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“MARANHÃO OPEN AIR (M.O.A.)” – São Luis (MA)

Rio Poty Hotel - 12 e 13 de novembro

Por Carolyne Ferreira e Mari Goé

Fotógrafo: Rogério Sousa 

*Foto adicional: Rafael Galbes (vide legenda)

Nos dias 12 e 13 de novembro, a cidade de São Luís parou para receber grandes nomes do rock nacional e internacional para o festival Maranhão Open Air. Anunciado em 14 de agosto deste ano com o objetivo de apresentar uma nova imagem do evento e estabelecer uma reparação em sua história depois do que houve na primeira edição, em 2012, o festival apresentou-se de forma transparente. Todos sabem o que houve em 2012, então não há o que discutir sobre a primeira edição, visto que o produtor foi inocentado, pois provou na justiça que cumpriu com todas as suas obrigações, sendo que outras partes não entregaram o que estava acordado em contrato. Segundo o produtor do evento, é importante ressaltar, que nunca houve intenção de enganar o público, colocando-se sempre a disposição para esclarecer todos os fatos e assumir sua responsabilidade.

Todos os eventos realizados pelo produtor têm seguro, com a primeira edição não foi diferente. Depois de todos os tramites na justiça, ele acionou o seguro e entregou para o Ministério Público para que o público possa ser ressarcido. Agora cabe a justiça dar prosseguimento nas indenizações de quem entrou com processo na justiça.

Quando decidi cobrir o festival, recebi muitas críticas e houve muita resistência na aceitação de apoiar a iniciativa de fomentar festivais desse porte no Nordeste. Obviamente, devido ao passado, o evento carrega consigo uma enorme batalha que é reconquistar a credibilidade da imprensa e das bandas, assim como confiança e aceitação por parte do público.

Nesta edição, o festival trouxe em seu line-up 24 bandas de música pesada, sendo que metade se apresentaria no primeiro dia, 12 de novembro, e a outra no segundo dia, 13 de novembro. Infelizmente, houveram alguns contratempos, como o cancelamento do Satan, que prejudicou não somente o MOA, mas também o evento Open The Road, em São Paulo, pois o anúncio publicado pela banda dava a entender que ambos os festivais haviam sido cancelados. Assim como o festival Open The Road aconteceu sem a presença da banda Satan, o festival Maranhão Open Air contornou mais esse desafio e entregou um festival que apesar de alguns problemas, demonstrou o compromisso da produção com os artistas e com o público.

Doyle | Foto: Rogerio Sousa

No primeiro dia, apesar de alguns atrasos, o festival trouxe grandes shows como as bandas Doyle, Crypta, Desalmado, Basttardz, Multilator, Alchimist, Edu Falaschi e Mayhem.

A apresentação da banda Crypta dispensa comentários, com uma performance incrível, o quarteto apresentou seu excelente álbum Echoes Of The Soul e o público correspondeu com mosh. O ápice foi quando a banda tocou as músicas Kali e From The Ashes. É importante ressaltar que nos shows foi maravilhoso perceber a quantidade de mulheres participando do mosh e o respeito do público presente.

Crypta – Foto: Rafael Galbes

Edu Falaschi apresentou seu elogiado show do álbum Vera Cruz (2021), com uma vista privilegiada para o mar, numa noite que deixou os fãs felizes por testemunharem aquele momento único. Antes de tocar a música tema, o cantor disse o quanto era incrível poder tocar uma música que tem tudo a ver com aquele local, próximo ao oceano, onde tudo começou.

Edu Falaschi

O show do Mayhem foi sem dúvida o mais aguardado da noite, com um setlist que surpreendeu todos os fãs de black metal. O show abriu com o primeiro ato, trazendo a música Falsified and Hated, do álbum Daemon (2019). Em três atos, a banda apresentou um compilado de 15 músicas que marcam sua trajetória enquanto percursora e maior banda de black metal da história, finalizando o show com a música Pure Fucking Armageddon. Um verdadeiro concerto de black metal em três atos perfeitos. Foram onze shows e o público não parecia nenhum pouco cansado. Clamavam o nome “Mayhem! Mayhem! Mayhem!”, pedindo mais!

Mayhem

No segundo dia do festival, os grandes destaques foram as bandas Shaman, Dorsal Atlântica, Tanatron, Rebaellium, Scrok, Garotos Podres, Richie Ramone, Gangrena Gasosa e a revelação sueca Ambush.

