Fotos e texto por Écio Souza Diniz
Colaboração de Carlos Franco
Completando sua décima edição em 2026, o Barcelona Rock Fest celebrou sua primeira década de existência entre os dias 3 e 5 de julho em grande estilo, mais uma vez no excelente espaço do Parc de Can Zam, em Santa Coloma de Gramenet, na zona metropolitana de Barcelona. Como já comentei em coberturas anteriores, essa área do parque combina a conveniência de excelente transporte público de metrô ligado ao centro de Barcelona com um ambiente de entorno natural cercado por árvores e um lago artificial que fornecem um ambiente para descanso também, sobretudo considerando o calor desse período do ano. Também volto a ressaltar que o revestimento do chão da área da arena dos palcos principais com grama sintética fornece a opção de sentar-se tranquilamente quando cansado e seguir vendo o show de interesse. Nessa cobertura, novamente a ROADIE CREW traz o relato dos melhores momentos do festival.
Dia 3 de julho
Nosso primeiro dia começou mais cedo do que para o público geral, já que às 13 horas do horário local tinha lugar nas dependências montadas no Parc de Can Zam, a coletiva de imprensa com Helloween e Megadeth.
Durante essa coletiva, em resposta à ROADIE CREW, Dave Mustaine e o baterista Dirk Verbeuren disseram sobre os principais legados do Megadeth: “O principal legado foi ter sido fundamental na criação de um novo estilo à época, que depois veio a ser o thrash metal, e ter seguido ajudando a evoluir a sonoridade desse gênero ao longo de uma discografia diversa que a banda produziu.”

Já Michael Kiske e Andi Deris, ao serem perguntados sobre qual creem ser o fator principal que faz funcionar bem o formato de três vocalistas (incluindo também Kai Hansen) no Helloween, sendo este um formato que poderia facilmente destruir várias bandas, responderam de forma bem-humorada à ROADIE CREW. Kiske afirmou que “hoje somos muito mais preguiçosos (risos).” (risos)
Segundo Andi “hoje somos muito mais maduros. Além disso, com o passar dos anos, agradece-se repartir o trabalho no palco. Quando um de nós está cansado, dissemos ao outro: ‘Vai lá e canta essa você’.” (risos)

Depois das entrevistas, houve tempo para relaxar e descontrair tomando uma cervejinha com os demais profissionais presentes e preparar-nos para a jornada que se iniciaria duas horas depois. Quem deu o pontapé inicial dessa jornada foi uma banda local de Santa Coloma, a Machete Law, escancarando sua mescla afiada de thrash, hardcore e death metal. Promovendo a sonoridade agressiva do seu ótimo segundo EP Liturgy of Violence, eles arrebataram diante de um público significativo apesar do ingrato sol que pairava na arena naquele momento.
Na sequência, os suecos do Blues Pills entraram ganhando o público com a sua típica mescla de rock’n’roll clássico, hard rock e blues. Apesar do sol ingrato, a excelente vocalista Elin Larsson manteve uma performance potente que garantiu o ânimo dos presentes. O público participou entusiasmado em temas como as ótimas High Class Woman, Song from Astralplane, Proud Woman, Black Smoke e Devil Man. Vale também destacar a excelente atuação da atual baixista, Agnes Roslund, que entrou este ano na banda, mas se mostra já muito integrada, como foi visto neste show.

Com a atmosfera empolgada criada pelo Blues Pills, o hard rock melódico dos estadunidenses do Tyketto veio para envolver de vez vasta parte do público. A qualidade vocal e a ótima atuação em palco de Danny Vaughn já ganharam a audiência no início com os hits Rescue Me e Wings. A energia e o alto astral aumentaram e ecoaram ainda mais com Lay Your Body Down e Strength in Numbers. O fechamento com a envolvente balada Forever Young deixou muitos extasiados.

