Por Fernando Queiroz
Fotos: Amanda Sampaio | *André Tedim (onde indicado e thumbnail)
É difícil para um fã de Angra, como este que vos fala, definir o que pensamos nesses últimos anos. São sensações conflitantes, que vão do desgosto à esperança; do inferno ao céu. Não dá para descrever de forma clara o que se passa na cabeça desse fã com todo o caos (num sentido de estar bastante confuso) que foi a trajetória recente. Por isso, esse show era importante. Muito importante. Seria o vislumbre que a cidade natal da banda, onde tem seu maior público, teria da nova fase, da nova formação do grupo. Tivemos uma pequena amostra de Alírio Netto, novo vocalista, no Bangers Open Air deste ano, e em outro show logo depois, mas ele dividiu o palco com outros agora ex-vocalistas – com a responsabilidade toda para si, porém, essa foi a primeira vez.
Um dos pontos cruciais, e que serviu como “prova de fogo” para Alírio, é o fato de não estarmos no ciclo de um disco novo; é uma turnê e um show de celebração de um álbum importante do Angra: há trinta anos, era lançado Holy Land, que não é apenas um marco na carreira da banda, mas do metal mundial. O disco que os elevou a outro patamar, como o guitarrista e fundador Rafael Bittencourt bem falou. Outro ponto importante, é que a banda passou catorze anos com um vocalista que, embora seja um dos melhores do mundo, não conquistou o carinho da maior parte do público – e, sejamos francos, Fabio Lione nunca teve a “cara” do Angra. Pouca pressão, não é Alírio? E aí, será que ele conseguiu segurar a barra?
A abertura ficou a cargo de figurinhas carimbadas já nesse cenário de “bandas de abertura”. Em específico, o nome do Throw Me to the Wolves já virou sinônimo de banda de abertura, ainda mais quando se trata de shows da Top Link. Bem, quem já os viu sabe que são competentes. Extremamente competentes! Uma das poucas bandas a apostar num dos gêneros mais esquecidos no país, o melodic death metal, eles acharam seu nicho, construíram sua base, e seguem ampliando. O problema está na mistura dos estilos. O Brasil tem um diferencial da Europa, por exemplo, que é a segregação entre os estilos dentro do metal. Não é raro pessoas que gostam de duas, três, dez vertentes de metal, mas poucas dessas se sentem confortáveis em assistir a um show de uma banda de death metal em uma noite de power metal (e vice-versa), e é nesse ponto que o grupo paulistano peca. Embora sua apresentação seja quase sempre irretocável, entregando o melhor dentro do que tocam e com uma energia gigante no palco – sim, é hoje uma das melhores bandas do Brasil –, se vê muita resistência a eles quando tocam com o Angra. Pouquíssima gente presente para vê-los, e os que lá estavam não pareciam entusiasmados, o que é uma pena, e muito diferente do que foi quando abriram para bandas mais próximas a eles, como In Flames. Seus quarenta minutos de palco foram repletos de uma qualidade que as pessoas presentes não apreciaram como deveria. É hora, inclusive, de começarem a andar com as próprias pernas, fazer seus shows sozinhos, e não mais em aberturas. E, acredite, se tentarem e fizerem da forma correta, conseguem!

O segundo ato da noite ficou por conta de uma banda muito mais próxima do Angra, tanto em termos sonos como históricos. Com seus quarenta anos na estrada, mais uma vez pudemos apreciar um grande show de ninguém menos que o Viper. Com uma formação sólida, que já dura anos, sendo a última mudança a entrada de Daniel Matos, irmão do saudoso Andre, no lugar do também falecido baixista Pit Passarell, entregaram aquilo que se espera: clássicos! Clássicos e mais clássicos. É isso que queremos, afinal. Sempre é bom ouvir sons como Prelude to Oblivion, To Live Again, A Cry From the Edge e Living for the Night. É impressionante como, deve-se dizer, Leandro Caçoilo aguenta todas as notas mais altas das músicas de Andre Matos, e canta muito bem as gravadas por Pit, que são um pouco mais baixas. Eu sempre disse, desde que ele era vocalista do Eterna, que era um dos melhores vocalistas do mundo, e a idade só fez bem a ele. Hoje, mais que nunca, é um exemplo de como ser um cantor, além de ser excelente frontman. Essa formação, que já quase não tem nada do que foi em seus tempos áureos (hoje, dos originais conta apenas com o guitarrista Felipe Machado), faz jus ao legado incomparável que esses pioneiros do metal brasileiro têm. O problema, infelizmente, ficou por conta da qualidade de som. As partes agudas de guitarra estavam extremamente baixas, quase inaudíveis e os graves – tanto do baixo quanto as bases da guitarra –, estourando de altas. No mais, uma aula de power metal dos precursores do gênero.
Finalmente, o grande momento. Confesso aqui, fiel leitor, que tive uma certa crise de ansiedade pré-show; já vi mais de cinquenta apresentações do Angra na vida, desde 2005 (ou 2004, não lembro bem), mas nunca senti essa sensação em ocasiões anteriores. Eu queria, realmente, ver esse “novo” Angra. E isso é por conta de, sem neutralidade, nunca ter gostado de Fabio Lione à frente do grupo. Ele é um dos melhores cantores do mundo, não tenha a menor dúvida disso – seu trabalho no Rhapsody fala por si –, mas nunca foi o que a banda paulistana precisava. Ele não combinava, tanto esteticamente, quanto em termos de voz, com a proposta que sempre tiveram. Fez bons discos, mas que não lembram em quase nada a vibe que tinha antes. Céus, até os discos solo de Edu Falaschi soam mais como aquilo! Ao vivo, então, era difícil olhar o palco e enxergar o conjunto que me fez um fã de power metal progressivo. A entrada de Alírio Netto me deu esperanças de poder sentir aquela magia de novo, de poder viver minhas duas horinhas de adolescente novamente. Deixo claro: ele conseguiu. Com maestria.

