CASSIDY PARIS – SÃO PAULO (SP)

07 de outubro de 2026 - La Iglesia

Por Leandro Nogueira Coppi

Fotos: Roberto Sant’Anna

O hard rock segue revelando novas vozes que buscam seu espaço em um cenário historicamente marcado por grandes nomes, e a australiana Cassidy Paris é uma das artistas que vêm trilhando esse caminho com a ambição de conquistar um público cada vez maior. Com dois álbuns lançados, New Sensation (2023) e Bittersweet (2025), ela integra o grupo de artistas em que a gravadora italiana Frontiers Music aposta para renovar a cena, ao lado de cantoras como Chez Kane, Austen Starr, Issa e Leah Martin-Brown. Em seu trabalho mais recente, Cassidy conta com a colaboração de nomes experientes, entre eles Paul Laine (ex-Danger Danger e The Defiants), parceiro criativo desde que ela tinha apenas 11 anos, e Steve Brown (Trixter), coautor de 10,000 Volts, álbum de Ace Frehley, e substituto de Vivian Campbell em apresentações passadas do Def Leppard. Agora, a cantora e guitarrista dá mais um passo na expansão de sua carreira internacional ao realizar sua primeira turnê brasileira como atração principal, com 11 datas entre 6 e 18 de outubro, passando por cidades de São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro.

Empolgada com a oportunidade de tocar no Brasil, Cassidy alimentou suas redes sociais com vídeos dedicados aos brasileiros nos dias que antecederam sua chegada ao país. Em comunicado á imprensa, destacou a importância dos shows no Brasil: “Desde o início da minha jornada, eu sonhava em levar minha música ao redor do mundo. O amor e o apoio que recebi do Brasil foram incríveis. Poder fazer minha própria turnê como headliner aí é algo surreal.” Na véspera de sua estreia em São Paulo, a cantora visitou a Galeria do Rock, que a deixou encantada – principalmente a loja oficial do Iron Maiden -, e recebeu alguns fãs em um meet ‘n’ greet na loja Animal Records acompanhada de sua banda. A formação reúne seu pai, Stevie Janevski (guitarra – Wicked Smile), e os britânicos Fred Hale (baixo) e Pete Newdeck (bateria), músico que acumula passagens por Killers, ex-banda do saudoso Paul Di’Anno, Midnite City, Eden’s Curse, Steve Grimmett, Blood Red Saints e China Blue. Newdeck também assina a produção da faixa Stronger, do novo álbum de Cassidy, Bittersweet.

A primeira turnê brasileira de Cassidy Paris começou no La Iglesia, em São Paulo. A cantora atraiu um público modesto, algo natural para uma artista que ainda busca maior projeção internacional. A escolha do La Iglesia, uma casa de pequeno porte, levou em conta esse momento inicial de sua trajetória. Antes de Cassidy assumir o palco, o aquecimento ficou por conta do Smoking Kobra, banda paulistana formada agora em 2026 por músicos experientes: Rodrigo Grecco (vocal, Casa das Máquinas, Hardstuff e Snakes and Sinners, tributo ao Whitesnake), os irmãos Rodrigo Flausino (guitarra, RF Force, Hardstuff e Snakes and Sinners) e Ricardo Flausino (baixo, Hardstuff e RF Force), além de Olavo Oliveira (bateria, Snakes and Sinners e Nox Eterna).

Apesar de recém-formado, o Smoking Kobra reúne músicos que já dividem palcos em outros projetos, o que ajuda a explicar o entrosamento do quarteto. Essa bagagem também se reflete no repertório autoral que a banda já apresenta, mesmo com tão pouco tempo de existência. Ainda sem gravações, pelos menos sem lançamentos oficiais, as composições transitam entre o hard rock pesado e uma sonoridade mais influenciada pelo rock dos anos 1990, como veremos a seguir.

E, se a ideia era fazer a cobra fumar, a banda tratou de começar a apresentação em ritmo acelerado com a própria Smoking Kobra. Antes da música seguinte, Grecco tomou a iniciativa de conversar com o público e mostrou que, além de bom vocalista — não à toa, também encara um tributo ao Whitesnake —, é um frontman divertido, dono de boas sacadas. Antes mesmo de apresentar Gato de Rua, arrancou risadas ao admitir que precisava consultar o setlist para saber qual seria a próxima música: “Não consigo mais decorar e não consigo mais enxergar, então está difícil”. Na sequência, introduziu a composição com outra tirada bem-humorada: “Essa música fala sobre um monte de coisa que a gente costuma fazer por aí, principalmente depois de velho e solteiro”.

