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BRUTAL ASSAULT – Josefov, República Tcheca

Jaroměř

Por Écio Souza Diniz

Colaboração: Luiz Fernando Ribeiro

Fotos: Écio Souza Diniz e Arto Lehtinen

O processo de participar de grandes festivais de rock e metal no verão europeu tem suas peculiaridades, as quais envolvem desde a ida até a estadia no local em que ocorre. Essas coisas típicas desse processo incluem desde logística de encontrar as melhores conexões de trem até (ou avião para quem vem de outros países), torcer para clima estar ameno em face às atuais instabilidades decorrente de mudanças climáticas, encontrar o melhor local (hotel, hostel, acampamento) para ficar, etc. Com o Brutal Assault (BA), esse processo não foi diferente, mas felizmente mesmo com algumas intempéries tudo transcorreu de forma satisfatória. A ROADIE CREW acompanhou todos os dias do festival e traz em primeira mão aos leitores da revista detalhes e impressões da estrutura, da área e os melhores momentos do festival. Pegue sua cerveja, café, água ou afins e se deixe imergir conosco no universo brutal do festival.

Jaroměř

Dia 09 de agosto

No primeiro dia do festival após enfrentar um certo atraso ocasionado por manutenção em parte da ferrovia que liga Brno, a cidade em que residimos na República Tcheca, até a região de Hradec Kralove, finalmente chegamos a estação de Jaroměř e fomos rumo a sua cidade praticamente colada de Josefov, onde fica o antigo forte militar que abriga o Brutal Assault anualmente. Então, após desembarcar em Josefov fomos encontrar um bom lugar no camping que reservamos próximo ao festival para montar nossas barracas. Já nesse processo de nos instalar no camping já rolou uma das coisas mais legais desses festivais, a interação. Nos conectamos com um grupo de pessoas de diferentes paises (Alemanha, França, Itália, Suécia, Irlanda, etc) com as quais compartilhamos bons momentos nos dias que se seguiram. Vale ressaltar que a estrutura do camping também era bem organizada, fornecendo aos seus integrantes banheiros, chuveiros, área com bar e café da manhã, além de wi-fi com bom funcionamento.

Confira galeria de fotos das dependências do Brutal Assault:

Com tudo já no esquema, fomos em direção a principal e maior arena do festival, ocupada pelos palcos Sea Shepherd e Jägermeister, compramos nossas cervejas e já ficamos preparados para iniciar nossa jornada de shows. Aliás, a tecnologia baseada em NFC da qual utilizam nos chips atrelados aos braceletes que os participantes do festival recebem é uma excelente forma de administrar os gastos. Essa forma de pagamento não exige dinheiro em espécie, demandando apenas que a pessoa faça cargas regulares da quantia desejada em postos de recarga espalhados na área do festival, de forma que quando compra algo (comida, bebida, etc) o vendedor apenas usa um leitor em celular posicionado sob o chip e desconta os créditos contidos nele.

Stage 1
Stage 2

Naquela primeira tarde ensolarada, o Clutch trouxe uma ótima vibe para iniciar a jornada com sua excelente mescla de southern rock, blues e funk metal. Para apreciadores da sonoridade praticada por esse grupo formado em 1991 na cidade de Germantown (EUA) e detentor de excelentes álbuns como “Blast Tyrant” (2004), “Robot Hive/Exodus” (2005) e “Earth Rocker” (2013), os riffs explosivos no show levantaram a adrenalina. Em divulgação ainda ao mais recente álbum, “Book of Bad Decisions” (2018), e na esteira do lançamento do novo álbum, “Sunrise on Slaughter Beach”, que está previsto para 16 de setembro de 2022, Neil Fallon (vocal), Tim Sult (guitarra), Dan Maines (baixo) e Jean-Paul Gaster (bateria) deixaram o astral em alta com faixas potentes como “Firebirds!”, “Slaughter Beach”, além de pegada mais stoner/doom como em “American Sleep” e “Nosferatu Madre” (do vindouro novo álbum) e petardos como “Cypress Grove” e “The Mob Goes Wild”, ambas de “Blast Tyrant”. De quebra ainda rolou um cover de respeito para “Into The Void” do Black Sabbath. Em suma, um excelente começo no festival e um dos melhores shows que assistimos.

Demos uma pausa após o Clutch para recorrer a área de imprensa para recarregar nossos celulares e câmera, voltando em tempo do início da pancada thrash com o Vio-lence. Parte do time da icônica cena do thrash Bay Area de São Francisco (EUA), o Vio-lence, embora nao tenha tido atividade tão constante e longeva como seus pares deixou três importantes discos cravados na história do estilo: “Eternal Nightmare” (1988), “Oppressing the Masses” (1990) e “Nothing to Gain” (1993). Após um hiato de quase 30 anos a banda retornou em 2022 promovendo o ótimo e novo EP “Let the World Burn”. Nesse show, a banda confirmou, como já vem fazendo recentemente, o poderio da atual formação composta pelos veteranos Phil Demmel (guitarra) e Sean Killian (vocal), acompanhados pelos também experientes Christian Olde Wolbers (baixo, ex-Fear Factory) e Bobby Gustafson (guitarra, ex-Overkill), num desfile de riffs diretos e incisivos. Para começo de conversa, a banda escancarou quatro obras-primas do maravilhoso “Eternal Nightmare”, composta pela faixa título, “Calling in The Coroner”, Kill On Command” e “Serial Killer”. A energia também foi contagiante nos riffs de “Officer Nice” e “World in a World” de “Oppressing the Masses” e “Upon Their Cross” do novo EP.

Na sequência vieram os suecos do Avatar, que têm alcançado crescente popularidade com sua mistura sonora que transita entre heavy, groove, melodic death, progressive e até o industrial metal. Já com oito álbuns de estúdio na carreira, sendo o mais recente “Hunter Gatherer” (2020), eles tiveram uma resposta consideravelmente participativa do público, especialmente destacando a performance do vocalista Johannes Eckerström e do baterista John Alfredsson, em faixas como “The Eagle Has Landed”, “Hail the Apocalypse” e “Let it Burn”. Embora, confesso que me soa como uma tentativa forçada de um “freak metal” moderno e que não sou o melhor apreciador, é preciso reconhecer a qualidade técnica da banda, performance e presença de palco dos músicos.

