FABIO LIONE – SÃO PAULO (SP)

10 de outubro de 2026 – Teatro APCD

Por Fernando Queiroz

Fotos: Amanda Sampaio

Desde que saiu do Angra, o vocalista italiano Fabio Lione vem apostando forte no Brasil, país que o acolheu e onde está boa parte de seu público. No ano passado, antes mesmo de ter confirmada sua saída oficial da banda brasileira, já vinha fazendo shows solo tocando clássicos de sua carreira; o mais celebrado, porém, foi a turnê com orquestra, na qual tocou o disco Symphony of Enchanted Lands na íntegra. Tamanho foi o sucesso da empreitada, que voltou para mais uma tour semelhante, dessa vez reproduzindo outro álbum icônico de sua carreira com o Rhapsody: Dawn of Victory. E faz bastante sentido, aliás, se formos levar em conta que esse dá o nome de sua atual banda que conta com ex-colegas do supracitado grupo, Fabio Lione’s Dawn of Victory, que na prática serve como seu “sucessor espiritual” – mesmo que o Rhapsody of Fire continue com uma formação completamente diferente. Esse ano foi um giro mais curto em comparação ao ano passado, tendo apenas sete shows – dois em São Paulo, no mesmo dia, e é do primeiro deles que falaremos aqui.

A banda subiu ao palco junto da orquestra com a introdução Lux Triumphans.

Era difícil errar, e a escolha de um jogo seguro, com o álbum de 2002 tocado na íntegra, foi certeira. Para muitos fãs, Dawn of Victory é o melhor disco da banda e é recheado de clássicos. Músicas icônicas como a pesada Holy Thunderforce e a própria faixa-título se tornaram hinos instantâneos quando lançadas e, ao longo do tempo, mostraram ser atemporais. Não apenas essas mais “paulada”, as baladas também são muito queridas pelo público – todos se levantaram para, inclusive, dançar Village of the Dwarves, canção que foi das primeiras a misturar música folk ao power metal do Rhapsody, um elemento que nunca mais saiu do DNA da banda, sempre com ao menos uma música por disco nesse formato.

A performance dos músicos foi o que se esperava, com cada nota reproduzida fielmente, e a orquestra, como já dissemos, fez um ótimo trabalho de arranjo, tanto nos instrumentos, quanto no uso do coral de quatro vozes. Destaque para o tecladista Flavio Salim, que levava as muitas partes de piano quase como um segundo maestro (como o próprio Fabio o chamou), e com ótima presença de palco quando usava seu keytar. O que poderia ser melhor era a qualidade do som: a bateria acabou ficando um pouco baixa, depois alta demais, e acabou que não conseguiram acertar a mão durante quase toda a apresentação, assim como a guitarra solo, que ficou tímida perto da base bem alta.

Fabio Lione dispensa comentários sobre sua técnica. É um cantor de ópera, afinal, e dos bons! Quando se lançava a fazer partes eruditas de tenor, sua voz quase não precisava de microfone para ser ouvida. Já sua presença de palco é ainda mais marcante: desce do palco, canta pelos corredores das fileiras de cadeiras, senta ao lado dos fãs, realmente vai pra galera. Não sei se isso já era dele, ou se tornou assim convivendo tanto no Brasil, mas, de toda forma, é alguém extremamente agradável, que se aproxima do fã. O que desagrada um pouco, no entanto, são as indiretas que dá ao Angra. Contou histórias engraçadíssimas de bastidores, de sua convivência com o lendário ator Christopher Lee e de como uma música do Rhapsody quase entrou como trilha sonora de um jogo da franquia Castlevania.

 

Já na segunda parte do show, foi hora das músicas sortidas de diferentes álbuns. Claro, não podiam faltar Emerald Sword e Wisdom of the Kings, do disco Symphony of Enchanted Lands. E após uma homenagem ao falecido ator Christopher Lee, tocaram lindamente Magic of the Wizard’s Dream. Foi também o momento dos covers! Miss Sarajevo, popularizada pelo dueto de Bono Vox (U2) com Luciano Pavarotti foi um momento um tanto surpreendente, mas bacana (embora, pessoalmente, eu ache essa música muito chata). Já mais dentro do metal, Tears of the Dragon de Bruce Dickinson foi cantada em coro pela plateia. Mas o ponto alto foi a versão orquestrada da que o vocalista disse ser uma de suas bandas preferidas, Silent Lucidity, do Queensrÿche. Infelizmente, parece que é um daqueles grupos lendários, mas que não tem apelo junto ao público power metal, já que poucos cantaram com ele. Finalizaram, então, com Land of Immortals que, como curiosidade, foi a primeira canção que o vocalista gravou com o Rhapsody, mais de vinte anos atrás – talvez seja um momento oportuno para comemorar esse disco, Legendary Tales, concorda?

 

No fim das contas, foi mais um show muito bem-sucedido de Fabio Lione, com ótima produção, repertório muito rico e performance de gala num teatro extremamente confortável, daqueles que dá gosto de ir. Se esse formato está ficando esgotado, eu não sei. Ainda vejo espaço para mais empreitadas do tipo, tocando outros discos e outras fases da carreira do vocalista. Em especial, seria muito bacana ver Fabio tocando alguns sons mais recentes, como mais de Symphony of Enchanted Lands II e, especialmente, do negligenciado Triumph or Agony, que nem sequer está disponível no Spotify – imaginem uma performance ao vivo de The Mystic Prophecy of the Demon Knight, com seus mais de dezesseis minutos, na íntegra!

Setlist:

Lux Triumphans

Dawn of Victory

Triumph of My Magic Steel

The Village of the Dwarves

Dargor, Shadowlord of the Black Mountain

Holy Thunderforce

Trolls in the Dark

The Last Winged Unicorn

Emerald Sword

Wisdom of the Kings

The Magic of the Wizard’s Dream

Warrior of Ice

Lamento Eroico

The Wizard’s Last Rhymes

Miss Sarajevo

Tears of the Dragon

Silent Lucidity

Land of Immortals

 

 

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