WACKEN OPEN AIR 2026 – WACKEN (ALEMANHA)

29 de julho a 1º de agosto de 2026 - Schleswig-Holstein

Texto: Jens Hulvershorn, Tobias Kirch e Claudio Vicentin

Fotos: WOA Festival GmbH

Trinta e cinco edições, 85 mil vozes e a eterna comunhão do heavy metal

Entre despedidas históricas, reencontros improváveis, homenagens carregadas de emoção e apresentações que confirmaram a força de diferentes gerações, o Wacken Open Air celebrou sua 35ª edição mostrando que continua sendo muito mais do que um festival: é uma cidade temporária construída em torno da música pesada.

Entre 2001 e 2014, estive no Wacken todos os anos. Voltei em 2016 e, após uma década de ausência, retornei ao pequeno vilarejo do norte da Alemanha para acompanhar a histórica 35ª edição do Wacken Open Air. O reencontro com o chamado Holy Ground permitiu não apenas testemunhar quatro dias de música pesada, mas também observar como o Wacken se transformou durante uma década – na estrutura, no público, na dimensão comercial e na maneira como tenta equilibrar a preservação de seu legado com a necessária renovação do heavy metal. E aqui estou escrevendo esse texto com os amigos Jens e Tobias.

Há festivais que são definidos pelo line-up. Outros, pela estrutura, pela localização ou por algum acontecimento extraordinário. O Wacken Open Air, porém, tornou-se maior do que qualquer uma dessas características isoladamente. Ao longo de 35 edições, o pequeno município de Wacken, no estado alemão de Schleswig-Holstein, transformou-se no epicentro mundial do heavy metal e em destino quase obrigatório para fãs de todas as partes do planeta.

Em 2026, cerca de 85 mil pessoas ocuparam novamente o Holy Ground. Todos os ingressos estavam vendidos antes da abertura dos portões, confirmando que, apesar das discussões recorrentes sobre envelhecimento do público, comercialização da marca e renovação artística, Wacken continua exercendo uma atração praticamente incomparável dentro do universo do rock pesado. A edição reuniu nomes históricos como Judas Priest, Def Leppard, Savatage, Europe, Saxon e Running Wild, bandas fundamentais das últimas décadas como In Flames, Arch Enemy, Sepultura, Emperor e Lamb of God, além de fenômenos contemporâneos como Powerwolf, Sabaton e Orbit Culture.

Não se tratava apenas de comemorar uma data redonda. O Wacken 2026 foi marcado por despedidas, retornos, estreias e apresentações exclusivas. Def Leppard finalmente pisou no festival pela primeira vez. Sepultura realizou seu último show em território alemão. Running Wild encerrou definitivamente sua trajetória. Savatage retornou com uma apresentação de grande carga emocional. Emperor recuperou uma formação histórica. E o repertório inaugural do Behemoth ganharia uma interpretação especial conduzida por Nergal e pelos islandeses do Misþyrming. Foi uma programação que olhava constantemente para o passado, mas que também tentava projetar o futuro.

A peregrinação ao norte

A experiência de Wacken começa muito antes de a primeira banda subir ao palco. Começa nas estradas secundárias do norte da Alemanha, nos trens tomados por camisetas pretas, nos supermercados esvaziados por grupos de campistas e nos quintais dos moradores convertidos em estacionamentos, bares e pequenas lojas improvisadas.

O festival funciona como uma cidade temporária. São quilômetros de acampamentos, zonas destinadas a caravanas e motorhomes, instalações sanitárias, postos médicos, mercados, áreas temáticas e uma operação logística capaz de atender a uma população superior à da maioria das cidades da região.

Em 2026, o fluxo de chegada ocorreu sem os graves congestionamentos registrados em algumas edições anteriores. Mais da metade do público já estava instalada na terça-feira, e aproximadamente dois terços dos visitantes haviam chegado até a tarde de quarta. A circulação continuou intensa, mas sem um colapso significativo das vias de acesso.

