
Por Luiz Tosi
Fotos: Roberto Sant’Anna
Apesar do estigma de caça-níquel que os shows “all star” carregam, quando bem feitos eles podem ser extremamente divertidos. O formato reúne nomes consagrados num único evento celebrativo e descontraído, cada um fazendo uma entrada curta com os seus sucessos, finalizando com uma grande jam no melhor estilo We Are the World.
Eu entendo o estigma. Esse é o tipo de show que tem tudo certo para dar errado. Primeiro porque os casts costumam ser questionáveis, cheios de astros em fim de carreira, alguns meio sumidos, apoiados por bandas locais. A tal descontração e celebração muitas vezes se confunde com desleixo. Algumas dessas produções parecem que os participantes se conheceram literalmente em cima do palco. Quem viu o supergrupo Big Noize passar por aqui em 2013 vai entender o que estou falando.
Mas o Masters of Voices conseguiu driblar todas essas armadilhas e entregar exatamente o que o evento promete: uma celebração descontraída, mas muito bem feita. Os “mestres” do evento dispensam apresentações: Eric Martin (Mr. Big), Jeff Scott Soto (Journey, Talisman e quem mais você imaginar), Edu Falaschi (Angra) e Tim “Ripper” Owens (Judas Priest, Iced Earth, KK’s Priest). E aí vem o primeiro acerto do evento: a diversidade. Cada um traz um universo único e ainda assim complementar. Eric com seu lado mais hard/pop, Soto com uma veia hard/heavy, Ripper como representante do metal tradicional e Edu com o prog/power. Essa diversidade, somada à decisão acertada de cada um trazer para o palco seus maiores hits, as mais clichês mesmo, tornou o evento fácil e divertido para qualquer fã de rock. Aquele abraço que só aquelas músicas mais batidas conseguem dar.
Outro fator que fez toda a diferença foi a banda de apoio. E que banda: Felipe Andreoli (Angra) no baixo, as guitarras com Marcelo Barbosa (Angra, Almah) e Leo Mancini (Tempestt, Spektra, Shaman) e a bateria de Edu Cominato (Mr. Big, S.O.T.O., Spektra, Tempestt). Se os quatro vocalistas se autointitulam os Masters of Voices, esse time merece a pecha de Masters of Bass, Guitars & Drums.
E por falar em time, não é à toa que a química entre eles é tão evidente. Velhos conhecidos, esse coletivo literalmente joga por música. Eric tocou com Cominato no Mr. Big; Cominato tocou com Leo no Spektra; Leo e Cominato tocaram com Jeff no SOTO; Jeff e Ripper foram vocalistas de Yngwie Malmsteen – Jeff ainda emprestou sua voz ao personagem de Ripper no filme “Rock Star”; Jeff tocou com Felipe no Sons of Apollo; Felipe tocou com Edu no Angra; Marcelo e Felipe tocam no Angra; e Edu tocou com Marcelo no Almah. Um círculo fechado, em que cada elo conhece o seguinte de muito antes do palco. Isso se ouve. E se vê. Ao longo do show, essa sinergia se traduz num equilíbrio raro: a espontaneidade e a leveza de uma jam com a precisão e a coesão de uma banda ensaiada. Não é fácil conseguir as duas coisas ao mesmo tempo.

A abertura ficou por conta dos ótimos americanos do Velvet Chains. Formada em Las Vegas em 2018, a banda acumula quatro singles no Top 40 e uma bagagem de turnês ao lado de nomes como Slash, Hinder e The Struts. O som mistura hard rock contemporâneo com influências do rock alternativo e do grunge. Como o próprio nome sugere, se você pensar numa fusão entre Velvet Revolver e Alice in Chains não estará longe. Esta é já a quarta passagem da banda pelo Brasil, e eles já haviam deixado ótima impressão quando por aqui estiveram no Summer Breeze Brasil de 2023, agradando o público com energia e personalidade. O set incluiu faixas do novo EP, How the Story Ends, e uma versão descontraída e bem-vinda de Suspicious Mind. Além das datas com o Masters of Voices, o Velvet Chains ainda volta ao Tokio Marine no dia 25 para abrir o show do cantor Eagle Eye Cherry.

Agora, os mestres.
Coube a Eric Martin fazer as honras com um set inteiramente dedicado ao Mr. Big e uma dose generosa de carisma. Visivelmente feliz, Eric foi o mais comunicativo entre uma música e outra, saltando do inglês para um português corajoso e bem-humorado. Daddy, Brother, Lover, Little Boy abriu com aquela energia caótica de sempre, Take Cover e Green-Tinted Sixties Mind vieram firmes na sequência. O cantor brincou com o próprio set e confessou não ter certeza se uma plateia mais metal embarcaria nas baladas. Engano dele. Bastaram poucos acordes e Wild World, de Cat Stevens e eternizada pelo Mr. Big, e To Be With You arrancaram alguns dos cantos mais espontâneos da noite, mostrando que os metaleiros também amam. Colorado Bulldog elevou o volume e Addicted to that Rush fechou o bloco. A voz de Eric soou bem – melhor, inclusive, do que em algumas de suas passagens mais recentes por aqui, quando não parecia estar na sua melhor forma. Carisma não falta. E as músicas fazem o resto sozinhas.

