DREGEN – SÃO PAULO (SP)

11 de outubro de 2026 - Manifesto Bar

Por Leandro Nogueira Coppi

Foto: Andre Santos (*exceto onde indicado)

Na Suécia, poucos guitarristas carregam uma ligação tão genuína com o rock de garagem, o hard rock e o glam rock quanto Dregen, nome artístico de Andreas Tyrone Svensson. Desde que começou a chamar atenção com o Backyard Babies, banda que formou no final dos anos 1980, inicialmente sob o nome Tyrant, o músico de 53 anos fez da combinação de riffs explosivos, energia punk, atitude desafiadora e presença de palco incendiária sua marca registrada. Sua trajetória também passa pelo The Hellacopters, outra referência do rock escandinavo, por uma breve, porém marcante, passagem pela banda do vocalista finlandês Michael Monroe (ex-Hanoi Rocks, Jerusalem Slim e Demolition 23) e por uma carreira solo que lhe permitiu explorar outras facetas de sua personalidade musical. Longe de se prender a um único projeto, Dregen mantém viva a essência de uma geração que encontrou no rock uma forma de expressão sem filtros, feita de volume alto, suor e espontaneidade. Em São Paulo, o guitarrista se apresentou acompanhado da banda The Ammunition, como parte de uma turnê sul-americana que também passou por Goiânia (GO) e Buenos Aires, na Argentina. Foi mais uma oportunidade de conferir de perto a força de um artista que tem o rock’n’roll como parte indissociável de sua identidade.

A passagem de Dregen pelo continente sul-americano aconteceu em meio a um momento delicado de sua trajetória e despertava certa apreensão entre aqueles que acompanhavam sua situação. Afinal, no mês anterior, o guitarrista havia sido desligado definitivamente do The Hellacopters, banda da qual foi um dos fundadores, em 1994, em razão das sequelas permanentes de uma lesão na mão sofrida em julho de 2023. O problema o mantinha afastado dos shows do grupo havia quase três anos, e a confirmação de sua saída, com LG Valeta assumindo o posto em definitivo, evidenciava a gravidade das limitações que enfrenta. Diante desse cenário, era natural questionar até que ponto o músico conseguiria entregar no palco a energia e a desenvoltura que sempre marcaram suas apresentações.

Essa foi minha primeira visita ao Manifesto Bar desde a mudança de endereço, há aproximadamente um ano. O novo espaço é mais interessante que o anterior, principalmente por não apresentar mais pontos cegos em relação ao palco. Bem maior, o Manifesto agora tem mais cara de club/pub do que de um “bar” propriamente dito. Tecnicamente, também houve um upgrade, com iluminação melhor, novo tratamento acústico e sistema de som RCF HDL-20. Infelizmente, porém, a questão dos horários mantém a dinâmica de balada: começa tarde e termina tarde. Talvez isso tenha contribuído para a presença apenas razoável de público, considerando que era um domingo, ainda que véspera de feriado.

A primeira das duas bandas de abertura só subiu ao palco às 22h30. Falo do Bastardz — não confundir com a banda maranhense de hardcore/crossover Basttardz —, que celebrava 25 anos de trajetória, entre idas e vindas e diversas reformulações na formação. Representante da cena paulistana, o grupo é um expoente do sleaze glam influenciado pelo cenário sueco do início dos anos 2000. Não por acaso, surgiu em uma época em que o Backyard Babies, de Dregen, ganhou bastante visibilidade no Brasil, impulsionado pelos videoclipes do álbum Making Enemies Is Good, exibidos exaustivamente pela MTV. Outras bandas suecas do estilo, como Crashdïet e Hardcore Superstar, também conquistaram um bom número de seguidores por aqui.

