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Entrevistas

DAVE MUSTAINE E OS 25 ANOS DE PEACE SELLS… BUT WHO’S BUYING?

Por Mitch Lafon
 

Há vinte e cinco anos era lançado um dos principais álbuns da história do Thrash Metal: Peace Sells… But Who’s Buying? Hoje considerado um clássico, o disco saiu em setembro de 1986 e foi o segundo lançamento do Megadeth. Para comemorar a data, o material foi relançado em dois formatos – em CD duplo e em CD quíntuplo, contendo várias raridades, para alegria dos colecionadores e fãs em geral. A ROADIE CREW conversou com o líder, fundador, compositor, guitarrista e vocalista do Megadeth, Dave Mustaine, para falar sobre essa data histórica e sobre vários outros momentos da carreira da banda.

Para começar, qual o significado de Peace Sells… But Who’s Buying? para a banda?
Dave Mustaine:
 Quando nós começamos o Megadeth, nem imaginávamos o quanto a banda iria durar. Na verdade, David Ellefson e eu assumimos um compromisso recíproco de que, se o grupo não desse certo, nós nos algemaríamos num poste de luz e cometeríamos suicídio detonando uma granada… (risos) Depois a gente viu que não era exatamente uma ideia muito inteligente e, de todo modo, nós éramos tão pobres que jamais conseguiríamos comprar uma granada (mais risos). Agora, falando sério, a gente olha para trás e vê todo o sucesso que tivemos naquela época, o tanto que nos divertimos e como esse disco nos firmou nesse cenário… Havia muitas bandas em Los Angeles naquela época, como WASP, Mötley Crüe, Ratt e tantas outras com caras se proclamando que eram caras barra-pesada e isso e aquilo. Nós nunca ficamos alardeando isso, mas éramos sem dúvida sujeitos bem barra-pesada. Lembro que na festa de lançamento de Peace Sells… But Who’s Buying? nós alugamos duas limosines para nós. Na hora em que fui embora, procurei por uma delas mas as duas tinham sumido. Foi quando Chris Poland (N.T.: guitarrista do Megadeth à época) disse que a namorada dele tinha pego uma para ir embora. A gente acabou discutindo e eu dei um soco na cara dele. Era assim que a coisa funcionava conosco e quando as pessoas perguntam se nós éramos perigosos eu digo que éramos, sim.

Você acha que em algum momento vai voltar a tocar The Conjuring ao vivo novamente (N.T.: a letra faz claras referências a rituais satânicos)?
Dave:
 Sim, sem dúvida. Em algum momento eu vou acabar mudando de ideia. Mas é como diz o ditado: na dúvida, não se meta. E eu tenho dito há tempos que preciso me cuidar. Qualquer decisão errada que eu tome em termos espirituais pode ter um efeito terrível em mim. Eu tive um forte envolvimento com magia negra e bruxaria, li a Bíblia Satância, roguei praga a muita gente e isso causou uma grande confusão na minha vida. Então, quando eu disse que não me meteria mais com isso foi porque eu tinha uma ótima razão.

Você teve um despertar espiritual por volta de 1999 ou 2000…
Dave:
 Foi em 2001.

Eu soube que a reedição do disco tem um texto de Lars Ulrich do Metallica no encarte. Isso seria parte de um processo de reaproximação de vocês, já que, pelo que notamos, há anos você não sente nada que não seja raiva por ele?
Dave: 
Eu não acho que seja bem assim…

Bem, pelo que a gente lê na imprensa, o que vocês falam um do outro não é exatamente positivo nem muito simpático…
Dave: 
Mas eu repito que não é bem assim. Na verdade, dá pra dizer que temos uma relação pela imprensa e outra relação particular. Quando a gente se fala, sempre perguntamos um pro outro: ‘E aí, cara, o que você anda fazendo? Como você está? Precisamos marcar de tomar uma cerveja juntos.’ Nós nos telefonamos e conversamos assim. Já na imprensa, a conversa é outra. Alguém chega pra mim e diz: ‘Viu o que o Lars falou de você?’ E eu respondo: ‘Ele falou isso mesmo? Você está brincando que é verdade…’ Só que geralmente era alguma coisa bem antiga ou mesmo distorcida por gente que queria criar um antagonismo entre nós pelo simples prazer de me ver chateado. Tem gente que adora dizer coisas que me aborrecem. Então, antes de mais nada você tem que ver a origem das coisas. Quem, em sã consciência, teria interesse em criar uma celeuma entre nós depois de todo o trabalho que tivemos para levar o Big Four para os palcos?