Para fechar o primeiro dia, os compatriotas do Avatar, o At The Gates, trouxeram ao palco do Brutal Assault seu setlist especial baseado nas músicas do clássico “Slaughter of The Soul” (1995). Parte do grupo dos grandes nomes do popular cenário death metal surgido na cidade sueca de Gotemburgo no início dos anos 90, Tomas Lindberg (vocal), Martin Larsson (guitarras), Jonas Björler (baixo) e Adrian Erlandsson (bateria) deram a cartada final daquela noite em riffs agressivos e bases sólidas. Já nas primeiras notas com a entrada de “Blinded by Fear” o público entrou em alvoroço. Também foi bem legal ver uma execução forte e bem estruturada para pedradas como “Cold”, “Under a Serpent Sun”, “Suicide Nation” e “Nausea”. Para fechar, ainda teve o bônus com a faixa “The Night Eternal” de “At War with Reality” (2014).

Dia 10 de agosto

O segundo dia do festival já começou um pouco mais cedo pela manhã, pois tiramos um tempo para andar e explorar a pequena e simpática cidade de Josefov, que está conectada com a area do festival, na qual os heabangers iam para buscar comidas oferecidas por pessoas locais, fazer compras nos pequenos mercados e para os `after party` (pós-festas) que ocorriam em alguns pubs após o fim das atrações de cada dia do festival. Feito esse ‘tour’ pela cidade, fomos explorar a vasta área do festival distribuída dentro do forte. E foi exatamente nessa andança pela área do BA que vimos o quanto suas atrações vão além dos shows. Nós visitamos galerias com pinturas de artistas tchecos com mesclas de diferentes estilos (simbolista, surrealista, ultrarromântico, gótico) expressando personagens e passagens selvagens, místicas ou obscuras, dentro do contexto e proposta do festival. Também visitamos exposições muitíssimo bem elaboradas com esculturas de gessos e materiais afins demonstrando cenários mórbidos simbolizando oferendas e rituais. Além disso, também próximo à área do palco Obscure, também se concentrava os ótimos estandes diversificados de merchandising (discos (CD, LP, DVD, Blu-Ray), camisas e acessórios. Na mesma proximidade se encontrava uma das áreas de ‘after party’ dentro do forte e uma sala de cinema na qual eram exibidos diariamente filmes clássicos de horror/terror. Dentre as tendas de merchandising estavam a loja oficial do festival com produtos oficiais, inclusive das bandas que nele se apresentaram, como também de grandes selos voltados ao metal extremo como a Seasons of Mist. Já próximo ao palco Bastion, havia uma área interessante ocupada por artistas que encenavam um estilo e cenário Mad Max de ser. O nosso tour pelo forte antes da próxima maratona de shows terminou passeando pelas áreas de tendas de comidas e bebidas, que vale mencionar traz uma considerável diversidade de opções, inclusive veganas, de diferentes regiões (ex: grega, turca, italiana, espanhola, mexicana, etc). Para amantes de cervejas artesanais também havia tendas com oferta de ótimas produções locais e até de países vizinhos (ex: Polônia) de variados tipos (APA, IPA, Pale Ale, Stout, etc).

No meio da tarde era hora do Heathen, outro expoente lendário da cena thrash Bay Area, aumentar a temperatura já elevada do calor daquele dia com seu thrash característico no palco Jägermeister. Com a formação atual composta pelos renomados David R. White (vocal; ex-Defiance) e Lee Altus (guitarra; Exodus, ex-Angel Witch, ex-Mordred), acompanhados por Jason Mirza (baixo; Psychosis), Kragen Lum (guitarra; Prototype, Psychosis) e Jim DeMaria (bateria; Toxik, Whiplash), eles esbanjaram qualidade em sua mescla de speed, progressive e thrash metal. Ainda promovendo o álbum “Empire of the Blind” (2020) tocaram as consistentes faixa título, “The Blight”, “Blood to Be Let”, “Dead and Gone” e “Sun in My Hand”. Dentre as faixas clássicas, o público teve a satisfação de ouvir “Death by Hanging” e “Goblin’s Blade” do debut “Breaking the Silence” (1987) e “Opiate of the Masses” e “Hypnotized” de “Victims of Deception” (1991). De “The Evolution Of Chaos” (2009) tocaram sua principal faixa, “”Dying Season”. Vale também ressaltar como White ainda é um ótimo ‘frontman’, visto sua dinâmica de palco durante todo o show.

Demos nossa pausa após este show e voltamos ao mesmo palco para assistir a “carnificina” promovida pelo Bloodbath, supergrupo sueco de renome no death metal, responsável por álbuns desvatadores de alto nível como “Resurrection Through Carnage” (2002), “Nightmares Made Flesh” (2004) e “Grand Morbid Funeral” (2014). A banda alavancou os mais consideráveis números de pessoas fazendo “bodysurfing” (prática de pessoas serem conduzidas acima do público pelas pessoas até a área do palco) até então. Afinal de contas como reagir em silêncio a devastações sonoras que tocaram intituladas como “So You Die”, “Breeding Death”, “Cancer of the Soul”, “Cry My Name” e especialmente “Outnumbering the Day”? Inclusive nesse show encontramos um grupo de brasileiros fãs da banda trajados com camisas brancas e rostos manchados em vermelho simbolizando sangue em alusão às suas temáticas líricas. O vocalista “Old” Nick Holmes (vocal; Paradise Lost), que estreou na banda no álbum “Grand Morbid Funeral” cada vez mais mostra como se encaixa bem à sua proposta sonora, inclusive com seu timbre vocal não deixando nada a desejar para outros grandes vocalistas que passaram pela banda como Dan Swanö (Nightingale, Unicorn, ex-Edge Of Sanity) e Mikael Åkerfeldt (Opeth). Após assistir um grande show do Bloodbath na edição 2015 do Wacken Open Air, posso seguramente dizer que o show aqui descrito teve a mesma qualidade.