A comemoração era do aniversário do clássico Holy Land, mas não foi em formato convencional que o show começou às 22h – um horário horrível para um show de duas horas, vale dizer, mas isso é de praxe nos eventos da Top Link, que têm zero respeito pelo público que depende de transporte público. Logo de cara, uma gratíssima surpresa: Carry On sendo executada na íntegra, e não aquele horrível medley com Nova Era que insistiam em fazer. E aqui o novo vocalista já mostrou a que veio, acertando cada agudo, tudo no tom, e com boa presença de palco (algo que lhe faltava até não muito tempo). E se ele mandou bem nessa, como seria em faixas da época de Edu Falaschi? Os clássicos Waiting Silence e Angels and Demons responderam: cada uma delas foi reproduzida perfeitamente, algo que nem o ex-vocalista que gravou originalmente consegue mais – e está tudo bem não conseguir, Edu teve sérios problemas de saúde e, dentro de suas limitações, faz o melhor que pode. Outro destaque foi a performance em Tide of Changes, já da fase Fabio Lione. O italiano tem a voz, em timbre e tessitura, mais diferente entre os que passaram pela banda, e isso poderia dificultar a vida do novato brasiliense. Mas, novamente, ele entregou. Sabe aquela magia que eu disse que sentia nas fases antigas do Angra e que me fazia falta? Ela estava lá! Era a performance que sonhei em rever em quase quinze anos. Ah, e ele ainda tocou piano no palco! Isso é muito Angra.

Mas não era somente Alírio que estava dando um show. Toda a banda estava leve, feliz e entregando o melhor. Confesso que ainda sinto que o baterista Bruno Valverde destoa disso. Parece que, mesmo após muitos anos com aquelas baquetas, ainda não é um músico de heavy metal; mas se falta pegada, sobra técnica, por isso não dá para reclamar.

A ideia de fazer o disco de 1996 na íntegra, mas não em ordem, intercalando com clássicos de outras épocas, foi a melhor possível. Não deixou cansativo em momento algum e algumas faixas como Lullaby For Lucifer que são um pouco cansativas no próprio disco, puderam ter seu momento para brilhar, por estarem em meio a sons mais “porrada”, vamos dizer assim. Talvez o único erro, e sempre bato nessa tecla, foi a inclusão de Wuthering Heights – essa canção sempre me soou como apenas uma maneira de o falecido Andre Matos mostrar seus malabarismos vocais, e pode ser muito bem substituída por, por exemplo, Live and Learn, por que não?

Foi apenas já na parte final do show que um dos grandes atrativos da noite veio ao palco: o lendário baixista original da banda, Luís Mariutti, o famoso “Jesus”, por conta de sua aparência, tocou algumas músicas com o Angra, e foi o momento, sem dúvidas, mais emocionante da noite. Uma pena que Luís estava sem barba, e não parecendo Jesus (risos). Sem dúvida, foi o momento em que percebemos que a “família Angra”, ou “Angraverso”, tem força e união, algo muito diferente do que foi no passado. E isso é muito bom! Quem sabe não seja uma deixa para um possível retorno de uma certa banda que contou também com o baixista e com Andre Matos, não? Sonhar não custa, e mal não faria, pelo contrário!
O fechamento da noite foi, como era de se esperar, com a icônica Nova Era, e hoje, mais que nunca, essa música faz sentido. É uma nova era de fato, mas com o que tinha de melhor em todas as velhas eras.

Confesso que posso ser um pouco crítico demais às vezes, e não posso deixar de apontar o fato de Marcelo Barbosa, grande guitarrista que é, se recusar a improvisar em solos – ele toca todos ao pé da letra! Não sou guitarrista, mas toco guitarra (se me entende), e improvisos fazem parte da mágica de se tocar o instrumento. Outro ponto negativo é a ausência de tecladista. Jamais deixarei de falar sobre isso, pois a diferença de um som sendo tocado para um reproduzido por playback é imensa. Faz falta, e acho que todos concordam.

No mais, posso garantir a plenos pulmões que o Angra que eu adorava está de volta. Fazia anos que eu não saía tão feliz de um show deles, e pude ver claramente no rosto de todos à minha volta o mesmo sorriso. Uma performance incrível, um vocalista que não desafina, tem presença de palco, ainda toca piano e que se resume a falar o necessário em vez de tentar ser engraçado no palco.

Quando, em minha cobertura da reunião com Edu Falaschi depois do Bangers, falei “adeus Angra e olá Angra”, ou algo assim, felizmente esse “olá Angra” foi ainda melhor que imaginei.
Infelizmente, a hora de ir embora foi prejudicada, como sempre em eventos no Tokio Marine, pelo horário. Mais de meia-noite, sem metrô ou trem, e uma nota de Uber. Bem, sorte de quem tem carro, não? Com certeza não eram todos ali…


Setlist:
Carry On
Tide of Changes
Waiting Silence
Silence and Distance
Holy Land
Angels and Demons
Deep Blue
Wuthering Heights
Z.I.T.O.
Stand Away
The Shaman
Lullaby for Lucifer
Rebirth
Nothing to Say
Make Believe
Carolina IV
Nova Era
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