Shaman

No show da banda Garotos Podres, nos bastidores estavam presentes o guitarrista Ronnie Simmons e a baixista Clare Mistake prestigiando a banda e bangueando, curtindo o festival como artistas e como público. O espírito do festival é exatamente esse. Quando bandas internacionais e nacionais podem fazer essa troca e conhecer e ampliar seu conhecimento musical. Segundo Richie Ramone, que estava na plateia vendo o show, afirmou que “Especialmente aqui na América Latina é diferente. Aqui eles aprendem mais sobre a música punk, nos Estados Unidos não é assim. Mas aqui está mais vivo na cultura. Aqui, Argentina, Chile, sabe? Eles nos aceitam de braços abertos e isso é fabuloso.”

Garotos Podres
Richie Ramone

Podemos citar o primeiro Rock in Rio que apresentou diversos problemas, e até se firmar como a grande marca que é hoje, foi necessária muita persistência, resiliência, planejamento e apoio de quem pudesse sonhar junto com Medina. Da mesma forma muitos festivais surgem com dificuldades de receber apoio e patrocínio, seja por conta do estilo musical, ou pelo local onde este festival é realizado.

Na Europa é muito comum os festivais de metal acontecerem em locais afastados e de difícil acesso, mas ainda assim o público comparece, pois existe uma tradição que ainda precisa ser fortalecida não só no Nordeste, mas em todo Brasil.

Scrok

É certo que alguns pontos devem ser revistos e melhorados, mas faz parte da construção de um festival desse porte que busca se consolidar na rota dos grandes festivais nacionais. A realidade do norte e nordeste é muito diferente das regiões sul e sudeste. Não devemos cair em comparações rasas de melhor ou pior, mas de uma análise profunda que nos remete a uma conjuntura histórica e política. Sabe-se que estas regiões sempre estiveram esquecidas e que pesquisas como IBGE, IPEA, dentre outros órgãos oficiais, apontam que somente a partir do governo de 2003-2014 essas regiões receberam atenção, que vão desde políticas públicas que garantissem direitos fundamentais básicos, como investimentos na infraestrutura e abertura de crédito para pequenas empresas. Mas você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com música? TUDO!

Dorsal Atlântica

Fazer um festival desse porte em um estado como Maranhão é para pessoas ousadas, corajosas e que realmente amam o que fazem. Pois fazer um festival exclusivamente de música pesada já demanda muitos esforços, parcerias, apoio, incentivos. Não estamos aqui levantando rivalidades, mas sim apontando fatos. O Sudeste já construiu seu legado, recebe shows e festivais, possui apoio, cobertura, atenção, suporte. Nós estamos começando a nossa história. E dizer que todos nós, imprensa, público, produtores, bandas, enfrentamos uma batalha em que desde o início tudo esteve ao nosso desfavor não é exagero. 

Alchimist

Primeiro, partimos que maior parte das bandas que se apresentaram no festival trazem na sua trajetória e em suas letras mensagens de crítica ao sistema, ao modelo que oprime trabalhadores e trabalhadoras, que subjugam mulheres, negros, LGBTs. Cada banda com seu estilo e sua história trouxeram para o festival uma pluralidade de mensagens e questionamentos, uma diversidade de Brasis. Quem estava presente no evento, mesmo com todos os problemas apresentados, estavam felizes de viverem aquela celebração histórica acontecendo aos seus olhos.

Mutilator

A ideia do produtor foi genial. Inspirado no “Psycho Las Vegas Fest”, o produtor e sua equipe elaboraram o evento para oferecer ao público esse espírito, que pelo próprio clima, a cidade de São Luís oferece perfeitamente. E o local foi perfeito nesse aspecto. Realizado no Rio Poty Hotel, localizado no bairro Ponta D’Areia, com uma infraestrutura excelente e uma vista privilegiada para o mar, banda e público se sentiam num verdadeiro paraíso. Todos tinham acesso a piscina. Sendo que ao redor da mesma tinham bombeiros e seguranças para garantir que todos apreciassem tudo o que o festival estava oferecendo com todos os cuidados e precauções.

Basttardz

O vocalista Edu Falaschi em suas redes sociais comemorava o fato de estar em São Luís e ser tão bem recebido. Como sempre muito acessível, esteve na piscina curtindo o clima da cidade e reforçando que essa proximidade entre os artistas e público é algo fantástico.

Diferente daquele esquema no qual artistas e público não se misturam, o ponto positivo desse festival, além da excelente localização, foi o contato do público com os artistas, assim como de artistas prestigiando shows de outras bandas, como foi o caso do vocalista do Mayhem, Atila Csihar, que achou interessante a banda Gangrena Gasosa pela mistura de raízes da cultura local ao metal, que remete ao que o Sepultura fez lá atrás, quando incorporou elementos tribais ao metal.  

