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IRON MAIDEN – THE RAVEN AGE – 06 de outubro de 2019

Morumbi – São Paulo (SP)

Observando a movimentação frenética de pessoas circulando pelas cercanias do estádio do Morumbi, num clima que mais parecia dia de clássico do futebol paulista em final de campeonato, um amigo de imprensa e eu, viajando nos pensamentos, nos perguntamos: ‘já imaginou montar uma banda, fazer muito sucesso e depois de mais de quarenta anos ainda se ver do outro lado do mundo, flagrando milhares de fãs nas ruas, chegando para ver seu show num grande e lotado estádio de futebol? O que será que esses caras pensam vendo isso ainda acontecer para eles?’. Tivemos esse papo assim que nos deparamos com as duas vans escoltadas que traziam os integrantes do Iron Maiden para a casa do São Paulo Futebol Clube, no último domingo, 06 de outubro. Mais tarde, ao término do show, quando Bruce Dickinson, Steve Harris, Dave Murray, Adrian Smith, Janick Gers e Nicko McBrain deixaram o palco, nos indagamos: ‘Não é impressionante que mesmo após décadas esses sessentões ainda são capazes de fazer um show tão impecável?’. Ah, se fazem…

Pela décima segunda vez na carreira o Iron Maiden aterrissava no Brasil, agora com a “Legacy of the Beast Tour”. Iniciada em maio de 2018, essa é a primeira a não promover um novo ou um clássico álbum da banda. A nova turnê se baseia no game Iron Maiden: Legacy of the Beast para iOS/Android, que o Maiden lançou em 2016. Antes de desembarcar em São Paulo, dois dias antes o gigante britânico agitou o público carioca no “Rock in Rio”. Em sua quarta participação no mega festival, a Donzela de Ferro foi uma das grandes atrações do Palco Mundo, que teve também Scorpions, Helloween e Sepultura. No mesmo dia, no palco Rock District, o “Rock in Rio” recebeu também o The Raven Age, do guitarrista George Harris, filho de Steve Harris. A banda de metalcore, que já abriu shows do Anthrax, Tremonti, Killswitch Engage, Mastodon, Ghost e British Lion (de Steve), ficou incumbida do ‘opening act’ para o Iron Maiden em São Paulo, assim como aconteceu com a irmã de George, a cantora Lauren Harris, que também abriu para o pai em 2008 e 2009.

Com o Morumbi já contando com um ótimo público, após a introdução instrumental Bloom of the Poison Seed rolar no som mecânico o The Raven Age entrou tocando Betrayer of the Mind, um dos carros-chefe de Conspiracy, seu novo álbum. Aliás, ao invés de usar as imagens do show, os telões apenas faziam propaganda de Conspiracy. Inspirado na lenda dos corvos da Torre de Londres, o segundo álbum do The Raven Age foi lançado no primeiro semestre e já ultrapassou cinco milhões de streamings. George Harris, Matt Cox (baixo), Jai Patel (bateria) e os estreantes Tony Maue (guitarra) e Matt James, que se difere de muitos no metalcore por abrir mão de guturais, deram sequência com Promised Land, do debut Darkness Will Rise (2017). Fazia muito frio e garoava em São Paulo, e durante a mencionada música, de riff inicial bacana, o vento forte derrubou os dois displays laterais, ilustrados por imagens ligadas a Conspiracy.

Steve Harris

Priorizando o novo álbum, no repertório o The Raven Age não deixou de fora os singles Surrogate e The Day the World Stood Still – essa com James ao violão. Entre as demais, destaque para Seventh Heaven, que foi acompanhada nas palmas, e para Grave of the Fireflies, retribuída pelas luzes dos celulares. Harris, que é o principal compositor do grupo, se movimentava bastante, enquanto que o carismático James, com inteligência, mencionava o Iron Maiden em algumas falas, atraindo a simpatia do público. Finalizando, veio outra do debut: Angel in Disgrace. Particularmente, achei o som do The Raven Age cansativo e pasteurizado demais, além de similar a muita coisa que já ouvimos por aí. Mesmo percebendo que muitos ao meu redor também não estavam curtindo, teço elogios ao público, que respeitou e aplaudiu o The Raven Age. Durante a apresentação do jovem quinteto, era engraçado notar a presença de alguns “Eddies”, vestidos à caráter, perambulando pela pista. Agora com o estádio tomado de gente, a empolgação aumentou para o tão aguardado reencontro entre o Iron Maiden e o público paulistano. Confesso que preferi assistir apenas uma parte da transmissão do show da Donzela no “Rock in Rio”, para não ficar com a sensação de ‘spoiler’ quanto ao que eu iria presenciar no Morumbi.

