FABIO LIONE – SÃO PAULO (SP)

2 de fevereiro de 2025 – VIP Station

Por Fernando Queiroz

Fotos: Belmilson dos Santos

 

Ele é muito brasileiro!

Pela primeira vez em solo paulistano em sua recente carreira solo, com a turnê “Epic Tales”, o vocalista do Angra Fabio Lione mostrou seu melhor lado como vocalista, celebrando sua longa e rica carreira no power metal acompanhado de um time de músicos nacionais. Mais que isso, celebrou sua própria vida musical, com mais de duas horas de show com clássicos do Rhapsody (ainda sem o Of Fire, vale dizer) e outras bandas por onde passou, além de covers surpreendentes.

A tarde do domingo era chuvosa e cinza em São Paulo. Marcado inicialmente para a abertura às 17h, tudo acabou ocorrendo mais cedo. Pouco antes, foi anunciado que as portas seriam abertas às 16h, e assim foi, pontualmente. O tempo de espera entre a abertura das portas e o show seria bem curto, e às 16h30 teríamos a primeira banda de abertura. A casa, que contava com uma discreta e um pouco escondida banca de merch na lateral, vendendo materiais de todas quatro bandas presentes, porém, ainda estava bem vazia, e na rua, sem sinais de que muita gente estava chegando. Podia contar-se quase nos dedos o tanto de gente que veria a primeira atração da noite.

Pois bem, a pontualidade foi cumprida e meia hora após a abertura das portas entraram no palco os gaúchos do Marenna, banda que é um projeto do vocalista Rod Marenna, apresentando um som bem interessante. Com seu rock/hard rock melódico, talvez dando para se chamar de uma vertente um pouco mais pesada do AOR, é impossível não elogiar enfaticamente a qualidade dos músicos e principalmente do vocalista Rod. Embora tocando para pouquíssima gente e com uma qualidade de som muito abaixo do ideal no momento, a performance era digna de um show de estádio por parte deles. Com um set apenas de músicas próprias, elogios eram ouvidos por todos presentes unanimemente. Saíram do palco após quarenta minutos e, claro, ovacionados por sua grande apresentação, que merecia um público muito maior.

Ainda com pouco público, poucos minutos depois quem entrou em cena, vindo do Rio de Janeiro, foi o Innocence Lost, banda de metal progressivo conhecida pelo público paulistano, já tendo se apresentado em diversos eventos na capital paulista, em especial no La Iglesia, onde este que vos fala já os viu. Os problemas técnicos também assolaram o show dos cariocas, ainda mais que na apresentação anterior, e em determinados momentos mal se ouvia a voz da carismática vocalista Mari Torres, em especial pelas guitarras altas demais. O baixo também era um problema, e mal podia ser ouvido. Desfalcados de seu baterista Thiago Alves, tocaram com o convidado Gabriel Bastos, músico experiente e que não decepcionou. A apresentação, com os mesmos quarenta minutos, também foi inteiramente de músicas próprias, e puderam para mostrar toda sua competência e a força do metal do Rio.

Pouco mais cheia foi a fantástica apresentação do Enorion, com um intervalo igualmente curto entre as apresentações. Aqui, porém, tínhamos o palco completo, sem a bateria de banda de abertura, menor, mais à frente – deve-se ao fato de toda a banda, exceto o vocalista, claro, ser a banda de apoio de Fabio Lione, então todo o equipamento do show principal já estava no palco. Por isso também, há de se dizer que o som estava muito melhor ajustado.

Diferente das bandas anteriores, o Enorion teve uma abordagem mais leve em seu show. Além de o estilo ser bem mais próximo do que Fabio Lione apresentaria, o que ajudaria na aceitação do público, ainda tivemos momentos icônicos. Tocar música de abertura da série animada dos anos 80 “He Man” foi de uma leveza extremamente prazerosa para os presentes, e finalizar o show com a icônica Pegasus Fantasy, do anime Cavaleiros do Zodíaco levou o público ao delírio. Não apenas as escolhas foram certeiras, mas a banda era afiadíssima. Destaque para o vocalista Felippe Castello, que com seu visual “brega” era exatamente o estereótipo de um cantor de power metal e, claro, mostrou uma voz incrível de cantor de ópera que é. Banda “da casa”, os paulistanos fizeram uma apresentação soberba, de uma banda que mostra o power dos anos 90 e 2000 como deve ser. Foram outros quarenta minutos de show, como os anteriores, que valeram muito a pena.