Findado o Bloodbath era hora de sustentarmos nossos estômagos novamente, para depois seguirmos para o palco Obscure para assistir a lenda do doom metal, Pentagram, que proporcionou uma verdadeira viagem lisérgica ao som de seus riffs afiados e a presença única e caricata do vocalista e líder Bobby Liebling. Uma satisfação ver Boobie ainda em boa forma, considerando especialmente os inúmeros percalços que teve em sua vida. Acompanhado por Matt Goldsborough (guitarra; The Skull), Greg Turley (baixo, ex-CounterShaft, ex-Place of Skulls) e Pete Campbell (bateria; In-Graved, The Mighty Nimbus), Liebling com sua presença de palco irreverente e “maluca” forneceu uma imersão ao doom primordial mantendo a fidelidade ao estilo que ajudou a formar e consagrar. Goldsborough nos proporcionou riffs obscuros com uma técnica apurada, cheios de feeling e solos marcantes, firmados na escola de Tony Iommi. E como foi bom assistir execuções muito bem estruturadas e imergir na atmosfera de pérolas eternas do doom como “Dying World”, “Relentless”, “Run My Course”, “Sign of the Wolf (Pentagram)” e “The Ghoul” do primeiro e clássico álbum, “Pentagram” (1985). Também se destacaram a performance da banda como um todo no petardo “When The Scream Comes” (de “Day of Reckoning”, 1987), “Petrified” de (de “Be Forewarned”, 1994), faixa título do álbum “Review Your Choices” (1999) e o medley com “Forever My Queen” da compilação “Human Hurricane” (1998) e “20 Buck Spin” do primeiro álbum. Sem clichês, pode-se dizer que foi um show bastante memorável.

Permanecemos no mesmo palco para assistir em seguida ao show de um dos principais nomes fundadores do crossover, o D.R.I. E que show lindo de se assistir, com riffs certeiros nas fronteiras entre o hardcore, punk e thrash metal, que alavancou moshpits irresistíveis. Com os riffs típicos da guitarra de Spike Cassidy e o vocal característico de Kurt Brecht, amparados pela bateria de Rob Rampy e o baixo do Greg Orr (ex-Attitude Adjustment; desde 2018 substituindo o saudoso Josh Pappé, falecido em 2020) os presentes, especialmente quem nunca havia assistido ao show da banda antes, puderam experimentar a força sonora dos sujos, podres e imbecis (tradução de D.R.I = Dirty, Rotten, Imbeciles). O setlist variado parte da 40th Anniversary Tour que celebra as quatro décadas da banda foi materializado também no Brutal Assault em músicas que não deram um segundo trégua. Só do clássico álbum “Crossover” (1987) foram executadas músicas que incluíram “Probation”, “Hooked” e a marcante e eterna “The Five Year Plan” que fechou o show e foi estendida no refrão em interação com o público e culminando num mosh certeiro e decisivo.  Mas ainda bons pontos altos rolaram como, por exemplo, em faixas do debut “Dealing With It!” (1985) como “I’d Rather Be Sleeping”, “Karma” e “Mad Man”, assim como também as maravilhas de “4 Of A Kind” (1988) como “Dead in a Ditch”, “Manifest Destiny”, “Slumlord”, “Suit and Tie Guy” e as instigantes “Abduction” e “Thrashard” de “Thrash Zone” (1989). Do material mais inédito até então, eles tocaram “Against me” do EP “But Wait… There’s More!” (2016). Excelente show!

De volta à arena dos palcos Sea Shepherd e Jägermeister, ainda “tontos” com a trinca seguida e estonteante que vimos com o Bloodbath, Pentagram e D.R.I, já era hora de levar outras duas porradas certeiras com os shows seguidos do Cannibal Corpse e Dark Funeral. O Cannibal Corpse trouxe um setlist diversificado que incluiu músicas álbuns desde clássicos do death gore como o debut “Eaten Back to Life” (1990), “Tomb of the Mutilated” (1992), “The Bleeding” (1994) e “Vile” (1996), passando por outros excelentes momentos da discografia em “Bloodthirst” (1999), “The Wretched Spawn” (2004), “Torture” (2012), “A Skeletal Domain” (2014), até o mais recente álbum “Violence Unimagined” (2021). Simplesmente fantástico ver que a formação atual composta pelo genial Alex Webster (baixo), juntamente com os experientes companheiros de longa data Paul Mazurkiewicz (bateria), Rob Barrett (guitarra), Erik Rutan (guitarra, Hate Eternal, ex-Alas, ex-Morbid Angel) e o soberbo George “Corpsegrinder” Fisher (vocal) mantém a todo vapor a máquina avassaladora mais popular do death metal. Ainda é impressionante como George “Corpsegrinder” Fisher consegue manter um desempenho tão consistente e sólido após praticamente 27 anos na banda. As diversas lacerações que recebemos no show foram em especial causadas por golpes incisivos e violentos que atendem pelos nomes “Scourge of Iron”, “Fucked With a Knife”, “The Wretched Spawn”, “I Cum Blood”, “Devoured by Vermin”, “A Skull Full of Maggots”, “Stripped, Raped and Strangled” e claro o nocaute final com “Hammer Smashed Face”.  Mais uma vez o Cannibal não decepcionou e entregou uma apresentação à sua altura, apesar de uma breve falha técnica no retorno do som do palco que deixou Fisher sem voz no microfone por um instante, mas que não depreciou a qualidade geral.

O ataque sonoro conclusivo daquele segundo dia se deu com o black metal rápido e agressivo dos suecos do Dark Funeral. Numa apresentação sólida, o renomado e veterano Lord Ahriman esbanjou seus riffs rápidos e cortantes e se destacou juntamente com o vocalista Heljarmadr (vocal; Grá, ex-Diabolic Lust). Cerca de 25% do show focou nas faixas de maior destaque do novo álbum “We Are the Apocalypse” (2022): “Leviathan”, “Let the Devil In” e “When I’m Gone”, enquanto outros 25% ficaram a cargo de ótimas faixas de “Where Shadows Forever Reign” (2016): faixa título, “Unchain My Soul” e “Nail Them to the Cross”. Ou seja, 50% do show girou em torno desses dois álbuns. Dos clássicos de sua carreira executaram “The Arrival of Satan’s Empire” (“Diabolis Interium”, 2001) e a grandiosa faixa título de “The Secrets of the Black Arts” (1996). Um show com o usual primor técnico do Dark Funeral. Depois de comer algo e aproveitar um pouco do ambiente ‘after party’, parte em companhia de nossos costumeiros camaradas tchecos de outros festivais, era hora de ir para barraca descansar e recarregar as baterias para o próximo dia que seria intenso.

Dia 11 de agosto

Como já esperado, o terceiro dia traria uma maratona de shows seguidos encabeçados por medalhões como Onslaught, Aborted, Asphyx, Mercyful Fate, Cradle of Filth, entre outros. O primeiro show que já pegamos pouco após o seu início no palco Jägermeister foi o dos dinamarqueses do Baest com seu death metal brutal com elementos de black. A banda como um todo, mas especialmente no desempenho do vocalista Simon Olsen e o baterista Sebastian Abildsten mostraram a que vieram e ajudaram a começar a escaldar mais o calor naquele princípio da tarde ao som das pancadas que tiveram destaque em “Genesis” e “Meathook Massacre” do mais recente álbum (“Necro Sapiens”, 2021).

