
Por Fernando Queiroz
Fotos: Andre Santos
Esqueça boa parte do que você entende por black metal. Aqui, quase nada dos preceitos estéticos e da ambientação do gênero se aplicam; exceto que, de fato, o Cult of Fire, da Tchéquia, faz parte desse gênero em termos sonoros. Não aquele som mal gravado, com produção crua e de baixo orçamento para ser “true”. Não, o som dos tchecos é bem feito, com melodias claras e sem perder o peso. Mas isso se trata dos álbuns – ao vivo, acredite, é um espetáculo tanto sonoro, quanto visual. Em sua segunda passagem pelo país a banda fez todos ficarem de queixo caído: era produção de show de estádio, mas em uma casa intimista. Vamos conferir como foi.
Infelizmente, o show não pode ser considerado um sucesso de público. Pudera! Numa quarta-feira, em um mês com inúmeros shows, realmente não dava para esperar muito mesmo. Mesmo assim, uma certa quantidade de gente já estava na porta da Burning House alguns minutos antes de abrirem as portas, o que aconteceu com pontualidade. Ao longo do tempo de espera de cerca de uma hora até o começo do show, algumas pessoas foram chegando. No fim das contas, cerca de metade do espaço estava cheio – e isso faz pensar que, caso fosse numa sexta ou num sábado, haveria bem mais gente. Todos acomodados, sem tumulto (isso é algo importante, pois não é novidade ocorrências em shows de black metal) e num ambiente agradável, além das belíssimas camisetas da banda sendo vendidas, às 20h as luzes se apagaram, e as cortinas se abriram. Sem banda de abertura, era hora do show.

Para todos os efeitos, foi exatamente ainda na introdução que todos ficaram de queixo caído. Com um dos palcos mais bonitos que já pude ver, com estética hinduísta e respeitando ao pé da letra as tradições culturais e religiosas da indochina, o Cult of Fire nem começara a tocar de fato e já impressionava. Ao centro do palco, uma figura mascarada gesticulava, como que encenando realmente um culto. Músicos sentados de pernas cruzadas, como num mantra – claro, exceto o baterista, que infelizmente mal aparece –, decorações impactantes, uma iluminação completamente fora dos padrões de qualquer show de heavy metal; tudo isso, logo nas primeiras notas tocadas, já te fazia entender que estava em algo único, que não verá em nenhuma outra banda. O próprio vocalista Vojtěch Holub cantava gesticulando, já que seu microfone estava dentro da enorme máscara que usava. Confesso que nunca esperei presenciar algum evento do tipo.

Musicalmente falando, tudo impecável. Som cristalino, tudo muito bem equalizado, eximiamente tocado. A primeira parte do show foi tocando seu último álbum, The One, Who Is Made of Smoke, na íntegra. O disco fala sobre as fases do luto na tradição religiosa hindu, e o próprio show segue isso, começando mais denso, e indo para um momento menos pesado (no sentido de sensação) no seu decorrer. A própria iluminação acompanha a evolução da temática. Na sétima canção, a última do álbum, tudo já está mais tranquilo, com a superação daquela perda. Era possível sentir aquilo, e esse é um dos maiores méritos da banda ao vivo.
Dali para frente, foram aquelas músicas sortidas de seus álbuns anteriores. Passearam por sua discografia, mas nunca perdendo aquela vibe mística, característica que os define. É bem verdade que o fã mais “mente fechada” de black metal pode achar aquilo ruim, mas na verdade isso que torna o grupo um ponto fora da curva – com tantas bandas tentando ser simplesmente “malvadas”, o Cult of Fire mostra que não é preciso seguir esse padrão para ser pesado e fazer uma obra absolutamente original, única no estilo. Grupos desse gênero costumam falar que fazem “rituais”, mas perto do que os tchecos fazem no palco, boa parte dos outros parece só teatro de baixo orçamento. Ao final, tivemos a primeira e única interação do vocalista com o público, falando sobre a última canção: tocaram pela primeira vez sua última música lançada, Reach the Sky and Die!, feita em homenagem a um fã e amigo da banda que faleceu recentemente. Emocionante!

Bem, sabem aquele show de que você não espera nada, mas recebe tudo? Esse foi o caso. Apesar do baixo público, num dia ruim para apresentações, quem lá esteve pôde conferir de perto uma forma diferente, única de se fazer um show de metal. Teatral, ritualístico, performático e, especialmente, com muita qualidade. O Cult of Fire entregou algo de que precisávamos: uma apresentação fora dos padrões. Esse é o maior mérito de que essa banda pode se gabar. E digo com firmeza que podem se tornar um dos gigantes do gênero.
Setlist
Loss
Mourning
Anger
Dhoom
Blessing
Joy
There Is More to Lose
Závěť Světu
Kālī Mā
Untitled 1
Khaṇḍa Maṇḍa Yōga
(ne)Čistý
Satan Mentor
Buddha 5
Bis
Reach the Sky and Die!

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