No horizonte, a cabeça metálica do touro permanecia como ponto de referência. Em torno dela, um universo inteiro tomava forma: o Wackinger Village com sua ambientação medieval, o cenário pós-apocalíptico do Wasteland, o Metal Market, áreas de alimentação, palcos menores, conferências, exposições, sessões de autógrafos e atividades que transformam a visita em algo muito maior do que uma sucessão de concertos.

Uma mudança importante foi o reposicionamento do Louder Stage. A alteração ajudou a reduzir a interferência sonora vinda dos dois palcos principais – Faster e Harder – e proporcionou maior identidade aos shows realizados naquele espaço. O Wackinger Village também pareceu mais amplo e respirável, detalhe relevante em um evento no qual caminhar de uma atração a outra pode consumir uma parcela considerável do dia.

29 de julho, quarta-feira: calor, poeira e abertura de fronteiras

O início oficial das atividades encontrou um cenário bem diferente da lama que tantas vezes dominou as imagens de Wacken. O calor e a poeira acompanharam a entrada do público no Infield, com temperaturas próximas dos 30 graus.

A banda japonesa Lovebites recebeu a responsabilidade simbólica de abrir o Faster Stage. A apresentação mostrou por que o quinteto conquistou espaço internacional com tanta rapidez: execução técnica precisa, melodias tradicionais, solos construídos dentro da melhor escola do power e do heavy metal e uma postura que não tratava o horário inicial como simples aquecimento. A presença feminina também foi reforçada pelas suecas do Thundermother, banda que carrega a linguagem direta do hard rock e entende que esse tipo de música depende mais de energia e convicção do que de qualquer reinvenção estética.

Entre os representantes sul-americanos, The Troops of Doom levou ao festival uma leitura feroz do death/thrash brasileiro. A banda de Jairo “Tormentor” Guedz não vive apenas da ligação histórica com os primeiros anos do Sepultura. Seu repertório próprio e sua postura em palco demonstram que existe ali uma identidade capaz de dialogar com o legado sem depender exclusivamente dele.

Lacuna Coil

Um dos primeiros grandes momentos emocionais veio com The Gathering. A reunião com Anneke van Giersbergen celebrou os 30 anos de Mandylion, álbum que ajudou a ampliar as fronteiras do metal atmosférico nos anos 1990. Mais do que uma simples execução comemorativa, o show funcionou como reencontro entre público, repertório e uma voz que permanece profundamente associada à fase mais celebrada do grupo. A interpretação de Anneke manteve a delicadeza, a força e o controle que transformaram músicas como Strange Machines em referências de uma geração. Em meio ao gigantismo do festival, o Louder Stage viveu um instante de intimidade coletiva. O contraste entre a atmosfera contemplativa do The Gathering e a agitação dos grandes palcos sintetizou uma das qualidades fundamentais de Wacken: diferentes manifestações da música pesada podem coexistir sem a obrigação de apresentar a mesma intensidade.

No lado oposto desse espectro apareceu o projeto Electric Bassboy, formado por integrantes do Electric Callboy. A combinação de música eletrônica, humor e espírito festivo poderia provocar resistência em um ambiente mais conservador, mas foi recebida como parte natural da celebração. Um enorme unicórnio inflável conduzido sobre o público resumiu uma apresentação cuja principal função era dissolver fronteiras estilísticas. O Hämatom, com a produção especial Gagamania, assumiu o encerramento festivo da programação principal da quarta-feira. A proposta visual e o caráter de espetáculo confirmaram o crescimento da banda dentro do mercado alemão.

E quem buscava tradição encontrou Rose Tattoo. Angry Anderson continua sendo uma figura imediatamente reconhecível, e sua voz áspera parece carregar marcas de décadas de estrada. O grupo australiano não precisa correr pelo palco para justificar sua presença. Canções construídas sobre riffs, atitude e espírito de rua foram suficientes para oferecer um encerramento carregado de história.

O primeiro dia mostrou um Wacken disposto a celebrar tanto o heavy metal tradicional quanto formatos híbridos e manifestações mais recentes. Não foi a jornada mais pesada da edição, mas estabeleceu a variedade que guiaria os dias seguintes.

