Por Daniel Agapito
Desde seus primórdios, o death metal pode ser dividido em duas “escolas” de som – as bandas mais rápidas e técnicas, e as mais brutais e vagarosas. Para lá do Atlântico, na Europa, poucos grupos conseguiram aperfeiçoar este lado mais “simples” do estilo quanto o Benediction, que vem representando a Inglaterra no metal extremo há mais de 35 anos. O amor deles pelo Brasil não é segredo. Já tocaram em todo canto por aqui, desde Caruaru ao palco do Summer Breeze Brasil (atual Bangers Open Air) e entre este mês e o próximo voltam com mais uma sequência de shows. Ravage of Empires, lançado em abril do ano passado, segue na linha de Scriptures, que chegou ao mundo no meio da pandemia, marcando um retorno à sonoridade tradicional do grupo, bastante influenciada pelo retorno de Dave Ingram aos vocais. A turnê atual tem como fim justamente a divulgação deste álbum, mas com um pequeno pesar. Em maio deste ano, Ingram anunciou que teria que encerrar suas atividades com a banda por conta de uma artrite em estágio avançado. Então, nesta turnê o lendário Kam Lee, voz do Massacre, estará assumindo o microfone. Conversamos com Peter Rew, guitarrista e membro fundador, que nos contou um pouco de suas expectativas para a tour, relembrou histórias de vindas passadas ao Brasil e até falou um pouco sobre o futuro da banda. Confira!

Vocês já estiveram quatro vezes aqui no Brasil, então já conhecem bem nosso público. Assim, quais são as expectativas para a turnê desta vez?
Peter Rew: Da última vez em que viemos, quando tocamos no Summer Breeze, vários fãs disseram que não iam conseguir nos ver, então desta vez quisemos tocar em mais cidades, fazendo shows menores. O Brasil é, e sempre será, um dos nossos países favoritos, vocês são muito gentis com a gente. Espero que desta vez seja a mesma coisa, shows incríveis.
A última turnê que vocês fizeram pela América Latina contou com essa passagem pelo Summer Breeze Brasil (atual Bangers Open Air), sendo a banda que inaugurou o Ice Stage. Como foi essa experiência?
Peter: Foi muito bom! Se não me engano, foi relativamente cedo, o sol estava quente, que não é o ideal para um show de metal, mas mesmo assim nos divertimos bastante. Os fãs curtiram e foi uma honra poder tocar lá. Lembro que foi um dos melhores da turnê!
Além dos palcos de grandes festivais, vocês também já tocaram em lugares que muitas bandas geralmente nem chegam perto, como em sua turnê de 2013, que passou pelo Norte e pelo Nordeste do país. Tem alguma lembrança destes shows?
Peter: O calor! Lembro que Belém era extremamente quente, Fortaleza também! Mesmo assim, o público foi incrível, ficaram muito gratos pelo show. Como disse, o Brasil é um país incrível, as pessoas aí realmente se divertem nos shows. Enquanto banda, queremos tocar na maior quantidade de lugares possível; se tem fãs, queremos tocar para eles. Sei que no Brasil o custo de vida nem sempre é muito favorável, muitos metaleiros não têm dinheiro para viajar pelo país só para ver shows, então quisemos dar esta oportunidade para os fãs do Norte e do Nordeste. Tocamos num festival em Santa Catarina também, mas para nós, não importa o tamanho do show, queremos apenas oferecer a melhor experiência possível para quem vai nos assistir! O Benediction é uma banda ao vivo, é isso que gostamos de fazer.

Levando isso em conta, o que você diria que mais diferencia o público brasileiro do resto?
Peter: Não sei, mas parece que vocês apreciam o metal mais do que os outros. Viajei pelo mundo tocando metal, mas nunca vi nada como a América Latina. Os alemães também gostam bastante de metal, mas um metaleiro é um metaleiro, independentemente de onde ele venha. Acho que esse é um dos grandes diferenciais do nosso estilo: somos todos irmãos, independente do lugar. As pessoas que não curtem metal geralmente nem entendem muito esta dinâmica quase familiar.
Fora isso, tem mais alguma história de que você se lembre quando pensa nas vindas ao Brasil?
Peter: Lembro que estávamos lá no norte, era uma parte difícil da cidade, não podíamos ir muito longe de noite, e minha esposa me ligou. Assim que eu atendi, ela me perguntou: ‘O que é esse barulho?’ Respondi: ‘Ah, são tiros.’ Sabe o que ela fez? Aumentou o meu seguro de vida! (risos) Sei como é o Brasil, tem suas áreas mais complicadas, mas precisamos tratar todos com o mesmo respeito. No Rio foi parecido, as casas de show geralmente não eram nos lugares mais bonitos, mas não seria por isso que deixaríamos de tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. Todos aí sempre nos trataram muito bem.
Com a saída do Dave Ingram, vocês já fizeram shows tanto com Oscar Rilo (Dark Embrace) quanto com Dave Hunt (ex-vocalista, 1998-2019). Agora excursionaram com Kam Lee. Como foi feita a escolha por ele?
Peter: Conhecemos Kam há um bom tempo, então quando Dave saiu, pensamos: quem poderia ocupar o lugar dele? É um lugar que não é fácil de ocupar. Kam foi uma escolha óbvia e quando ele topou, a primeira coisa que fez foi pedir permissão ao Dave, já que são amigos de longa data. Conseguimos fazer alguns ensaios com ele, fizemos uns shows na Irlanda agora, e tudo rolou direitinho. Ele é um monstro no palco! Tive até alguns momentos de fã dividindo o palco com ele, mas ele gostou muito! Ele quer continuar com o Massacre, mas também já disse que quer fazer o máximo possível conosco.

