
Por Leandro Nogueira Coppi
Foto: Andre Santos
A contagem regressiva para o último capítulo da história do Sepultura nos palcos entrou em sua fase mais simbólica em 5 de novembro. Dois dias antes da apresentação que encerrará definitivamente sua trajetória ao vivo, a banda reuniu os fãs no Cine Joia, em São Paulo, para o The Last Ceremony, evento especial da turnê “Celebrating Life Through Death”, que antecedeu a despedida marcada para 7 de novembro, no Suhai Music Hall — inicialmente anunciada para a Mercado Livre Arena Pacaembu.
Anunciado em dezembro de 2023, o encerramento das atividades deu início a uma extensa turnê mundial, que levou o quarteto a diferentes países e transformou cada apresentação em uma oportunidade de celebrar seu legado. Em São Paulo, cidade que ocupa um lugar fundamental na história do grupo mineiro, a proximidade do último show conferiu ao encontro um significado particular: ainda não era a despedida definitiva, mas o penúltimo encontro com uma banda que ajudou a projetar o metal brasileiro internacionalmente.
A escolha do endereço também merece destaque. Inaugurado em 1952 como sala de cinema voltada principalmente à exibição de filmes japoneses, o Cine Joia, localizado na região da Liberdade, foi revitalizado em 2011 e transformado em casa de shows. Sua arquitetura preserva referências à antiga função cinematográfica, com destaque para o formato geométrico da construção, que remete a um diamante e também aparece no desenho das janelas da bilheteria. Com capacidade para aproximadamente mil pessoas, o espaço se consolidou no circuito musical paulistano, embora apresente algumas limitações para quem acompanha as apresentações.
Do lado de fora, as filas ainda eram extensas às 21h, horário previsto para o início do show. A demora no acesso acabou provocando um atraso considerável na apresentação, o que, por outro lado, foi providencial para quem ainda aguardava do lado de fora, evitando que parte do público perdesse os primeiros momentos. Um dos fatores que contribuíram para a lentidão foi a falta de um espaço físico adequado para organizar a entrada. No caso da fila destinada à imprensa e aos convidados, o acesso era particularmente complicado: era preciso subir dois lances estreitos de escada pela entrada lateral e, no pequeno patamar entre eles, confirmar o nome na lista com a equipe de produção, instalada em um espaço bastante limitado. O resultado foi um fluxo truncado, que tornou a espera ainda mais demorada.
Por dentro, o ambiente é bonito e aconchegante, mas o mezanino apresenta um problema considerável de visibilidade. Situado em um nível bastante elevado, acaba tendo vários pontos cego para quem não consegue ocupar a primeira fileira junto à grade. Basta alguém se posicionar à frente para comprometer seriamente a visão do palco. Nas laterais superiores, a situação é ainda mais complicada: dependendo do lugar, o sistema de som bloqueia completamente a visão do baterista e dos músicos posicionados em uma das extremidades do palco. São limitações que merecem atenção, sobretudo em uma casa que recebe apresentações de artistas nacionais e internacionais.

Deixando de lado as questões estruturais da casa, era hora de voltar as atenções ao que realmente importava: a pré-despedida de Andreas Kisser, Derrick Green, Paulo Jr. e Greyson Nekrutman, o Sepultura. Com a casa já lotada, o clima ferveu quando o som mecânico trouxe, em sequência, War Pigs, do Black Sabbath, e Polícia, dos Titãs, duas bandas que têm ligações importantes com a história do grupo. O público cantou ambas a plenos pulmões, especialmente a música dos Titãs, incorporada inúmeras vezes ao repertório ao vivo do Sepultura e gravada durante as sessões de Chaos A.D. (1993). Quando Derrick, Andreas, Paulo e Greyson surgiram no palco, o tradicional coro “Sepultura, Sepultura” emanou boas energias e abriu caminho para um começo cavalar, com uma sequência avassaladora formada por Arise, Dead Embryonic Cells e Desperate Cry. Três clássicos do excelente álbum Arise (1991), considerado por muitos — e me incluo nessa lista — o melhor da discografia do grupo. A resposta dos fãs foi imediata: rodas se formaram pela pista, com tamanha intensidade que parecia que o Cine Joia inteiro iria se movimentar.

Em seguida, banda e público mantiveram a temperatura nas alturas com o retorno a Beneath the Remains (1989), álbum representado por outros três petardos: a faixa-título, o hino Inner Self e Mass Hypnosis, que não aparecia no repertório desde 2019 e foi pedida em coro pelos thrash maniacs. Depois desse início de fazer pescoços sofrerem, com um repertório baseado na segunda formação clássica do Sepultura, composta por Max Cavalera, Iggor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Jr., Derrick Green dirigiu-se à plateia em português: “Muitos amigos, família, obrigado São Paulo!”. Agradecendo ao reconhecer diversas pessoas presentes, o vocalista estabeleceu mais um momento de proximidade com os fãs. Na sequência, chegou a hora de apresentar ao público paulistano uma das novidades da atual formação: All Souls Rising, primeira das novas músicas gravadas para o EP The Cloud of Unknowing e que marcou a estreia de Greyson Nekrutman em estúdio com a banda. Uma verdadeira porrada!