Ao apresentar Mr. Shit, Grecco recorreu ao humor escrachado para descrever a figura que inspirou a música: “Todo mundo tem um amigo merda, aquele cara que causa no rolê, causa na sua casa, você o chama para o seu churrasco e ele toma seu uísque, joga carne na piscina, sai todo cagado e fudido. Prestamos uma homenagem a uma pessoa com esse perfil: Mr. Shit!”. Bem hardona, a música tem um riff principal contagiante. Já Narcisista segue por um clima mais denso, com andamento arrastado e fortes nuances grunge que aparecem inclusive nos efeitos de guitarra escolhidos por Rodrigo. A abordagem remete à época em que bandas de hard rock dos anos 1980 passaram a incorporar influências de Seattle na década seguinte, e Narcisista me trouxe à memória o Warrant de Ultraphobic, álbum lançado em 1995.

Na sequência, vieram Trabalho e, com ares de Golpe de Estado, Cavalo Vapor e Anjos da Noite, a bonita balada A Velha Chama – essa com Grecco ao violão e Rodrigo executando um solo de arrepiar. Para fechar a apresentação, o grupo escolheu um cover — e não foi Dancing Queen, do Abba, como o vocalista havia brincado no início do show, ao dizer que tocariam a música do grupo sueco. Nada, porém, faria mais sentido do que Whitesnake. Assim, se despediram com a clássica Crying in the Rain, na qual Grecco soltou de vez o vozeirão e Rodrigo, guitarrista que também é bastante conhecido por seu canal no YouTube, deitou no solo executando uma surpreendente improvisação. Saldo final: o Smoking Kobra deixou uma boa impressão e a curiosidade de ouvir esse material autoral ganhando vida em um futuro lançamento.

Depois de alguns bons minutos, chegou finalmente a hora de conferir a estreia de Cassidy Paris em solo brasileiro. Aos 23 anos, a vocalista e guitarrista iniciou sua trajetória artística aos onze. Hoje, soma turnês em lugares como Austrália, Reino Unido, Europa, Estados Unidos e Japão. Faltando 15 minutos para as 22h, uma breve introdução mecânica ecoou pelo La Iglesia e, logo em seguida, Cassidy, seu pai Stevie Janevski, Fred Hale e Pete Newdeck surgiram no palco tocando a música Walking On Fire, um hard rock moderno com acentuações pop, extraída de seu álbum de estreia New Sensation, produzido pelo requisitado Alessandro Del Vecchio.

Cassidy chegou esbanjando uma bela voz e simpatia natural. Nem mesmo o público reduzido diminuiu sua empolgação: do início ao fim, a cantora exibiu uma performance estonteante, percorrendo o pequeno palco de um lado ao outro, dançando, chutando o ar com disposição atlética e imprimindo emoção à interpretação de cada música. Cheia de atitude e sensualidade, também chamou a atenção pelo figurino inteiramente vermelho, complementado por um belo par de botas pretas de salto plataforma cravejadas de adereços prateados que reluziam sob as luzes do palco.

Sem perder tempo, Paris e banda deram sequência com a pesada Wannabe, música de riff simples e pegada punk presente no novo álbum Bittersweet. Nela, Newdeck sentou o braço na batera. Aliás, vale destacar desde já que, ao vivo, as músicas de Cassidy soam bem mais pesadas do que em estúdio. A formação atual que acompanha a australiana imprime uma evidente pegada punk/hardcore — embora sem se distanciar das raízes hard rock —, deixando as músicas mais cruas e contemporâneas. Já Cassidy não esconde suas referências, tanto na voz quanto na presença de palco: Joan Jett, Pink, Pat Benatar e Avril Lavigne são algumas das artistas que contribuíram para moldar seu estilo.

Antes de dar continuidade ao show, Cassidy Paris pegou uma guitarra e finalmente conversou com os fãs brasileiros pela primeira vez. Ela se apresentou e contou que ainda está tentando aprender português. Em determinado momento, mencionou “Sao Paolo” e quis saber se estava pronunciando o nome da cidade corretamente. Para tirar a dúvida, chamou Carlos Chiaroni, proprietário da loja Animal Records, que assistia ao show da pista, e pediu que ele a ensinasse a falar do jeito certo. Não saiu com perfeição, mas o que vale é a tentativa, não é mesmo? Ela disse ainda que seu trabalho vai ser aprender português até retornar ao Brasil em uma próxima oportunidade. Ainda sobre Chiaroni, em outro momento do show o guitarrista pai de “Cassy” falou de sua amizade antiga com o brasileiro através das redes sociais.