Sem trégua, os dinamarqueses do Pretty Maids vieram em seguida com outro show incendiário. Como esperado, os holofotes se concentraram nas performance do excelente vocal de Ronnie Atkins e nos riffs certeiros do guitarrista Ken Hammer. A trinca inicial com Mother of All Lies, Kingmaker e a clássica Back to Back, do debut Red, Hot and Heavy (1984), já entregou o que poderia ser esperado do restante do show. Inclusive, como soavam potentes os riffs da faixa-título de Red, Hot and Heavy, que já são cativantes originalmente. O encerramento com a faixa-título e Love Games do conceituado Future World (1987) consolidou a qualidade deste show.

Na esteira da atmosfera cheia de energia e boas vibrações que veio sendo construída, o entardecer do festival recebeu a lenda nipônica que atende pelo nome de Loudness. Desde os primeiros acordes na entrada com Crazy Nights do eterno Thunder in the East (1985) até o encerramento com S.I.D do excelente Hurricane Eyes (1987), foi um show digno de atenção. Seja pela atuação impecável do mestre Akira Takasaki e seus riffs incisivos ou pelo ainda alto alcance vocal de Minoru Niihara nos seus quase 60 anos, esse show foi um dos pontos altos do dia. Que alegria ver que essa referência fundamental do metal japonês permanece tocando em alto nível no alto dos seus 45 anos de palco.

No cair da noite, o hard heavy dos suíços do Gotthard manteve os motores do público ligados. Embora a banda toda soasse bastante coesa, os destaques seguem recaindo sobre o vocalista Nic Maeder, com seu ótimo timbre e sua atuação de frontman, e o guitarrista Leo Leoni. A poderosa AI & I e Thunder & Lightning, do mais recente álbum Stereo Crush (2025), abriram o show, seguidas pela conhecida e certeira All We Are do renomado Lipservice (2005). Como já é costumeiro nos shows da banda, também tocaram a tradicional versão de Hush, de Joe South, popularizada há quase 60 anos pela primeira formação do Deep Purple. Com Lift U Up encerraram sua presença no festival em clima de festa.

Depois da ingestão massiva de hard rock e heavy metal dos shows anteriores, a arena do festival recebia um dos pioneiros do punk rock britânico, os Sex Pistols com Frank Carter nos vocais. Depois de brigas judiciais e polêmicas de John Lydon (Johnny Rotten) com o resto da banda, os membros remanescentes, Steve Jones (guitarra), Glen Matlock (baixo) e Paul Cook (bateria), decidiram se reunir em agosto de 2024 para shows beneficentes em Londres com Frank Carter (ex-Gallows, ex-The Rattlesnakes), indicado pelo filho de Matlock. Esse show no Barcelona Rock Fest foi uma das confirmações da recepção grandemente positiva que essa união tem tido por ambos, público e crítica.

A química é notável, além da injeção de energia renovada que Carter adicionou ao grupo, atrelada também à sua forte performance, o que incluiu atravessar a grade que separava o palco do público, se misturar à galera e organizar um mosh no estilo ‘circle pit’ típico do punk. Cumprindo a agenda da Anarchy In The UK Tour 2026 – 50 Years of Punk, a banda toca os clássicos do eterno Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols (1977). Já no início com Holidays in the Sun e a viciante Pretty Vacant, Carter escancarou sua personalidade, sem tentar imitar Rotten. Em Liar, I’m Not Your Stepping Stone (cover de Paul Revere and the Raiders), Bodies e God Save the Queen fomos arrastados como em uma tempestade. E, claro, no final, todos cantaram em uníssono, o hino Anarchy in the U.K.

Para encerrar esse primeiro dia, a atração principal, Megadeth, entrou em cena para desfilar seu reconhecido thrash metal de alto nível. Esse show ocorreu num momento que antecede a já anunciada turnê de despedida intitulada This Was Our Life, que se inicia ainda em 2026, mas que, segundo o próprio Dave Mustaine, será conduzida com calma e deve se estender por pelo menos mais três anos para cobrir o máximo de países possível. Um dos motivos centrais desse início de despedida são as condições de saúde que vêm acometendo Mustaine, derivadas da artrite severa nas mãos, juntamente com a contratura de Dupuytren (doença de viking), condição que engrossa o tecido da palma da mão e repuxa os dedos para dentro, impedindo que se estiquem completamente.

