AVANTASIA – SÃO PAULO (SP)

29 de novembro de 2025 – Vibra SP

Por Fernando Queiroz

Fotos: Andre Santos

Dois shows de uma banda alemã, em uma mesma cidade, num intervalo de apenas sete meses. “Pode isso, Arnaldo?” Para o Avantasia, sim!

Após serem headliners do Bangers Open Air, em maio, Tobias Sammet e seus comandados voltaram, com algumas mudanças, a São Paulo em novembro para uma apresentação solo. A promessa era mais tempo de show, algumas diferenças no line-up e músicas não apresentadas no maior festival da América Latina – apresentação essa já épica e longa, mas que deixou de fora alguns clássicos pelo limite de tempo estabelecido para um festival. Agora, com duas horas e trinta minutos de tempo no palco, tocando única e exclusivamente para seus fãs, podiam pintar e bordar no setlist. Foi o que fizeram.

É bem verdade que esse supergrupo já foi mais “super”. Para uma banda que contou com Kai Hansen, Michael Kiske e Jorn Lande dividindo o mesmo palco, ter os nomes que tem hoje é, comparando com futebol, um certo “rebaixamento” (não citarei o saudoso Andre Matos entre esses pois, infelizmente, sabemos que não está lá por motivos de força maior). Mas mesmo times de Série B do Brasileirão podem fazer um bom jogo, assim como bandas com membros menos expressivos podem mostrar excelente música, e ótima performance. Será que o Avantasia conseguiu isso?

A banda veio a campo (ou ao palco) com uma escalação relativamente desconhecida dos fãs: Herbie Langhans (ex-Firewind), Kenny Leckremo (H.E.A.T.), Chiara Tricarico (Moonlight Haze), Ronnie Atkins (Pretty Maids), Adrienne Cowan (Seven Spires) e Tommy Karevik (Kamelot) nos vocais; além, claro, do grande nome do projeto, o líder e único compositor Tobias Sammet (Edguy). Como instrumentistas, tínhamos o já conhecido Felix Bohnke, baterista parceiro de Tobias no Edguy, o lendário produtor de inúmeras bandas conhecidas do cenário power metal Sascha Paeth em uma das guitarras e Michael “Miro” Rodenberg no teclado, três nomes que estão desde os primórdios com o projeto. André Neygenfind e Arne Wiegand completam a formação no baixo e na guitarra, respectivamente.

Conhece muitas dessas pessoas? Se você falar que não, é compreensível. São todos grandes músicos, ótimos vocalistas, mas não são mais aqueles nomes de peso de outrora – exceto, talvez, Tommy, que faz muito sucesso com o Kamelot –, com todo respeito e admiração a eles, que fazem exímio trabalho.

Bem, por conta disso, principalmente, e por já terem se apresentado no país há menos de um ano, esse foi facilmente o show menos cheio que já vi do Avantasia – e já acompanhei alguns (menos cheio, mas longe de estar vazio, vale frisar). Quem, por estes motivos, não foi, creio que vá se arrepender. Tobias já avisou que esse foi o último show do projeto na América Latina por um “longo tempo”, tanto em fala durante o show como em entrevistas. Aliás, o carismático cantor é impecável com palavras quando conversando com a plateia, e falaremos disso logo mais.

A casa escolhida para o show foi o Vibra São Paulo, local que antigamente se chamava Credicard Hall, e provavelmente você, fã de metal melódico, de onde quer que seja, já viu o interior dela: foi onde o Shaman gravou seu icônico Ritualive e o Edguy filmou seu DVD ao vivo Fucking With F***: Live in São Paulo. O primeiro show do Avantasia no país foi lá também – ou seja, Tobias tem história ali; faria sentido esse “último show por um longo tempo” aqui ser em tão emblemático palco.

Para quem ficou na fila desde cedo, tivemos uma excelente trilha sonora! A banda Steel Tormentor, Helloween Cover, fez uma apresentação no bar do Vibra, que fica no terreno da casa, em frente à entrada. Valeu a pena ficar, pois foi realmente divertido, e nada melhor que ouvir um som dos pais do power metal na espera de um show de outro dos maiores nomes do gênero! Bem melhor que cada um no seu grupinho ouvindo músicas na caixinha de som, uma embolando com a outra e criando uma cacofonia chata para quem não está em nenhum grupo do tipo.

