Por Marcelo Gomes
Fotos: Daniel Agapito
São Paulo, cidade reconhecida por sua intensa vida cultural e por acolher manifestações artísticas de diferentes vertentes, recebeu as primeiras grandes atrações do metal em 2026. O evento, realizado na Burning House, marcou a abertura oficial da agenda de música pesada do ano na capital paulista, que promete reunir centenas de apresentações ao longo do ano. Em uma data exclusiva para São Paulo, o público teve a oportunidade de assistir ao retorno do Cynic ao Brasil, em sua segunda visita ao país, além da aguardada estreia do Imperial Triumphant em solo nacional. A noite foi marcada por fortes contrastes estéticos e sonoros, transitando entre virtuosismo técnico, teatralidade e um caos musical cuidadosamente construído, vivenciado por um público atento e sedento por experiências artísticas que extrapolam o convencional.
A responsabilidade de abrir a noite coube ao Imperial Triumphant, que realizou sua primeira apresentação no Brasil de forma impactante. Com máscaras douradas e figurinos imponentes, o trio novaiorquino formado por Zachary Ilya Ezrin (vocais e guitarra), Steve Blanco (baixo e vocais) e Kenny Grohowski (bateria) iniciou o espetáculo com Lexington Delirium, lançando o público em um universo de dissonâncias, métricas irregulares e tensão constante. Na sequência, Gomorrah Nouveaux e Devs est Machina aprofundaram essa atmosfera, alternando momentos de agressividade extrema com passagens de complexidade melódica, provocando fascínio e estranhamento em igual medida.

Sem qualquer interação verbal, Zachary surpreendeu ao estourar uma garrafa de champanhe para celebrar a estreia da banda no país. Parte do público, especialmente os mais próximos ao palco, foi banhada pela bebida, enquanto Transmission to Mercury servia de trilha sonora para a cena. O ápice ocorreu no encerramento da música, quando Steve Blanco executou um solo frenético em seu baixo iluminado por LEDs e, em seguida, recebeu das mãos de Ezrin um trompete em chamas, enquanto continuava o solo com uma das mãos, parecendo emular as trombetas do apocalipse. Em seguida, Chernobyl Blues e Hotel Sphinx injetaram doses de obscuridade e brutalidade, fazendo o chão da Burning House tremer como em um terremoto. Era como se a banda estivesse pintando um cenário de destruição sonora, do qual o público fazia parte.

O encerramento com Industry of Misery e Swarming Opulence consolidou a apresentação, com Zachary Ezrin comandando o palco como um verdadeiro maestro do apocalipse. O público respondeu com um intenso mosh pit, transformando a pista em um verdadeiro pandemônio. A estreia brasileira mostrou-se impecável: o público, inicialmente curioso, terminou o set aplaudindo a ousadia de uma banda que soa como uma sinfonia do fim do mundo. Para quem aprecia algo além do convencional, essa apresentação representou uma porta de entrada marcante para o universo estético do Imperial Triumphant.

Com a entrada do Cynic no palco, ficou evidente que a noite assumiria uma nova atmosfera. Em sua segunda passagem pelo Brasil, a banda foi recebida com entusiasmo por um público que aguardava ansiosamente esse retorno. A formação contou com Derek Rydquist (vocal), Paul Masvidal (vocais e guitarra), Mike Gilbert (guitarra), Brandon Giffin (baixo) e Matt Lynch (bateria). Reconhecidos como pioneiros do death metal progressivo, com influências de jazz fusion e espiritualidade, os músicos entregaram uma apresentação tecnicamente refinada e emocionalmente profunda, equilibrando diferentes fases de sua trajetória.