Apesar desses inconvenientes, Mustaine se mostrou focado e manteve sua técnica na guitarra intacta no show, no qual também destacou seu entrosamento com o atual segundo guitarrista, o finlandês Teemu Mäntysaari (Wintersun). O vocal de Mustaine, apesar de já ter matizes de desgaste, algo compreensível dado os problemas de saúde que vem atravessando, ainda mantém o timbre inconfundível. A atuação de James Lomenzo (baixo) e Dirk Verbeuren (bateria) também não decepcionou em nada, reforçando a coesão da formação atual. Os primeiros riffs que invadiram os falantes das caixas de som foram da potente Tipping Point, faixa de abertura do recente álbum Megadeth (2026). Desse álbum, ainda tocaram as afiadas I Don’t Care, Puppet Parade e Let There Be Shred.

Claro que para mim e creio que para a maioria dos presentes, os melhores momentos ficaram a cargo das pérolas de Rust in Peace (1990): Hangar 18, Take No Prisoners, Tornado of Souls e Holy Wars… The Punishment Due. Em Wake up Dead, também de Peace Sells…, houve um breve momento “mais devagar” para apreciar com mais calma e bater cabeça. Outros momentos de grande destaque foram com Mechanix do debut Killing Is My Business… And Business Is Good! (1985), Peace Sells de Peace Sells… But Who’s Buying? (1986) e Skin O’ My Teeth e Symphony of Destruction de Countdown to Extinction (1992). Com isso, Mustaine & Cia. concluíram o primeiro dia do festival, dando o espetáculo que todos esperavam e que deve ser aproveitado enquanto se pode, já que há data de validade num futuro próximo.

Dia 4 de julho
Às 16h30 e sob um sol de 37 °C, os alemães do Tankard entraram metendo bronca com seu estimulante e irreverente “beer thrash metal”. A temperatura elevada não os intimidou e, em especial, o carismático vocalista Andreas Geremia e o baixista Frank Thorwarth se mantinham andando de uma extremidade a outra do palco. A ótima performance da banda refletiu na participação massiva do público, rendendo moshs debaixo do calor escaldante e confirmando também os fãs fiéis que a banda possui na Espanha. Já com minha cerveja na mão, desfrutava dos primeiros riffs, abrindo com a faixa-título de One Foot in the Grave (2017), seguida pelo furacão da faixa-título de The Morning After (1988). Muitos levantaram seus copos de cerveja durante Die With a Beer in Your Hand (de Beast of Bourbon, 2004) e a faixa-título de A Girl Called Cerveza (2012). E, claro, não poderiam faltar os clássicos da faixa-título de Chemical Invasion (1987) e (Empty) Tankard de Zombie Attack (1986). Excelente começo do segundo dia da jornada!

Dada uma pausa estratégica para descansar do calor e recuperar as baterias, era momento de assistir no palco coberto à demolição grindcore dos veteranos britânicos do Napalm Death. Esse era outro show que eu esperava ver, apesar de já ter assistido outras vezes, por ser uma de minhas bandas preferidas no metal extremo. Apesar da ausência do incomparável baixista Shane Embury, afastado recentemente para tratar de sua pancreatite e sua luta contra o álcool, a banda, amparada pelo baixista Adam Clarkson (Corrupt Moral Altar), entregou o show com a qualidade e brutalidade esperadas e dignas do seu legado. O vocalista Barney Greenway, com seus 56 anos, segue soberbo e nesta apresentação no festival afirmou isso mais uma vez, mantendo-se inquieto todo o tempo.