Por falar nisso, tem uma pergunta que não quer calar. Não quero levantar um aspecto negativo, mas a ‘The Big Four Tour’ é algo pelo qual os fãs clamam há vinte anos. Então, por que vocês deixaram os EUA de fora da tour?
Dave:
 Mas nós já tocamos nos Estados Unidos…

Sim, mas foram apenas dois shows. Não há chance de haver uma tour americana?
Dave: 
Não creio. Primeiro de tudo, quando marcamos a tour com Lars, eles já deixaram claro que queriam alternar semanas na estrada e semanas em casa, pra curtir os filhos. Não tem como contestar isso, então assim foi. Além disso, não tenho muita certeza de que os EUA estejam realmente querendo uma tour do Big Four. Então, acho que esses dois shows (N.T.: na Califórnia em abril e no Yankee Stadium, em Nova York, em setembro) foram suficientes. E foi ainda mais especial tocar no Yankee Stadium, que é conhecido como o berço de Babe Ruth (N.T.: um dos mais famosos jogadores de beisebol da história). Quem poderia imaginar que um dia tocaríamos lá? Já toquei num estádio de beisebol em 1999, o Bank One Ballpark, com o Black Sabbath com Ozzy nos vocais. Foi muito legal, mas não era o Yankee Stadium.

Vocês também tocaram no ‘HeavyTO’, em Toronto neste ano. Ano passado, participaram do ‘HeavyMtl’, em Montreal e também fizeram um show secreto que foi até as três da manhã. Você acha que os EUA também estariam preparados para um festival desse tipo?
Dave: 
Eu adoro tocar em Toronto. É uma cidade em que sempre fomos muito bem recebidos e lá temos fãs que nos acompanham desde os primórdios. Nossa relação com a cidade é especial. Nós estivemos também em Montreal há muitos anos, quando uma nevasca…

Eu me lembro! Eu estava nesse show (N.R.: em 14 de Janeiro de 1998, no Le Metropolis). Você até pediu para os fãs doarem alimentos não perecíveis…
Dave:
 Sim, era isso que eu ia contar…

Foi algo muito especial que você fez pela cidade. A maior parte das bandas cancelou os shows que tinham marcados para aquele período, mas você não só manteve a data como fez mais. Não foi lá simplesmente, tocou, pegou o dinheiro e caiu fora. O que você fez foi espetacular.
Dave: 
Obrigado. Mas você deve lembrar que a cidade estava debaixo de neve e que ninguém conseguia sair de lá. As pessoas sem teto estavam morrendo de frio. E foi isso que me deu a ideia de ajudar. Não queria ver meus semelhantes morrendo. Não sei quantos dos seus leitores concordam com esse tipo de pensamento, mas eu sempre que posso ofereço algo para comer e para beber às pessoas que moram nas ruas. Às vezes, até pago uma bebida a eles, porque muitos são alcoólicos e precisam de uma dose… E eu sempre pergunto o que aconteceu nas suas vidas para eles irem parar nas ruas. As histórias que eu ouço são terríveis, as piores que você pode imaginar. Um ficou viúvo e acabou perdendo tudo. Outro voltou ferido da guerra. E coisas piores… São pessoas comuns, como eu e você. É nessas horas em que em penso como sempre fui muito recompensado e o quanto minha vida é privilegiada. Então, se eu estou em Montreal e posso dar a chance para algumas pessoas de terem um cobertor e alguma comida, eu certamente vou fazer isso, até porque é uma atitude que ajuda a lembrar quem eu sou. Não sou um sujeito especial, sou igual a todo mundo.

Voltando a Peace Sells… But Who’s Buying? Você pensa em fazer uma tour tocando esse disco na íntegra?
Dave: 
Não sei… Fizemos isso no ano passado na ‘Rust In Peace Tour’, também para comemorar o aniversário do disco (N.T.: vinte anos) e foi bem legal, mas o caso é que não podemos ficar repetindo essa fórmula. Senão, daqui a pouco vamos fazer tours para comemorar cinco ou dez anos de cada um dos discos que lançamos e nunca mais vamos tocar nada novo, vão ser só turnês de aniversário. E eu quero criar músicas novas. Shawn (Drover, baterista do Megadeth) tocava numa banda chamada Eidolon. Ele era o principal compositor da banda, então sabia como funcionava um processo de composição. Só que ele nunca tinha trabalhado com alguém com eu antes. Quando fomos ao estúdio pela primeira vez, ele tinha algumas músicas prontas e eu disse a ele: ‘Eu não escrevo músicas. Basicamente, junto riffs.’ Então, quando fomos gravar o disco, nos criamos um monte de riffs e depois separamos o que íamos usar e o que íamos dispensar. Só aí fui olhar as letras dele e não gostei de nenhuma. Hoje ele já sabe como trabalhar comigo e está até escrevendo letras para nós. É bem engraçado vê-lo grunhindo as melodias, mas tem funcionado bem. Eu nunca começo a fazer um disco com ideias pré-concebidas. Então, várias coisas podem acontecer.

