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BUFFALO SUMMER – Desolation Blue – [9,0/10]

Se você pedir para alguém citar algumas bandas da Inglaterra, pode ter certeza que a resposta será rápida e não exigirá muito esforço, afinal, a produção artística dos ingleses é assustadoramente impressionante, além de ser divulgada para o mundo todo.

Mude o alvo e pergunte sobre algum grupo famoso de rock na Irlanda. Provavelmente (mas não sempre!), a pessoa vai titubear e, com uma inspiração de última hora, se lembrará do U2. Se estiver diante de um apreciador musical mais atento, você obterá Thin Lizzy ou The Almighty como resposta, mas, veja, como impulso, U2 é a escolha mais segura.

Agora, a cereja do bolo. Alguma banda escocesa ou, melhor ainda, do País de Gales? Longe de desvalorizar os artistas destes países, mas esta simples pergunta mostra que a indústria fonográfica tem seus nichos e preferências por determinadas localidades, e muitas vezes, o ouvinte acaba sendo privado de conhecer bons grupos pelo fato de não estarem inseridos no “circuito musical”.

Bem, uma coisa é fato: dizer que uma banda vem do País de Gales aguça a curiosidade, e se ela atinge o mainstream a ponto de chamar a atenção da crítica internacional, é porque a coisa é realmente boa.

O Buffalo Summer é um grupo formado por Andrew Hunt (vocalista), Gareth Hunt (bateria), Jonny Williams (guitarra) e Darren King (baixo), cuja proposta, desde seu primeiro lançamento em 2011, é mostrar muita energia e groove com um hard rock carregado de blues e soul (ou blues rock), mas isso não define com exclusividade a sonoridade do grupo, uma vez que há também fortes influências de Led Zeppelin e também um pouco da música country americana. Como exemplo dessa última faceta temos o single “Down to the River”, do álbum homônimo de 2011, e “Levitate”, do subsequente (“Second Sun” – 2016).

Se fizermos um comparativo, o Buffalo Summer é como se fosse um Rival Sons do Reino Unido, com a diferença de que os galeses não medem esforços em dar peso aos instrumentos, pois as músicas são consideravelmente mais intensas que aquelas feitas por Jay Buchanan e companhia. Outro referencial interessante para entender a sonoridade do grupo é associá-lo ao Black Country Communion, supergrupo composto por nada menos que Glenn Hughes e Joe Bonamassa.

Agora em 2020 o Buffalo Summer lançou seu terceiro álbum intitulado “Desolation Blue”, distribuído no Brasil pela Hellion Records, que aposta no grupo desde seu trabalho antecessor – “Second Son”.

E há uma razão para essa insistência, pois esses galeses são muito bons. Agora, o que mais chama a atenção é o amadurecimento musical do grupo. Os dois primeiros álbuns serviram para galgar espaço através da mescla de hard rock e blues, com bastante ênfase neste último e com músicas cheias de ritmo, como, por exemplo, as excelentes “Money”, “Make You Mine” e “As High As The Pines” (esta, por sinal, lembra bastante o Rival Sons).

Ocorre que muita coisa mudou no novo álbum. O grupo não dispensa o blues, mas agora ele perde um pouco de espaço para dar lugar a faixas com uma característica mais hard rock. Só pelo título escolhido, “Desolation Blue”, já percebemos que estamos diante de um trabalho mais sereno, e parece que um pessimismo inconsolável foi abraçado em suas composições. O ápice disso encontra-se na melhor faixa do álbum, “When You Walk Away”, quando Andrew Hunt canta: “The human is the plague/ I’m waiting for the fall/ Start again and reset it all/ It’s nothing more than we deserve”, que, em uma tradução literal significa: O ser humano é a praga/ Estou esperando pela sua derrocada/ Começar tudo do zero/ Não é nada mais do que merecemos.

Esses momentos de fúria são complementados por outros de coração partido, decepções amorosas e crítica à religião, e correspondem ao pano de fundo para as 12 faixas de um álbum direto e sem frescura que promove uma cisão em relação àquele ambiente mais descontraído dos trabalhos anteriores.

A arte gráfica complementa bem a experiência de ouvir o álbum, pois quando você vê na capa uma floresta de pinheiros quase coberta pela neblina, instintivamente as sensações de frio e incômodo passam pela sua cabeça. Interessante notar que, mesmo adotando tonalidades claras, a arte remete um pouco à do Soundgarden em “Superunknown” (1994), pois nesta também há uma floresta, só que em chamas, logo abaixo do “Elfo Gritante”. Em ambos os casos, o direcionamento artístico leva ao mesmo resultado: inquietação.

Outro fator de destaque no álbum foi ter sido gravado em takes ao vivo dentro do estúdio em um período de 5 dias, algo que os integrantes fizeram questão de inserir nos créditos finais. Isto, sem dúvidas, enriquece a experiência sonora, pois os instrumentos estão todos muito presentes, o som preenche os ouvidos e assim a música fica mais orgânica, pessoal, como se você estivesse realmente ouvindo a banda ao vivo.

