Por Fernando Queiroz
Fotos: Amanda Sampaio
Desde que saiu do Angra, o vocalista italiano Fabio Lione vem apostando forte no Brasil, país que o acolheu e onde está boa parte de seu público. No ano passado, antes mesmo de ter confirmada sua saída oficial da banda brasileira, já vinha fazendo shows solo tocando clássicos de sua carreira; o mais celebrado, porém, foi a turnê com orquestra, na qual tocou o disco Symphony of Enchanted Lands na íntegra. Tamanho foi o sucesso da empreitada, que voltou para mais uma tour semelhante, dessa vez reproduzindo outro álbum icônico de sua carreira com o Rhapsody: Dawn of Victory. E faz bastante sentido, aliás, se formos levar em conta que esse dá o nome de sua atual banda que conta com ex-colegas do supracitado grupo, Fabio Lione’s Dawn of Victory, que na prática serve como seu “sucessor espiritual” – mesmo que o Rhapsody of Fire continue com uma formação completamente diferente. Esse ano foi um giro mais curto em comparação ao ano passado, tendo apenas sete shows – dois em São Paulo, no mesmo dia, e é do primeiro deles que falaremos aqui.
Eram os últimos shows da turnê e, como sempre, em São Paulo a coisa de torna mais importante: é onde está o maior público de metal do Brasil e onde se tem a maior notoriedade em relação a marketing. Assim, foram duas sessões, sendo uma com ingressos esgotados meses antes. Fabio realmente é alguém muito querido pelos brasileiros e sempre retribui isso com grandes apresentações. Será que essa foi? Ah, mas não tenha dúvida! Embora Dawn of Victory seja um álbum com menos apelo sinfônico que Symphony of Enchanted Lands, os arranjos foram extremamente bem-feitos, e a escolha das músicas “extras”, além disco, valeram ainda mais.

O show, marcado para as 16h, começou com alguns minutos de atraso. Foi um atraso curto, de apenas quinze minutos, mas de toda forma, um atraso. É algo corriqueiro em shows da produtora Estética Torta, vale dizer, mas ao menos eles sempre escolhem bons horários para começar e nunca se tem problemas para voltar para casa. O que mais incomodou foi a demora para entrar no teatro; era um dia bem quente e o prédio espelhado onde fica o APCD refletiu o sol por muitas horas, o que deixou o ambiente em volta extremamente quente num dia de bastante calor por si só. Foi o pior momento do dia para um atraso. Bem, ao menos quando entramos e nos acomodamos nas cadeiras, o ar-condicionado deu uma sensação ótima. Depois disso, não demorou muito para, enfim, a banda subir ao palco junto da orquestra com a introdução Lux Triumphans.

Era difícil errar, e a escolha de um jogo seguro, com o álbum de 2002 tocado na íntegra, foi certeira. Para muitos fãs, Dawn of Victory é o melhor disco da banda e é recheado de clássicos. Músicas icônicas como a pesada Holy Thunderforce e a própria faixa-título se tornaram hinos instantâneos quando lançadas e, ao longo do tempo, mostraram ser atemporais. Não apenas essas mais “paulada”, as baladas também são muito queridas pelo público – todos se levantaram para, inclusive, dançar Village of the Dwarves, canção que foi das primeiras a misturar música folk ao power metal do Rhapsody, um elemento que nunca mais saiu do DNA da banda, sempre com ao menos uma música por disco nesse formato.

A performance dos músicos foi o que se esperava, com cada nota reproduzida fielmente, e a orquestra, como já dissemos, fez um ótimo trabalho de arranjo, tanto nos instrumentos, quanto no uso do coral de quatro vozes. Destaque para o tecladista Flavio Salim, que levava as muitas partes de piano quase como um segundo maestro (como o próprio Fabio o chamou), e com ótima presença de palco quando usava seu keytar. O que poderia ser melhor era a qualidade do áudio: a bateria acabou ficando um pouco baixa, depois alta demais, e acabou que não conseguiram acertar a mão durante quase toda a apresentação, assim como a guitarra solo, que ficou tímida perto da base bem alta.