Uma das músicas mais queridas dos fãs da era Derrick Green, Kairos, veio em seguida. E, por falar no “Predador”, Andreas Kisser dedicou a ele um momento especial, dizendo: “Nosso irmão, nosso grande amigo, o cara que entrou no momento mais difícil, talvez, da banda: Mr. Derrick Green!”. Após o público ovacionar o vocalista com o merecido respeito, Andreas olhou para o parceiro e reforçou: “Você é foda, você é foda!”. Emocionado, Derrick recebeu mais uma demonstração de carinho da plateia.
Na sequência, Andreas chamou a atenção para um detalhe: “Vocês estão notando que ele está com uma guitarra na mão?”. E brincou: “Eu fui voto vencido nesta banda!”. Dito isso, Derrick fez dupla com Andreas nas guitarras em Mind War, única representante de Roorback (2003) no repertório e música que marcou seu retorno ao instrumento depois de bastante tempo.
A cena me fez viajar no tempo e recordar a estreia do simpático Derrick à frente do Sepultura, em 15 de agosto de 1998, na Arena Anhembi, durante o festival “Barulho Contra a Fome”, organizado pela própria banda. Naquele início de trajetória com o grupo, o frontman norte-americano também assumia a guitarra base em várias músicas, função da qual abriria mão pouco tempo depois. A lembrança daquele dia histórico de transição na carreira do Sepultura, do qual fui testemunha ocular, ganhou ainda mais força com a execução de Against, faixa-título do primeiro álbum gravado com Derrick nos vocais. Antes dela, o grandalhão agradeceu o público: “Vocês são do caralho! Muito obrigado, viu?”.

Na sequência, Andreas Kisser rasgou elogios ao apresentar Greyson Nekrutman. O baterista foi recebido com muitos aplausos e gritos de seu nome pela plateia. Em seguida, Kisser destacou o novo EP da banda e anunciou mais uma música do trabalho: a climática The Place. Aproveito para repetir algo que sempre faço questão de ressaltar quando escrevo sobre Derrick Green: a beleza de sua voz nos momentos em que canta de maneira mais suave, como nas passagens limpas e lentas dessa composição.
Quadra, último álbum completo de estúdio do Sepultura, foi representado por Means to an End. Uma pena que tenham deixado de fora Agony of Defeat, outra faixa que ilustra muito bem o que acabei de comentar sobre os vocais de Derrick e que, na minha opinião, é a melhor música do Sepultura desde que ele assumiu o microfone da banda.

A sequência seguinte trouxe mais uma trinca de músicas, desta vez dedicada a outro grande álbum, que em 2026 completa 30 anos: Roots. “Vamos tocar algumas coisas do Roots”, anunciou Andreas. A plateia foi à loucura e o guitarrista aproveitou para contextualizar a primeira música do bloco: “Essa música foi muito influenciada pelo Chico Science e a Nação Zumbi. Um cara sensacional, banda sensacional, e que chegou com um som único e toda essa influência de ritmos brasileiros. Então essa aqui tem um pouco de Chico Science nela. Não sei se vocês lembram, mas…”. Andreas se referia a Breed Apart, que abriu caminho para Attitude — iniciada com a introdução de berimbau reproduzida pelo som mecânico — e Dusted.

Depois de tanta porradaria, era hora de um pouco de calmaria para recuperar o fôlego, principalmente para quem estava na pista, participando dos circle pits, e para aqueles que se atreveram a subir ao palco e se arriscar no stage diving. Foi nesse clima que veio Beyond the Dream, a terceira das quatro músicas gravadas para The Cloud of Unknowing apresentadas naquela noite. Bonita e contemplativa, é considerada a primeira e única balada da carreira do Sepultura e caiu muito bem ao vivo. Antes de iniciá-la, porém, Andreas brincou com o público ao tocar o dedilhado inicial de Enter Sandman, do Metallica.

Daí para frente, um arsenal de clássicos transformou a pista em um verdadeiro caos. E a sequência começou justamente com o caos de Chaos A.D., representado por Territory e pela insana Biotech Is Godzilla. Relembrando os tempos em que era comum ouvir o Sepultura nas rádios, veio o cover de Orgasmatron, do Motörhead, gravado durante as sessões de Arise. Dessa vez, porém, Greyson se atrapalhou um pouco, e a música acabou sendo encurtada, abrindo espaço para outro sucesso de Chaos A.D., que encerrou a primeira parte do show: Refuse/Resist.
Em um dos intervalos desse bloco, o público aproveitou para entoar em coro: “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”. O recado pareceu ter endereço duplo: tanto o pai, Jair, quanto o filho, Flavio, que recentemente perdeu as eleições presidenciais. Em minha opinião, político nenhum merece ser lembrado em um show, mas, ao mesmo tempo, são todos dignos dos “elogios”.

O retorno para o bis começou com um solo de Greyson Nekrutman, que desembocou em Ratamahatta. Ainda de Roots, veio o encerramento da noite com o hino Roots Bloody Roots, recebido em coro pela plateia. Era o último encontro do Sepultura com os fãs antes da apresentação derradeira, marcada para este sábado, 7 de novembro, também em São Paulo.
Enquanto os músicos se despediam do público, distribuindo palhetas e baquetas, o som ambiente trouxe Easy Lover, sucesso de Philip Bailey. Depois de quase três anos de turnê de despedida, restava apenas cumprir o último compromisso: o show que encerraria definitivamente a trajetória do Sepultura nos palcos. E lá estaremos…

Arise
Dead Embryonic Cells
Desperate Cry
Beneath the Remains
Inner Self
Mass Hypnosis
All Souls Rising
Kairos
Mind War
Against
The Place
Means to An End
Breed Apart
Attitude
Dusted
Beyond the Dream
Territory
Biotech is Godzilla
Orgasmatron (cover do Mötorhead)
Refuse/Resist
Solo de bateria
Ratamahatta
Roots Bloody Roots

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