30 de julho, quinta-feira: memória, virtuosismo e a estreia do Def Leppard

A quinta-feira começou sob calor intenso, ultrapassando novamente os 30 graus, antes de uma mudança no tempo trazer nuvens e períodos de chuva.

O Europe mostrou que sua história não pode ser reduzida a The Final Countdown, ainda que seja impossível escapar do impacto produzido pelo clássico. Joey Tempest manteve o domínio de palco, conduzindo uma apresentação que combinou sucessos dos anos 1980 com material mais recente. O grupo soube usar a expectativa em torno de seu maior hit sem transformar o restante do repertório em mera formalidade.

Em seguida, o Savatage protagonizou um dos acontecimentos mais emotivos de todo o festival. A ausência física de Jon Oliva foi contornada por participações em vídeo e por uma produção construída para preservar sua presença artística. Zachary Stevens assumiu o centro da apresentação, amparado por músicos capazes de reproduzir toda dramaticidade, peso e refinamento característicos da banda. Durante Believe, a homenagem a Criss Oliva atingiu seu ponto máximo. Imagens e voz de Jon Oliva dialogaram com a interpretação ao vivo de Stevens, transformando o Infield em um espaço de memória. Não era apenas nostalgia. Era a reafirmação de um catálogo cuja força continua intacta e de uma banda que sobreviveu a perdas profundas sem permitir que sua história fosse encerrada. A própria chuva, que surgiu durante Handful of Rain, pareceu fazer parte da encenação. Coincidência ou não, tornou-se uma daquelas imagens que permanecem associadas a uma edição.

Savatage

O guitarrista Uli Jon Roth, por sua vez, revisitou os 50 anos de Virgin Killer, do Scorpions. Sua técnica e sensibilidade permanecem reconhecíveis, principalmente para quem acompanha a fase mais psicodélica, experimental e pesada da antiga banda. Foi uma apresentação dirigida aos apreciadores de guitarra e aos interessados em uma parte da história do hard rock alemão que nem sempre recebe o mesmo destaque das décadas posteriores.

Uli Jon Roth

A principal atração da noite era uma estreia tardia. Depois de quase cinco décadas de carreira, o Def Leppard finalmente tocaria no Wacken Open Air. A banda de Sheffield apresentou um espetáculo profissional e visualmente adequado à posição de headliner. Joe Elliott demonstrou boa condição vocal, enquanto Phil Collen, Vivian Campbell, Rick Savage e Rick Allen sustentaram com segurança um repertório que ajudou a definir o hard rock de arena. Love Bites, Photograph, Rock of Ages e, principalmente, Pour Some Sugar on Me encontraram um público disposto a cantar. Entretanto, a resposta não permaneceu uniforme durante todo o concerto. Quando a banda se afastou dos grandes sucessos ou apresentou material mais recente, a participação diminuiu perceptivelmente. O resultado não chegou a comprometer o show, mas revelou a diferença entre apresentar-se diante de uma plateia própria e conquistar o público heterogêneo de um festival. Foi uma estreia importante e competente, embora o Def Leppard tenha deixado uma impressão menos avassaladora do que alguns veteranos posicionados abaixo dele na programação.

Longe dos palcos principais, a quinta-feira guardava algumas das experiências mais radicais da edição. Craft, Spectral Wound e Firespawn mantiveram vivo o lado extremo do evento. O grande acontecimento underground, porém, aconteceu no W:E:T Stage. Nergal, acompanhado pelo Misþyrming, executou uma apresentação dedicada aos 30 anos de Sventevith (Storming Near the Baltic), primeiro álbum do Behemoth. O espetáculo recuperou a natureza primitiva, pagã e atmosférica de um registro bastante diferente da grandiosidade assumida posteriormente pela banda polonesa. Sob a luz da noite, a combinação funcionou perfeitamente. O Misþyrming não se limitou a reproduzir o álbum: acrescentou sua própria violência sonora e a sensação de perigo que deve acompanhar o black metal. Foi um daqueles concertos exclusivos que justificam a viagem até Wacken e que dificilmente poderiam ser repetidos com o mesmo contexto.