Chegara, então, a “hora do vamo vê” com a atração principal da noite, o vocalista italiano Fabio Lione. A casa ficou muito longe da sua capacidade total – na verdade, estava bem vazia para os padrões de shows internacionais. Se puder supor um motivo para isso, diria que a vindoura turnê dele por aqui, com orquestra, em maio, atrapalhou já muita gente acaba por preferir ir ao outro, que contará com músicos internacionais ex-Rhapsody também. Mas não foi o público diminuto que intimidou a banda, e muito menos Fabio. Às 20h, após uma hora de intervalo para atender aos pagantes do meet & greet, começa o show, cuja primeira parte era inteira tocando músicas de sua ex-banda, o Rhapsody.

No horário certo, a introdução épica do álbum Dawn Of Victory, do já longínquo ano de 2000, Lux Triumphans começa a tocar em playback nos PAs, e logo a banda entra já com a pedrada que é a faixa homônima do álbum em questão. Não tinha como começar mais com o pé direito! Indo mais ainda ao passado, para 1997, Fabio emenda outro clássico, Land of Immortals, do primeiro álbum da banda, Legendary Tales, e primeira música de sucesso deles. Lione se apresenta ao público falando em português – um bom português, como sempre, apesar do carregado sotaque – e talvez um pouco cedo demais no set, a balada Wings of Destiny, do álbum Symphony of Enchanted Lands, de 1998, cadenciou o show. De qualquer maneira, é outro clássico da banda que merecia ser tocado, e foi bem recebido. Voltando a Dawn of Victory, e com mais pedrada, Holy Thunderforce, a música para “bater cabeça” do álbum foi a próxima, com participação mais que especial de Kiko Shred, do Viper. E acreditem, Lione consegue, ao vivo, deixar a música mais agressiva ainda, com vocais rasgados, se aproximando do gutural.

Shows que você não tem nem tempo de respirar são os melhores! E assim foi. Após uma breve fala, o cantor chama, nas próprias palavras, “uma daquelas músicas que jamais pode faltar.” Ele estava certo! Embora talvez devesse estar mais para o fim do show, era hora do maior sucesso de sua carreira, Emerald Sword, cantada a plenos pulmões pelo público, em especial no refrão de tirar arrepios de qualquer fã de metal melódico, essa também com Kiko Shred na terceira guitarra. Pequena pausa, então, para homenagear um dos maiores atores que o cinema já viu, que gravou álbuns de metal, além de sua participação com o Rhapsody. Em homenagem a Christopher Lee, a emocionante balada épica, muito bem colocada no show, Magic of the Wizard’s Dream foi de arrepiar, ainda mais pelas passagens líricas de Fabio, cuja voz para esse estilo é tão forte que podia colocar o microfone na cintura, literalmente, e ele ainda seria ouvido cantando como um trovão.

De volta a Symphony of Enchanted Lands, Wisdom of the Kings foi a próxima, seguida por Unholy Warcry, faixa de abertura do álbum de 2004 Symphony of Enchanted Lands II. Única música em italiano no setlist, Lamento Eroico é outra em que Fabio impressiona com sua habilidade de cantor operístico, especialmente na dificílima e altíssima parte final da música. Finalmente, a primeira parte do show se encerra com a icônica música folk do Rhapsody, de Dawn of Victory, Village of the Dwarves. E essa seria a última música da banda na noite.