Com míseros cinco minutos de atraso, os telões – lamentavelmente minúsculos, por sinal – novamente se ascenderam. A euforia foi geral. Com a lendária instrumental Transylvania, que abre o lado B do homônimo LP de estreia do Iron Maiden, lançado em 1980, rolando ao fundo, um vídeo promocional do jogo Iron Maiden: Legacy of the Beast foi exibido. Em seguida, a clássica Doctor Doctor da também britânica banda UFO, que, inclusive, foi regravada pelos brasileiros do Dr. Sin, em seu álbum de covers Listen to the Doctors (2005) – aquele, só com músicas com “doctor” no título -, tocou nos falantes, provocando ainda mais a ansiedade dos fãs, principalmente quando dois soldados surgiram pelas laterais e se postaram à beira do palco. Ambos recuaram e retiraram os panos que cobriam os artefatos cenográficos, aumentando a histeria dos fãs, que foi intensificada quando o telão mostrou imagens da Segunda Guerra Mundial. Era a introdução Churchill’s Speech, baseada em parte do famoso discurso do primeiro ministro inglês Winston Churchill incentivando a resistência inglesa contra o ataque nazista. Os gritos foram ensurdecedores quando o Iron Maiden surgiu tocando Aces High, de Powerslave (1984). Foi de arrepiar ver planando sobre o sexteto a enorme réplica do caça Supermarine Spitire, que foi utilizado pelas forças britânicas na mencionada guerra.

Dave Murray

Bruce Dickinson esteve impecável durante as duas horas de show. Totalmente curado do câncer na língua, começou a apresentação já cantando muito bem, melhor do que no “Rock in Rio”, em que capengou um pouco em Aces High, que exige bastante da voz, devido aos tons altos. Na música seguinte, Where Eagles Dare, de Piece of Mind (1983) – meu favorito do Iron -, a bateria de Nicko soou estrondosa. Falando em Nicko, escondido com sua bateria atrás de uma rede de camuflagem do exército, além de descalço, tocou com um boné que recebeu antes do show de policiais da ROCAM (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas), do 2° Batalhão de Choque, que, por sinal, foi bastante elogiada pelo baterista nos bastidores. Uma das coisas mais legais dessa turnê, é que o novo palco do Iron Maiden é um dos mais bem elaborados de sua carreira, muito por responsabilidade de Dickinson, que contribuiu com várias ideias. Preocupado em dar um tom ainda mais teatral para as apresentações do Iron, o vocalista atribuiu à sua performance constantes trocas de roupas e encenações, causando um visual estonteante ao que podemos considerar como um verdadeiro espetáculo de heavy metal.

O novo repertório caiu no gosto dos fãs, já que prioriza a fase mais consagrada da banda, com a maioria das músicas representando os mencionados Piece of Mind e Powerslave, e o também imbatível The Number of the Beast (1982). Foi emocionante ver de volta ao set músicas que há muito tempo estavam de fora, como The Clansman, de Virtual XI (1998), que começou com Harris no baixo acústico e com Dickinson fazendo os fãs rirem ao “agredir” seus companheiros com golpes de espada, Where Eagles Dare, de Piece of Mind, e a extensa For the Greater Good of God, de A Matter of Life and Death (2006), ausentes desde 2003, 2005 e 2007, respectivamente. Mas nenhuma dessas foi mais comemorada do que Flight of Icarus, outra de Piece of Mind, que há 23 anos não era incluída nos shows. Nessa, um enorme boneco articulado de Ícaro, personagem da mitologia grega, surgiu no alto, de asas abertas ao fundo do palco. Por sua vez, Dickinson, soltou fogo pelos braços, que vinha de um lança-chamas amarrado em suas costas. Ao final de Flight… Ícaro fechou suas asas e desapareceu nas “profundezas”.

Adrian Smith

E o que dizer de Revelations, em que o palco se transformou numa catedral, com belos vitrais que traziam as imagens de Eddie, referentes às capas de alguns dos álbuns do Maiden? Nela, retiraram a rede camuflada que escondia a belíssima bateria de Nicko, a qual cada peça do kit é também estilizada por detalhes relacionados à vários álbuns da banda. Eddie, the Head, a criatura nascida nos anos 70 das mãos do criador Derek Riggs, obviamente não iria ficar de fora da festa. A mascote surgiu no palco em The Trooper trajando o uniforme que usa na capa do single e travou um duelo de espadas com Dickinson. No início de The Trooper, um daqueles dois soldados retornou ao palco, entregou a bandeira do Reino Unido à Dickinson, prestou continência ao frontman e se retirou. Depois o vocalista desceu, duelou com Eddie outra vez, voltou para a rampa e levou o público ao delírio quando ergueu a bandeira do Brasil, presa à um mastro que atirava. No encerramento da música, Dickinson novamente pegou a bandeira britânica e a atirou longe.

