
Por Guilherme Goes
Fotos: Andre Santos
Certamente, a apresentação de estreia do Between the Buried and Me em São Paulo ficou marcada na memória de muitos headbangers paulistanos. Em 2020, o show deste importante expoente do metal progressivo moderno em conjunto com John Wayne, destaque da cena deathcore nacional, acabou se tornando o último encontro com a música pesada para dezenas de admiradores do gênero antes da pandemia. Naquele 15 de março, em meio ao caos provocado pelo cancelamento de praticamente todos os shows e eventos presenciais no Brasil, em decorrência da covid-19, a banda decidiu manter sua apresentação, apesar das incertezas e do clima de apreensão em torno da nova doença.
No dia 17 de outubro, o grupo retornou a São Paulo após seis anos, desta vez ao palco do Hangar 110, para apresentar The Blue Nowhere, seu décimo álbum de estúdio. O trabalho marca a estreia da banda pela gravadora InsideOut Music sem o guitarrista Dustie Waring, que integrou a formação em todos os discos lançados desde Alaska (2005). A turnê também passou pelas capitais do México, da Colômbia, do Peru, do Chile e da Argentina. Na capital paulista, o espetáculo foi realizado em parceria entre as produtoras NDP Productions e Powerline.
Naquele dia, diversos outros espetáculos de heavy metal aconteciam na cidade, com apresentações de nomes como Roy Khan, Hellbutcher, Gruesome e Noturnall. Ainda assim, o set dos mestres do prog contemporâneo contou com excelente procura, com a pista do tradicional clube punk rock próxima de sua lotação máxima. O cenário chamou a atenção especialmente quando comparado à passagem anterior do grupo pela cidade, que não chegou a preencher sequer metade da pista do Fabrique Club.

Iniciando a noite, o Abstracted subiu ao palco para representar o progressive death metal paulistano. Considerado um dos principais nomes dessa vertente na cena local, o grupo chamou a atenção também por sua formação pouco convencional: sem contrabaixo, o quarteto aposta em duas guitarras, bateria e teclados para construir sua sonoridade. A apresentação começou com Introspection – Ego Death, faixa de mais de 13 minutos de duração extraída do álbum de estreia, Atma Conflux, que evidenciou a combinação entre o peso característico do death metal e as elaboradas estruturas do metal progressivo.

Na sequência, a banda focou o repertório em Hiraeth, elogiado álbum lançado no início deste ano. Com Sirens, Axis e Languish, o grupo demonstrou por que o trabalho recebeu tamanha resposta dentro da cena: as composições impressionam pelo refinamento instrumental, com fraseados intrincados de guitarra, arpejos, passagens melódicas conduzidas pelos teclados e viradas complexas de bateria, acompanhadas pelo uso frequente do prato china. Os longos segmentos instrumentais eram tão elaborados que, em diversos momentos, o vocalista Rosano Matiussi deixava o palco para permitir que os demais integrantes assumissem o protagonismo.

Matiussi, aliás, foi um dos destaques da apresentação por seu carisma e pela interação constante com a plateia. Entre uma música e outra, o vocalista brincou sobre o conforto de poder executar composições tão extensas, além de revelar que abrir o show do Between the Buried and Me representava a realização de um sonho. Segundo o cantor, White Walls, importante single do disco Colors (2007), teve papel fundamental em sua formação musical. O frontman também demonstrou desenvoltura ao contornar um imprevisto técnico, quando seu microfone simplesmente parou de funcionar.

Para encerrar o set, o Abstracted voltou ao repertório de seu primeiro álbum com Decree of Sunlight. Ao todo, foram apenas seis músicas, mas suficientes para preencher mais de uma hora de apresentação. Com composições extensas, virtuosismo instrumental e uma abordagem que equilibra brutalidade e sofisticação técnica, o quarteto mostrou-se uma escolha absurdamente alinhada com a proposta da atração principal.