Após uma introdução mecânica, o Bastardz deu início à festa com Dressed to Kill, música de Jungle Outlawz (2008), seu primeiro e único álbum completo até o momento. A faixa veio acompanhada de uma chuva de prata (repetida em outros momentos do show), proporcionando um efeito visual de palco que remetia aos recursos cênicos frequentemente utilizados por grandes bandas estrangeiras, sobretudo nos anos 1980. Os fundadores Danny Poison (guitarra) e Drannath Kate (baixo) apresentaram a nova formação, que conta com o experiente baterista Edgar Avian (Supla, Gritando HC, Inocentes, Tales From the Porn, Dinho Ouro Preto e Os Spoilers) e o jovem vocalista mineiro Guzz Collins (ex-Electric Gypsy). O grupo também contou com o guitarrista José Lucas Fuza, tecladista do Trovão, que, infelizmente, foi prejudicado por problemas técnicos durante a primeira música e só conseguiu tocar quando ela já estava praticamente no final.

A partir da música seguinte, Alleycat Spoiled Brat, do EP No Ass No Pass (2005), tudo correu bem. O repertório trouxe músicas contagiantes como Pills, Wasted Generation, Gasoline e a pesada Let it Fuckin Roll, que, em estúdio, contou com a participação do vocalista sueco Lizzy DeVine (ex-Vains of Jenna), que virá ao Brasil em maio de 2027 com sua banda atual, The Cruel Intentions. Além dessas e de outras músicas próprias, o Bastardz ainda mandou um cover que caiu como uma luva para um domingo chuvoso: We Don’t Celebrate Sundays, hit do Hardcore Superstar.

Confesso que estava curioso para saber como Guzz Collins se sairia no Bastardz, já que seu trabalho no Electric Gypsy tinha uma pegada mais hard rock e exigia uma abordagem vocal diferente. Mesmo cantando de forma mais rasgada, como pede o sleaze glam, ele se encaixou bem e teve uma boa performance, tanto vocal quanto cênica. Mas quem roubou a cena foi o sempre audacioso e debochado Drannath Kate. Depois da terceira musica, o baixista tirou a parte de cima da roupa e virou de costas para o público. Para surpresa geral, suas nádegas estavam completamente expostas – e não era por nenhum corte de orçamento! O público caiu na gargalhada, enquanto os seguranças da casa observavam a cena com expressões nada amistosas. E assim Drannath seguiu tocando até o fim do show. Definitivamente, ele levou ao pé da letra o título No Ass No Pass!

A programação seguiu com o Corazones Muertos, banda argentina de glam punk formada em 2001 e reformulada em São Paulo em 2014, contemporânea do Bastardz. Liderada pelo músico argentino Joe Klenner (vocal e guitarra), fundador e único integrante remanescente da formação original, o grupo subiu ao palco faltando poucos minutos para a meia-noite, dando início à apresentação com Subway Boys, faixa que também abre seu álbum mais recente, Livin’ Dead Stories, lançado em 2023. Assim como aconteceu com o Bastardz, o Corazones Muertos também enfrentou alguns problemas técnicos durante a primeira música, mas, felizmente, já perto do final.

Completado por Jeff Molina (bateria), parceiro de Klenner também na banda de dark music When I Die, Índio (baixo) e Ziggy Mendonça (guitarra – Made in Brazil, The Smokin Pie) — este ostentando uma bela camiseta da veterana banda britânica The Dogs D’Amour —, o Corazones agitou o público com uma apresentação visceral e cheia de energia. Músicas cruas, aceleradas e pegajosas evidenciavam influências de nomes clássicos como New York Dolls, Sex Pistols, Ramones, The Heartbreakers, Hanoi Rocks, The Stooges e Dead Boys. Bastava fechar os olhos para se sentir em um clube noturno nova-iorquino ou em um pub britânico, assistindo a qualquer uma dessas bandas em ação no final dos anos 1970 ou início da década seguinte.

Entre os destaques do setlist estavam a já mencionada Subway Boys e as também frenéticas Pills for Life, Death & Glory, Spikes & Dogs e Can You Dig It, cuja divisão de vocais entre Klenner e Ziggy é um detalhe bem bacana, além de Don’t Kill Rock and Roll e da ótima Home Alone, entre outras. I Fought the Law, clássico eternizado pelo The Clash, também agitou o público. E, por falar em covers, particularmente gostei da inclusão de Bathroom Wall, originalmente gravada no álbum de estreia homônimo dos americanos do Faster Pussycat. Lançado em 1987, o disco chegou a superar Appetite for Destruction, do Guns N’ Roses, em vendas em determinado momento.