Migrando na sequência para o palco Shepherd ao lado, assistimos o Onslaught, lenda do thrash metal britânico. O guitarrista, líder e único membro original Nige Rockett, acompanhado por David Garnett (vocal e guitarra; ex-Plague), Jeff Williams (baixo) e James Perry (bateria; This Is Endless) alimentaram os mosh pits em sons como “The Sound Of Violence” (de “Sounds Of Violence”, 2011) e petardos como “Metal Forces” (de “The Force, 1986) e a viciante “Onslaught (Power from Hell)” do eterno “Power From Hell” (1985). Na sequência do Onslaught, enquanto comiamos algo, acompanhamos parte do show da banda californiana Butcher Babies, que levantou os ânimos do público com a presença de palco das vocalistas Carla Harvey e Heidi Shepherd em sua mescla groove, thrash, metalcore e nu metal protagonizada por duas mulheres atraentes vestidas como se fossem ao shopping ou a praia, o que deu um ar inusitado e divertido. As duas vocalistas chamaram atenção em sua presença de palco especialmente em sons principalmente do álbum “Take It Like a Man” (2015) como “Gravemaker”, “Igniter” e “Monsters Ball”.

Já preparados numa de nossas várias sequências de ziguezague entre os dois principais palcos nesse dia, nos posicionamos para assistir ao intrépido e conceituado nome belga do death gore, o Aborted. Tudo chamou atenção desde o belo arranjo e arte do palco até a execução consistente e altamente técnica da banda, especialmente do vocalista Sven de Caluwé (vocal) e o baterista Ken Bedene (bateria). Os melhores momentos ficaram a cargo de rolos compressores como as faixas títulos dos álbuns “Global Flatline” (2012) e “The Necrotic Manifesto” (2014), “Cadaverous Banquet” (de “Retrogore”, 2016) e o encerramento com o medley composto por “Threading on Vermillion Deception” (de “The Archaic Abattoir”, 2005) e “The Saw and the Carnage Done” (de “Goremageddon: The Saw and the Carnage Done”, 2003).

Mantendo o ritmo imposto pelo Aborted, em seguida vieram os californianos do Cattle Decapitation, com sua marca sonora característica calcada na mescla de progressive death metal e grindcore como pano de fundo para conteúdos líricos que abordam questões bastante atuais como direitos dos animais, ambientalismo e extinção humana. Com belo arranjo de palco baseado em artes do mais recente álbum, o excelente “Death Atlas” (2019), tivemos o prazer de apreciar a atuação do grupo, sobretudo, de Travis Ryan (vocal) e Josh Elmore (guitarra), nas novas joias advindas do referido álbum: “Bring Back the Plague”, “Finish Them”, “The Geocide”, “Time’s Cruel Curtain”, “Vulturous” e faixa título. Além claro, de podermos curtir outras facetas viscerais como “Plagueborne” (de “The Anthropocene Extinction, 2015) e “Forced Gender Reassignment” (de “Monolith of Inhumanity”, 2012). Mesmo com algumas dificuldades técnicas enfrentadas, especialmente na sonoridade da guitarra, o Cattle Decapitation manteve-se firme e Ryan elevou seus vocais ainda mais ao extremo.

Toda a pancadaria da sequência de shows anteriores teria agora um momento de calmaria com a vibe imersiva e melancólica do Katatonia. Se tem algo pelo qual esses suecos, assim como alguns de seus pares como, por exemplo, o Opeth, se firmou como referência no cenário mundial foi o experimentalismo, vindo desde primórdios mais pesados e agressivos baseados no doom/death e transitando pelo progressive e gothic rock. Numa atmosfera um pouco mais suave, mas ao mesmo tempo profunda e densa, principalmente as linhas vocais de Jonas Renkse hipnotizou muitos dos presentes em melodias de sons como “Behind the Blood” e “The Winter of Our Passing” do mais recente álbum “City Burials” (2020), a bela “Old Heart Falls” (de “The Fall Of Hearts”, 2016), a intensa “Soil’s Song” (de “The Great Cold Distance”, 2006) e “Lethean” (de “Dead End Kings”, 2012).

Visto que não só de calmaria vive um headbanger, voltamos ao peso desmedido com o death com pitadas de doom da lenda holandesa Asphyx, que entrava no palco para entregar uma das melhores e mais entrosadas apresentações daquele dia. O competente Martin van Drunen (ex-Pestilence, ex-Bolt Thrower (live)), que assume os vocais da banda desde o split “In the Eyes of Death” (1991) com as bandas Grave, Loudblast, Tiamat e Unleashed, seguido por Paul Baayens (guitarra), Alwin Zuur (baixo) e Stefan Hüskens (bateria; Desaster, ex-Sodom) proporcionou bons momentos especialmente aos fãs veteranos da banda e daquela fase início dos anos 90 no death metal. Inclusive para gerações mais novas um show como esse se transforma numa chance de ver o poder de primores do death metal oldschool como a faixa-título e “Wasteland of Terror” do debut “The Back” (1991) e a faixa título de “Last One on Earth” (1992). Outros pontos altos do show foram também com as quatro faixas que executaram do mais recente álbum, “Necroceros” (2021): “Botox Implosion”, “Knights Templar Stand”, “Molten Black Earth” e “The Nameless Elite”. A cozinha de Zuur e Hüskens se destacou na faixa-título e “Scorbutics” de “Death… the Brutal Way” (2009).