Gangrena Gasosa

Nesse sentido, mais um ponto positivo do festival foi apresentar ingressos acessíveis e que permitiam a mesma experiência para todo público. Todos juntos e misturados. E mais: as bandas circulavam no festival e assistiam shows de outras bandas. Fernanda Lira, vocalista da banda Crypta, depois de se apresentar com sua banda, curtiu a piscina do hotel enquanto ouvia a apresentação do show de Edu Falaschi. Momentos como esse são únicos.

Segundo Paulo Falcão, professor e fã de metal, que esteve presente nas duas edições do festival: “A experiência dessa edição foi única. Uma vibe totalmente incrível, segurança, limpeza, local acessível, ótima vista, piscina, shows acontecendo. Se tiver todo ano, com certeza eu venho. O que percebo é que o festival tem grande potencial e isso foi comprovado, mas a desconfiança, comentários negativos e equivocados de quem nem esteve no festival acaba por prejudicar toda a cena nordestina.”

Desalmado

Um dos maiores problemas em festivais no Nordeste são os comentários negativos e equivocados por parte de pessoas que não estiveram presente no festival e repercutem informações que nada acrescentam de positivo para o metal. A desconfiança foi um fator que atrapalhou demais o festival.

Nós sabemos que não somente em festivais como também em shows, principalmente com as diferenças de pistas normal e premium (vip), há uma separação de quem pode pagar mais para ficar mais próximo do palco. Esse modelo adotado além de evidenciar a desigualdade social incentiva um sentimento de frustração por parte do público. A música deve unir e não separar. Os espaços devem ser acessíveis, inclusivos, não segregatícios.

Rebaellium

O festival encerrou com a apresentação da banda sueca Ambush. É interessante como um show pode ser ao mesmo tempo perfeito tanto pelas músicas, quanto pela performance. E a cada banda possui suas características. Os músicos da banda Ambush priorizam um som mais baixo, algo um tanto incomum no Brasil. Os técnicos de som ficaram até surpresos com o pedido da banda. Essa decisão implica no resultado final, que é a qualidade do som, que chega “limpo” e com uma experiência diferenciada para o público, tornando-a ainda melhor. O show terminou já era mais de 02h00, no entanto, o público presente não queria que o festival acabasse. Todos estavam cansados, mas querendo eternizar aquele momento o quanto pudessem, para que não houvesse fim.

Ambush

Os pontos que precisam ser melhorados concernem nos quatro cancelamentos que ocorreram por conta de a produção do festival não atender as demandas das bandas a tempo, tornando impossível a presença de Vazio, Azul Limão, Omen D.F.C. no festival. A produção assumiu a responsabilidade e desculpou-se com as bandas e com o público, reforçando que esse tipo de acontecimento não poderia ter ocorrido e que se compromete em reparar nas próximas edições.

Mas outro ponto que precisa ser reforçado é que o festival ainda trava uma árdua batalha com fantasmas do passado. E o que realmente faltou neste festival foi um público maior, apoio e patrocínio da iniciativa pública e privada, pois fazer um festival é difícil, e sem apoio os obstáculos são enormes. Infelizmente é necessário continuar lutando e resistindo, pois é indiscutível que não só Maranhão, mas todo norte e nordeste tem potencial para fomentar iniciativas como esta.

Tanatron

Segundo Débora Lopes, que fez uma participação no show da banda local Tanatron, comentou sobre as dificuldades da cena maranhense: “A cena na maioria das cidades nordestinas é pouco valorizada. Tanto na parte da cena nacional por parte de ajuda financeira, como iniciativas públicas culturais. O rock, principalmente em cidades mais afastadas, ainda é alvo de muito preconceito. Algo que não vemos em outros gêneros musicais populares. Até mesmo quando fazemos tudo correto com todas as licenças e com todo material necessário para rolar um evento seguro e bem-produzido, ainda sofremos injustiças. Desde polícia que aparece para encerrar o show, sem ter nenhuma razão para isso. O MOA mesmo sendo um evento de grande porte com todo potencial que sempre apresentou, sofreu com tudo isso. E por conta de todo esse preconceito, seguimos por meio do underground fazendo um som por conta própria, e 99% das vezes tirando do próprio bolso.”

A visão das bandas, do público e da produção local é fundamental para entender o cenário de um festival que desde seu anúncio foi desacreditado, mas que contou com a soma de profissionais e pessoas que frequentam a cena e que nunca deixaram de acreditar que é possível mudar a realidade. Viva o Metal!

Ambush

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