Terminado o set ‘rhapsodiano’, Fabio fala que pensou muito antes de começar a turnê sobre as músicas que iria tocar. Às vezes duramente criticado por sua performance na banda brasileira da qual é membro, muitas pessoas perguntam, segundo ele, por que ao tocar Angra em seus shows não coloca no repertório canções que ele gravou. E a verdade é que o motivo é simples: ele, em doze anos de banda, sabe o que as pessoas querem ouvir. Pois bem, foi chamada ao palco a vocalista brasileira Juliana Rossi, além do percussionista brasileiro Guga Machado e, com o riff icônico de violões no começo, Rebirth, do álbum homônimo de 2001, gravada por Edu Falaschi, é tocado em dueto por Fabio e Juliana. Em seguida, outra canção do mesmo álbum, um dos maiores clássicos do heavy metal nacional, Nova Era. É verdade que a música não fica tão boa em sua voz, mas é sempre legal ouvi-la ao vivo. Para finalizar o combo Angra da noite, tocaram Bleeding Heart, novamente com Juliana nas vozes em dueto. Para o momento descontraído da noite, após terminar a música, eles simplesmente voltam a tocá-la, mas com uma diferença: “…Me fere, me risca de amor / Me foge, não me alimenta / Já sabe que já me conquistou! / Agora estou sofrendo!” Sim, fizeram uma versão em português da música, pelo menos até o primeiro refrão, gravada pela banda de forró Calcinha Preta. Como dissemos logo no primeiro parágrafo deste texto, ele é muito brasileiro já!

Voltando a músicas que Fabio gravou, foi a vez de duas músicas de sua outra antiga banda, Vision Divine, com Send Me an Angel e Violet Loneliness. E a partir daí, foi um pacote de covers! Fabio chamou ao palco novamente Juliana, e junto o vocalista Felippe Castello, do Enorion, para saírem um pouco do rock. O primeiro cover foi Con Te Partiró, do cantor italiano Andrea Bocelli. Os três vocalistas foram sensacionais, há de se dizer, no canto lírico. Muitos não sabem, mas Fabio foi vocalista em uma turnê da banda americana Kamelot, após a saída de Roy Khan e antes de Tomy Karevik entrar, e foi dessa banda que veio a próxima música, Forever, do álbum Karma, de 2001. Bom, aqui é difícil não ter um pouco de pessoalidade, pois essa música significa muito para mim, e devo dizer que foi um momento extremamente emocionante da noite. Executada com perfeição vocal, a canção foi um dos principais destaques da noite. O show já estava chegando ao fim, mas ainda teríamos alguns covers. O próximo foi Still Loving You, lendária balada dos anos 80 do Scorpions. Para complementar o momento “fossa”, ele ainda cantou Carrie, do Europe, outra icônica balada triste. Mas um show não pode acabar com baladinha, certo? Então, para finalizar a noite, o que poderia ser melhor do que um cover da lendária banda inglesa que faz mais sucesso na América Latina que em qualquer outro lugar do mundo? Wasted Years do Iron Maiden fechou o show com chave de ouro!

Terminado o show rolou aquela foto clássica da banda com o público atrás e ficou na cabeça de qualquer um ali apenas um parecer: Fabio Lione estava no lugar certo, tocando as músicas certas, dentro de seu conforto, sem a pressão dos fãs do Angra. Cantar Rhapsody é o que ele faz de melhor. Mesmo alvo de críticas no Angra, cantando as épicas e cinemáticas músicas do Rhapsody não há vivalma que possa falar mal de sua performance.

Acompanhado de ótimos músicos, e com boas e ótimas bandas de abertura, foi um show marcante, de fazer a alegria dos fãs de Rhapsody e de rock em geral. Foi uma celebração à sua longa carreira, com foco em sua melhor fase musical em mais de duas horas de majestosa apresentação.

Setlist

Parte 1 (Rhapsody)

Lux Triumphans (playback)

Dawn of Victory

Land of Immortals

Wings of Destiny

Holy Thunderforce

Emerald Sword

The Magic of the Wizard’s Dream

Wisdom of the Kings

Unholy Warcry

Lamento Eroico

The Village of the Dwarves

 

Parte 2

Rebirth (Angra)

Nova Era (Angra)

Bleeding Heart/Agora Estou Sofrendo (Angra)

Send Me an Angel (Vision Divine)

Violet Loneliness (Vision Divine)

Con Te Partiró (Andrea Bocelli)

Forever (Kamelot)

Still Loving You (Scorpions)

Carrie (Europe)

Wasted Years (Iron Maiden)

 

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