Por Alessandro Bonassoli
Disponibilizada em 2024, a música Revolução dava uma ideia do que o grupo Choque, de Rio do Sul (SC), poderia fazer. O primeiro dos cinco singles que sairiam naquele ano é puro thrash metal a la Pantera, a grande influência de Rodrigo Mazera (guitarra, Cowboys From Rio e Balboa´s Punch), Rapha Jorge (voz, 100 Dogmas, Hopeless Army, Chama de Hades, Fractal e Mathagal) e Adriano Souza (baixo, Balboa´s Punch).
Muito peso e um groove de alta voltagem são as guias mestras de Terra do Não, álbum de estreia que está disponível nas plataformas de streaming e no Bandcamp. Projeto que Mazera vinha desenvolvendo há dois anos, o Choque agora é realidade e com um potencial enorme. Quer seja pela qualidade de riffs de pura agressividade, quer seja pelas letras que tocam em temas como questões sociais da região do Alto Vale do Itajaí, onde fica a cidade de Rio do Sul, e lendas urbanas.
Jorge foi chamado para assumir o microfone quando as demos originais já estavam gravadas. Aprendeu o repertório criado por Mazera e o resultado é, do mesmo modo que em seus trabalhos anteriores, brilhante. Afinal, cantar metal em português é ter sempre os riscos de soar “esquisito” ou de cair em rimas fáceis demais. O estilo desenvolvido pelo vocalista no excelente 100 Dogmas e aprimorado nos outros grupos que o cantor de Blumenau, cidade a 96,6 quilômetros da base do Choque, permanece intacto.
Com um timbre que vai da aspereza aos tons limpos, o cantor chama a atenção pela variedade em seus arranjos vocais. E assim ele surpreende na excelente Ninho de Cobra, onde a performance traz à memória o estilo do lendário Catalau, do gigante Golpe de Estado, um dos maiores nomes do hard rock nacional.
Esta faixa é um bom exemplo da parte lírica citada acima. Mazera não tem papas na língua ao demonstrar sua postura inconformada com críticos, pessoas mesquinhas e tendências pré-determinadas por uma sociedade onde os ricos e poderosos querem poder ter tudo ao seu jeito.
“Sempre enganados desde a invenção da roda
Nascidos e criados, NINHO de COBRA
Não me importa quem é teu pai ou teu padrinho
Não sou igual a você, filha da puta engraçadinho
Aqui fora pra vencer tem que chorar tem que doer
Então não venha julgar
meu sangue chega a ferver
Forjado para suportar
Filho chora mãe não vê
Cansado de mimi,
tendências foda-se a moda
Somos todos criados em NINHO de COBRA”
O olhar crítico permanece na faixa-título, sobre a qual ainda não consigo definir se o destaque é a condução firme do andamento feito por baixo e bateria ou se são os riffs perfeitos de guitarra.
“Terra do não, dos Santos, Silva, João,
Dos pseudos fiéis frequentando bordéis,
Mentiras e tramas, ilusão cruel,
Na suvaquêra da madame até o cachorro tem lar
Lar!!
Terra do não, desprezo e opressão
Terra do não, desprezo e opressão”
E voltando a falar sobre riffs, quando se ouve faixas como Cobrador de Contas ou Bando de Loucos (não, não tem nada a ver com o grito de guerra de clube de futebol) a impressão é que são várias guitarras, tamanho o peso que Mazera impõe em seus arranjos. Os solos, por sua vez, são mais um toque de brilhantismo. Todos têm a dose exata na parte técnica, feeling de bom gosto e em pouco tempo de execução. Um padrão que certamente deixaria o mestre Dimebag Darrell orgulhoso.
E faltava comentar que a bateria foi registrada pelo competente Erik Correa (Cowboys From Rio). Ao vivo, as baquetas ficarão sob responsabilidade de Róbson Pontes (Rise Behaviour), que migrou do Rio de Janeiro para Blumenau, onde é professor de música e trabalha como freelancer para vários artistas locais.
Ao longo do álbum uma grande dificuldade é manter o pescoço no lugar, pois o headbanging mode sai do controle facilmente. Ouça as pedradas Nego da Beira e Dr. Cuzão e você entenderá o que digo. Para encerrar a conversa, Terra do Não é uma das gratas surpresas de 2025. Nele, comprova-se mais uma vez que a cena catarinense da música pesada tem muito a oferecer. Longe dos grandes centros, Santa Catarina sempre gerou, desde os anos 80, uma quantidade de bandas que ainda não ultrapassaram os limites do underground local. E a maioria delas com um nível tão alto quanto suas contrapartes paulistas, mineiras, cariocas e das demais regiões do Brasil.

Ouça Terra do Não em:
https://choque.bandcamp.com/album/terra-do-n-o
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