Quanto à produção, não é possível ir adiante sem comentar que o álbum foi gravado (em parte) no famoso Rockfield Studios, mesmo local por onde passaram Rush (com os excelentes “A Farewell to Kings” -1977, e “Hemispheres”- 1978), Queen (principais takes da faixa “Bohemian Rhapsody” – 1975) e, mais recentemente, Opeth (“Sorceress” – 2016).

Claro, o estúdio, por si só, não garante a qualidade do produto final, pois a banda precisa vir com uma boa proposta, mas não há como negar que a expectativa aumenta consideravelmente. É a mesma coisa que você descobrir que seu artista favorito recrutou o sueco Jens Bogren para produzir o novo trabalho: muito vai depender da química entre os músicos, porém, a mera presença de Jens dá indício de um bom resultado (vide “Machine Messiah” e “Quadra” do Sepultura, ambos sob a responsabilidade do referido produtor).

O álbum já começa ácido e sombrio com críticas dirigidas à Igreja em “The Power and the Greed”, excelente faixa que traz um clima de suspense e cujas notas iniciais da guitarra parecem transportar o ouvinte à trilha sonora de filmes de James Bond. Envolvendo várias quebras de ritmo e um ótimo refrão, a música realça o timbre grave de Andrew Hunt e traz o título do álbum ao final da letra.

Apresentando um ambiente menos pesado, o álbum segue com o single “Hit the Ground Running” em um simples, porém, bom ritmo da bateria de Gareth Hunt. Apesar de ser perceptivelmente mais animada que a antecessora, a música não destoa da temática geral do álbum, pois nela temos alguém desesperado para fugir para um lugar melhor.

“If Walls Could Speak” caminha bem para um refrão com direito ao uso de pandeireta no melhor estilo do inglês Liam Gallagher, enquanto a guitarra em “The Mirror”, bem melodiosa e mais calma, lembra os acordes de “First Kiss on Mars”, faixa do último álbum gravado pelo Stone Temple Pilots (2010) com Scott Weiland nos vocais. O único problema é que ao final o Buffalo Summer faz um momento à capella que ficou um pouco forçado, mas que, sem dúvidas, vai proporcionar belos coros e palmas quando tocada ao vivo.

Como já dito anteriormente, “When You Walk Away” é a melhor música do disco, com um refrão vibrante e muita energia na voz de Andrew. Porém, a banda poderia ter caprichado um pouco mais no desenvolvimento da música após o segundo refrão, pois a impressão que temos é que faltou criatividade, sendo feita uma pequena passagem insossa para logo retornar ao refrão final. Uma pena, pois poderiam ter dado uma maior atenção neste trecho, a música merecia!

Outra faixa que retrata bem o clima do álbum é “Last to Know”, que lida com decepções amorosas e traz em seu início uma passagem acústica para logo entrar em um belo refrão, algo que, por sinal, o grupo sabe fazer muito bem. Se você se atentar poderá ouvir ao fundo um inusitado bandolim, mas, não se assuste, o instrumento encaixou bem na sonoridade da música.

O blues é um requisito obrigatório para a banda e isto se confirmou na cadência de “Dark Valentine”, que mescla bem o ritmo com passagens mais diretas de rock and roll. Já “Deep Water” continua destilando o pessimismo característico do álbum quando Andrew Hunt canta a bagunça da sociedade em que vivemos.

Destaco, por fim, a ótima faixa de encerramento, “Pilot Light”, que, após momentos de caos e fúria, traz ao ouvinte um desfecho suave, com muita melodia e emoção. Mas não se engane, pois estamos, mais uma vez, diante da temática do amor não correspondido. Tudo neste álbum é sofrimento ou pessimismo, menos ouvir os seus 46 minutos de duração distribuídos ao longo de 12 músicas. Isso eu posso garantir que não é difícil de aturar, na realidade, é bem prazeroso.

“Desolation Blue” é um álbum de hard rock gravado em apenas 5 dias e que apresenta coerência do começo ao fim. Desde a arte gráfica até o peso das letras e o instrumental das músicas, tudo se encaixa perfeitamente ao clima proposto pelos galeses, lembrando também que foi muito bem produzido. O estúdio é clássico e tem a importância histórica de ter sido utilizado por grandes artistas, mas convenhamos, o Buffalo Summer também fez muito bem a parte dele.

Caso você já acompanhe o grupo desde seu início, vai se impressionar com a nova abordagem. Se ainda não conhece, o resultado é o mesmo: você vai se impressionar também.

Já estava me esquecendo: o Buffalo Summer é um bom exemplo de banda de rock do País de Gales? Se você leu essa resenha até aqui, já sabe que sim!

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