Já entrando com um soco na cara de I Abstain do atemporal Utopia Banished (1992), a pancadaria foi aberta para receber outros golpes como a faixa-título de Throes of Joy in the Jaws of Defeatism (2020) e Suffer the Children de Harmony Corruption (1990). Também tocaram um ótimo cover da música Politicians da banda italiana Raw Power (do álbum You Are the Victim, 1983). E falando em cover, obviamente tocaram Nazi Punks Fuck Off do Dead Kennedys. A crueza da faixa-título e C.S. (Conservative Shithead) de Scum (1987) terminaram de ajudar a exorcizar os demônios. A intacta sonoridade urgente e revoltosa, amparada pelos interlúdios dos discursos antissistema e pró-pacifismo de Greenway é o que se espera do Napalm e mais uma vez não decepcionou.

A brutalidade do grindcore deu lugar na arena principal ao thrash metal técnico do Testament. As expectativas de que este seria um dos destaques do dia foram atendidas com sobra. Mas também não há muito erro quando se tem um time composto por camaradas do calibre de Alex Skolnick e Eric Peterson nas guitarras, Steve DiGiorgio no baixo, o inconfundível Chuck Billy nos vocais e o ótimo Chris Dovas na bateria. É bem interessante ver como o Testament se tornou cada vez mais prestigiado com o passar dos anos, culminando em turnês cada vez maiores, inclusive como atração principal em diversos festivais europeus.

Aliado a isso, a produção tem sido cada vez mais notável, com investimento em belos fundos de palco, que agora inclui uma caveira gigante de braços abertos atrás da bateria. A cereja do bolo é o fato de não haver histórico de fazer shows ruins. E neste não foi diferente, pois desde a entrada com Into the Pit do clássico The New Order (1988), a execução de cada música seguiu um nível crescente de empenho e qualidade. Do álbum mais recente, Para Bellum (2025) tocaram as fulminantes Infanticide A.I. e For the Love of Pain. Também é sempre agradável ouvir ao vivo e ver a galera cantando junto Electric Crown de The Ritual (1992). Outros golpes de misericórdia ficaram a cargo das execuções irrepreensíveis da faixa-título de Practice what You Preach (1989), faixa-título de Low (1994) e do encerramento com Over the Wall (de The Legacy, 1987).

Sai metal extremo e entra o heavy metal clássico dos alemães do Accept, que atualmente promove a Half a Century of Metal, celebrando os 50 anos da banda. Embora somente reste o guitarrista Wolf Hoffmann como membro original, a banda, completada atualmente por Philip Shouse (guitarra), Martin Motnik (baixo), Christopher Williams (bateria) e o excelente Mark Tornillo nos vocais (na banda desde 2009), segue consistente e entregando entretenimento de alto nível. Nesta apresentação não foi diferente e desde os primeiros riffs da faixa-título de Metal Heart (1985) eles entregaram uma performance forte e que ganhou o público. Outros clássicos tocados e que contaram com participação massiva do público foram as faixas-título de Breaker (1981), Restless and Wild (1982) e Princess of the Dawn. Da fase Tornillo, tocaram as ótimas Pandemic e Teutonic Terror de Blood of the Nations (2010). Em Fast as a Shark houve ainda a participação de Ralf Scheepers do Primal Fear, que tocou mais cedo, mas infelizmente no mesmo horário do Napalm Death. Já próximo ao final, Balls to the Wall teve participação de Chuck Billy (Testament).

Dando seguimento à atuação do metal germânico neste segundo dia do festival, era hora do headliner deste dia, Helloween. Essa é outra banda que dispensa muitas apresentações, visto que foi a fundadora do power metal melódico. Contando com três guitarristas e três vocalistas com a volta de Kai Hansen (guitarra e vocal) e Michael Kiske (vocal) para se unirem a Andi Deris (vocal) juntamente com Michael Weikath e Sascha Gerstner nas guitarras, Markus Grosskopf (baixo) e Dani Löble (bateria), a banda mantém esse time 2016 – inicialmente para a Pumpkins United World Tour e se tornando mais consistente com o passar dos anos, já tendo resultado em dois álbuns com essa formação. As turnês têm sido cada vez maiores e mais bem produzidas e o investimento em produção foi elevado na atual 40 Years Anniversary, oferecendo ao público cenários de palco detalhados, diversas animações e pirotecnia com maior frequência e intensidade de fogos, além de um setlist bem consistente, que abrange os principais momentos da carreira da banda.

