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ASTHORETH: BRUXÓLICO [10/10]

ANTICHRIST HOLLIGANS DISTRO/DEJETO SONORO – NAC.

Sol, mar, verão, calor, praias lotadas, quarenta e duas praias, gente bonita, surf, baladas, carnaval, turistas, belezas naturais impressionantes, índices de violência supostamente menores do que nas grandes cidades brasileiras, qualidade de vida, terra de Gustavo Kuerten, Avaí e Figueirense. Para quem não nasceu ou viveu na capital catarinense, há uma possibilidade muito grande de estas serem as únicas coisas conhecidas sobre Florianópolis. Principalmente pelo fato de a mídia mainstream não ter contado até hoje três características culturais marcantes do lugar: um folclore local riquíssimo que, entre outros elementos, tem toda uma tradição sobre lendas e histórias de bruxas; o poeta Cruz e Sousa (1861 – 1898), maior nome do simbolismo no Brasil, que nasceu em Nossa Senhora do Desterro, nome original da Ilha de Santa Catarina; e, por fim, que apesar do lado colorido e festivo das palavras na abertura desta resenha, a região sempre teve uma importante – ainda que pouco conhecida no Brasil e no exterior – cena underground, com ícones da música extrema que mereciam ter ido muito mais longe do que jamais foram.

E alguns integrantes de grupos de black e death metal que formaram este cenário entre as décadas de 1980 e 1990 – como Necrobutcher, Stomachs, Osculum Obscenum, Darkness e Antichrist Hooligans – juntaram forças durante a pandemia e criaram o Ashtoreth. O quarteto soma várias influências do lado mais pesado e sombrio do heavy metal e com Bruxólico, seu primeiro lançamento, já é efetivamente um dos mais brilhantes nomes do doom metal nacional.

Antes de falar sobre as seis faixas do álbum é necessário citar o folclore da cidade, colonizada por açorianos a partir de 1747. As tradições dos imigrantes que vieram do arquipélago português de Açores, tornaram a cultura local cheia de lendas e histórias sobre misticismo, seres malignos e as temíveis bruxas, que habitaram a crença popular por mais de dois séculos até serem amplamente tratadas e estudadas na relevante e impactante obra de Franklin Cascaes (1908 – 1983), antropólogo, escritor, pesquisador, folclorista e gravurista nascido em Itaguaçu, bairro localizado na parte continental de Florianópolis.

Recomendo fortemente uma pesquisa na internet sobre os trabalhos dele, cuja importância para a capital catarinense é, ainda bem, muito preservada. A maior parte do acervo é, há muitos anos, administrada, estudada e divulgada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Museu de Arqueologia e Etnologia Oswaldo Rodrigues Cabral. Além disso, a Fundação Municipal de Cultura recebeu o nome de Cascaes. E, em 2017, o artista Thiago Valdí pintou na fachada lateral de um prédio entre as ruas Vidal Ramos e Tenente Silveira, na área central da cidade, com cores vivas um retrato com 34 metros de altura por 12 metros de largura, finalmente apresentando à população local e aos muitos turistas que frequentam Florianópolis o rosto de um dos gênios brasileiros que, lamentavelmente, continua fora do radar da mídia e das multidões.

Cinematográfico

Você deve estar se perguntando se vou escrever detalhes sobre a parte musical do Ashtoreth. Claro que sim! Fieis à tradição de várias bandas que influenciaram suas carreiras, os integrantes do grupo preferiram optar por pseudônimos. Deste modo, Meimendro Negro (que fez parte do Antichrist Hooligans, Caibalion e Osculum Obscenum) é o vocalista, a guitarra é tocada por Cerviciam (ex-Stomachs e Skombrus), Veneficum (ex-Necrobutcher e SRMP) toca baixo e Opium (ex-Debauchery e Darkness) é o responsável pela bateria.