Creio ser interessante contar que notei que Cassidy tinha uma colinha no chão do palco, com algumas frases em português – nem todas escritas corretamente -, como “Vamos nessa!”, “Obrigado”, “‘E’ amo o Brasil” e “Meu nome é Cassidy Paris, boa noite!”. Também ri ao ler um “Olay olay!” no lugar de “olê, olê, olê, olê”, o tradicional coro que os fãs sul-americanos puxam (e ainda iriam puxar) para demonstrar seu carinho pelos artistas e que já se tornou conhecido mundo afora.

Para o bloco seguinte, Cassidy Paris mandou Stronger, cover do Wicked Smile, banda de seu progenitor. Em seguida, ela mesma puxou o tão esperado “olê, olê, olê, olê”. Só que a resposta dos fãs saiu meio atrapalhada: em vez de cantar o nome da cantora no final, como manda a tradição, a galera ficou só no “olê, olê, olê, olê… olê, olê”. Um ou outro ainda tentou corrigir o coro no fim, mas Cassidy percebeu a confusão e se divertiu com a situação. Depois desse momento descontraído, ela anunciou Finish What We Started, mais uma de Bittersweet. Novamente sem a guitarra, Cassidy Paris mencionou Pat Benatar e Joan Jett, arriscou cantar trecho de Run to the Hills, do Iron Maiden, mas agradou mesmo os fãs de Danger Danger, executando um cover de I Still Think About You, balada clássica do grupo americano, lançada no segundo álbum Screw it!, de 1991. Ao final, ela gritou “Eu amo o Brasil” e garantiu: “Vou lhes dizer, estarei fluente em português na próxima vez que eu voltar”.

Enquanto uma introdução de teclado preenchia o ambiente, Cassidy anunciou uma de suas músicas favoritas na carreira: Midnight Desire, faixa climática de New Sensation. A canção faz parte da playlist de videoclipes da australiana, boa parte deles representada no setlist da noite, como Danger, cujo vídeo é o mais popular, com quase 130 mil visualizações no YouTube. Outra atração do setlist foi Fundamentally, música nova que também chamou a atenção pelos vocais de apoio de Janevski e Newdeck. Durante essa, Cassidy pulou e dançou com ainda mais entusiasmo.

Se existe um lugar em que Cassidy Paris se sente à vontade, é no palco. Principalmente quando está sem a guitarra, a cantora se solta ainda mais: joga-se no chão, ajoelha-se e canta bem perto dos fãs. Um ventilador estrategicamente posicionado à frente do palco garantia o esvoaçar dos cabelos, enquanto ela ocupava cada espaço e interagia com o público sem demonstrar timidez ou retraimento tendo o pai ao seu lado na banda. Em Nothing Left to Lose, por exemplo, desceu do palco para cantar e dançar junto à plateia.

Por falar em seu pai, felizmente Stevie Janevski veio ao Brasil tocando guitarra, já que, dependendo da formação que acompanha a filha, assume o baixo. Dono de riffs contagiantes e de uma pegada cheia de punch, ele também se destaca pela escolha dos efeitos de guitarra, que acrescentam personalidade e novas nuances às músicas.

Após mais um punhado de canções, Cassidy Paris se despediu do público paulistano tocando um cover de Watch the Fire, da banda sueca de hard rock W.E.T. Mas, nem bem terminou a tradicional foto com a plateia, já mostrou que não tinha pressa de ir para o camarim. Atravessou a pista diretamente do palco e seguiu para a mesa de merchandising, onde atendeu com extrema simplicidade, simpatia e entusiasmo todos que queriam conversar com ela. Além disso, distribuiu beijos e abraços.

A apresentação no La Iglesia deixou claro que Cassidy Paris tem mais a oferecer do que boas canções de hard rock. Sua espontaneidade e a maneira direta de se conectar com os fãs ajudam a construir uma identidade própria, ainda em evolução. Se a passagem pelo Brasil marca um novo capítulo em sua trajetória, a disposição para se aproximar do público, dentro e fora do palco, certamente contribui para que essa primeira turnê como atração principal deixe boas lembranças e abra as portas para um futuro retorno – aliás, nesta quinta-feira (15), ela toca em Osasco. Até lá, fica a expectativa de que um público ainda maior descubra o trabalho dessa jovem cantora, que tem uma longa estrada pela frente.

Smoking Kobra – setlist:

Smoking Kobra
Gato de Rua
Mr. Shit
Narcisista
Trabalho
A Velha Chama
Crying in the Rain 
(cover do Whitesnake)

Cassidy Paris – setlist:

Intro
Walking On Fire
Wannabe
Stronger (cover do Wicked Smile)
Finish What We Started
I Still Think About You (cover do Danger Danger)
Midnight Desire
Butterfly
Fundamentally
Danger

Like I Never Loved You
Getting Better
Here I Am
Turn Around & Kiss Me
Nothing Left to Lose
Watch the Fire (cover do W.E.T.)

 

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