Pontualmente às 20h45, Tommy Giles Rogers (vocais e teclados), Tristan Auman (guitarra), Dan Briggs (baixo e teclados), Blake Richardson (bateria) e Paul Waggoner (guitarra e backing vocals), curiosamente ostentando uma camiseta do Corinthians, subiram ao palco com a difícil missão de destacar o extenso e virtuoso catálogo da banda em pouco mais de uma hora de apresentação. Sem queda de bandeiras, explosões de luzes, efeitos elaborados com máquinas de fumaça ou discursos ensaiados do frontman, o Between the Buried and Me apostou na música como principal protagonista para o início da festa. A introdução de Mirador Uncoil, faixa de seu novo álbum, ecoou pelos alto-falantes e deu início ao espetáculo. Na sequência, como um verdadeiro susto, veio Psychomanteum, também de The Blue Nowhere. Com cerca de 11 minutos, a composição alterna breakdowns devastadores, viradas complexas e vocais guturais com passagens inesperadas de piano e momentos de maior leveza. O resultado é uma combinação tão ousada de brutalidade e sofisticação que chega a desafiar até mesmo os padrões estabelecidos por nomes como Dream Theater.
Na sequência, o quinteto resgatou Fossil Genera – A Feed from Cloud Mountain, de The Great Misdirect. Com aproximadamente 12 minutos, a faixa começou com uma atmosfera quase cômica e bem-humorada, antes de mergulhar em uma sucessão caótica de riffs, blast beats e vocais extremos. A mudança abrupta de clima evidenciou a capacidade do grupo de transitar entre diferentes linguagens musicais sem perder a coesão. Além do virtuosismo da cozinha, chamou a atenção a presença de palco de Tommy Rogers, que pulava, dançava e gesticulava intensamente, como se conduzisse um discurso inflamado diante da plateia. Em seguida, Condemned to the Gallows, de Automata I, trouxe uma atmosfera futurista, introduzida por belíssimas passagens de piano antes de desembocar em uma avalanche sonora de bateria frenética e arpejos elaborados. Ao longo da composição, os vocais agressivos de Rogers deram lugar a linhas melódicas, reforçando o contraste entre os diferentes elementos que caracterizam a identidade musical da banda.

Já The Coma Machine, single de Coma Ecliptic, destacou a faceta mais teatral e melódica do grupo. Com passagens de piano entrelaçadas a riffs pesados e breakdowns poderosos, a faixa assumiu contornos quase operísticos dentro de sua estrutura progressiva. O refrão cativante encontrou eco na plateia que preenchia o Hangar 110, com diversos presentes cantando em alto e bom som. Logo depois, o quinteto voltou ao repertório de The Blue Nowhere com God Terror, composição agressiva que incorpora elementos do djent, e Absent Thereafter, que surpreendeu pela presença de influências de jazz fusion e de texturas eletrônicas integradas aos instrumentos tradicionais. Esta última também abriu espaço para que Dan Briggs demonstrasse a precisão e a inventividade de suas linhas de contrabaixo, um componente essencial para a complexidade rítmica do conjunto.

Encerrada a sequência de novidades, o grupo engatou Selkies: The Endless Obsession, clássico de Alaska. Aqui, o peso falou mais alto: em vez de longas digressões progressivas, a composição avançou como uma verdadeira marretada, sustentada por riffs afiados e tecnicamente intrincados, bateria explosiva e vocais rasgados que flertavam com a agressividade do deathcore/death metal técnico. Para equilibrar a crueza da faixa anterior, veio The Future Is Behind Us, de Colors II, que retomou a dinâmica característica da banda ao alternar passagens pesadas e melódicas. No bis foi a vez de Sun of Nothing e Silent Flight Parliament, duas composições monumentais, com aproximadamente 10 e 15 minutos de duração, respectivamente.

Repletas de mudanças abruptas de andamento, atmosfera e intensidade, as faixas soavam como verdadeiras jornadas musicais, nas quais diferentes ideias pareciam se desdobrar e se encaixar umas dentro das outras. Na reta final, o público, que até então acompanhava a apresentação com atenção absoluta, observando cada movimento dos músicos como se estivesse diante de uma aula, finalmente deixou a contemplação de lado e iniciou moshpits.

Certamente, foi um espetáculo impressionante, especialmente para quem encara a música com seriedade e busca experiências que vão além do convencional. O Between the Buried and Me é um grupo genial, que leva a criatividade aos limites e não cansa de surpreender. Ao longo do set, cada composição apresentava uma identidade exclusiva, gerando a sensação de que um novo caminho na faixa poderia aparecer a qualquer momento, com mudanças inesperadas de ritmo, atmosfera e intensidade. Como único ponto que poderia ter sido mais bem aproveitado, fica a ausência de um telão de LED com elementos visuais capazes de dialogar com as diferentes nuances das composições e ampliar a experiência sensorial do público. Ainda assim, diante do virtuosismo dos instrumentistas e da presença de palco cativante de Tommy, tal ponto seria um mero detalhe. No fim, foi uma experiência visceral e memorável para aqueles que apreciam a faceta mais complexa da música pesada.


Setlist Abstracted
Introspection – Ego Death
Sirens
Axis
Languish
Requiem
Decree of Sunlight

Setlist Between the Buried and Me
Mirador Uncoil
Psychomanteum
Fossil Genera – A Feed from Cloud Mountain
Condemned to the Gallows
The Coma Machine
God Terror
Absent Thereafter
Selkies: The Endless Obsession
The Future Is Behind Us
Bis
Sun of Nothing
Silent Flight Parliament
Goodbye to Everything Reprise

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