O death cru e ríspido do Asphyx deu lugar novamente a uma atmosfera mais sombria e melancólica com a entrada em cena dos ingleses do Paradise Lost. Obviamente, o Paradise dispensa comentários em sua importância para solidificação de estilos como gothic metal e gothic doom. Afinal, trata-se do grupo que navegando em diversas fases e experimentalismos cravou na história discos essenciais e de grande importância indo de discos mais pesados e obscuros como “Gothic” (1991) e “Shades Of God” (1992), passando por vertentes mais heavy com “Icon” (1993), divisor de águas no gothic metal com “Draconian Times” (1995), flertes com eletrônico e pop em “One Second” (1997) e “Believe In Nothing” (2001), atingindo retornos mais significativos às raízes em “The Plague Within” (2015) e “Medusa” (2017). O descontraído e habilidoso vocalista Nick Holmes acompanhado pelos companheiros de sempre Greg Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Steve Edmondson (baixo) juntamente com o baterista Waltteri Väyrynen (Abhorrence, I Am the Night, Bloodbath (live)) desde 2016 na banda moldaram, como de costume, um mergulho profundo nas mais variadas emoções humanas. Através da entrada com a instigante “Enchantment”, faixa de abertura de “Draconian Times”, eles abriram espaço para um set list bem balanceado que ainda traria músicas densas como “Forsaken” e “Ghosts” do mais recente álbum, “Obsidian” (2020), emoções desconcertantes com “Forever Failure” (outro mega-hit de “Draconian Times”) e uma pérola passado com “Eternal” (de “Gothic”). As músicas mais emotivas como “Say Just Words” e a faixa título de “One Second” (com todos com as mãos levantadas e cantando junto) e a faixa título de “Faith Divides Us – Death Unites Us” (2009) receberam as reações mais contemplativas e expressivas do público. Claro, que também se destacaram as faixas mais angustiantes e densas como “As I Die” (de “Shades of God”) e “Embers Fire” (de “Icon”). Mas na percepção deste que aqui escreve, completando neste o quarto show que assiste da banda, os pontos altos ficaram a cargo da execução primorosa e cheia de feeling de “No Hope In Sight” (de “The Plague Within”) e “The Enemy” (de “In Requiem”, 2007). Reconfortante ver que a arte do Paradise Lost segue respeitavelmente intacta, relevante e inspiradora após mais de três décadas.

O As I Lay Dying veio em seguida e preparou bem o terreno para a lenda do heavy metal que viria a seguir. Esses californianos da cidade San Diego que se tornaram um dos grandes nomes do cenário metalcore lançaram mão de faixas poderosas mais focadas nos álbuns “Shaped by Fire” (2019), “Shadows Are Security” (2005) e “An Ocean Between Us” (2007). O desempenho, presença e alcance vocal de Tim Lambesis foi digno de cumprimentos nas músicas “Blinded”, “Redefined”, “The Darkest Nights”, “Forsaken” e “94 Hours”.

Finalmente era hora da lenda dinamarquesa do heavy metal que atende pelo nome Mercyful Fate e traz o icônico vocalista e compositor King Diamond. Dispensável fazer apresentações excessivas, visto a história dessa banda formada em 1981, que produziu oito álbuns de estúdio marcantes na história do heavy metal e influenciou outros grandes nomes como Emperor, Metallica, Slayer, Six Feet Under, Voivod e tantos outros. Além disso, ajudou Venom, Bathory e Hellhammer a alicerçar o que viria a ser o black metal tempos depois. Com o anúncio do retorno da banda aos palcos em 01 de agosto de 2019, enormes expectativas para diversos fãs se criaram, sendo parte delas quebradas por adiamentos de shows devido a pandemia. Contudo, essa expectativa e oportunidade quase única para muitos de assistir essa lenda ao vivo no palco do Brutal Assault estava finalmente se concretizando. Não preciso dizer o quão especial é ver essa banda ao vivo depois de tanto tempo inativa e havendo poucas possibilidades de seu retorno aos palcos. Antes de entrar em detalhes sobre esse show, já resumo o estado de sua arte como impecável e histórico, tendo dado tudo que o fã da banda do mais veterano ao mais novo poderia esperar. King Diamond acompanhado nas guitarras pelos velhos companheiros Hank Shermann e Mike Wead (King Diamond, ex-Memento Mori, ex-Candlemass), bateria com Bjarne T. Holm (Denner’s Inferno, ex-Force of Evil, ex-Shermann Soldiers) e baixo com Joey Vera  (Armored Saint, Fates Warning, ex-Seven Witches, ex-Anthrax) em substituição ao baixista original Timi Hansen, falecido em 04 de novembro de 2019, nos lembraram como o metal puro em estado bruto de primor era forjado, uma lição especialmente importante para as gerações mais novas. Difícil destacar melhores momentos, até porque tudo se transcorreu numa hipnose desde o início com a grandiosa abertura de “The Oath” (do incontestável “Don’t Break The Oath”). Uma sensação e atmosfera singular tomou conta da arena nas obras primas do clássico debut álbum “Melissa” (1983) como as viscerais e afiadas “Black Funeral”, “Curse of the Pharaohs”, “Evil” e, obviamente, a faixa-título que ganhou a participação massiva do público. Também foi impagável presenciar a minuciosa execução de tesouros escondidos no tempo como “Doomed by the Living Dead” (da compilação “The Beginning”, 1987) e “A Corpse Without Soul” (lançada em ambos o soberbo primeiro EP “Mercyful Fate” de 1982 e na compilação “The Beginning”). Diamond ainda nos deu uma palinha do que esperar no aguardo novo álbum previsto para 2023 pela Metal Blade com a nova música “The Jackyl of Salzburg”, que tem sido tocada nessa turnê, ressaltando a qualidade intacta de seu vocal e performance, como também dos riffs diretos e inspirados. Rumo ao fim do show, para muitos era uma emoção demasiada experienciar ao vivo “Come To The Sabbath” (de “Dont Break The Oath”). Em seguida, o encerramento com “Satan’s Fall” (outro hino de “Melissa”) trazia uma sensação mista de realização, mas também já de nostalgia. No tocante à banda, essa formação se mostrou bastante entrosada e coesa, também com Shermman ainda tocando absurdamente bem e Vera e Holm se encaixando bem no time. Recentemente King Diamond falou que a volta do Mercyful Fate “absolutamente não é uma reunião”. E que assim seja!

Ainda aturdidos com o Mercyful Fate, nós voltamos ao palco Sea Shepherd para assistir ao Cradle of Filth, banda aclamada por popularizar a mescla de black e gothic metal e os vocais agudos e esganiçados de Dani Filth que influenciaram uma geração a partir dos anos 90. Dani acompanhado por Daniel Firth (baixo), Donny Burbage (guitarra), Zoe Marie Federoff (teclado e vocal feminino) e os músicos tchecos Marek “Ashok” Šmerda (Titanic, ex-Root) na outra guitarra e Martin “Marthus” Skaroupka (Titanic, ex-Masterplan) na bateria mostraram ótimo desempenho refletido, por exemplo, nas faixas do mais recente álbum (“Existence Is Futile”, 2021): “Crawling King Chaos”, “Existential Terror” e “Necromantic Fantasies”. Claro, que o público reagiu com entusiasmo esperado às faixas amplamente conhecidas de álbuns mais antigos como “A Gothic Romance (Red Roses for the Devil’s Whore)” (de “Dusk and Her Embrace”, 1996), “Nocturnal Supremacy” (originalmente do EP “V Empire, or Dark Faerytales in Phallustein”, 1996), “Her Ghost in the Fog” (de “Midian”, 2000) e “Scorched Earth Erotica” (do EP “Bitter Suites to Succubi”, 2001). Todavia, o destaque ficou a cargo de “Nymphetamine (Fix)” (de “Nymphetamine”, 2004).

