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HERETOIR – São Paulo (SP)

29 de março de 2024 – House of Legends

Por Daniel Agapito

Fotos: André Santos

Sexta-feira santa, dia propício para uma noite de black metal. Anunciado no final de janeiro deste ano, a Rat Lord Productions em colaboração com a Seven Crossroads Agency trazia ao Brasil pela primeira vez o Heretoir (ALE), um dos principais nomes do post-black metal. Conhecido por seu black metal caracteristicamente triste, porém um tanto diferenciado, integrando elementos ambientes e atmosféricos e vocais carregados de emoção, as expectativas do público paulistano estavam altas. Deep Memories, formada em 2016 na cidade de Americana, interior do estado de São Paulo já têm virado nome conhecido no underground paulista, encantando diversos públicos com seu doom metal denso e melódico. Já a Voidkvlt Terror estaria fazendo apenas o segundo show de sua carreira, tendo feito sua estreia em Belo Horizonte (MG) na noite anterior.

Mesmo com o show sendo em um feriado, já se viam diversas pessoas enfileiradas na porta da casa de shows antes mesmo do horário de abertura, previsto para às 19h. Mesmo com a sexta-feira sendo santa, havia uma horda de pessoas vestindo camisetas pretas naquela tradicional rua do bairro de Pinheiros. Na noite anterior, tanto o Heretoir quanto o Voidkvlt Terror haviam tocado no Caverna Rock, em Belo Horizonte, ao lado do grupo de black metal Werewulf. Este show em Minas Gerais marcou o 10º dos alemães em sua turnê latino-americana, que passou por cinco países.

Pontualmente às 20h, um clima soturno invadiu a Vila Madalena quando subiu ao palco o quinteto de blackened sludge/doom Voidkvlt Terror. Mesmo fazendo apenas sua segunda apresentação, já mostravam bastante qualidade e experiência, capturando a atenção do público que frequentava o House of Legends desde os primeiros segundos de “Phantom of the Yellowshore”, primeira música que tocaram. Com “A Thousand Eyes” (primeiro e até então único single lançado) e “Abstrato”, era possível ver o público rapidamente se adequando mais e mais ao som dos paulistas. Sua mistura de uma sonoridade densa e pesada com a tristeza e emoção pura do black metal estava provando ser muito bem executada.

Um dos destaques da curta performance foi o cover da incrível “Call from the Grave”, do Bathory. A versão foi fiel à original, mas também inserindo pequenos elementos mais característicos com sua sonoridade mais puxada para o sludge, dando um pouco de personalidade a esta gema do black metal. Tocando por volta de meia hora, mostraram seu som ao público, mas deixaram uma boa sensação de “quero mais”. O Voidkvlt Terror tem um bom futuro pela frente, com certeza.

Mesmo sendo um projeto um tanto jovem, durante seu show, foi possível ver que o Voidkvlt Terror acabou conquistando boa parte dos fãs. Ao final de suas músicas, não era incomum ouvir gritos de “foda” e “que que é isso” ecoando pela casa. Suas temáticas de terror cósmico, fortemente baseadas nos trabalhos do grande H.P. Lovecraft, serviram como ótima trilha de abertura para a grande noite de melancolia que estaria por vir.

Os próximos a assumirem o palco do Legends (mais ou menos 15 minutos após o término do show do Voidkvlt) foram os membros da Deep Memories, nomes já conhecidos na cena nacional. Formado por ex-integrantes do aclamado Desdominus, a banda já tem dois discos, sendo o mais recente deles “Why Do We Suffer?”, com um doom/death metal carregado de melancolia. O set da banda foi realmente um passeio por seus quase 10 anos de carreira, começando com a forte “Enslaved by Reciprocity Obligation”, seguida por “There is no End”.

Era possível observar que os integrantes estavam realmente felizes em cima do palco, constantemente sorrindo e fazendo gestos para o público enquanto cativavam os mesmos com suas melodias. O público, bastante engajado, seguia batendo cabeça lentamente ao som de músicas como “Please do not Close the Coffin”, “Suffocating the Grayish Darkness” e uma mistura de “Between Two Dimensions” e “Looking at the Black Mirror”, terceira, quarta e quinta faixa tocada, respectivamente.

Antes de começarem “When the Time for my Last Breath Comes” último som que tocaram em seu set – que durou aproximadamente 45 minutos – agradeceram e elogiaram a presença de todos. Fecharam a noite com a já citada “When the Time for my Last Breath Comes”, que exemplificou perfeitamente a sonoridade do grupo. Um som ainda bastante pesado, denso e cheio de emoções, mas com toques mais melódicos.

Com este show que certamente agradou ao público, agora faltava pouco para que subisse ao palco os alemães do Heretoir, que prometiam fazer um show inesquecível, que criasse memórias profundas. Pouco antes das 22h, o som de “Exhale” tomava conta da casa de shows. Ocasionando gritos do público e uma onda de headbangs cadenciados, era realmente difícil encontrar alguém que não estava absolutamente vidrado nos titãs do post-black metal.

Acabando a primeira faixa, David Eklatanz, o vocalista, agradeceu a presença do público e disse que era uma experiência de outro mundo finalmente conseguir tocar em São Paulo. “Twilight of the Machines” faixa do último álbum, “Nightsphere”, do ano passado foi a próxima a ser tocada, levando os fãs à loucura. Terminando a faixa, Eklatanz não escondeu sua felicidade com o público, soltando um “you’re fucking amazing” (vocês são fodas), acertadamente.