Ao cumprimentar o público com um simples “fala, galera” em português, Masvidal deu início a Sentiment. De joelhos, destacou-se pelo bom gosto nos temas de guitarra e, ao cantar, pela interpretação suave e melódica. Em seguida, Integral Birth apresentou um contraste marcante com a participação de Derek Rydquist, do The Zenith Passage, nos vocais guturais, criando um diálogo intenso entre peso e delicadeza. A execução de Veil of Maya reafirmou a genialidade da banda, com Matt Lynch conduzindo as polirritmias com fluidez impressionante, enquanto o baixo de Brandon Giffin sustentava a base melódica e rítmica, e as guitarras de Masvidal e Gilbert construíam paisagens sonoras complexas e envolventes. A resposta do público foi imediata, ovacionando merecidamente a banda.

O setlist funcionou como um passeio pela história do grupo, com ênfase nos álbuns Focus (1993) e Traced in Air (2008). Por falar nisso, a execução de Evolutionary Sleeper emocionou ao ser cantada em coro pelo público, evidenciando a força de suas melodias. The Unknown Guest e Celestial Voyage transportaram os presentes para dimensões sonoras nas quais técnica e espiritualidade se encontram, com a banda demonstrando entrosamento e respeito absoluto às composições originais. Em meio à intensidade do show, Paul comentou sobre o calor e a necessidade de respirar, aproveitando para elogiar o Brasil e a música brasileira antes de iniciar Adam’s Murmur, que evidenciou a versatilidade das guitarras ao transitar entre peso e passagens mais introspectivas, criando uma dinâmica interessantíssima. Na sequência, The Space for This reforçou essa dinâmica, começando de forma serena e evoluindo para estruturas complexas características do Cynic.

Em um momento mais intimista, Paul Masvidal permaneceu sozinho no palco para executar duas músicas em formato acústico. Antes de iniciar Wheels Within Wheels, o guitarrista relatou que não via sua mãe havia dois anos e que, ao reencontrá-la recentemente, emocionou-se profundamente, refletindo sobre a importância das mães como figuras fundamentais. Apenas com sua guitarra e numa interpretação carregada de emoção, entregou uma homenagem sincera a todas as mães. Muito aplaudido, surpreendeu o público com Last Flowers, cover do Radiohead. Foi um instante de pura vulnerabilidade, onde a alma de Paul se revelou em sua forma mais pura, emocionando a todos.

A reta final trouxe novamente o peso e a complexidade rítmica com a instrumental Textures e I’m but a Wave to…, culminando em Uroboric Forms. Cada música foi recebida como um reencontro, com o público cantando os versos, reagindo às mudanças de dinâmica e abrindo rodas na pista. O som estava bem nítido, permitindo a apreciação plena dos detalhes técnicos. Encerrando com How Could I, o Cynic entregou um final grandioso e sincero, no qual cada nota reafirmou a visão artística de Paul Masvidal e a capacidade da banda de criar uma música simultaneamente desafiadora e profundamente sensível.

Ao reunir duas bandas com propostas estéticas tão distintas e peculiares, a noite evidenciou a diversidade criativa do metal contemporâneo, que pode transitar entre o caos extremo e a introspecção técnica sem perder a identidade. Ou a melodia. A estreia impactante do Imperial Triumphant e o retorno do Cynic ofereceram ao público não apenas shows, mas experiências artísticas completas. E por falar nisso, ao final da apresentação Paul ficou atendendo aos fãs, dando autógrafos, tirando fotos e conversando. Foi um evento que marcou o início da agenda de metal em 2026 de forma contundente, deixando a sensação de que o ano promete momentos igualmente intensos, desafiadores e memoráveis para os fãs do gênero.
Setlist Imperial Triumphant
Lexington Delirium
Gomorrah Nouveaux
Devs est Machina
Transmission to Mercury
Chernobyl Blues
Hotel Sphinx
Industry of Misery

Setlist Cynic
Sentiment
Integral Birth
Veil of Maya
Evolutionary Sleeper
The Unknown Guest
Celestial Voyage
Adam’s Murmur
The Space for This
Wheels Within Wheels
Last Flowers (Radiohead cover)
Textures
I’m but a Wave to…
Uroboric Forms
How Could I
Clique aqui e siga o CANAL “Roadie Crew” no WhatsApp
Clique aqui e faça parte do GRUPO da ROADIE CREW no WhatsApp