Mesmo cansados, ainda permanecemos para ver a última atração da noite, o grupo italiano Fleshgod Apocalypse. Com sua brutalidade endossada pela união de technical death metal com elementos sinfônicos e coros, eles proporcionaram uma aura apoteótica e brutal para fechar aquela noite. Embora, em alguns momentos o som estava pouco nítido por falhas no equipamento de retorno do palco, a apresentação em geral nao foi ofuscada. A sincronia da atuação das orquestrações arranjadas pelo tecladista Francesco Ferrini com a potência do vocal e riffs de Francesco Paoli e o timbre soprano de Veronica Bordacchini se sobressaíram em “Fury” (de “Veleno”, 2019) e “Healing Through War” (de “King”, 2006). Ainda um ótimo momento do show ocorreu na execução de “Epilogue” (de “Labyrinth, 2013”).

Dia 12 de agosto 

Já começando a pesar o cansaço no quarto dia do festival, mas ainda com energia para gastar, após uma breve socializada em nosso camping, ingressamos na área do festival sem saber que teríamos inusitadas e boas surpresas a frente. Começamos aquela quarta tarde ao som dos grandes do thrash dinamarques, o Artillery. Um show repleto de riffs afiados, especialmente cortesia de um dos fundadores da banda, o guitarrista Michael Stützer, que compõe uma ótima boa dupla com a guitarra de Kræn Meier (Hell’s Domain, Nominon) desde 2019. O vocalista Michael Bastholm Dahl (Mezmerizer, Ripe) ganhou bons holofotes com seu timbre e presença de palco, juntamente com as bases de baixo expressivas de Peter Thorslund, atuando na banda desde 1988. E como eles estavam cheios de energia em temas furiosos como a faixa título e “Khomaniac” de “By Inheritance” (1990) e faixa título do voraz “Terror Squad” (1987). Ainda desempenhos excelentes da banda como um todo se destacaram nas músicas “Turn Up The Rage” e “In Thrash We Trust” do mais recente álbum, “X” (2021).

Ao lado no palco Jägermeister, em seguida paramos para ver os estadunidenses veteranos do Nunslaughter que apresentaram uma execução sólida de sua mescla de death metal cru, direto e sem concessões com elementos de black e speed metal. A banda foi formada nos idos de 1986 pelo, à época baixista, e hoje vocalista, Don Of The Dead (Nighnacht, Tondra, ex-Born from Fear, ex-Death Sentence e outros), lançou diversas demos e EPs, mas entre idas e vindas, somente em 2000 lançou seu poderoso debut, “Hells Unholy Fire”. Depois, em 2015 a banda ainda enfrentou a morte do baixista Jim Sadist que os acompanhava desde o debut. Mas nesse show do Brutal Assault, o Nunslaughter mostrou que está mais forte do que nunca com a atual formação que traz junto com Don, o excelente Tormentor (guitarras;  BloodTusk, From the Hellmouth), Detonate (baixo; BloodTusk, From the Hellmouth) e Wrath (bateria;  BloodTusk, Cholera, From the Hellmouth). O arrebento com faixas impiedosas como “Looking Into the Abyss” (“Angelic Dread”, 2014) e “Satanic Slut” (de “Goat”, 2003) resumem muito bem esse show.

Sem intervalo e com o sol começando a ficar incômodo novamente, nos hidratamos e voltamos nossa atenção para ver o Faüst, ótima banda de thrash metal da capital tcheca, Praga. A banda composta por músicos relativamente jovens e cheios de gana (Kryštof Eichler – guitarra e vocal; Jenda Lapáček – baixo e vocal; Teodor Majerík – guitarra; Honza Šole – bateria) acaba de lançar seu primeiro álbum agora em 2022, “Tinnitus Inquisition”, e teve oportunidade de mostrar potencial promissor na arena principal do festival. O Exhorder, lenda do groove metal, deveria se apresentar na sequência no palco Jägermeister, mas infelizmente teve voo adiado e poderia se apresentar só mais tarde a noite no palco Obscure, em horário que não conseguimos acompanhar por ter outra prioridade de show para ver.

Para seu lugar, trouxeram os canadenses do Comeback Kid, que se apresentaria originalmente no palco Obscure. Esse show foi uma das boas surpresas daquele dia, fora das expectativas e que mostrou o poder do seu  melodic hardcore ao vivo. E que poder diga-se. O vocalista Andrew Neufeld  mostrou uma enorme presença de palco com direito a adentrar a área do público para cantar, amparado pelo instrumental certeiro ressaltado nos riffs de Jeremy Hiebert e na bateria dinâmica e forte de Loren Legare. Desde a interação participativa do público até as grandes rodas de mosh, esse entrou entre os shows de destaque daquele dia no quesito participação do público. A multidão alucinou e liberou sua adrenalina em “False Idols Fall” e a faixa título de “Wake the Dead” (2005) e a faixa título do novo álbum “Heavy Steps” (2022).

Uma breve calmaria da porrada hardcore veio com o doom/death metal dos finlandeses do Swallow The Sun, que trouxe uma aura sorumbática, mas também melancólica para a principal arena. Destaque para a interpretação vocal versátil e profunda dos vocais de Mikko Kotamäki e os riffs inspirados de Juha Raivio. A atmosfera da mescla simultânea de agonia, ódio e esperança podia ser sentida nitidamente em faixas do recente “Moonflowers” (2021), como também em faixas mais antigas, a exemplo de “Swallow (Horror Pt. I)” de “The Morning Never Came” (2003) e “Falling World” de “New Moon” (2009).

Todavia, essa vibe mais introspectiva seria despertada, pois novamente era hora de outro arrastão, dessa vez comandado pelo hardcore/punk nova iorquino do Sick Of It All. Essa banda formada em 1986 na região do Queens em Nova Iorque tem uma bagagem com álbuns reconhecidos no estilo como “Scratch the Surface” (1994) e “Built to Last” (1997). Quando digo que o show da banda foi um arrastão não é figurativamente, mas na prática eles conseguiram fazer o público fazer a maior roda de mosh do festival que percorreu quase toda a arena na área do palco Jägermeister e literalmente levantou poeira especialmente na música “Machete” (de “Death to Tyrants”, 2006). Os irmãos Lou (vocal) e Pete Koller (baixo) junto de Craig Setari (baixo) e Armand Majidi (bateria) ainda movimentaram o público em “Death or Jail”, “My Life”, “Us vs. Them” e a faixa título de “Scratch the Surface”.