Sem percalços e com pontualidade, às 19h tranquilamente todos entraram e se acomodaram – do jeito que dava – na pista, que foi única, sem a famigerada “pista premium”, “pista VIP”, ou seja lá como chamem. Nem haveria porquê ter problemas, já que demorou até o local ficar realmente cheio. E mesmo com todos lá dentro, era fácil transitar entre as pessoas, já que o público estava espalhado quando se ia mais para trás, apenas mais à frente começava a ficar apertado. De fato, estava um ambiente bem agradável para quem só queria curtir de boa.

Há um porém a ser mencionado: o intervalo de duas horas entre a abertura ao público, às 19h, e o início do show, às 21h, foi um pouco demais. Cansativo.

Às 21h cravado, as luzes se apagam e Tobias e sua trupe surgem em cena – num palco simples, sem todo o cenário elaborado que tivemos em algumas outras apresentações, mas com um bonito telão atrás com imagens de cada álbum da banda conforme iam tocando as músicas ou algumas temáticas. No geral, muito bem feito. Visualmente, não há o que criticar, sempre temos a sensação de estar participando de uma apresentação teatral, e isso é o cerne do Avantasia. Que continue assim.

Começaram com Creepshow, faixa de abertura de seu último álbum Here Be Dragons, apenas com Tobias cantando e, há de se dizer, ficou perfeita para um começo de show, como já tínhamos visto no Bangers Open Air. Infalível. A música realmente pegou para os fãs, que cantaram junto. Na sequência, voltamos mais de vinte anos no tempo com Reach out for the Light, do primeiro The Metal Opera, dessa vez com Adrienne Cowan nos vocais, em dueto com o líder da banda. A química entre ambos é ótima, e a cantora parece bem à vontade performando ao lado de Sammet.

A sequência seguinte de The Witch, Devil in the Belfry, Phantasmagoria e Against the Wind, com Tommy Karevik, Herbie Langhans, Ronnie Atkins e Kenny Leckremo, respectivamente, mostra que, ao mesmo tempo que querem apresentar o novo disco, não deixam o passado de lado, passeando por todas as fases da história do projeto. Também serviram como apresentação de cada um dos vocalistas, que voltaram, em vários momentos, a dividir o microfone com Tobias – muitas vezes até mesmo sem ele no palco, como no caso de Twisted Mind, The Wicked Symphony, Shelter from the Rain e Promised Land, todas já mais para o meio do show, nas quais os cantores convidados fizeram duetos entre si. Confesso que foi estranho ver tantas partes sem ele ali em um show de um projeto que leva seu nome, Tobias Sammet’s Avantasia.

Todos esses vocalistas no palco, dividindo músicas entre si, nos levam a um ponto complicado: como não há uma formação fixa na banda, cada turnê conta com cantores diferentes, em muitos casos fazendo partes que não foram eles que gravaram – às vezes, até mesmo dentro de uma mesma tour há mudanças. Isso causa estranheza, e em alguns casos não fica tão bom (em outros, fica até melhor, vale dizer), como, por exemplo, algumas partes em que Tommy Karevik canta canções muito diferentes do que ele é acostumado. Não dá para dizer que as partes gravadas por Michael Kiske ficam realmente boas com ele – não prejudica o todo, mas falta o brilho do cantor do Helloween; ou Kenny Leckremo, que embora exímio vocalista no H.E.A.T., não se sai tão bem em muitas do Avantasia, em especial as mais clássicas.

Quem nunca decepciona, porém, é Ronnie Atkins – esse é impecável em todos os casos, e vale lembrar que ele luta contra um câncer em estágio avançado há anos! Herbie Langhans é outro destaque – o ex-vocalista do Firewind tem ótima performance técnica, consegue se sair bem em todas as faixas e apesar de não tentar ser protagonista ali, sua voz potente rouba a cena. Ambos cantores que deveriam ter mais destaque em suas carreiras, e depois de vê-los ao vivo algumas vezes só consigo crer que terão, em algum momento, esse maior reconhecimento, mesmo que tardio, em especial Ronnie, que está há mais tempo na estrada que todos ali presentes (o Pretty Maids data do começo dos anos 80 e é uma das pioneiras do metal na Escandinávia). E Tobias, bem, assisto shows dele desde 2006, e é inegável sua evolução ao longo dos anos. Outrora, ele tocava muitas músicas tons abaixo ao vivo, e hoje faz tudo na tonalidade original e sem playbacks ou overdubs – de nenhum instrumento, vale dizer, como ele mesmo destacou no palco.

