Por Fernando Queiroz
Fotos: Belmilson dos Santos
O Amorphis é uma banda diferenciada. Não que seja melhor que outras, não falo disso, mas simplesmente você não vai encontrar outra sequer parecida com eles – death metal melódico com elementos progressivos e folclóricos finlandeses. Esse som é único e característico, e isso sempre deixou a impressão de que eles têm menos notoriedade do que deveriam ter. Portanto, vê-los encher uma casa como o Carioca Clube, com tantos outros shows no mesmo final de semana, é motivo para se alegrar. Isso provavelmente se deve por sua participação como headliners do palco Sun no Summer Breeze Brasil 2024 (hoje Bangers Open Air), o que certamente impulsionou a popularidade dos finlandeses por aqui. Ainda bem!
Essa ocasião trazia algo a mais que da última vez. O show foi parte da turnê de Borderlands, não apenas um disco melhor que seu antecessor, Halo, mas também um dos melhores de 2025. Uma apresentação de uma hora e meia focada neste trabalho, junto aos clássicos, não poderia dar errado, concorda? Ainda mais se tratando de músicos de tão alto calibre. Bem, vamos conferir como foi!

Com pontualidade, às 20h, a banda de abertura subiu ao palco (vale dizer que não apenas o começo foi pontual, como a abertura das portas da casa foi até antecipada!). O nome escolhido para aquecer os ânimos foi o Throw Me to the Wolves, velhos conhecidos do público paulistano. Como já falei em ocasiões anteriores, às vezes eles não se dão tão bem abrindo para bandas que não têm nada a ver com sua música. Aqui, não foi o caso. O Amorphis, apesar de não podermos definir um gênero, faz parte do dito “metal extremo”, e esse é seu público. Era tiro certeiro! São músicos de muita qualidade e fazem um som pra bater cabeça, que casava bem com o evento. Seus cerca de quarenta minutos de show, dessa vez, realmente esquentaram o público. O que precisam ainda é acertar a mão no som; o volume estava extremamente alto, em alguns momentos quase ensurdecedor. Ficou claro, já no final de seu set, o incômodo quanto a isso, que não foi ajustado do começo ao fim. No mais, fizeram seu trabalho com maestria. Anunciaram, ao final, que iriam entrar em estúdio para finalizar seu novo disco. Com certeza merece uma conferida quando sair. Destaco sempre o vocalista Diogo Nunes como o que mais próximo temos aqui de um cantor no naipe death melódico sueco – claro, com suas particularidades. Saíram bastante aplaudidos para uma plateia que já ia enchendo o local.
Finalmente era hora da atração principal. Às 21h15, pontualmente, e com casa cheia, luzes se apagam e a cortina abre para a entrada dos finlandeses do Amorphis, de volta ao Brasil após dois anos. Dessa vez, vieram desfalcados. O baixista Olli-Pekka Laine não pôde estar presente nessa turnê, pois há alguém de sua família com problemas de saúde e ele não poderia ficar muito tempo na estrada, nem tão longe. Uma pena, pois ele é um músico de altíssimo calibre, e uma pessoa extremamente carismática. Em seu lugar estava, felizmente, alguém à altura, Pyry Hanski, atual membro do … And Oceans e Before the Dawn. Ótima escolha, e de fato funcionou bem nessa última data da turnê sul-americana.

Já de começo ficou clara sua abordagem: focar em músicas de seu disco mais recente, Borderland, um dos mais elogiados de 2025, inclusive em muitas listas de melhores do ano. Iniciaram com Bones e Light and Shadow, e foi interessante ver como o álbum caiu no gosto dos fãs. Todos cantaram ambas junto com a banda. Para não ficar só nas novidades, logo emendaram Silver Bride, primeiro clássico e uma das mais queridas dos fãs. Uma grata surpresa presente no repertório foi Death of a King, que pouco havia sido tocada nos últimos anos. Foi ótimo ter uma representação do disco Under the Red Clouds! Por outro lado, Halo, antecessor do petardo da atual turnê, ficou apenas com uma representante; uma pena, mas compreensível, já que não foi à época, e até hoje, um grande sucesso em comparação com outros de sua discografia.

Claro que musicalmente todos ali são impecáveis. Qualquer um que não seja conhecedor pode pensar que são duas vozes – uma gutural, outra limpa –, mas não, é apenas a impressionante técnica de Tomi Joutsen, a quem considero um dos melhores vocalistas do gênero extremo em atividade. Outro destaque é Santeri Kallio, cujos teclados dão o diferencial da banda, o que os distingue da maioria das outras do mesmo estilo; ele é um mestre dos efeitos sonoros “malucos”. O som muito bem equalizado e no volume correto também ajudou.

O público aprovou tanto performance quanto repertório, e quando tocavam tanto mais recentes, quanto algumas de sua época mais old school, como The Castaway e Black Winter Day, do antiquíssimo Tales From the Thousand Lakes, ninguém se sentiu entediado em momento algum! É uma banda que tem o público na mão. E, claro, terminar com uma dobrada de suas duas canções de maior sucesso comercial recente, House of Sleep e a progressiva The Bee, vem sendo um tiro certeiro. Quando a última nota tocou, dava a sensação de que poderiam ter tocado mais e mais que não ficaríamos cansados.

No fim das contas, com outra excelente apresentação, do mesmo nível ou até melhor do que a do Summer Breeze Brasil 2024, o Amorphis mostra que está consolidado como um dos grandes nomes do metal extremo e também do metal progressivo entre o público brasileiro. E a casa cheia em um domingo prova isso! Que voltem mais vezes – quem sabe novamente no Bangers Open Air ou em turnê com alguma outra banda finlandesa (como farão na América do Norte com o Insomnium). Opções não faltam e agregaria ainda mais para um já excelente espetáculo.

Setlist
Bones
Light and Shadow
Silver Bride
Wrong Direction
Death of a King
Fog to Fog
The Castaway
The Lantern
The Moon
Sampo
The Smoke
Black Winter Day
Dancing Shadow
House of Sleep
The Bee
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