O início, com Kiske e Deris revezando-se e dobrando as linhas vocais em March of Time com uma grande cumplicidade, foi suficiente para levar a arena do festival à loucura. Na sequência, surge pela primeira vez no telão o monge/mago que aparece nas capas de alguns discos (Keeper of the Seven Keys Part 1, The Time of the Oath, Keeper of the Seven Keys – The Legacy e Helloween) como mestre de cerimônias para neste momento introduzir The King for a 1000 Years, épico de Keeper of the Seven Keys – The Legacy. Logo, Future World foi a primeira a ser cantada a plenos pulmões em toda a arena. Foi bem legal ver a destruidora We Burn de volta ao setlist ao vivo, assim como também a marcante Hey Lord! A apoteótica Twilight of the Gods, resgatada direto de 1987, permitiu às gerações mais novas ouvi-la ao vivo. Era notável o entrosamento dos músicos e a satisfação de estarem ali, em especial Deris, que volta e meia se comunicava com o público em espanhol, dada a sua relação com o país, já que ele e Weikath vivem desde 1996 em Tenerife, nas Ilhas Canárias, um dos estados espanhóis.

Entre os clássicos, tocaram as três principais músicas do mais recente álbum, Giants & Monsters (2025): Into the Sun, This Is Tokyo e Universe (Gravity for Hearts). Findado o breve respiro dado por essas faixas mais novas, era hora de encher os pulmões novamente para cantar junto em I Want Out, que abriu espaço para um set acústico com Deris e Kiske ao violão. Tocaram um trecho de Let it Be dos Beatles, para então interpretarem In the Middle of a Heartbeat, seguida por A Tale That Wasn’t Right. Mas essa calmaria logo deu lugar à incrível e rápida Heavy Metal (Is the Law), remetendo à faixa mais speed metal do debut Walls of Jericho (1985). A épica e misteriosa Halloween invade os telões com suas animações obscuras e hipnotiza a todos durante sua execução. Após uma breve saída do palco, a banda volta para terminar o show com maestria aos sons de Eagle Fly Free, Power, Dr. Stein e o refrão final de Keeper of the Seven Keys. Um show impecável que deixou quem o assistiu com um sorriso no rosto.

Mal o público havia se recuperado e já começava no palco ao lado a apresentação tipicamente explosiva dos suecos do Sabaton, que possui uma base fiel de fãs na Espanha, visto, por exemplo, que estavam entre os headliners de outros dois importantes festivais do país ocorridos também no mês de julho, Resurrection e Rock Imperium. A banda destacou-se pelo vocalista performático Joakim Brodén; sua movimentação incansável pelo palco e a comunicação com o público já começaram a ganhar a audiência de início. Em termos de setlist, a banda entrou com força total e efeitos de pirotecnia e “explosões” em Ghost Division e The Red Baron de The Art of War (2008), o novo single Yamato (2026) e a memorável faixa-título de The Last Stand (2016). Do mais recente álbum, Legends (2025), as faixas Templars, I Emperor, Hordes of Khan e, em especial, Crossing the Rubicon entregaram também boas doses de adrenalina. Com Bismarck e Primo Victoria, a banda arrancou saltos coletivos ao longo de toda a arena. O encerramento com o maior clássico da banda, To Hell and Back (de Heroes, 2014) cumpriu a missão da banda em encerrar em alto nível o segundo dia do festival.

