Por Antonio Carlos Monteiro
Fotos: Cristina Mochetti e Karina Mochetti
Já comentei algumas vezes aqui neste espaço como é interessante assistir shows em outro país. Com minha filha morando há alguns anos em Vancouver, na costa oeste do Canadá, aproveito as viagens em que vou “lamber a cria” para acompanhar algum show legal, já que sempre tem coisa que vale a pena acontecendo por lá. Assim, já pude assistir Rolling Stones em 2024 e Lynyrd Skynyrd no ano passado. Desta vez, a oportunidade era para conferir outro ícone do rock, AC/DC.
Desde dois dias antes já se sentia o clima rockeiro por lá, inclusive com uma pré-party rolando num teatro da cidade. Dava pra comprar merchandising, tirar fotos com sinos e canhões usados pela banda em cena e ainda provar o “thunderstruck”, drinque que leva curaçao blue, vodca (umas míseras gotas…), suco de limão e soda limonada. É um drinque mais bonito do que saboroso, mas tudo vale quando o assunto é festa! O mais legal de tudo: o acesso ao lugar era gratuito e não havia obrigatoriedade de consumir nada para participar. Mas claro que o cartão de crédito não sai incólume de uma oportunidade dessas…
Chegando ao dia do show, aparecemos no local com alguma antecedência para dar aquele confere na banda de abertura. E a primeira impressão que se tinha era que ia ser um fiasco de público. As filas para entrar eram mínimas, lá dentro praticamente ninguém comprava merchandising e menos gente ainda se abastecia de uma abençoada cerveja no nervoso verão canadense – dava até pra trocar uma ideia com o atendente.

Porém, mistério mesmo aconteceu quando fomos atrás dos nossos lugares. O setor da pista que havíamos comprado simplesmente não existia! Explicando: por lá todos os lugares, tanto na pista VIP como na pista comum, são com cadeiras, que se provam sensacionais na hora de esperar por um show começar. Procuramos um segurança que fez cara de “ué…”; chamou o chefe dele, que fez cara de “sei lá…”; aí veio o chefão da segurança. Simpático, sorrisão na cara, disse que aquele setor havia sido cancelado por “questões de segurança”. O que detectamos foi que havia uma estrutura de iluminação na frente de onde devíamos sentar, o que atrapalharia a visão. Como isso não era informado no momento da compra do ingresso, a chance de a produção receber uma pilha de processos era enorme, então nem abriram o setor. E aí que vem a diferença em se tratando de um certo país. Se no Brasil era capaz de a gente ser largado por lá e oferecido no máximo um endereço de e-mail pra tentarmos recuperar a grana do ingresso, no Canadá foi bem diferente. O segurança já avisou que a gente ia ficar num lugar “bem melhor”. Pegou uns ingressos e foi nos levando. Andamos, andamos, andamos… e fomos acomodados na 12ª. fila, na frente do palco! Mais ou menos uns 80 metros adiante do que era nossa expectativa inicial. Upgrade você vê aqui!

Devidamente acomodados, com um belo chope na mão e de camiseta nova (tinha jurado pra mim mesmo que não ia gastar mais; minha palavra durou menos de 15 minutos…), restava começar a aproveitar os shows. A abertura ficou por conta do The Pretty Reckless. Para quem, como este que vos fala, não conhecia a banda, trata-se de um quarteto (que ao vivo ganha o reforço de um aparentemente inútil segundo guitarrista) liderado pela vocalista Taylor Momsen, uma ex-atriz que se enveredou pelo rock e que tinha feito fama atuando na série teen “Gossip Girl” uns 20 anos atrás. Magérrima, faz aquele tipo “malvada-só-a-cabecinha” que não assusta nem minha avó, disparando ‘fuck!’ o tempo todo. Por outro lado, ela sabe cantar, arrisca uns drives bem colocados e anda/corre o tempo todo – nas 10 músicas que cantou, deve ter andado o equivalente a uma maratona. A banda tem lá seu peso e faz uns temas bem grudentos – imagine um L7 mais bonzinho e chegamos numa boa definição. Porém, a alma da banda é o guitarrista Ben Phillips – tanto que o melhor momento da apresentação foi um dueto/duelo com o também excelente baixista Mark Damon. A lamentar só o som do baixo e das guitarras, que ficaram embolados boa parte do show. Tocando para um estádio ainda em processo de enchimento, a banda saiu de cena aplaudida.