Outro momento engraçado aconteceu em The Wicker Man, de Brave New World (2000), álbum que marcou o retorno de Dickinson e Adrian Smith à banda, após alguns anos afastados. Durante o solo de Smith, Murray e Gers ficaram dançando de costas grudadas e se cutucando. Dickinson acabou com a brincadeira dos dois, amarrando-os. O trio caiu na gargalhada. Aliás, sempre considero os solos dos guitarristas do Maiden como um dos momentos mais envolventes do show, principalmente os da dupla Smith/Murray – de nível inferior, o que prejudica o caricato Gers são alguns exageros em suas performances, que, apesar de engraçadas, às vezes passam do ponto. Mas nada que me faça querê-lo fora da banda. Há de se destacar também a performance sempre avassaladora de Harris que, como um maestro, segura a bronca com sua invejável técnica e precisão. Em cena, Harris ainda parece um jovem. Fruto de quem cuida da saúde e do físico. Não à toa, no Rio de Janeiro, antes do “Rock in Rio”, esse apaixonado por futebol disputou outra de suas tradicionais peladas, dessa vez com jogadores aposentados, como Bebeto, Djalminha (fã de rock and roll), Luizão, Donizete Pantera e outros, no CFZ do ex-craque Zico.

Janick Gers

O show ficou obscuro quando um canto gregoriano antecedeu a instigante Sign of the Cross, do controverso, porém ótimo The X Factor (1995), que foi o primeiro álbum do Maiden com Blaze Bayley no lugar de Bruce. O palco parecia do King Diamond, com Bruce em trajes negros, luzes vermelhas, tochas acesas e uma cruz ao centro do palco, que se iluminou quando Bruce a tomou nas mãos até fincá-la na rampa atrás da batera. Fear of the Dark proporcionou ainda mais emoção, sendo embelezada pelas luzes dos celulares. Dickinson a cantou vestido de fantasma da ópera, segurando uma lanterna, e ao final descartou a cruz que estava empunhada desde a música anterior. Todas as músicas eram cantadas em uníssono pelos fãs, mas foi em The Number of the Beast que ensandeceram. Na homônima Iron Maiden, do primeiro álbum, Eddie ressurgiu, gigantesco e demoníaco, atrás do palco. Nessa, Gers inventou de girar sua guitarra. Os comentários na pista lembravam de quando ele fez isso no show de San Antonio, Texas, realizado no último dia 24 de setembro, e sua guitarra voou longe, acertando as costas de um segurança. Felizmente, por aqui nada aconteceu.

Na volta do bis, o Iron voltou com The Evil That Men Do e emendou com a épica Hallowed Be Thy Name, em que Bruce, em alguns momentos, cantou de dentro de uma apertada jaula, e em outros, do lado de fora, segurando a corda da forca que é mencionada na letra. Enquanto isso, Harris, Murray, Gers e Smith se enfileiraram na beira do palco. Outro adereço muito legal eram os backdrops que surgiam ao fundo, como o que exibiu vários elementos de capas do Iron Maiden, na eletrizante e derradeira Run to the Hills. Bruce a anunciou dizendo: “galope seu cavalo e beba seu leite, cowboy!”, e a finalizou correndo pelo fundo do palco, como se estivesse fugindo das explosões que iam acontecendo pelo caminho. Pra finalizar, o cantor “dinamitou” o palco e prometeu que a banda voltará ao Brasil. Disse também que o show do “Rock in Rio” foi o melhor da banda no Rio de Janeiro, mas que o de São Paulo foi o melhor que fizeram no Brasil. E acredito que tenha sido mesmo! Ainda que eu seja mais fã de Kiss, ao contrário do que Gene Simmons afirma, hoje em dia quem faz o maior espetáculo da Terra é o Iron Maiden. Up the irons! E ponto final.

Steve Harris

IRON MAIDEN – Setlist:

Aces High

Where Eagles Dare

2 Minutes to Midnight

The Clansman

The Trooper

Revelations

For The Greater Good of God

The Wicker Man

Sign of the Cross

Flight of Icarus

Fear of the Dark

The Number of the Beast

Iron Maiden

(BIS)

The Evil That Men Do

Hallowed Be Thy Name

Run to the Hills

Always Look on the Bright Side of Life (Monty Python song – Outro)

THE RAVEN AGE – Setlist:

Bloom of the Poison Seed (Intro)

Betrayal of the Mind

Promised Land

Surrogate

The Day the World Stood Still

The Face That Launched A Thousand Ships

Fleur De Lis

Grave of the Fireflies

Seventh Heaven

Angel in Disgrace

Bruce Dickinson e Iron Maiden em São Paulo

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