31 de julho, sexta-feira: os deuses do metal e o peso das despedidas

Se a quinta-feira foi marcada pela celebração do hard rock e do heavy metal clássico, a sexta-feira apresentou alguns dos conflitos mais difíceis da programação. Em um festival com oito palcos, assistir a tudo é impossível. Muitas vezes, escolher um show significa abandonar outro acontecimento potencialmente histórico.

O Vreid abriu parte da programação extrema com uma apresentação séria e intensa. A participação inesperada de Chris Pontius, conhecido pelo programa “Jackass”, usando uma pequena sunga vermelha e maquiagem improvisada, criou um dos momentos mais surreais do festival. O contraste entre a austeridade do black metal norueguês e o humor físico do convidado poderia ter resultado em desastre, mas funcionou justamente por sua improbabilidade. No campo do heavy metal tradicional, o Saxon demonstrou novamente sua extraordinária confiabilidade. Biff Byford continua comandando a banda com autoridade, e o grupo apresentou um concerto que muitos consideraram digno de uma posição ainda mais alta na programação. Enquanto outros veteranos precisam administrar cuidadosamente o ritmo do espetáculo, o Saxon permanece capaz de soar direto, pesado e espontâneo.

Alcest

O In Flames ocupou um espaço importante entre tradição e modernidade. Anders Fridén enfrentou pequenas dificuldades no início e houve falha de áudio nos vocais durante In the Dark, mas o público compensou cantando. O grupo soube equilibrar agressividade, melodias e momentos introspectivos, como a interpretação de The Chosen Pessimist. Um dos destaques inesperados veio do compositor Bear McCreary, acompanhado por uma banda completa. Conhecido por trilhas para cinema, televisão e videogames, McCreary mostrou que seu trabalho também pode funcionar como espetáculo de rock. A presença de Alissa White-Gluz na estreia ao vivo do hino oficial de Wacken reforçou o caráter especial da apresentação.

Paleface Swiss

Nos palcos principais, o Judas Priest confirmou uma verdade aparentemente simples: existem bandas que não precisam reconstruir o passado porque ainda vivem plenamente dentro dele. Rob Halford, aos 74 anos, continua sendo uma presença monumental. Mesmo administrando naturalmente sua voz de acordo com a idade, preserva o timbre, a extensão e, principalmente, a interpretação que o tornaram um dos maiores vocalistas da história do heavy metal. Richie Faulkner assumiu com energia o papel de conexão entre diferentes fases do grupo, enquanto Ian Hill permaneceu como a base imutável da máquina. O repertório atravessou décadas e mostrou por que o Judas Priest segue sendo referência estética, sonora e visual. Couro, metal, motocicleta, guitarras harmonizadas e refrãos criados para grandes multidões continuam funcionando não como caricatura, mas como elementos fundamentais da linguagem que a própria banda ajudou a consolidar. Naquela noite, o Judas Priest não era simplesmente mais um headliner: era uma aula sobre permanência.

Judas Priest

A sexta-feira também foi profundamente significativa para o Brasil. O Sepultura realizou sua última apresentação em território alemão, como parte da turnê de despedida. Poucos lugares poderiam oferecer um cenário tão representativo para esse capítulo final. A banda brasileira construiu na Europa uma parcela decisiva de sua história e participou diversas vezes do crescimento dos grandes festivais do continente. O show assumiu naturalmente um caráter comemorativo, mas sem abandonar a agressividade. Andreas Kisser, Derrick Green, Paulo Xisto Pinto Jr. e Greyson Nekrutman conduziram uma apresentação que atravessou diferentes fases, lembrando que a relevância internacional do Sepultura não se resume a um período ou formação. Para o público brasileiro, havia um significado adicional: ver uma banda nascida em Belo Horizonte despedir-se da Alemanha diante de uma plateia internacional era observar o fechamento de um ciclo que modificou para sempre a percepção do metal produzido no Brasil.