Cite um exemplo deste método de trabalho que você comentou.
Dave:
 Por exemplo, posso não querer fazer um disco extremamente rápido, mas essa pode se mostrar a única forma de fazê-lo funcionar. E uma única nota pode gerar um grande clímax! Então, o objetivo tem que ser chegar ao final e dizer: ‘Conseguimos! Era essa a música que eu estava buscando.’ Shawn me disse algo engraçado a respeito outro dia. Sempre que entro no meu carro, minha mulher ou meus filhos ligam o rádio na estação de Country Music. Não tenho nada contra Country Music, até acho que há muitas coisas boas lá, então deixo rolar. E eu estava conversando com Shawn e ele começou: ‘Eu sei que você adora Country…’ Eu não gosto de Country! Só escuto no meu carro com minha família. Então, as pessoas acabam tendo ideias pré-concebidas a seu respeito. Eu não tenho nada contra nenhum estilo de música. Ouço de tudo no meu computador, ligo na Rádio Pandora e escuto os mais variados gêneros dos mais diversos artistas. Eu ouço de tudo e acho que isso é o mais bacana no Megadeth, porque nós começamos como uma banda Punk… Eu gostava de Punk, das bandas da British Invasion e de NWOBHM. E a combinação de todos esses ingredientes acabou sendo marcante porque ninguém estava fazendo aquilo. Eu adorava AC/DC e também adorava Diamond Head ou Mercyful Fate. Eles não iam naquela progressão manjada de verso-refrão-verso-refrão-solo-refrão-final. As músicas deles contavam histórias e tinham estruturas diferenciadas. Tem gente que me diz que Peace Sells… But Who’s Buying? é um dos primeiros discos de Prog Metal da história e eu até acho que pode ser… Acho que Wake Up Dead pode ser tranquilamente um tema Progressivo. Pois é, voltando à sua pergunta anterior, acho que poderíamos ter nos divertido bastante se tivéssemos tido a oportunidade de fazer um ou mais shows de aniversário desse disco. E sobre The Conjuring, ia depender da minha cabeça no momento. Mas eu poderia cantá-la sem problemas, talvez só mudasse a letra.

Você consegue separar o artista de você como pessoa? Tipo: ‘Aqui é o artista cantando a música, não sou eu.’
Dave: 
Não, jamais conseguiria fazer isso. Seria uma mentira para mim. Quando canto, eu sou eu mesmo e a música se torna parte de mim. Eu me transformo na música. Sei que tem muita gente que diz: ‘É só uma música que estou cantando.’ Mas esse não sou eu.

Seria como se você fosse um ator. Você representa um papel num filme, mas isso não significa que você seja como aquele personagem…
Dave: 
São coisas diferentes…

No momento, a banda está com Shawn na bateria, o fantástico Chris Broderick na guitarra e Dave Ellefson de volta ao baixo. Como esse time soa musicalmente para você?
Dave: 
Veja dessa forma: se eu tivesse encontrado Shawn lá no começo, o Megadeth jamais teria tido outro baterista. Ele é o sujeito certo para o posto. E tem uma grande personalidade e um grande espírito. Dave está mandando muito bem e Chris é um cara sossegado. Ele é uma pessoa bem peculiar. Toca como se fosse de outro planeta e é uma pessoa ótima. É muito dedicado ao trabalho e sempre evita qualquer tipo de problema.

Se você pudesse escolher, essa seria a formação que você manteria até se aposentar?
Dave: 
Sim. Mas não veja isso como um desrespeito aos fãs e suas preferências ao longo dos anos. Há momentos do passado que eu considero insuperáveis, mas se pensarmos no todo, nas dificuldades e nos altos e baixos por que passamos, prefiro essa formação a qualquer outra. Eu ainda sou amigo de muitos dos caras que passaram pela banda. Tem muitos de que, não sou amigo, mas sempre há uma razão… Seja como for, todos eles me ajudaram a chegar onde estou hoje e sou muito agradecido por isso. Desejo a eles o melhor e que cada um deles tenha o mesmo sucesso que estou tendo hoje. Nós todos fomos irmãos em algum momento da vida.

 

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