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BEHEMOTH / GENOCÍDIO – 8 de dezembro de 2019, São Paulo/SP

Tropical Butantã – São Paulo/SP

Alguns eventos mostram logo de cara que foram planejados por pessoas que entendem do assunto. Afinal, escolher as bandas que farão parte de um evento nem sempre é tarefa das mais simples, pois existem muitos fatores para levar em conta. O que você quer com um determinado show? Mesclar o máximo possível de gêneros correlatos, para assim atrair os mais variados públicos em uma mesma noite? Manter o evento o mais fiel possível a um gênero específico, e ganhar com o público fiel daquele estilo musical? No fim das contas, o que realmente importa é que você tenha bandas que consigam ‘apoiar’ a musicalidade uma das outras, de forma a transformar uma noite de show em uma noite de shows memoráveis.

Levando isso em consideração, uma banda como o polonês Behemoth pode ser o sonho ou o maior pesadelo de um organizador de shows. Fundada no início da década de 1990 em Gdansk, a banda eternamente liderada pelo vocalista/guitarrista Nergal é tradicionalíssima entre os fãs de metal extremo, nasceu no mais ríspido e puro black metal, forjou alguns clássicos no estilo, e não muito depois começou a dar ‘guinadas’ estilísticas que levaram sua música para um lugar único, difícil de rotular, mas sempre extrema. E sempre fiel às suas convicções.

E é justamente neste ponto que eu queria chegar quando fiz a minha primeira afirmação neste texto. Dentro do cenário nacional, que outra banda poderia ser mais adequada para estar ao lado dos poloneses do que o GENOCÍDIO? Mesmo que musicalmente distintas, muitas são as semelhanças entre a jornada das bandas. Veja, fundada ainda na gloriosa e sempre louvada década de 1980, a banda iniciou praticando o mais violento e cru metal extremo que você poderá supor, e os fenomenais atos de insanidade contidos em Genocídio (1988) e Depression (1990) figuram entre o que há de mais violento na música brutal do nosso país. Porém, com o passar do tempo, a música foi ganhando novas texturas e cores, Hoctaedrom (1993) e Posthumous (1996) já mostravam uma banda diferente, e álbuns incríveis como os recentes In Love With Hatred (2013) e Under Heaven None (2017) mostraram uma banda ainda sem amarras, sem vergonha do passado e sem medo de evoluir, e como dito antes, uma banda fiel às suas convicções. Como sempre haveria de ser.

As bandas escaladas para esta noite incrível em São Paulo não foram escolhidas ao acaso, e mesmo que a apresentação do MANTAR não tivesse sido cancelada (a banda encerrou a janela de show de 2019 pouco tempo antes), seria outra a representar o mesmo ideal de música livre e criativa.

E, seguindo à risca o horário programado, o GENOCÍDIO tomou o palco para iniciar a noite. Vale lembrar que esta foi a primeira apresentação da nova turnê do grupo, a Till ’96, que, como o nome indica, busca revisitar o brilhante catálogo produzido por eles até 1996, ou seja, os quatro primeiros – e clássicos, citados anteriormente – álbuns dessa jornada de mais de trinta anos de estrada. Convenhamos, a ideia é simplesmente incrível. Muitos de nós nunca tiveram a chance de acompanhar um show daqueles primeiros anos do Genocídio, e a simples ideia de poder ver e ouvir todos aqueles clássicos sendo ‘chutados’ na nossa cara, por uma banda ainda mais experiente e afiada que outrora, é simplesmente irresistível demais para se deixar passar. E assim, lá estavam eles, Wanderley Perna (baixo, que um dia eu já chamei de William Perna, lembram?), César Leite (bateria), Wellington Simões (guitarra) e Murillo Leite (voz/guitarra). Eles, um público já muito grande e um repertório ainda maior, para um show – infelizmente – muito curto. O GENOCÍDIO dispôs de cerca de meia hora para plantar a semente maldita de sua música em nossas almas, e acho que não sou o único neste momento desejando uma chance de ver e ouvir mais do que esses caras tem a nos oferecer.

Por outro lado, a atração principal da noite, o BEHEMOTH, pode aproveitar de um set maior e de toda a empolgação que isso pode gerar no público. Convenhamos, tudo aquilo que falamos anteriormente sobre a banda apenas reafirma as muitas razões para estarmos diante de um Tropical Butantã lotado, gritando eufórico enquanto a introdução Solve rolava nas PA’s. Estar diante de uma das grandes lideranças do metal extremo em todo o mundo não é tarefa das mais rotineiras, e todos ali estávamos esperando não menos do que um show perfeito.

Com um aspecto visual trabalhado com esmero, Inferno (bateria), Orion (baixo/backing vocals), Seth (guitarra/backing vocals) e Nergal (guitarra e voz) começaram a tempestade báltica com a infernal Wolves Ov Siberia, uma das músicas mais intensas e violentas do novo álbum (I Loved You At Your Darkest, 2018), e que tinha ganhado um videoclipe oficial apenas dois dias antes. Mas uma apresentação inesquecível não se faz apenas com novos sons (por mais que eles sejam incríveis), e logo na sequência os poloneses despejaram sobre nossas pobres almas a fúria causticante de Daimonos, uma das faixas mais bem conhecidas do fantástico e hoje clássico álbum de 2009, Evangellion. O álbum, que celebra o seu aniversário de uma década, ainda teria outras duas músicas executadas na noite, mas teríamos que esperar.

A vez agora era de Ora Pro Nobis Lucifer, e nesse momento eu já quase não cabia em mim de empolgação. Duas das minhas músicas favoritas em sequência, como assim, Sr. Nergal? Para fazer as almas voltarem para os corpos e então mergulharem de vez no enxofre e no fumo negro do Hades, foi a vez da climática Bartzabel, outra do mais novo álbum, e que contou com uma recepção extremamente calorosa, mesmo que tenhamos quase sido colocados para dormir com o som da bateria no início da música… Que banda incrível, meus amigos! Enquanto clássicos iam surgindo e sendo louvados como em uma missa negra comandada por um sacerdote muito habilidoso, havia uma certa tensão no ar, como se todos esperassem para ouvir ao vivo pela primeira vez por aqui a sensacional e provocativa God = Dog, e foi realmente incrível o impacto que ela teve nos presentes. Sempre considerando a sua música como uma parte de toda uma arte ainda mais abrangente, tudo parecia pensado para causar um impacto específico, cada veste, cada raio de luz, tudo, em cada detalhe nos dizia que o que víamos era mais que um show.

E era. Tratava-se de uma cerimônia. De uma celebração das almas perdidas.

O ‘padre’ Nergal não parecia se cansar. Com a mesma empolgação demonstrada nas primeiras músicas, o show ia ganhando números finais com a execução de outros clássicos das antigas, com Slaves Shall Serve (Demigod, 2004) e Chant for Εσχατον 2000 (Satanica, 1999) puxando a fila e fazendo as honras da casa do demônio. Nenhum de nós queria que essa apresentação incrível terminasse, mas o Behemoth precisava seguir adiante em sua agenda, e assim nos despedimos da banda enquanto os últimos acordes de We Are The Next 1000 Years e o fechamento com Coagvla soava nas PA’s. Alguns dias antes, em entrevista para a ROADIE CREW, Nergal havia prometido que este seria um show especial e inesquecível. Tarefa cumprida, obrigado Behemoth!

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