Sepultura

O peso emocional prosseguiu com o Running Wild. O grupo de Rock’n’Rolf realizou o que foi anunciado como seu último show. A estética pirata, tantas vezes imitada nas décadas seguintes, ganhou ali uma dimensão de despedida. Sinister Eyes, ausente dos concertos desde 1996, retornou ao repertório, enquanto Dead Man’s Road teve sua estreia ao vivo. Não havia como assistir à apresentação apenas como entretenimento. Cada música parecia retirar mais uma página de uma história iniciada no final dos anos 1970 e responsável por influenciar gerações do heavy e do power metal europeu.

Emperor

Paralelamente, o Emperor celebrava sua própria história com uma formação ligada aos primeiros anos. Ihsahn permanece como músico e compositor de presença singular. A combinação entre velocidade, dissonância, atmosfera e grandiosidade sinfônica mostrou por que o grupo continua sendo uma das expressões mais importantes da segunda onda do black metal norueguês. Outro projeto especial, Blood Fire Death, reuniu músicos para homenagear o Bathory. Mais do que reproduzir canções, a apresentação reconheceu a dimensão da influência de Quorthon sobre o black metal, o viking metal e boa parte da música extrema produzida desde os anos 1980.

Blood Fire Death

Em poucas horas, o público precisou escolher entre Judas Priest, Sepultura, Running Wild, Emperor e homenagens ao Bathory. A sobreposição provocou frustração, mas também demonstrou a densidade histórica da sexta-feira. Em qualquer outro evento, cada um desses concertos poderia ter sido o principal acontecimento do fim de semana.

1º de agosto, sábado: novas formações, grandes multidões e fogo até o fim

O desgaste acumulado já era visível na manhã de sábado. Depois de vários dias de caminhadas, calor, chuva, poeira e poucas horas de sono, até o frequentador mais experiente começa a selecionar cuidadosamente seus últimos shows.

Mesmo assim, o Orbit Culture encontrou público para sua combinação de death metal melódico, groove e produção contemporânea. O som excessivamente carregado em alguns momentos prejudicou a definição, mas não escondeu a força da banda sueca.

Bleed From Within

O retorno do Nevermore representava uma das apresentações mais observadas do dia. Sem Warrel Dane, falecido em 2017, qualquer reconstrução da banda enfrentaria inevitáveis questionamentos. O vocalista Berzan Önen assumiu uma missão quase impossível e conseguiu oferecer uma interpretação própria sem descaracterizar o material. Jeff Loomis voltou a ocupar o centro instrumental, trazendo a precisão, a complexidade e o peso que transformaram álbuns como Dreaming Neon Black e Dead Heart in a Dead World em referências. A execução de Born abriu imediatamente o mosh pit e mostrou que ainda existe demanda por esse repertório.

Kittie

O Lamb of God produziu uma das reações físicas mais intensas da edição. Durante Redneck, o círculo aberto no público alcançou proporções impressionantes. Laid to Rest e Memento Mori confirmaram a capacidade da banda de transformar estruturas rítmicas complexas em impacto coletivo. Randy Blythe não apenas canta: conduz o movimento da multidão como se cada pausa e cada entrada tivessem sido calculadas para gerar explosões. O Municipal Waste apresentou outra forma de violência sonora. Menos solene e mais festivo, seu crossover thrash levou ao festival a atmosfera de porões, pistas de skate e shows nos quais a divisão entre banda e plateia praticamente desaparece.

Kim Dracula

No campo do rock’n’roll, o Airbourne ofereceu exatamente o que se esperava – e talvez um pouco mais. Joel O’Keeffe correu, pulou, distribuiu cerveja, tocou no meio do público e utilizou a própria exaustão como combustível. Em uma época na qual se anuncia repetidamente a morte do rock, o grupo australiano respondeu com volume, suor e absoluta falta de moderação.

Já o Arch Enemy iniciou um novo capítulo com Lauren Hart nos vocais. A estreia da cantora diante do público de Wacken foi recebida com curiosidade e alguma desconfiança, mas sua potência, alcance e presença rapidamente conquistaram grande parte da plateia. A apresentação terminou cerca de 15 minutos antes do horário previsto, deixando uma sensação de interrupção prematura, porém o principal objetivo havia sido alcançado: demonstrar que a banda possui condições de seguir adiante em sua nova formação.