Quem ainda sentia o impacto do Sick Of It All mais uma vez mal teve tempo de recuperar as energias, pois era o momento do death/groove dos poloneses do Decapitated entrarem em cena. Em divulgação ao seu novo álbum, “Cancer Culture” (2022) que também proporcionou a bela arte ao fundo de palco, a banda abriu bem o show com sua faixa título, e também executou a ótima “Iconoclast”. A atuação do vocalista Rasta se destacou significativamente também em “Pest”, “Spheres of Madness”, “Never” e “Kill The Cult”. Na área dos dois grandes palcos as pessoas se aglomeravam para assistir ao Abbath, uma das grandes referências do black metal norueguês. Popularmente conhecido por seu histórico no Immortal, após sua saída desta banda em 2015 ele formou sua banda solo, seguindo suas raízes conhecidas e agregadas numa mescla de black, death e thrash metal.

Assim, o momento era oportuno para o Abbath promover seu novo álbum para esse grande público.  Dentre as músicas da banda Abbath, o setlist foi balanceado entre os álbuns, trazendo “Ashes of the Damned” e “Winterbane” do primeiro álbum “Abbath” (2016), “The Artifex” e “Hecate” de “Outsider” (2019) e a faixa título, “Acid Haze” e “Dream Cull” do novo álbum “Dread Reaver” (2022). Além disso, ainda houve uma sequência de covers que incluiu “Warriors” do projeto I, seguida por suas grandes composições no Immortal: “Beyond The North Waves” e “In My Kingdom Cold” (o melhor e mais contemplativo momento do show) de “Sons Of The Northern Darkness”, “Withstand the Fall of Time” de “At The Heart Of Winter” (1999) e a faixa título e “The Rise of Darkness” de “All Shall Fall” (2009). No geral foi um show interessante, com Abbath com seu carisma e presença de palco característicos, apesar de algumas pequenas falhas técnicas, inclusive dele próprio, mas nada que comprometesse seriamente a qualidade geral.

Dando seguimento, era momento de um dos reconhecidos inovadores do death metal: o Suffocation. Formada em 1988 na cidade de Nova Iorque, a banda alcançou notoriedade como uma das pioneiras em testar os limites entre as pegadas mais brutais e as mais técnicas do estilo. Nesse show, que foi um dos grandes destaques do estilo no festival, eles reafirmaram pela enésima vez a razão de receberem tal reconhecimento. Apesar de vários fãs da banda ainda nao aceitaram muito bem a saída do referenciado vocalista Frank Mullen, nesse show eles obtiveram ótima resposta do público e confirmaram mais uma vez que a entrada de Ricky Myers (Cinerary, Sarcolytic, Disgorge, ex-Martyred) em 2019 foi uma escolha acertada. Myers mostrou uma postura segura e com forte base do seu timbre em músicas que focaram a execução em álbuns clássicos: “Catatonia” do EP “Human Waste” (1991), “Infecting the Crypts”, “Liege of Inveracity”, “Jesus Wept” e a faixa título de “Effigy of the Forgotten” (1991), “Breeding the Spawn”, “Pierced From Within” e “Thrones of Blood” de “Pierced from Within” (1995). Além disso, os riffs cavalares de Terrance Hobbs arrebentavam as caixas de saída do palco.

Enfim, outra grande atração esperada no festival deu as caras, o Venom de Chronos. Lenda do heavy metal britânico, o Venom influenciou gerações de músicos, sobretudo nos estilos mais extremos do metal. Formado em 1979 na cidade inglesa de Newcastle upon Tyne, o Venom despontou como um dos nomes mais criativos da popular NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal). Com sua mescla de heavy e speed metal inovadora para a época, endossados pela formação clássica com Chronos (vocal e baixo), Mantas (guitarra) e  Abaddon (bateria), o Venom lançou álbuns seminais, em especial para o black metal, como “Welcome To Hell” (1981), “Black Metal” (1982) e “At War with Satan” (1984). O show que assistimos trazendo Chronos acompanhado pelos comparsas que o seguem já a mais de uma década, Rage (guitarra) e Danté (bateria), se constituiu numa escalada constante de pontos altos baseados num setlist variado e bem interessante. Dentre as relíquias do passado estavam os singles “Bloodlust” (1982) e “Warhead” (1984). Claramente estavam lá também as músicas mais conhecidas da banda e que elevaram a adrenalina do público: a faixa-título, “One Thousand Days in Sodom” e “Witching Hour” do “Welcome To Hell”; faixa título, “Buried Alive”, “Don’t Burn the Witch”, “Leave Me in Hell” e viciante “Countess Bathory do “Black Metal”. Dos álbuns dos anos 2000 se destacaram em sincronia da atuação dos três músicos nas faixas “Antechrist” de “Metal Black” (2006) e “Grinding Teeth” e “Long Haired Punks” de “From the Very Depths” (2015). E falando em sincronia, essa formação já relativamente longeva mostra que ainda se entrosa muito bem ao vivo. De forma geral, esse show do Venom serviu muito bem ao propósito de agradar velhos fãs e angariar novos.

Para fechar aquele dia, outra interessante surpresa foi o show da banda norueguesa Mysticum, com sua mescla de black metal e elementos eletrônicos combinados num estilo “industrial black metal”. Essa banda foi formada em 1993 na cidade de Asker, teve uma curta passagem do baterista Hellhammer (Mayhem) pela banda pouco antes do lançamento do debut “In the Streams of Inferno” (1996). Atualmente formada pelos guitarristas e vocalista Prime Evil e Cerastes e o baixista e programador de bateria Dr. Best, eles trouxeram um conceito interessante à proposta de estilos extremos do festival. A começar pelos efeitos visuais exibidos em telões alocados sobre plataformas que erguiam os três músicos, sua performance conjunta se mostrou digna de focada atenção em músicas como “Kingdom Comes” e “Crypt Of Fear” de “In the Streams of Inferno” e “LSD” de “Planet Satan” (2014). Um ótimo desfecho para o penúltimo dia do festival com essa banda que num sentido bem humorado poderiam ser interpretados como um Rammstein do black metal.