Dia 5 de julho
Para alegria da grande maioria, as principais atrações deste último dia do festival tocavam a partir das 20h, horário em que o sol já começava a baixar, atenuando o calor. Chegamos no meio do show do Evaristo, banda que leva o nome do vocalista Evaristo Páramos, uma referência veterana no punk rock da Espanha, com sua carreira iniciada em 1979 com a banda La Polla Records e que influenciou gerações. Inclusive, foi com clássicos de La Polla Records como Ellos Dicen Mierda, Salve e Come Mierda que ele fez o público cantar junto e saltar.
Continuando essa vibe punk, quando no palco ao lado entrou o Bad Religion. Essa é, inclusive, uma banda de que gosto bastante, em especial pelos contextos líricos. Além disso, o grupo definiu as sonoridades do hardcore melódico e do pop punk moderno, amparadas por letras intelectuais sobre ciência e política, influenciando diretamente nomes que se consagraram no mainstream, como Green Day, The Offspring, Blink-182 e NOFX. É bem bacana ver Greg Graffin, com seus 61 anos, ainda manter sua qualidade vocal, assim como o baixista Jay Bentley, que, com a mesma idade, agita pra caramba no palco. O setlist de vinte músicas abrangeu clássicos de álbuns como How Could Hell Be Any Worse? (1982), No Control (1989), Against the Grain (1990), Stranger than Fiction (1994), The Gray Race (1996), Recipe for Hate (1993) e The Empire Strikes First (2004). Alguns dos momentos de destaque ocorreram com as excelentes Los Angeles Is Burning, Struck a Nerve, I Want to Conquer the World e No Control. Mas foi com trinca composta por 21st Century (Digital Boy), American Jesus e Infected (uma das minhas favoritas) que eles ganharam de vez o público. Meu único pesar foi não terem incluído nenhum som do excelente The New America (2000) nessa turnê. Fora isso, o show proveu uma ótima atmosfera para seguir adiante esse dia derradeiro de festival.

Rompendo a dinâmica punk, os alemães do Powerwolf vieram com seu power metal que combina refrãos épicos com temática teatral de lobisomens e vampiros, destacando-se pelo uso de órgãos de igreja, vocais operísticos e uma forte estética de “missa gótica”. Similar ao Sabaton, o Powerwolf também se vale de cenários suntuosos e lançamento de chamas de fogo em algumas músicas. Já com uma boa base de fãs em Barcelona, eles caíram ainda mais na graça de parcela significativa do público quando o vocalista Attila Dorn se comunicou em catalão, mostrando o esforço por falar, além do espanhol, o idioma local da região da Catalunha. Para além do contexto linguístico, Attila tem uma boa habilidade de conduzir e envolver o público, estruturando a atuação como se fosse parte de um ritual, no qual os presentes são incluídos no coro. Isso, amparado pelas colunas góticas e pelos grandes telões no palco, constitui uma atmosfera imersiva às suas músicas. Todo esse conjunto de fatores endossou as ótimas atuações da banda e a resposta do público em temas poderosos como Army of the Night (seu primeiro clássico), Amen & Attack, Demons Are a Girl’s Best Friend, Armata Strigoi e We Drink Your Blood.

De volta à veia punk melódica, em sua vertente mais pop, o The Offspring entrou em cena despejando seus hits para um público que mesclava gerações, incluindo diversas famílias cujos pais os escutavam quando mais jovens e agora levam os filhos adolescentes para vê-los. Embora o alcance vocal de Dexter Holland não seja o mesmo de álbuns conceituados como Ignition (1992), Smash (1994), Americana (1998) e Conspiracy of One (2000), ele ainda soa bem. O público pulou, cantou e foi à loucura com hits como I Want You Bad, Original Prankster, Gotta Get Away, Why Don’t You Get a Job?, Pretty Fly (For a White Guy) e The Kids Aren’t Alright. Outros bons momentos aconteceram com Staring at the Sun e Walla Walla. A dinâmica descontraída construída por Dexter e o guitarrista Noodles (Kevin Wasserman) com o público tornou o show ainda mais energético. Teve espaço até para brincarem com um breve tributo ao Black Sabbath e Ozzy Osbourne, com fragmentos de Paranoid e Crazy Train. Quando veio o encerramento com Self Esteem, o jogo tava ganho. Admito que me surpreendeu vê-los ainda segurando bem a onda, além da produção com telões 3D e uma caveira inflada que, durante algumas músicas, soltava fumaça pela boca, o que deu um toque legal à estética do palco.