Minha próxima pergunta era exatamente sobre isso: vocês já fizeram uma série de shows com ele pela Irlanda, e inclusive até tocaram Biohazard, do Massacre!
Peter: Este cover era para ser surpresa, mas agora todo mundo sabe! (risos) Vamos tocar uma, sim, muito provavelmente essa!
Em relação à América Latina, o que podemos esperar do setlist dos shows? Um foco maior em Ravage of Empires e Scriptures ou mais clássicos?
Peter: É sempre bom tocar músicas novas ao vivo, porque estivemos tocando as mesmas músicas há quase 40 anos, então é bom mudar um pouco. Por isso, devemos nos concentrar nos últimos dois discos, que funcionam muito bem ao vivo, mas, mesmo assim, ainda jogaremos alguns clássicos ali no meio. Você vai ter que ir no show para descobrir! Com Kam morando nos Estados Unidos e nosso baterista (Giovanni Durst) na Itália, não é sempre que conseguimos ensaiar, então nosso repertório não é gigantesco, mas estou animado!
Ainda sobre o disco novo, agora, um ano e meio depois de seu lançamento, onde diria que ele entra na história do Benediction?
Peter: Sempre tentamos ser a melhor versão possível do Benediction, não estamos aqui para reinventar a roda, somos uma banda old school que toca o death metal que gostamos de ouvir, sem blast beats, como deveria ser. Diria que o disco é uma evolução natural, as composições estão melhorando bastante, especialmente nesse último, temos vários riffs que realmente te fisgam. Dave foi excelente quanto a isso. Queremos que as pessoas nos conheçam, e a meta é inspirar as gerações futuras a tocarem o nosso estilo. Vida longa ao metal!
Os últimos dois álbuns representam um retorno à sonoridade mais tradicional da banda. Você diria que foi por conta do retorno de Ingram ou foi um movimento mais natural?
Peter: Acho que tivemos um pouco de sorte, porque tudo se alinhou. Ele voltou e trabalhamos também com Scott Atkins, do Grindstone Studios, que é um grande fã da banda e quis produzir os novos álbuns. Ele fez um trabalho excelente ao nos trazer aos tempos modernos, mas sem perder nossa essência.
Seguindo nesta linha, muito mudou no metal desde então. Como você vê o momento atual do estilo?
Peter: É um pouco estranho, porque ele passa por fases, alguns estilos saem de moda, mas alguns anos depois voltam, tudo é muito cíclico. No death metal, há muitas bandas fazendo a mesma coisa, aquele som rápido e técnico, e acho justo, cada um com seu cada qual, tudo tem seu lugar, mas muitas bandas soam parecidas. Tem o crossover com o metalcore também, tudo está evoluindo muito rápido. Os vocais extremos, aquelas vozes de porco, não estou dizendo que está certo ou errado, mas vai de cada um. O Benediction não vai mudar muito, você já sabe o que vai ouvir, só tentamos melhorar isso em cada disco.
Sabendo disso, e visto a sobrevida que o death metal old school teve nos últimos anos, qual você diria que é o legado do Benediction?
Peter: Não sei ao certo… Fico até emocionado com tudo isso, sabe? Sou apenas um cara que gosta de tocar guitarra. Eu e Darren somos caras parecidos que só gostamos de tocar metal. Fico emocionado com o tanto que as pessoas gostam e se sentem influenciadas por nós, nem sei responder esta pergunta direito.
Pelo jeito, 2027 será um ano bastante produtivo para vocês, com vários shows pela frente. O foco do ano que vem será a estrada?
Peter: Sim! Já temos alguns shows planejados, não vou entrar em muitos detalhes porque não foram anunciados ainda, mas tentaremos jogar a composição e a gravação do próximo disco para o final do ano. Tem muita coisa pela frente, então vamos dar um passo de cada vez, mas acho que será um ótimo ano para nós!
Ia fechar com uma pergunta justamente sobre isso: está cedo demais para discutir a possibilidade de material novo com Kam?
Peter: Sim! Já temos umas 5 ou 6 músicas prontas, só precisamos dar aqueles últimos tapas e mandar para Kam, ver o que ele consegue fazer com isso! Tenho certeza de que ele vai tirar de letra! Acho que ele está bem animado com a possibilidade de participar do material novo. Não somos uma banda em tempo integral, mas ele vive disso, então espero que role de fazer o Benediction e o Massacre coexistirem.
Agora, o espaço é seu para mandar uma última mensagem para o seu público latino-americano e para os leitores da ROADIE CREW!
Peter: Só queria dizer que quem não for aos shows vai perder! Vão ser especiais, estaremos lá com o imbatível Kam Lee, uma união dos sonhos do death metal old school!
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