtora: a pista VIP fez jus ao próprio nome, uma demonstração de respeito tanto a quem paga mais, porque assistiu mesmo ao show de modo privilegiado, quanto a quem não pôde pagar mais caro, porque não ficou tão distante do palco.

Enfim, se não foi deu para conferir todo o set do Nidhogg – e assim fazer uma análise responsável –, certamente foi possível presenciar o ápice da apresentação. Depois de mencionar a “felicidade por poder tocar no país de Max e Iggor Cavalera, do grande Sepultura!”, o vocalista criticou as guerras ao redor do mundo, mandou os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, se foderem – acompanhado por um atento fã na plateia que acrescentou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu – para bradar que “eles só querem saber de expandir território”. E foi assim que “Territory” virou o clímax do show, com o direito ao líder da banda ostentando uma camisa da seleção brasileira.
Em um esquema “gente como a gente”, o Deicide deu as caras antes do previsto, uma vez que os ajustes finais de som não foram feitos por roadies, e sim pela próprio grupo. Uma situação nada usual, que deixou muitos com cara de “é isso mesmo?” ao perceberem que Glen Benton (baixo e vocal), Jadran Gonzalez e Taylor Nordberg (guitarras) e Steve Asheim (bateria) já estavam no palco. E foi assim, sem qualquer cerimônia, que o quarteto abriu os portões do inferno com a trinca “When Satan Rules His World”, “Carnage in the Temple of the Damned” e “Behead the Prophet (No Lord Shall Live)”.

E sem sair de cima, porque a interação com a plateia foi mínima. Basicamente, Benton só se dirigiu ao público quando este entoou o coro de “Deicide! Deicide! Deicide!”, sendo que de forma satanicamente blasé: apenas em duas oportunidades, e vociferando algo ao microfone tão inteligível quanto as letras cantadas por ele naquele misto de gutural neandertal com rompantes agudos de quem levou um chute de coturno nas bolas.
Apesar de o som estar mais alto e cristalino, algumas falhas pontuaram a apresentação, e talvez tenham sido a razão de “Bury the Cross… With Your Christ”, “Trick or Betrayed” e “Scars of the Crucifix” ficarem fora (literalmente riscadas do setlist, diga-se). Ainda assim, nada que desabonasse uma apresentação há muito aguardada pelos fãs cariocas.

O Deicide nunca havia tocado no Rio de Janeiro, e um repertório clássico acabou sendo um presente de primeira. Entre a performance certeira dos novatos Nordberg e Gonzalez (este, recém-chegado), foi um prazer observar Asheim, cujas quase quatro décadas de banda parecem apenas tê-lo deixado mais jovem. O cara é um monstro das baquetas. Tudo junto e misturado, foi a receita de um show marcante para quem é fã da banda, com destaques ainda para “In Hell I Burn”, “Dead By Dawn” e “Homage for Satan”.
Atração principal da noite, o Behemoth mostrou por que é hoje o grande nome do black metal mundial. E por que digo isso? Nem mesmo a estrutura do Sacadura 154, cujo palco é baixo porque o teto é baixo, foi capaz de atrapalhar o espetáculo que é uma apresentação de Nergal (guitarra e vocal), Seth (guitarra), Orion (baixo) e Inferno (bateria). O pano de fundo era maior do que o fundo do palco, não houve telão, a pirotecnia foi obviamente descartada… A experiência não foi completa, mas havia a presença hipnótica dos homens de frente e toda a teatralidade de Nergal. E havia, claro, a música.

A relevância do Behemoth na música extrema contemporânea pôde ser medida pela recepção do público ao novo material. Três músicas foram pinçadas de The Shit Ov God (2025), e logo de cara “The Shadow Elite” mostrou que pelo menos o refrão estava na ponta da língua de todos os presentes. Ainda mais forte foram as vozes que, na verdade, não acompanharam Nergal no refrão de “The Shit ov God”, porque ele espertamente comandava a plateia a maltratar garganta e pulmões entoando que “nós somos a merda de Deus”.
Uma letra que a princípio pode soar, sim, ofensiva e rebelde de maneira até infantil, mas cuja interpretação é simples e só não está ao alcance de quem não conhece o Behemoth e a briga de Nergal contra a doutrinação teocrática na Polônia, incluindo a campanha Ordo Blasfemia. E para quem simplesmente não faz questão de tentar entender, “Lvciferaeon” e seu magnífico refrão – “Se eu sou Deus, todos são. Se eu sou Deus. Se eu não sou, nenhum existe” – jogam mais lenha na fogueira: cantado em uníssono pelo bom público que compareceu à casa de shows, trata-se de um chamado consciente a um debate filosófico.

