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Live Evil

BRUCE KULICK

Teatro Odisseia - Rio de Janeiro/RJ, 6 de março de 2016

Poucas bandas têm fãs tão passionais como o Kiss, por isso costumo dizer que a banda tem dois melhores guitarristas em sua história. Um é o da emoção, e o outro, da razão. Este último atende por Bruce Kulick, que pela primeira vez se apresentou no Rio de Janeiro. Pronto. Já temos motivos suficientes para relevar algumas coisas e celebrar a presença do cara que foi peça fundamental na engrenagem do quarteto em quase todo o período sem maquiagem – tirando o fraquíssimo “Hot In The Shade” (1989), Kulick gravou discos acima da média, “Asylum” (1985), “Crazy Nights” (1987) e “Carnival Of Souls” (1997); um espetacular, “Revenge” (1992); está imortalizado em “Alive III” (1993) e “MTV Unplugged” (1996); e antes de tudo isso já havia deixado a sua marca: são dele os solos de “Lonely Is The Hunter” e “Murder In High Heels”, do ótimo “Animalize” (1984).

Ok, é desnecessário repassar o currículo do guitarrista, principalmente no Kiss, mas é esta exatamente a questão: Kulick merecia uma banda de apoio melhor do que o Parasite Kiss Cover, banda do Rio Grande do Sul. Tudo bem, quando não está com o Grand Funk Railroad, ele toca ao redor do mundo com bandas locais. Sim, o critério para a escolha da banda é local, mas existe algum poder de veto? Se não existe, deveria. É louvável o esforço de Felipe Piantá, Fernando André dos Santos, Erico Soares e Patrick Vargas para reproduzir roupas, instrumentos e, principalmente, trejeitos de Paul Stanley, Ace Frehley, Gene Simmons e Peter Criss – a bem da verdade, os trejeitos de Eric Singer com a habilidade de Criss. Mais do que paixão, requer investimento financeiro.

Bom, do início com “Creatures Of The Night” ao encerramento com “Black Diamond” houve uma sequência consideravelmente negativa de notas na trave, batidas fora do tempo (como o cowbell em “Deuce”, algo bem simples), vocais fora do tom e outras bolas fora. Mas sejamos justos: Erico Soares saiu sem arranhões, com um vocal agradável e surpreendentemente bem próximo do Demon. Não foi um desastre total, obviamente, porque foram escorregões pontuais, mesmo que numa música sim, noutra também. Mas a decepção também é justificada pela expectativa por “um dos melhores covers do Kiss no Brasil”, com quase 20 anos de existência.

E também não foi um desastre total porque depois de oito músicas subiu ao palco Bruce Kulick. E a experiência, o talento e a presença do guitarrista fizeram valer a pena o público que não lotou a acanhada casa de shows na Lapa, mas compareceu em número razoável e soube fazer barulho – “Ah, vocês viram o vídeo do show de São Paulo que postei no Facebook”, disse Kulick ao ser recebido pelo coro de “olê, olê, olê! Brucê! Brucê!” E “Heaven’s On Fire” foi apenas um cartão de visitas, apesar de ser um daqueles hits oitentista irresistíveis do Kiss, porque o que veio a seguir foi de estampar um baita sorriso no rosto de qualquer fã.

Era nítida a satisfação de Kulick ao tocar “Domino” – foi ele quem gravou o baixo na versão de estúdio –, e foi uma satisfação para o público ouvi-lo e vê-lo tocar “Tears Are Falling”. Que solo maravilhoso! Não que seja tecnicamente complicado, porque não precisa disso. É bonito, melódico, com todas as notas no lugar certo. “Hide Your Heart” e “Forever”, duas das quatro músicas (em 15!) que se salvam em “Hot In The Shade”, entram no time de “Heaven’s On Fire” e “Tears Are Falling”, respectivamente – a primeira é um hit pegajoso, e a segunda tem um dos mais belos solos do guitarrista.

“Sombria e pesada”, como ressaltou o próprio Kulick, foi o oposto perfeito para o melhor momento da noite: a dobradinha em forma de medley “Crazy, Crazy Nights” e “Turn On The Night”. Provas de que o Kiss se sobressaía quando acertava a mão ao fazer uma farofa, as duas músicas de “Crazy Nights” têm daqueles refrãos espetaculares uma aura totalmente positiva – e a primeira, mais um dos grandes solos do guitarrista. Infelizmente, a parte do show com músicas apenas da era Kulick chegava ao fim com “God Gave Rock ‘N’ Roll To You II”. “Este é o meu hino no Kiss”, disse o dono da noite. E ele tem razão. Os fãs cantaram o refrão com vontade, e as imagens do clipe da música no telão – uma boa sacada do Parasite Kiss Cover em todo o show, é bom ressaltar – deram um ar emotivo graças às cenas do passado e, principalmente, de Eric Carr.

Dava para encaixar mais algumas joias, como “Who Wants To Be Lonely”, “I’ll Fight Hell To Hold You”, “I Just Wanna” ou “Take It Off”, mas é compreensível que a apresentação terminasse com clássicos pré-Kulick. Mesmo a desnecessária “Lick It Up”, que pela reação do público ainda não ficou cansativa. Como nunca ficarão “Detroit Rock City” – com seu solo devidamente “cantado” pelos fãs – e “Rock And Roll All Nite”, “o hino do Kiss, o hino do Rock”, segundo o próprio Kulick. Entre mortos e feridos, o saldo foi positivo ao menos porque eram as mãos originais tocando os solos de “Tears Are Falling”, “Crazy, Crazy Nights”, “Forever”, porque bastava apenas a presença de Bruce Kulick. Você sabe, poucas bandas têm fãs tão passionais como o Kiss. Só é preciso acrescentar um pouco de razão à paixão.

Setlist
Parasite Kiss Cover
1. Creatures Of The Night
2. Deuce
3. Love Gun
4. Let Me Go, Rock ‘N Roll
5. War Machine
6. Psycho Circus
7. I Love It Loud
8. Black Diamond
Bruce Kulick c/ Parasite Kiss Cover
9. Heaven’s On Fire
10. Domino
11. Tears Are Falling
12. Hide Your Heart
13. Forever
14. Unholy
15. Crazy, Crazy Nights/Turn On The Night
16. God Gave Rock ‘N’ Roll to You II
17. Lick It Up
18. Detroit Rock City
19. Rock And Roll All Nite

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