Fabio Lione dispensa comentários sobre sua técnica. É um cantor de ópera, afinal, e dos bons! Quando se lançava a fazer partes eruditas de tenor, sua voz quase não precisava de microfone para ser ouvida. Já sua presença de palco é ainda mais marcante: desce do palco, canta pelos corredores das fileiras de cadeiras, senta ao lado dos fãs, realmente vai pra galera. Não sei se isso já era dele, ou se tornou assim convivendo tanto no Brasil, mas, de toda forma, é alguém extremamente agradável, que se aproxima do fã. O que desagrada um pouco, no entanto, são as indiretas que dá ao Angra. Contou histórias engraçadíssimas de bastidores, de sua convivência com o lendário ator Christopher Lee e de como uma música do Rhapsody quase entrou como trilha sonora de um jogo da franquia Castlevania. Sequer citou o nome de sua agora ex-banda, se referindo a ela como “banda brasileira da qual fiz parte”, e deixando claro seu descontentamento para com seus ex-colegas. Dessa vez, foi menos incisivo no quanto falou, ainda bem. Mesmo assim, vejo como algo extremamente deselegante.

Já na segunda parte do show, foi hora das músicas sortidas de diferentes álbuns. Claro, não podiam faltar Emerald Sword e Wisdom of the Kings, do disco Symphony of Enchanted Lands. E após uma homenagem ao falecido ator Christopher Lee, tocaram lindamente Magic of the Wizard’s Dream. Foi também o momento dos covers! Miss Sarajevo, popularizada pelo dueto de Bono Vox (U2) com Luciano Pavarotti foi um momento um tanto surpreendente, mas bacana (embora, pessoalmente, eu ache essa música muito chata). Já mais dentro do metal, Tears of the Dragon de Bruce Dickinson foi cantada em coro pela plateia – apesar de Fabio ter errado a letra em vários momentos. Mas o ponto alto foi a versão orquestrada da que o vocalista disse ser uma de suas bandas preferidas, Silent Lucidity, do Queensrÿche. Infelizmente, parece que é um daqueles grupos lendários, mas que não tem apelo junto ao público power metal, já que poucos cantaram com ele. Finalizaram, então, com Land of Immortals que, como curiosidade, foi a primeira canção que o vocalista gravou com o Rhapsody, mais de vinte anos atrás – talvez seja um momento oportuno para comemorar esse disco, Legendary Tales, não concorda?

No fim das contas, foi mais um show muito bem-sucedido de Fabio Lione, com ótima produção, repertório muito rico e performance de gala num teatro extremamente confortável, daqueles que dá gosto de ir. Se esse formato está ficando esgotado, eu não sei, mas acho que não. Ainda vejo espaço para mais empreitadas do tipo, tocando outros discos e outras fases da carreira do vocalista. Em especial, seria muito bacana ver Fabio tocando alguns sons mais recentes, como mais de Symphony of Enchanted Lands II e, especialmente, do negligenciado Triumph or Agony, que nem sequer está disponível no Spotify – imaginem uma performance ao vivo de The Mystic Prophecy of the Demon Knight, com seus mais de dezesseis minutos, na íntegra! Pago para ver, sem dúvida.

Setlist:
Lux Triumphans
Dawn of Victory
Triumph of My Magic Steel
The Village of the Dwarves
Dargor, Shadowlord of the Black Mountain
Holy Thunderforce
Trolls in the Dark
The Last Winged Unicorn
Emerald Sword
Wisdom of the Kings
The Magic of the Wizard’s Dream
Warrior of Ice
Lamento Eroico
The Wizard’s Last Rhymes
Miss Sarajevo
Tears of the Dragon
Silent Lucidity
Land of Immortals

Clique aqui e siga o CANAL “Roadie Crew” no WhatsApp
Clique aqui e faça parte do GRUPO da ROADIE CREW no WhatsApp