Arch Enemy

Quando o Powerwolf subiu ao palco, o Infield estava tomado. A banda construiu ao longo dos anos uma relação particularmente forte com o Wacken e isso pôde ser percebido em cada refrão. Sua mistura de power metal, iconografia religiosa, teatralidade gótica e humor funciona especialmente bem em grandes espaços. Cenários, figurinos, efeitos e interação foram combinados em um espetáculo pensado para atingir até os pontos mais distantes do campo. Mais do que assistir, o público participou. Dezenas de milhares de vozes transformaram as músicas em cânticos coletivos. Entre os grandes nomes contemporâneos do metal europeu, poucos compreenderam tão bem quanto o Powerwolf a necessidade de criar uma experiência visual e comunitária.

Powerwolf

O encerramento principal coube ao Sabaton. A banda sueca levou ao Harder Stage sua habitual produção militar, com bateria posicionada sobre um tanque e grande quantidade de fogo. Joakim Brodén manteve o domínio absoluto da multidão, alternando histórias, brincadeiras e refrãos feitos para serem cantados por dezenas de milhares de pessoas. O Sabaton possui uma fórmula claramente reconhecível, mas seu poder ao vivo explica por que o grupo atingiu o posto de headliner. As melodias são diretas, os temas históricos oferecem uma identidade própria e a produção transforma cada composição em uma pequena narrativa cinematográfica.

Sabaton

Depois de quatro dias, o público já estava fisicamente esgotado. Ainda assim, o campo respondeu até os últimos acordes. O Alestorm, escalado posteriormente, encontrou uma audiência que começava a deixar o Infield. Seus patos infláveis gigantes e o folk metal pirata mantiveram o clima de festa, embora o horário talvez tivesse funcionado melhor em uma noite anterior, quando ainda restaria energia para dançar.

Alestorm

Muito além dos palcos

Julgar Wacken apenas pelos grandes concertos seria ignorar parte essencial de sua identidade. A edição voltou a reunir ações dedicadas à acessibilidade. Na iniciativa “Friday is Flyday”, pessoas em cadeiras de rodas puderam realizar crowdsurf com auxílio de voluntários até o Louder Stage. A área Wheels of Steel disponibilizou cerca de 500 espaços adaptados, com opções de fornecimento elétrico.

Casamentos e renovações de votos, apresentações da tradicional banda dos bombeiros, música medieval, palestras, podcasts e encontros espalhados pelo vilarejo continuaram reforçando a impressão de comunidade.

Nem tudo, porém, merece celebração. Uma frequentadora afirmou ter sido inicialmente impedida de entrar por portar um patch com mensagem contrária ao partido de extrema direita AfD. A organização declarou posteriormente que o episódio provavelmente resultou de um mal-entendido e reiterou que símbolos de direita não eram desejados no festival. Independentemente da explicação, o caso revelou a necessidade de treinamento mais claro e uniforme das equipes de segurança. Em um evento internacional que sustenta valores de união, liberdade e acolhimento, ambiguidades desse tipo não podem ser tratadas como detalhe.

Também houve críticas à mudança da marca de cerveja oferecida no festival. A reação tornou-se visível durante os anúncios da edição seguinte, quando parte do público respondeu pedindo “cerveja alemã”. Pode parecer uma reclamação menor, mas alimentação e bebidas fazem parte da experiência e da percepção de autenticidade de qualquer festival.

Outro desafio permanente é o impacto ambiental. Depois da saída do público, toneladas de lixo permanecem espalhadas pelas áreas de camping. A limpeza precisa remover especialmente fragmentos metálicos capazes de atingir os animais quando os campos retornam à atividade agrícola. Em anos anteriores, a quantidade recolhida chegou a pelo menos 500 toneladas. O número não corresponde necessariamente ao total de 2026, mas serve como dimensão do problema enfrentado todos os anos.

Polícia e serviços de emergência registraram mais ocorrências do que no ano anterior, mas as autoridades consideraram o resultado geral positivo. A chegada e a saída ocorreram sem os problemas logísticos extremos que já marcaram outras edições.