Um costume que felizmente está chegando ao Brasil e que é rotina no exterior é a pontualidade no início dos shows. Assim, às 20h30 (nem um minuto a mais ou a menos) uma divertida introdução nos telões, em que um muscle car invade o BC Place em alta velocidade, Brian Johnson, Angus Young, seu sobrinho Stevie Young (guitarra) e os “membros de turnê” Chris Chaney (baixo) e Matt Laug (bateria) invadiram o palco de um estádio a essa altura lotado (as facilidades de acesso e de movimentação dentro do lugar fazem com que a galera chegue em cima da hora) com If You Want Blood (You’ve Got It). Confesso que havia lido/ouvido vários comentários (inclusive de gente que entende bastante do assunto) dando conta de que a banda não era mais a mesma, que estavam raspando o tacho e que o cansaço imperava em cena. De todo modo, a expectativa era das melhores, já que estávamos ali para assistir a um verdadeiro ícone do rock, uma banda que escreveu um dos capítulos mais importantes desse gênero que move novas vidas. E me sinto na obrigação de desmentir esses caríssimos colegas e amigos. Claro que a performance de dois septuagenários (Brian tem 78, Angus, 71) não é a mesma de 40 anos atrás (esse milagre só Mick Jagger consegue), mas o fato é que vimos duas horas e 20 minutos de um show intenso, sem direito a descanso, sem baladas. Foi rock do começo ao fim, sem perdão.

Johnson continua com aquela pinta de tiozão bacana, sorriso sincero permanentemente estampado na cara, falando pouco com o púbico, mas levantando a multidão a cada intervenção, e cantando com muito mais acertos do que erros. Não foi uma apresentação irrepreensível – e isso é maravilhoso, estamos falando de rock’n’roll, pô! -, o componente humano tem que imperar e falar mais alto que tudo. Angus, por sua vez, já entra em cena com cara de cansado. É só a cara. O sujeito tocou como nunca, uma usina de riffs e solos e com a movimentação incessante de sempre. No momento de seu solo, em que engatou um tema de mais de 10 minutos acompanhado pela banda, Angus mostrou-se veloz, pesado (Matt Laug provou do que é capaz, um verdadeiro relógio suíço!) e com direito a se jogar no chão e continuar tocando – só nos poupou de mostrar a bunda… Agradecemos.

O resto da banda continua como sempre foi, exceto a falta de Malcolm Young. Stevie é um bom guitarrista base, mas Malcolm era excepcional. E a diferença ficou bem evidente no show. Já Laug e Chaney dão conta do recado com méritos – a cozinha, parte fundamental no AC/DC, permanece intacta.

Show do AC/DC a gente sabe como é: uma sucessão de clássicos, um atrás do outro. Nesse dia não foi diferente, claro. Logo na segunda música já veio Back in Black, o maior sucesso da banda. Foi uma catarse coletiva. Thunderstruck, em que Angus andou dando umas engasgadas em outros shows, saiu perfeita; Hells Bells viu o indefectível sino descer ao palco; Highway to Hell, com palco e telão em chamas, gerou outro “maior coral do mundo” e por aí foi. Shoot to Thrill, Jailbreak, High Voltage, Dirty Deeds Done Dirt Cheap, You Shook Me All Night Long, a sempre divertida e empolgante Whole Lotta Rosie e Let There Be Rock, que encerrou a primeira parte do show, foram alguns dos destaques numa apresentação coesa e uniforme. Após a manjada pausa que não cola mais, lá vêm eles de volta para uma dupla literalmente explosiva: T.N.T. e For Those About to Rock (We Salute You), com aquelas explosões que todo mundo sabe até o momento em que acontecem, mas que ainda surtem o devido efeito na galera.

Esse é mais um daqueles shows que todo mundo devia ser obrigado a assistir, nem que fosse apenas uma vez na vida. Toda a essência do rock está ali: guitarras pesadas, vocais gritados, cozinha pesada e precisa, riffs grudentos, refrãos pra cantar junto, solos empolgantes Pacote completo! E agradeçamos por termos tido a oportunidade de viver no mesmo tempo que esses caras e, portanto, de assistir a uma aula de rock’n’roll como só o AC/DC pode proporcionar. Essa é daquelas experiências que valem cada centavo gasto – até quando você se promete que vai fechar o bolso…
Setlist The Pretty Reckless
Death by Rock and Roll
Since You’ve Gone
Follow me Down
Only Love Can Save Me Now
For I Am Death
When I Wake Up
Make Me Wanna Die
Heaven Knows
Going to Hell
About You

Setlist AC/DC
If You Want Blood (You’ve Got It)
Back in Black
Demon Fire
Shot Down in Flames
Thunderstruck
Have a Drink on Me
Hells Bells
Shot in the Dark
Stiff Upper Lip
Highway to Hell
Shoot t Thrill
Sin City
Jailbreak
Dirty Deeds Done Dirt Cheap
High Voltage
Riff Raff
You Shook Me All Night Long
Whole Lotta Rosie
Let There Be Rock
Bis
T.N.T.
For Those About to Rock (We Salute You)

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