Dia 13 de Agosto

O quinto e último dia do festival trazia sensações mistas conectando simultaneamente o cansaço com a satisfação que chegamos até aquele dia intactos, juntamente com um já antecipado sentimento de nostalgia visto os ótimos dias anteriores passados naquele universo particular do BA. Como teríamos shows agendados para assistir somente mais ao meio para fim da tarde, aproveitamos o tempo tomando umas cervejas com os colegas de acampamento e apreciando a experiência de comer comida local no quintal de uma família no centro de Josefov.

O primeiro show que acompanhamos foi com o grandioso Voivod, banda canadense que se consagrou por sua abordagem sonora dinâmica, complexa e experimental, que transitou inicialmente do speed metal ao thrash metal em direção a uma predominante pegada mais progressiva. Em sua carreira, eles lançaram álbuns de grande influência, dos quais se destacaram os cinco primeiros: “War and Pain” (1984), “Rrröööaaarrr” (1986), “Killing Technology” (1987), “Dimension Hatröss” (1988) e “Nothingface” (1989). Os dois únicos integrantes originais Snake (vocal) e Away (bateria) acompanhados pelo guitarrista Chewy (ex-Martyr, ex-Cryptopsy, ex-Gorguts) e o baixista Rocky proporcionaram ótimos momentos naquela tarde derradeira com suas melodias interessantes, rebuscadas e solos de guitarra bem executados no estilo único da banda. O carisma e presença de palco de Snake se destacou especialmente nas amplamente conhecidas “Experiment” e “Tribal Convictions” (ambas do atemporal “Dimension Hatröss”), “The Unknown Knows” (de “Nothingface”), “Overreaction” (de “Rrröööaaarrr”) e “Voivod” (de “War and Pain”). Contudo, a banda se mostrou também bastante harmonizada e eficiente na execução de músicas do novo álbum “Synchro Anarchy” (2022) como a faixa título, “Planet Eaters” e “Sleeves Off”. O Voivod não só proporcionou um dos melhores shows do festival, como também ressuscitou até os mais moribundos e cansados naquele último dia.

Fomos seguida rumo ao palco Obscure para assistir ao Arcturus, a banda formada em 1987 em Oslo (Noruega) e que ficou conhecida por suas inovações num estilo que hoje é conhecido como atmospheric black metal, depois migrando para uma sonoridade mais na onda do avant-garde progressive metal. Composta por um time de grandes e reconhecidos músicos do cenário norueguês que inclui ICS Vortex no vocal (Borknagar, ex-Dimmu Borgir), Skoll (Den Saakaldte, ex-Ulver) no baixo, Sverd (Mortem, ex-Ulver, ex-Emperor) e Knut Magne Valle (ex-Ulver) nas guitarras e Hellhammer (Mayhem, Mortem, ex-Dimmu Borgir e outros) na bateria, a banda ganhou o público em viagens para universos distantes com as progressivas “Master of Disguise”, “Sideshow Symphonies” e “The Chaos Path” do album “Sideshow Symphonies” (2005) e o encerramento com a agressiva “To Thou Who Dwellest in the Night” do debut  “Aspera Hiems Symfonia” (1996).

Uma extensão ao clima do Arcturus veio em seguida na arena principal com os islandeses do Sólstafir e sua sonoridade que em sua carreira já transitou do início viking/black metal ao post-metal/rock. Os riffs e a interpretação vocal de Aðalbjörn “Addi” Tryggvason se destacaram envolvendo o público numa atmosfera mais melancólica e densa que recebia amparo da chuva que se guardou todos aqueles dias para a última noite do festival. A imersão dos presentes ficou evidente nas músicas “Fjara” e “Þín orð” do album ” Svartir Sandar” (2011), faixa título de “Ótta” (2014) e “Goddess of the Ages” de “Köld” (2009).

A chuva continuava e aumentava ligeiramente, gerando um clima mais gélido e lúgubre, ideal para a derradeira grande atração do festival. Entrava em cena o black metal cru, ríspido e impiedoso do Mayhem. Claro, que essa influente banda norueguesa não carece de formalismos introdutórios. Afinal de contas, a banda cunhou alguns dos álbuns mais referenciados do estilo como o EP “Deathcrush” (1987) e o debut “De Mysteriis Dom Sathanas” (1994). Além, obviamente, de ser conhecida por inúmeras polêmicas que à envolvia na primeira metade dos anos 90, indo desde relação de membros com queima de igrejas até o assassinato do influente guitarrista Euronymous por Varg Vikernes, compositor e fundador do Burzum. A banda apresentou um show forte que destacava a figura do vocal característico de Attila Csihar trajado como um sacerdote em contexto ritualístico, com suporte expressivo dos demais membros: Necrobutcher (baixo), Teloch e Ghul (guitarras) e Hellhammer (bateria). O show foi basicamente dividido em três partes, sendo que a primeira abrangeu músicas de álbuns mais recentes como “Daemon” (2019) com as faixas “Bad Blood”, “Falsified and Hated” e “Malum”, e  “Voces Ab Alta” do EP “Atavistic Black Disorder / Kommando” (2021), e de álbuns da primeira metade dos anos 2000 dos quais tocaram “To Daimonion” de “Grand Declaration of War” (2000) e “My Death” de “Chimera” (2004). A segunda parte e naturalmente a mais esperada pela grande maioria focou no “De Mysteriis Dom Sathanas”, trazendo a icônica “Freezing Moon”, cuja execução violenta combinou bem com a chuva mais intensa, “Life Eternal”, “Pagan Fears” e “Buried by Time and Dust”. A terceira e última parte, que teve um respaldo bastante significativo, se dedicou a fase mais inicial da banda, intensificando a atmosfera devastadora com a crueza e aura primitiva do EP “Deathcrush” na execução sem vacilo da faixa título, “Chainsaw Gutsfuck”e “Pure Fucking Armageddon”, além claro de “Carnage” da primeira demo intitulada “Pure Fucking Armageddon” (1986). O Mayhem cumpriu bem a missão de fechar os shows na arena principal do festival.

Num balanço geral, podemos afirmar que o Brutal Assault tranquilamente pode ser incluído na lista de festivais do verão europeu que vale a pena o investimento para participar e tende a se ampliar em estrutura e qualidade ainda mais nos próximos anos. Se você gostou desse extenso relato da nossa maratona em shows de grandes e excelentes bandas desse festival, compartilhe essa matéria com os amigos e comece a se organizar e planejar para conferir pessoalmente tudo que aqui foi dito.

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