Outra coisa não muito legal foi que apenas no fim da apresentação, pouco antes do bis, a excelente cantora Chiara Tricarico teve algum holofote, na canção Farewell. Tobias poderia – e deveria – aproveitar mais as vocalistas mulheres que tem consigo, que sem dúvidas se sairiam muito bem, por exemplo, cantando a faixa que dá nome à banda. Nesse caso, falo de ambas presentes, pois Adrienne também é pouco aproveitada, e quem conhece seu trabalho no Seven Spires sabe que ela merece mais tempo no palco e mais presença nas músicas antigas. Em um momento que cada vez mais mulheres se tornam protagonistas no heavy metal, Tobias faria bem em utilizá-las mais, pois quando aparecem fazem a alegria de todos com suas vozes.

Lembra que falei que Tobias é exímio em palavras? Isso é algo notório! Entre as canções, ele agradecia o público, falava com as pessoas, fazia piadas. É um showman! Mas suas palavras, sempre muito leves, às vezes trazem más notícias: como disse anteriormente, o cantor anunciou que esse seria o último show da banda por aqui por um longo tempo, mesmo afirmando que o Brasil é um de seus lugares preferidos no mundo – e sabemos que isso não é mentira, visto que ele já gravou DVDs aqui e fez diversos shows ao longo de quase 30 anos, seja com o Avantasia, ou com o Edguy. Se essa ausência vai se concretizar, veremos.

A parte mais emocionante de suas palavras foi na volta para o bis. Citando Andre Matos, levantou uma camiseta com o rosto do lendário vocalista brasileiro e o chamou de “o melhor vocalista que a América Latina já teve” – e o público concordou, com coros de “Andre, Andre!”. Tobias então anunciou a música No Return e disse que Kenny faria jus ao nosso eterno ídolo brasileiro. Realmente, ele fez bem, mas não vou dizer que senti exatamente que fez jus, pois são estilos de canto muito diferentes. Ficou faltando algo. Novamente, toco na tecla das mulheres e não tenho dúvidas que Chiara ou, especialmente, Adrienne teriam feito essa parte de forma muito mais fiel ao que foi gravado pelo Maestro, principalmente por conta de timbre e tessitura.

Chiara foi ter outro destaque em Lost in Space, single que originou o álbum The Scarecrow, gravado por Amanda Somerville. Adrienne, porém, não teve esse segundo destaque. Uma pena. Todos então vêm ao palco para a saideira, o medley de Sign of the Cross com Seven Angels, como é padrão em quase todos os shows deles.

Afinal, um show sem surpresas e com aquilo que se espera do Avantasia: qualidade. Nunca decepcionam, mesmo com uma formação “Série B”. Tobias Sammet tem enorme feeling para reunir grandes músicos!

Sim, eu tenho alguma resistência quanto a Tommy Karevik em muitas partes e ainda mais a Kenny Leckremo, mas apesar disso não posso dizer que fizeram um trabalho ruim. O ponto baixo mesmo foi a pouca presença de Adrienne e Chiara – novamente, Tobias deveria aproveitar as maravilhosas vocalistas que tem à disposição! Se Amanda Somerville na época em que estava na banda tinha esse destaque, as duas atuais deveriam também ter. Não consigo entender deixar ambas “de escanteio”.

Se Tobias vai mesmo demorar para voltar com o Avantasia para o Brasil, como eu disse, veremos, e vamos ver também com qual formação será essa volta. De toda forma, sabemos que será com outros músicos, outros cantores, que tenho certeza que tão bons quanto os atuais. E quem sabe teremos a volta dos grandes nomes, aqueles de “Série A”, sejam quais forem, não? Tenho certeza de que ele consegue isso! Para quem os viu nesse fim de novembro, porém, mais um show memorável para a conta, com longas duas horas e trinta minutos de duração. Afinal, se tem uma coisa que Tobias Sammet sabe fazer, são apresentações memoráveis.

Setlist

Creepshow

Reach out for the Light

The Witch

Devil in the Belfry

Phantasmagoria

Against the Wind

Dying for an Angel

Avalon

Promised Land

Avantasia

Let the Storm Descend Upon You

The Toy Master

Twisted Mind

The Wicked Symphony

Shelter from the Rain

Farewell

The Scarecrow

No Return

Lost in Space

Sign of the Cross/Seven Angels

Clique aqui para seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp

Compartilhe:
Follow by Email
Facebook
Twitter
Youtube
Youtube
Instagram
Whatsapp
LinkedIn
Telegram

MATÉRIAS RELACIONADAS

DESTAQUES

ROADIE CREW #291
Março/Abril

SIGA-NOS

59,2k

59k

17k

1k

24,4k

Escute todos os PodCats no

PODCAST