E eles surpreendem logo em Convenção das Bruxas do Pântano do Sul, uma introdução de 5 minutos e 36 segundos (!!) com um clima, digamos, cinematográfico. Nela, rajadas de vento – certamente o famigerado Vento Sul que derruba até as mais fortes temperaturas de verão em Florianópolis e sua capacidade de gelar até as almas – se misturam com o som das ondas do mar. O ruído de sapos, grilos e outras criaturas noturnas traz um cântico quase tribal e uma sussurrada voz feminina recitando um sombrio ritual pagão. Impossível não lembrar da trilha incidental de Ilha das Bruxas, minissérie produzida e exibida pela extinta TV Manchete em 1991 e que também retratou as lendas de Florianópolis.

A partir da abertura do álbum, o peso arrastado de Lua Errante e a voz rouca de Meimendro Negro guiam o ouvinte para um profundo e, aparentemente sufocante, poço onde o doom metal toma conta de modo quase hipnótico, enquanto o vocalista recita “Sob o mistério da Lua Errante / Se esconde uma clareira / Se vê elas dançantes, faceiras / Bruxas velhas a gargalhar”, enquanto os riffs de guitarra se sucedem, os versos continuam e você se pega esperando o momento em que o ritmo vai ganhar mais velocidade e agressividade. De modo surpreendente, ainda bem, isso não acontece. Até o final a batida é constante e docemente angustiante.

Com a participação do multi-instrumentista nascido em Cabo Verde Jeff Nefferkturu, o Ashtoreth traz logo na sequência a contundente Serpente nos Cabelos. Eu que tenho severas restrições às músicas muito extensas me rendi totalmente aos 12 minutos e 57 segundos em que um clima de música oriental, vocais sussurrados e arranjos contidos de bateria, porém essenciais para a estrutura da canção, represam durante quase seis minutos uma massa sonora que é uma verdadeira aula sobre a não necessidade de blast beats e vocais from hell para se alcançar o metal verdadeiramente pesado.

O envolvimento da banda com a cultura catarinense se mostra ainda mais engajado em Majestade Caída/Visão. A faixa une duas das melhores criações de Cruz e Souza, que citei lá no parágrafo inicial, publicadas nos livros Broquéis (1835) e Faróis (1900). Enquanto os poemas são interpretados de modo quase que aterrorizante, ao fundo não há música agressiva, mas um clima macabro, com ruídos e arranjos fantasmagóricos como em uma trilha sonora de um grande filme de horror. Imagine essa sonoridade ao fundo de versos como “De ironias o momo picaresco / Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem / Verdes gengivas de ácida salsugem / Mostra e parece um Sátiro dantesco” ou “Seja bendito esse clarão eterno / De sol, de sangue, de veneno e inferno / De guerra e amor e ocasos de saudade…”.

A ótima O Menestrel e o Oceano abre a reta final de Bruxólico. O peso é tão denso e instigante quanto uma discreta e curta mudança de andamento onde o quarteto parece provocar a audiência, que talvez anseie em vão por um ataque sonoro dos tradicionais moldes a la Morbid Angel ou Krisiun, mas que continuará recebendo o arrastar estonteante e asfixiante do doom metal. Em O Retorno de Lucifer, o álbum é fechado como outra massa sonora tão questionadora e assustadora como os contos de H.P. Lovecraft (1890 -1937). Ainda que não exista em Bruxólico nenhuma referência explícita à obra do escritor norte-americano, não consegui parar de pensar em Necronomicon, O Chamado de Cthullu, Nas Montanhas da Loucura ou Um Sussurro nas Trevas.

Duvido que as bruxas açorianas se encontrem com Abdul Al Hazred, Dexter Ward, Dagon ou os Grandes Antigos. Mas eu não estranharei nem um pouco se isso ocorrer nos próximos dois álbuns que o Ashtoreth deve lançar para fechar a trilogia aberta com seu marcante registro de estreia. Não hesite em procurar nas plataformas digitais a magistral junção de doom, occult rock, black metal, industrial e dark ambient forjada pelo grupo. Mas também vale muito adquirir o CD físico, cuja capa e o encarte trazem mostras das obras de Cascaes e a temática das lendas e mistérios da Ilha de Santa Catarina que, até então, jamais foram tão bem interpretadas e divulgadas.

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