JETHRO TULL – CAMBRILS (ESPANHA)

4 de agosto de 2026 – Parc del Pinaret

Por Écio Souza Diniz

Fotos: FIM Cambrils – Claudia Win (Instagram: @fimcambrils e @claudiawinpics)

O Jethro Tull nasceu em Luton, na Inglaterra, no fim de 1967, liderado pela mente inquieta de Ian Anderson, decidido a criar um estilo único fundindo rock progressivo, folk e hard rock, tendo sua flauta como assinatura sonora. O ato de Anderson de subir ao palco com sua flauta equilibrado numa perna só transformou isso na assinatura sonora da banda. Com sua criatividade e audácia musical, ele sempre liderou o grupo, responsável por clássicos como Aqualung (1971), que trouxe peso e crítica social em estado bruto; Thick as a Brick (1972), que apostou tudo numa faixa só de 44 minutos e se tornou um dos marcos principais do rock conceitual; já Songs from the Wood (1977) trocou distorção por gaita de fole e alaúde, ressaltando o folk britânico com leveza e elegância que a banda nunca mais abandonou.

Em pleno 2026, aos 78 anos (completou 79 seis dias após o show), Anderson segue na estrada com a “Curiosity Tour”, estendida até 2027, tocando o mais recente álbum Curious Ruminant (2025) e ressaltando que turnê de despedida não está nos seus planos. Ou seja, quase seis décadas após o debut This Was (1968), a banda segue provando sua relevância artística e sua capacidade de se reinventar sem abrir mão da identidade que a consagrou.

Dentro da perna europeia desta turnê, o Jethro Tull se apresentou no dia 4 de agosto no Festival Internacional de Música (FIM) de Cambrils. O FIM nasceu em 1974 na cidade catalã litorânea de Cambrils, na Costa Dorada, região da província de Tarragona, criado por amantes da música clássica e hoje já com mais de 50 edições. Nas últimas décadas, o evento se tornou um dos festivais de verão mais tradicionais da Espanha, com programação eclética que mistura música clássica, pop, jazz, folk e rock. O show ocorreu no Parc del Pinaret, área de praça pública ao ar livre com arquibancadas e ambiente agradável para público de diferentes idades assistirem a eventos tranquilamente – caso observado neste show, visto que se podia ver um público majoritariamente veterano, mas também novos apreciadores de gerações mais recentes.

O repertório, tocado de forma imersiva e com alto nível de qualidade, funcionou de fato como um ótimo panorama das mais de cinco décadas de carreira. Como esperado, um dos grandes destaques perante o público veio com quatro faixas de Aqualung (1971) – faixa-título, Locomotive Breath, My God e Mother Goose. O debut This Was também teve peso simbólico com três faixas – Beggar’s Farm, A Song for Jeffrey e Some Day the Sun Won’t Shine for You – que fizeram o público navegar na vertente mais relaxada da sonoridade do Jethro Tull, lembrando as suas raízes blues-rock da banda antes da guinada progressiva.

Um dos pontos de destaque foi com a elegante performance na faixa-título de Songs from the Wood, particularmente um dos meus favoritos. A versão encurtada de Thick as a Brick também foi muito bacana e trouxe com eficácia o peso histórico desse clássico conceitual. E foi divertido e energético o momento retratando a fase digamos mais rockeira da banda nos anos 80 com a faixa Budapest (Crest of a Knave, 1987), recebida com certa curiosidade inclusive por parte do público mais veterano.

Completando o reportório com suas contribuições pontuais, ainda tocaram duas faixas de Curious Ruminant: a introspectiva faixa-título e a bela e emotiva Over Jerusalem, que funciona muito bem ao vivo. Também de anos recentes tocaram The Navigators (RökFlöte, 2023), com sua abordagem voltada à mitologia nórdica, e a faixa-título de The Zealot Gene (2022).

A formação atual, composta por Anderson, David Goodier (baixo e backing vocals), Jack Clark (guitarra), John O’Hara (teclado e acordeão) e Scott Hammond (bateria), parece estar bem entrosada e desfrutando junta no palco. É fato que a voz de Anderson já não alcança os mesmos tons que o consagraram – algo que muitos encaram de forma bastante crítica –, mas consegue cumprir bem seu papel, mantendo suas linhas vocais dentro do que a voz permite a um senhor de 78, quase 79 anos.

Ao final, foi um show agradável e de qualidade que funcionou como um sopro de ar fresco no alto período do calor mediterrâneo que ocorre na região nesta época do ano.

 

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