O tanto de emoção que consegue ser transmitida pelas músicas do Heretoir é algo absurdo. A quantidade de melancolia contida nos gritos do vocalista, nos riffs e solos do guitarrista, na percussão essencialmente simples, mas ainda impressionantemente eficaz do baterista. É muito difícil de explicar com simples palavras. Precisa ser visto ao vivo. Ainda por cima, o público estava completamente em sintonia com a banda, batendo cabeça, batendo palma, gritando com a banda. Em cada batida de cabeça – tanto da banda quanto do público – era possível sentir todas as fortes emoções que fluíam pelo Legends.

“Twilight” foi seguida por uma trilogia de faixas do álbum homônimo da banda, lançado em 2011, sendo elas “Heretoir”, “Fatigue” e “Graue Bauten”. Emoções à flor da pele, uma potência tanto sonora quanto emocional ímpar. O som dos veteranos da cena do post-black metal é realmente algo diferenciado, gracioso, etéreo. Mesmo assim, o black metal não é deixado de lado. A própria faixa “Fatigue” consegue capturar a escuridão característica da vertente, até fazendo uso de um timbre de guitarra e vocal bastante distorcido e o tão conhecido blast beat, mas de uma forma não tão abrasiva quanto outros grupos, de uma forma carregada de diversos sentimentos.

Um dos pontos altos da noite foi “Gold Dust”, vinda do álbum “The Circle” (2017). Uma avalanche de celulares foi ao ar para registrar aquele momento, mas os fãs seguiam vidrados. Naquela hora, havia um coro cantando “I will reach out for your light and grasp the sky” em uníssono, o timbre de guitarra etéreo de Kevin Storm e o bumbo duplo da bateria sendo a trilha sonora perfeita para o mar de headbangs que ocorria. A adoração ao metal triste que seguiu na hora pode ter parecido algo demasiado estranho para alguém que olhasse de fora, mas para quem estava lá foi algo lindo, indescritível.

Dizer que a adoração do público pela banda era recíproca é chover no molhado. Disseram várias vezes que tocar em São Paulo era algo inacreditável, e que há alguns anos nem sonhavam em fazer isso. No geral, demonstravam estar bastante agradecidos por estar tocando em terras tupiniquins, com o vocalista dizendo “já agradeci umas 20 vezes, mas estou falando sério, porra.”

Saíram do palco brevemente após “The Circle (Omega)”, outra faixa favorita dos fãs da nação verde e amarela, dizendo novamente que o público era inacreditável e que amava tocar para o público brasileiro. Após gritos ensurdecedores pedindo mais, Eklatanz voltou ao palco, dizendo que era claro que tinha mais músicas. Enquanto preparava sua guitarra para resumir o show, interagiu brevemente com os espectadores, pensando um tempo para arrumar sua guitarra e que estava passando por diversas emoções.

Simultaneamente, Storm e Nils Groth, guitarrista e baterista passavam pelo público e iam ao bar buscar um par de Coca-Cola zero, mostrando que ninguém é de ferro. Com seus refrigerantes em mãos, sentaram nas escadas no fundo da casa de shows e admiraram a performance de Eklatanz, que permanecia no palco. Terminando o cover, o vocalista foi recebido por uma chuva de aplausos, e retribuiu gesticulando um coração em direção ao público. Visivelmente baqueado pelo suporte incondicional do povo, disse estar sem palavras, e perguntou se gostariam de ouvir mais uma música, agora com a banda completa, que subia ao palco novamente.

Antes de iniciar “Eclipse”, bombástica faixa que fecharia a noite, Eklatanz relatou: “parece que vocês esperariam mais 10 anos para nos ver de novo”, comentando sobre a devoção que o público mostrava à banda. Claramente emocionado, disse em um tom mais baixo “estaremos de volta assim que possível”. Se recompondo, gritou ao público “estão prontos para ir à escuridão conosco?” O que seguiu foi um momento realmente catártico, onde um grande misto de emoções foi liberado ao som de uma música que mescla perfeitamente agressividade com melancolia, tristeza com esperança. O clima do House of Legends era algo ímpar, novamente indescritível. Encerrando “Eclipse”, Eklatanz, Storm e Groth se reuniram à margem do palco para bater uma foto com os espectadores daquela noite, anunciando que iriam ficar no estande de merchandising e que queriam conversar com seus fãs.

O Heretoir (e as bandas de abertura) exibiram um lado diferente do black metal, calçado em emoções. Um lado do black metal que quebra o estereótipo de queimar igrejas e cultuar o coisa-ruim – muito pelo contrário, aliás, que trata das batalhas internas de cada um. A quantidade de emoções daquela noite, tanto as vindas dos fãs quanto as vindas das próprias bandas era algo absurdo. Uma série de shows que tinha tudo para ser apenas uma noite de melancolia se encerrou com um grande clima de felicidade, conquista e festa. Mesmo com os fãs do Heretoir muito provavelmente conseguindo esperar mais uma década para o retorno dos europeus a terras tupiniquins, realmente duvido que a própria banda consiga.

Setlist – Voidkvlt Terror:

  1. Phantom of the Yellowshore
  2. A Thousand Eyes
  3. Abstrato
  4. Call from the Grave (Bathory cover)

Setlist – Deep Memories:

  1. Enslaved by Reciprocity Obligation
  2. There is no End
  3. Please do not Close the Coffin
  4. Suffocating the Grayish Darkness
  5. Between Two Dimensions/Looking at the Black Mirror
  6. When the Time for my Last Breath Comes

Setlist – Heretoir:

  1. Exhale
  2. Twilight of the Machines
  3. Heretoir
  4. Fatigue
  5. Graue Bauten
  6. Gold Dust
  7. Wastelands
  8. The Circle (Omega)

Bis

  1. Just For a Moment (com apenas Eklatanz no palco)
  2. Eclipse

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