Com uma apresentação marcada pela urgência do punk rock, pelo espírito debochado do glam e por muito rock’n’roll sem firulas, o Corazones Muertos mostrou que sua proposta continua tão eficaz quanto direta. Joe Klenner e companhia entregaram um show intenso, com repertório variado e energia de sobra. Uma boa maneira de encerrar a participação das bandas de abertura antes da atração principal da noite. Em tempo: já passou da hora de tanto o Corazones Muertos quanto o Bastardz lançarem novos álbuns!

Após o final do show do Corazones Muertos e a preparação do palco para a atração principal da noite, o público começou a se aproximar e a se aglomerar diante do palco. Era 1h10 da matina quando uma introdução mecânica começou a soar pelos alto-falantes, enquanto, no telão atrás da bateria, labaredas flamejavam entre o logotipo de Dregen. De repente, uma narração quase igual à tradicional e histórica abertura dos shows do KISS —  “You wanted the best, you got the best! The hottest band in the world… KISS!” —, ecoou pelo ambiente. Para a euforia geral, o guitarrista e vocalista sueco e sua gangue argentina, The Ammunition, invadiram o palco. O trio que o acompanhava era composta por Leonel Suite (vocal e guitarra, Turbocoopers), Adrian Chiche (bateria, En Bajada) e Santi D.B. (baixo, Delete e ex-Pelea de Gallos). Com o som alto e guitarras sujas, o quarteto deu início ao show com Divisions of Me, música que abre o até aqui único álbum solo completo de Dregen, Dregen, lançado em 2013. Ao final, ele perguntou: “¡Ey, São Paulo, ¿qué pasa?!”.

Na sequência, Dregen emendou Just Like That, outra música de seu álbum solo, que ganhou videoclipe na época de seu lançamento. Ao final, cumprimentou o público e, em seguida, puxou o riff de One Man Army. Mas, além das músicas de sua carreira solo, o guitarrista havia prometido incluir no repertório clássicos de sua trajetória com o Backyard Babies e o The Hellacopters. Promessa é dívida, e ele começou a pagar com Look at You, do aclamado Total 13, segundo álbum de estúdio do Backyard Babies, lançado em 1998. A música foi bastante comemorada pelos fãs, que, assim como nas anteriores, cantaram junto com Dregen, desta vez com ainda mais empolgação. Durante a execução, ele deu um jeito de autografar um disco de um fã que estava à beira do palco.

Depois de Bad Situation, Dregen novamente deixou o público fervendo ao anunciar Star War, outra do Backyard Babies, presente em Making Enemy is Good, disco queridinho dos fãs brasileiros. Empolgado com a reação da plateia, ele entrou na agitação e até esfregou no pedestal do microfone a sua surrada guitarra semiacústica, cuja pintura já dava sinais de desgaste — e, convenhamos, isso é bem legal!

Até aquele momento do show, fiquei atento a qualquer sinal de dificuldade de Dregen ao tocar. Minha impressão foi que, embora sua pegada já não parecesse tão potente quanto antes, pouca coisa mudou em seu playing, apesar do recente anúncio de sua saída do The Hellacopters. Por outro lado, em termos de performance, embora continue visceral no palco, o guitarrista sueco aparenta estar tirando um pouco o pé do acelerador em comparação com as outras duas vezes em que o assisti com o Backyard Babies em São Paulo. A mais recente foi em 2018, no antigo endereço do Manifesto, quando trajava um visual de operário de fábrica de séculos passados. Antes disso, em 2002, ainda bem mais jovem, obviamente, ele fez o palco do Hangar 110 tremer de tanto correr de um lado para o outro, como se estivesse tocando para um estádio lotado. Desta vez, entre Soulseller, a primeira do The Hellacopters no set, e One Sound, do Backyard Babies, Dregen precisou aproveitar o intervalo para recuperar o fôlego com a ajuda de um aparelho de oxigênio.

