HELLOWEEN – SÃO PAULO (SP)

19 de setembro de 2026 – Suhai Music Hall

Por Luiz Tosi

Fotos: Daniel Agapito

E eis que o Helloween regressa ao Brasil. Dessa vez para encerrar, no sábado 19 de setembro, no Suhai Music Hall, sua “40 Years Anniversary Tour”, que rodou o mundo ainda colhendo os frutos do enorme sucesso que a banda vem alcançando desde a bombástica “Pumpkins United”, quase uma década atrás, quando Michael Kiske e Kai Hansen se reintegraram ao conjunto. Os alemães também passaram por Porto Alegre no dia 16, para uma apresentação na KTO Arena.

Queridinha dos brasileiros, a banda acumula 14 passagens pelo país e mais de meia centena de apresentações por aqui. 2026 ainda representa dois marcos históricos nessa relação: 30 anos desde a sua primeira vinda, no Monsters of Rock 1996, e 20 anos do icônico Live in São Paulo 2006, show realizado no então Credicard Hall que se tornou álbum e DVD ao vivo.

A lotação total da Suhai Music Hall diz tudo sobre a moral da banda por aqui. Lotada até demais, por sinal. Sobre a casa, duas coisas precisam ser repensadas. Primeiro, as longuíssimas filas, tanto para comprar fichas quanto para retirar bebidas e comidas. Segundo, o caos na saída. Localizada dentro de um shopping, o que poderia ser uma vantagem estrutural – vasto estacionamento, segurança, praticidade – se tornou uma bagunça. Imagine cerca de 10 mil pessoas saindo de um shopping juntas, enfrentando filas para pagar nos quiosques e os clássicos problemas de reconhecimento de tíquetes nas cancelas. Isso levou algumas pessoas a gastarem mais de uma hora para sair do estacionamento.

Feitas as ressalvas logísticas, o show começou de um jeito que ninguém esperava: ao som de Let Me Entertain You, de Robbie Williams. Divertida, inusitada e perfeitamente colocada como introdução para o que viria. March of Time abriu o set, uma escolha nada óbvia que colocou o lugar abaixo. Nem mesmo o som pouco definido e embolado foi suficiente para atrapalhar a energia do público. Mas parece ter atrapalhado a banda, levando o competente Dani Löble a uma derrapada bem pouco usual para alguém da sua envergadura. Mesmo apresentando melhora ao longo da noite, a qualidade do som destoou do capricho em cada detalhe da cenografia, dos telões com belas artes, dos momentos em que o “Keeper” conduz a narrativa e da iluminação, que muda de atmosfera de acordo com cada música.

A segunda faixa foi outra surpresa certeira: o retorno de The King for a 1000 Years, épica de Keeper of the Seven Keys: The Legacy, que literalmente faz jus ao legado e transportou todos ao show de 2006 no Credicard Hall. Depois de duas faixas menos prováveis, o primeiro hit da noite: Future World. Claro que sempre haverá queixas – eu, por exemplo, não perdoo apenas uma faixa do magistral Master of the Rings, e acho quatro faixas do recente Giants & Monsters um pouco demais –, mas, em geral, a banda acertou no repertório. Falando em Giants & Monsters, a seguinte foi o primeiro single do álbum, a fácil This Is Tokyo, que funcionou muito bem.

We Burn, Twilight of the Gods e Ride the Sky ressaltaram ainda mais o lado menos óbvio da trajetória da banda. Praticamente todas as faixas foram executadas num andamento extremamente rápido, mesmo para padrões ao vivo. Into the Sun abriu para mais duas grandes surpresas: I’m Alive, aparecendo ao vivo pela primeira vez nessa turnê, e Hey Lord!, a tal única representante de Master of the Rings. Universe (Gravity for Hearts), outra de Giants & Monsters, não empolgou tanto. Aí veio o solo de bateria. Nada pessoal com Dani Löble, que é um excelente baterista, mas eu sou daqueles que acham 99,9999% dos solos chatos pra burro. Banda e público foram ao banheiro e deixaram o coitado lá sozinho. Felizmente, I Want Out veio logo depois e o clima disparou de novo.

Para fazer justiça, o Motorádio vai para Sascha Gerstner. Em quase 25 anos de banda, ele se tornou a força técnica e musical que mantém a engrenagem apertada e azeitada. É aquele meio-campo que organiza o time, distribui a bola e sabe a hora de aparecer, dando liberdade para os craques veteranos brilharem sem que nada desmorone.

Quanto aos vocalistas, a alternância entre Kiske e Deris, ao invés de duetos forçados em todas as músicas, segue bem equilibrada. Deris está cantando muito – talvez ajudado pelos respiros que essa dinâmica de show proporciona. Kiske e Deris se tornaram praticamente melhores amigos. O relacionamento entre os dois evoluiu de uma suposta rivalidade alimentada por fãs para uma amizade profunda e de admiração mútua, proporcionando um dos maiores plot twists da história do metal.

Isso ficou evidente no trecho mais tocante da noite. Os dois foram para a frente do palco com um violão. Kiske puxou Suspicious Minds, de Elvis Presley, e Yesterday, dos Beatles e então passou o instrumento a Andi para uma versão acústica de A Tale that Wasn’t Right, com a banda se juntando aos dois a partir da sua metade.

A reta final não deu chance para ninguém respirar. A grudenta A Little Is a Little Too Much elevou o clima para a dobradinha mais nostálgica da noite: Heavy Metal (Is the Law) e Halloween. Emocionante é pouco. O bis foi covardia: Invitation convidou todos para Eagle Fly Free, executada numa velocidade absurda, antes dos mega hits Power, Dr. Stein e o refrão de Keeper of the Seven Keys fecharem tudo.

E assim o Helloween encerrou em São Paulo a sua 40 Years Anniversary Tour. São 40 anos de carreira e 30 de amor com o Brasil, o quinto país pelo qual mais passaram. Em entrevistas recentes, a banda afirmou que seu novo álbum já estaria 90% pronto. O que significa que em breve estarão de volta, desta vez com material novo para somar a um repertório que já é vasto demais para caber numa única noite. Enquanto puderem se apoiar nesse catálogo e em músicos que ainda entregam dessa forma, podemos continuar esperando uma coisa só: casas lotadas até demais.

Setlist

March of Time

The King for a 1000 Years

Future World

This Is Tokyo

We Burn

Twilight of the Gods

Ride the Sky

Into the Sun

I’m Alive

Hey Lord!

Universe (Gravity for Hearts)

Drum solo

I Want Out

Yesterday / Suspicious Mind  / A Tale that Wasn’t Right

A Little Is a Little Too Much

Heavy Metal (Is the Law)

Halloween

Invitation / Eagle Fly Free

Power

Dr. Stein / Keeper of the Seven Keys

 

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