Por Fernando Queiroz
Fotos: Amanda Sampaio
Ser uma ex-vocalista do Nightwish não é fácil. Se até Tarja Turunen, muito celebrada, sofre com alguns fãs da banda, que dirá aquela que a substituiu em momento muito polêmico – e, pior, sendo posteriormente substituída por ninguém menos que Floor Jansen. Por isso, tenho certeza, a sueca Anette Olzon demorou tanto para retornar aos palcos cantando músicas de sua fase no grupo finlandês.
Mas o momento, o timing, realmente foi bom! Hoje, muito mais que antes, os dois discos que ela gravou durante sua passagem pelo Nightwish deixaram de ser polêmicos. Ao contrário, acabaram por se tornar clássicos cujo tempo lhes fez jus. Tanto Dark Passion Play, de 2007 (que, aliás, completou 19 anos no exato dia deste show), e especialmente Imaginaerum se tornaram partes muito celebradas da carreira tanto da banda, quanto da cantora que interpretou suas músicas originalmente. Por sorte nós, brasileiros, pudemos ver novamente, um ano após a volta definitiva de Anette aqui ao Brasil, esses clássicos sendo tocados ao vivo. E desta vez em ocasião mais que especial: com orquestra e coral! Isso não poderia dar errado, essas músicas foram feitas em torno dessas partes orquestrais. Como disse um colega que me acompanhou no show, “se o Nightwish não faz, há quem faça”, em referência à banda nunca ter feito apresentações com orquestra, algo que muitos fãs sempre pediram.

Assim como em 2025, os responsáveis pela abertura do evento foram os curitibanos do Magistry. Com um considerável atraso de quase meia hora, mostraram competência na sua proposta – eles chamam a si mesmos de “metal alquímico”, mas, sejamos diretos, é apenas metal sinfônico. Competente, mas na prática não há porque dar outro nome. O estilo condiz com o de Anette, e o público pareceu gostar do que ouviu, mas não foi uma apresentação sem problemas – o som estava com muitos altos e baixos nas vozes, e as guitarras eram quase inaudíveis em diversos momentos, assim como a bateria, de que só se ouvia os pratos no começo. Apesar dos percalços, fizeram seu trabalho com esmero, e saíram ovacionados. Devo pontuar apenas em questão às escolhas estéticas nas canções, que em geral têm suas melhores partes quando há apenas o vocal feminino; os guturais não casaram tão bem com o que foi tocado. Nada que um dedo de produtor não resolva. É um grupo que sabe o caminho das pedras para se destacar no gênero, ao menos sonoramente.
Inicialmente programado para começar às 20h45, a atração principal, assim como a noite como um todo, atrasou. Foi cerca de meia hora depois do combinado que a voz de dois álbuns do Nightwish veio ao palco acompanhada de uma orquestra e uma banda 100% brasileiras. Vale dizer que foi a mesma banda que não só a acompanhou no ano passado, mas também na recente turnê europeia realizada pela cantora. E, caro leitor, logo de cara vimos quão injustiçada foi Anette Olzon em sua trajetória à frente do grupo finlandês.

Desde o começo, logo que a vocalista e sua banda subiram ao palco, percebia-se que era clima de festa. Todos sorridentes, animados, extremamente soltos perante a plateia. Anette, inclusive, veio com um carisma que não mostrava mesmo em seus dias de Nightwish – e, o melhor de tudo, cantando bem! Quando a orquestra terminou a introdução Taikatalvi, e as primeiras notas de Storytime foram tocadas, era nítido que o público ficou emocionado (vale dizer, ficou claro que quem estava ali era de fato fã, dela e do Nightwish). Mas não era para menos, afinal, essa é até hoje uma das canções de maior sucesso de seu ex-grupo. Foi uma pequena demonstração de como o álbum Imaginaerum demorou, mas caiu na graça dos ouvintes. E o mesmo pode ser dito de Dark Passion Play, representado a seguir por 7 Days to the Wolves, outra faixa que permanece até hoje no repertório da maior banda da Finlândia.

E é nessa parte também que o baixista e vocalista Filipe Duarte se destacou fazendo muito bem as partes gravadas por Marco Hietala, embora, devo dizer, ele ainda precise achar uma identidade maior em sua voz. Neste momento, parece que tenta emular a voz do icônico cantor. Igualmente competente, a banda tocava cada nota perfeitamente, e o tecladista Victor Wav, em especial, se mostra uma figura extremamente carismática, mesmo bem atrás no palco. A orquestra foi um destaque, como era de se esperar, muito positivo. Diferente de quando Tarja Turunen, sua antecessora no Nightwish, fez shows nesse formato, neste realmente pudemos ouvir os instrumentos de todos os músicos – e sem playback, vale dizer!

O setlist escolhido, apesar de muito bom, deixa a sensação clara de uma preferência por Imaginaerum. Até músicas menos conhecidas dele estavam no repertório, como Rest Calm e Turn Loose the Mermaids, mas ficaram de fora grandes sucessos de Dark Passion Play. Uma que poderia ter sido trocada é The Islander, que tem a maior parte de seus vocais feitos por Marco em estúdio (e Felipe ao vivo agora); por que não colocar, For the Heart I Once Had, que nunca sequer foi tocada pelo Nightwish ao vivo? Teria sido uma excelente estreia dela! Apesar disso, não teve sequer uma canção que não fosse amada pelos fãs. Um grande adendo e ótima surpresa foi a inclusão de duas músicas da cantora de seus discos solos – Like a Show Inside My Head e Rapture, que serviu como saideira.
E falando em saideira, como não falar do espetáculo que foi o final do show por si só, com Anette recebendo um “CPF” das mãos dos produtores? Só aquilo já valeu qualquer coisa pelo alto astral, carinho e proximidade dos músicos com os fãs brasileiros. A cantora inclusive falou que pensa em se mudar para o Brasil!

É até difícil descrever a emoção que se via em cada uma das pessoas presentes. Sorrisos, todos felizes e satisfeitos. Com o Nightwish ainda em hiato dos palcos por tempo indeterminado, a experiência de ver shows solo de suas ex-vocalistas tem sido uma benção, e para todos os efeitos, esse foi o melhor que uma delas já fez em São Paulo – e falo sem medo de errar! Foi uma celebração a uma época e ao legado de uma fase da banda. Mais que isso, é um marco que sacramenta uma volta triunfal de Anette Olzon – volta que teve seu começo em 2025, mas que podemos ter certeza que teve seu auge neste show específico. O metal sinfônico e seus fãs agradecem essa volta idealizada e executada com tanta maestria. E é igualmente prazeroso para quem, como eu, sempre gostou dos dois discos celebrados aqui, ver que o tempo os transformou no que sempre deveriam ter sido: sucessos absolutos.
Ah, vale dizer: o show foi filmado, então logo poderemos viver e reviver o momento e comprovar o quão emocionante foi.

Setlist
Storytime
7 Days to the Wolves
Ghost River
Song of Myself
Amaranth
Rest Calm
Scaretale
Like a Show Inside My Head
Turn Loose the Mermaids
The Islander
The Poet and the Pendulum
Meadows of Heaven
Last Ride of the Day
Rapture

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