Em 70 minutos, e aí reside o único ponto negativo da apresentação: é muito curta, o Behemoth privilegiou os trabalhos do fim dos anos 2000 para cá, mas sem esquecer de um passado um pouco mais distante. “Quando em Roma, faça como os romanos: joguem os cristãos aos leões”, bradou Nergal antes de “Christians to the Lions”, um dos pontos altos do show, mas a canção de Thelema.6 (2000) era previsível, então o que veio a seguir foi realmente uma agradável surpresa: “Cursed Angel of Doom”.
Canção das sessões do primeiro álbum, Sventevith (Storming Near the Baltic) (1995), mas lançada somente 11 anos depois, na coletânea Demonica (2006), “Cursed Angel of Doom” não escondeu a crueza dos anos embrionários da banda, mesmo sendo mais bem executada e com superior qualidade sonora – em tempo: apesar de baixo, o som estava cristalino.

Agora, imagine você a dobradinha “Christians to the Lions” e “Cursed Angel of Doom” abrindo caminho para “Chant for Eschaton 2000”, de Satanica (1999), fechar o set antes do protocolar bis… Sim, foi formidável, até porque a apoteose foi completada com a maravilhosa “O Father O Satan O Sun!”, da obra-prima The Satanist (2014), com direito a toda uma performance visual e teatral que ratificam o status atual do Behemoth.
Mas calma lá que houve grandes momentos antes de a noite chegar ao fim, e o próprio The Satanist foi responsável por isso, com outras duas de suas faixas: “Ora Pro Nobis Lucifer” foi responsável por incendiar a plateia depois do começo já bem aquecido com “The Shadow Elite”, e “Blow Your Trumpets Gabriel” ganhou dos presentes a confirmação de clássico instantâneo.

E falando em clássico, I Loved You at Your Darkest (2018) foi responsável por um dos melhores momentos do show, começando com “Bartzabel”, tão óbvia quanto maravilhosa, e terminando com “Wolves ov Siberia”, e ambas entremeadas pela introdução do álbum, “Solve”, que criou um clima sombrio não apenas necessário, como também de arrepiar – quem não vê uma beleza perturbadora num coro de crianças entoando “Elohim, eu não perdoarei; Adonai, eu não perdoarei; Deus Vivo, eu não perdoarei; Jesus Cristo, eu não lhe perdoo” é porque virou zumbi.
Curiosamente, a ótima “Once Upon a Pale Horse”, do igualmente ótimo Opvs Contra Natvram (2022), quase apagou o incêndio causado pelas chamas do inferno. Não que a recepção tenha sido fria, mas talvez porque àquela altura os fãs já estivessem possuídos pela que acabaram de ver, e isso inclui também como Nergal, Orion e Seth, especialmente os dois primeiros, ocupavam os espaços do palco e interagiam com o público sem precisar falar nada.

Era algo hipnótico, atualizado pelas constantes trocas de vestimenta de Nergal. Principalmente, no entanto, havia a música, e se “Ov Fire and the Void”, de Evangelion (2009), e “Conquer All”, de Demigod (2004), não foram novidade para quem esteve no mesmo Sacadura 154 há menos de três anos, elas tiveram como suporte o massacre promovido por Inferno – por questões pessoais, o batera não pôde vir ao Brasil em 2022, tendo sido substituído por Jon Rice (Scorpion Child). E para todos teve também “Demigod”, a faixa-título que, novidade para os cariocas, ajudou a noite a ser uma aula de black metal. Aula que, com novas e antigas lições, esperamos que se repita daqui a poucos anos.
Setlist Behemoth
1. The Shadow Elite
2. Ora Pro Nobis Lucifer
3. Demigod
4. The Shit ov God
5. Conquer All
6. Blow Your Trumpets Gabriel
7. Ov Fire and the Void
8. Lvciferaeon
9. Bartzabel
10. Wolves ov Siberia
11. Once Upon a Pale Horse
12. Christians to the Lions
13. Cursed Angel of Doom
14. Chant for Eschaton 2000
Bis
15. O Father O Satan O Sun!

Setlist Deicide
1. When Satan Rules His World
2. Carnage in the Temple of the Damned
3. Behead the Prophet (No Lord Shall Live)
4. Once Upon the Cross
5. From Unknown Heights You Shall Fall
6. Sacrificial Suicide
7. Satan Spawn, the Caco-Daemon
8. Sever the Tongue
9. In Hell I Burn
10. They Are the Children of the Underworld
11. Dead By Dawn
12. Homage for Satan

Setlist Nidhogg
1. Narcissus
2. Mental Lycanthropy and the Calling of Shadows
3. Dracula
4. Transilvania
5. Sic Luceat Lux
6. Wilczyca
7. Horda
8. Jeszcze zemści się Ziemia
9. Wyrocznia
10. Territory