Finalmente, para alegria dos fãs do Sepultura clássico, inclusive de vários brasileiros que estavam no festival, o fechamento da décima edição ficou a cargo do Cavalera, banda formada por Igor e Max, que, com o apoio ao vivo de Igor Amadeus Cavalera (baixo), filho de Max, e Travis Stone (guitarra, Pig Destroyer), vem excursionando nos anos recentes apresentando setlists de álbuns clássicos do Sepultura. A banda já havia feito um show agressivo na 8ª edição do festival em 2024, do qual você também pode conferir mais detalhes na cobertura que fiz da referida edição aqui no site da ROADIE CREW, ocasião na qual o foco era promover as regravações dos clássicos Bestial Devastation (1985), Morbid Visions (1986) e Schizophrenia (1987), nos quais havia se baseado o setlist. Dessa vez, o foco da atual turnê é tocar na íntegra o renomado Chaos A.D. (1993).

A relação dos irmãos Cavalera com Barcelona já é antiga, uma vez que o show do Sepultura no dia 31 de maio de 1991 durante a turnê do Arise no antigo Teatro Zeleste (hoje conhecido como Sala Razzmatazz) foi um verdadeiro divisor de águas e um dos maiores catapultadores da banda para o estrelato mundial. Esse show, lançado primeiramente em vídeo no formato VHS sob o título Under Siege (Live in Barcelona), se espalhou pelo mundo e o resto é história.

O mais satisfatório foi ter visto que a apresentação desta edição de 2026 elevou ainda mais o nível de qualidade em relação ao de 2024. Desde o belo cenário de palco com temas visuais das artes de capa e encarte de Chaos A.D. até a performance potente e entrosada da banda, posso dizer sem exagero que foi um dos pontos altos da décima edição do festival. Uma das provas disso? A quantidade de gente que permaneceu em todo o show e participou ativamente, inclusive abrindo rodas grandes de mosh, mesmo após três cansativos dias de festival e calor. Havia uma atmosfera intensa que pairava na arena durante a execução de cada música, tornando tudo ainda mais pesado e denso.

E olha que Chaos A.D., com todo o reconhecimento e enorme valor que dou a este álbum, não é meu favorito da fase clássica. As execuções de Refuse/Resist, Slave New World, Propaganda e Territory foram insanas. Outro momento intenso, que me surpreendeu bastante, foi com o cover de The Hunt do New Model Army, sendo para mim inclusive um dos pontos altos do show. Em suma, o Cavalera fechou muito bem o boteco nesta décima edição.

Em geral, uma edição muito boa, com energia contagiante e na qual vimos, em vários shows, jovens e adultos que pulavam, gritavam e cantavam. Apesar do calor, cada pôr-do-sol no Parc Can Zam, com o sol batendo forte nas testas e nucas, era uma boa sensação. Até os andorinhões que voam alto sobre a cidade nesta época do ano pareciam estar cheios de curiosidade e mergulhavam a poucos metros dos palcos, enquanto guitarras poderosas explodiam das caixas de som e os cânticos explosivos enchiam o ar.
Vejamos agora o que nos aguarda para a edição 2027, que já foi anunciada com o retorno ao formato de quatro dias usado em 2025. Que pelo menos essa amplitude de duração sirva para escalar mais bandas no horário noturno, considerando as altas temperaturas que se alcançam durante o dia essa época do ano. No mais, para muitos as datas do Barcelona Rock Fest já viraram tradição com lugar reservado na agenda.
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