*Foto: Leandro Nogueira Coppi

Talvez o melhor momento entre as músicas do álbum Dregen tenha sido Flat Tyre on a Muddy Road, cuja letra trágica contrasta com um instrumental e linhas vocais de pegada western/southern absolutamente viciantes. Antes de executá-la, Dregen sentou-se por alguns instantes no praticável da bateria para tomar água e recuperar as energias. Outro destaque no show foi o guitarrista Leonel Suite, bastante atuante também nos vocais de apoio. Na sequência, a animalesca Th1rt3en or Nothing, do Backyard Babies, com sua marcação de cowbell bem legal, ganhou um reforço especial: Guzz Collins, do Bastardz, subiu ao palco para participar da música.

A última música do set dedicada à carreira solo de Dregen foi Mojo’s Gone, que também encerra o álbum de 2013. Durante a execução, o guitarrista apresentou seus companheiros e, ao final, todos deixaram o palco. Na volta para o bis, Dregen surgiu vestindo uma camiseta verde e amarela com “Brasil” estampado no peito e um número 9 nas costas e foi recebido pelo público com o tradicional coro: “Olê, olê, olê, olê… Dregen, Dregen”.

Empolgado com o “abraço” dos fãs brasileiros, ele retribuiu com Gotta Get Some Action (Now!), segunda e última representante do The Hellacopters no repertório. Na sequência, convidou ao palco Joe Klenner, do Corazones Muertos, e Edgar Avian, do Bastardz, para se juntarem a ele em um cover de Pretty Vacant, do Sex Pistols. Para a despedida — desta vez, sem convidados —, reservou um dos grandes hits do Backyard Babies: a explosiva Minus Celsius, cantanda em uníssono pelos fãs. Pouco antes das 2h30, Dregen deixou o palco, porém atendeu alguns fãs no camarim.

Talvez por conta do horário apertado, Dregen cortou do set Babylon, cover do Faster Pussycat gravado em estúdio pelo Backyard Babies com a participação de Ginger, vocalista do The Wildhearts, que atualmente luta contra um câncer raro e agressivo e optou por não se submeter ao tratamento. No entanto, ao menos para este repórter, as ausências mais sentidas foram outras: The Clash e, principalmente, a grudenta e cheia de atitude Brand New Hate, faixas cujos videoclipes ajudaram a tornar o Backyard Babies conhecido do público brasileiro. Imperdoavelmente, nenhuma das duas entrou no repertório.

Dregen fez do Manifesto Bar o cenário de uma noite de celebração à sua trajetória e à atitude que sempre marcou sua música. Acompanhado por músicos competentes, o guitarrista proporcionou momentos especiais ao público, sem deixar que a presença mais discreta de espectadores diminuísse sua entrega no palco. A resposta calorosa dos fãs que estiveram presente, cantando, vibrando e até o homenageando, mostrou a força dessa conexão. No fim das contas, foi uma noite de rock’n’roll autêntico, sem frescura e com a energia de quem continua fazendo da música uma extensão de sua própria personalidade.

Dregen – setlist
Divisions of Me
Just Like That
One Man Army
Look at You (Backyard Babies)
Bad Situation
Star War (Backyard Babies)
Flat Tyre On A Muddy Road
Th1rt3en or Nothing (Backyard Babies)
Soulseller (The Hellacopters)
One Sound (Backyard Babies)
Mojo’s Gone

Babylon (Backyard Babies)
Gotta Get Some Action (Now!) (The Hellacopters)
Pretty Vacant (cover do Sex Pistols)
Minus Celsius (Backyard Babies)

Corazones Muertos – setlist
Subway Boys
Pills for Life
Death & Glory
Only Way Out
Chinese Rocks (Johnny Thunders and The Heartbreakers)
Spikes & Dogs
Home Alone
Can You Dig it
I Fought the Law (cover do The Clash)
All the Things
Bathroom Wall (cover do Faster Pussycat)
Fly Away
Don’t Kill Rock & Roll

Bastardz – setlist
Dressed to Kill
Alleycat Spoiled Brat
Enemy in Me
Pills
Wasted Generation
A Little Dose
Let it Fuckin Roll
We Don’t Celebrate Sundays (cover do Hardcore Superstar)
Gasoline

 

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