Tradição ou renovação?

A programação de 2026 reacendeu uma discussão inevitável. Até que ponto os grandes festivais podem continuar dependendo de artistas formados nos anos 1970 e 1980?

Def Leppard, Judas Priest, Saxon, Europe, Savatage, Running Wild e Uli Jon Roth ofereceram parte considerável do peso histórico do evento. É impossível negar a qualidade e a importância dessas atrações. Ao mesmo tempo, a passagem do tempo é objetiva. Muitos desses músicos estão entrando ou já entraram na faixa dos 70 anos.

O Wacken parece compreender o problema, mas ainda procura o equilíbrio ideal. Powerwolf e Sabaton demonstraram capacidade de ocupar o topo do cartaz. Lamb of God, In Flames e Arch Enemy pertencem a uma geração intermediária plenamente consolidada. Orbit Culture, Lovebites, Castle Rat, Future Palace e outros nomes representam tentativas de renovação.

A partir de 2027, o festival oferecerá uma categoria de ingresso mais barata para menores de 25 anos. A medida reconhece que a renovação não depende apenas de colocar bandas jovens no cartaz. É necessário permitir que um público jovem consiga participar de uma experiência cujo custo total – ingresso, transporte, acampamento e alimentação – cresceu significativamente.

O saldo dos 35 anos

O Wacken Open Air 2026 não foi uma edição perfeita. Houve conflitos dolorosos de horários, momentos em que a programação parecia excessivamente dependente da nostalgia, problemas pontuais de som, críticas a serviços e questões que exigem atenção da organização. Mesmo assim, o balanço permaneceu amplamente positivo.

A quinta-feira entregou a emoção do Savatage, a estreia do Def Leppard e a brutalidade ritualística de Sventevith. A sexta-feira reuniu o domínio absoluto do Judas Priest, a despedida alemã do Sepultura, o último show do Running Wild e a solenidade extrema do Emperor. O sábado mostrou a energia de Lamb of God e Airbourne, apresentou novos capítulos para Nevermore e Arch Enemy e terminou com a grandiosidade de Powerwolf e Sabaton.

Para o Brasil, a edição teve significado particular. The Troops of Doom reafirmou a atualidade da escola brasileira de death/thrash, enquanto o Sepultura encerrou sua relação com os palcos alemães como uma das bandas internacionais mais importantes surgidas fora do eixo europeu e norte-americano.

O maior triunfo de Wacken, entretanto, continua sendo algo difícil de medir. Não está apenas no tamanho dos palcos ou na quantidade de ingressos vendidos. Está na forma como pessoas de dezenas de países, idades e realidades diferentes reconhecem umas às outras por meio da música. Durante alguns dias, uma pequena comunidade rural torna-se uma metrópole do heavy metal. Desconhecidos dividem comida, protegem quem cai no mosh pit, ajudam pessoas que passam mal, carregam cadeirantes sobre a multidão e cantam juntos músicas que atravessaram décadas.

No domingo, o campo esvazia. Caminhões começam a desmontar os palcos, barracas desaparecem, o silêncio retorna gradualmente e o vilarejo recupera sua população habitual. O Holy Ground volta a ser apenas um terreno no norte da Alemanha. Mas quem esteve ali leva consigo a certeza de que Wacken não existe somente naquele espaço. Wacken sobrevive nas histórias, nas amizades e na sensação de pertencimento que acompanha cada retorno para casa. Em sua 35ª edição, o festival demonstrou mais uma vez que o heavy metal pode envelhecer sem perder completamente sua capacidade de unir, emocionar e provocar. Entre a memória dos que partiram, a despedida dos que encerram suas trajetórias e a chegada de novas gerações, o touro de metal permaneceu de pé.

E, enquanto houver alguém disposto a atravessar oceanos, enfrentar calor, chuva, poeira e cansaço para erguer os punhos diante daqueles palcos, o grito continuará ecoando sobre os campos de Schleswig-Holstein:

 

Rain or shine. See you in Wacken.

Link para venda de ingressos de 2027 disponível aqui.

 

 

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