Com a entrada de Tim “Ripper” Owens, o peso chegou de vez. E o Tokio Marine respondeu na mesma medida. Arrisco a dizer que, das bandas representadas, Judas era a favorita dos fãs presentes. The Hellion abriu como foguete antes de Electric Eye despencar em cima da casa. Burn in Hell estremeceu o Tokio Marine, a única faixa do set com vocais originais de Ripper em estúdio, gravada em Jugulator, de 1997 e cantada com enorme paixão. Painkiller – aquela – fez o que sempre faz. Em Breaking the Law, a casa virou coral antes mesmo de Ripper pedir. Então veio uma versão extremamente descompromissada e divertida de Highway to Hell, do AC/DC. Integrante da banda tributo Dio Disciples, Heaven and Hell veio como homenagem de Ripper ao lendário vocalista. Foco constante de críticas e ceticismos recentes, o vocal de Ripper surpreendeu. Com certeza, a melhor atuação dele em São Paulo em muito tempo.

Edu Falaschi foi recebido com o calor e a segurança de quem, sozinho, bota mais gente no Tokio Marine que os Masters of Voices juntos. Ainda sob a repercussão estrondosa da reunião com o Angra, além das presenças de Felipe e Marcelo, Edu fez uma escolha inteligente e montou um set inteiramente de Angra, bem escolhido para o contexto. Até eu, que não sou um profundo entendedor de Angra, conhecia todas. Acid Rain abriu com garra, Millennium Sun deu espaço para ele explorar o timbre grave com mais liberdade, Bleeding Heart e Waiting Silence agradaram geral e Rebirth foi outro momento de uníssono com a plateia. Heroes of Sand, uma escolha um pouco diferente para encerrar, fechou o bloco com classe. Outro alvo constante de críticas vorazes, Edu parece ter entendido suas limitações e encontrado caminhos. Novamente, não sou um profundo entendedor de Angra, mas o vocalista me soou extremamente competente, e a presença e a entrega seguem intactas. Deixo as análises para os torcedores da banda.

Os quatro vocalistas têm alternado as ordens de entrada ao longo da turnê. Justo, por competência e tamanho, qualquer ordem faria sentido. Mas, sem querer ou não, a sequência de São Paulo acabou sendo muito acertada. Só Eric Martin é capaz de iniciar a noite com tanta elegância e bom humor. E só Jeff Scott Soto é capaz de encerrar com um clima tão divertido e pra cima. O vocalista transformou a noite numa festa. One Love, musicaça do W.E.T., abriu com melodia e impacto. A segunda foi Separate Ways, do Journey, lendária banda que Jeff chegou a integrar em 2007, mas durou menos no cargo que técnico de futebol no Brasil. Em seguida, Jeff prestou uma homenagem a Ozzy Osbourne, cuja morte completaria um ano dali a quatro dias, e puxou Mama, I’m Coming Home em versão reduzida. Belo gesto, simples e bem colocado. I’ll Be Waiting, do Talisman, talvez o maior hit associado ao cantor, botou todo mundo para pular. Nesta, Jeff desceu do palco e literalmente comendou a bagunça com o publico na pista.

Mais um com passado recente de altos e baixos técnicos, Jeff se mostrou em ótima forma, não só técnica como fisicamente. O cantor, quase-brasileiro, culpou sua paixão por caipiroscas e coxinha pelo seu recém-diagnóstico de pré-diabetes e mostrou seu “tanquinho” após perder 24 quilos pela sua reeducação alimentar e etílica. A dobradinha de I Am a Viking e I’ll See the Light Tonight, do Malmsteen, serviu de playground para Leo e Marcelo. Num determinado momento, Jeff largou o microfone e cantou uma passagem de Coming Home só com a voz, a plenos pulmões, e a plateia correspondeu de modo esfuziante. A faixa, do Sons of Apollo, deu um toque mais recente, mas não funcionou tanto. Stand Up, da trilha de “Rock Star”, fechou. Se a ideia era um evento descontraído, não entendo Ripper não dar o ar da graça nessa. Que baita oportunidade perdida.

O momento We Are the World, com todos os quatro de volta ao palco, teve Living After Midnight, do Judas, de modo descontraído e genuíno. Sem disputa de protagonismo, sem vaidade, sem competição. Apenas quatro caras que constroem carreiras sólidas há décadas dividindo o mesmo microfone com o sorriso de quem está confortável e exatamente onde quer estar.

O Tokio Marine recebeu um público bem abaixo da sua capacidade. Parte disso talvez se deva justamente ao estigma de caça-níquel que os shows “all star” carregam. Uma pena, porque a noite foi generosa com quem compareceu. Com quatro vocalistas que ainda têm muita lenha para queimar e músicos desse nível tocando músicas dessa envergadura, o pior que podia acontecer era ser bom. E foi muito melhor do que isso. Missão cumprida.
Setlist Velvet Chains
War
Ghost in the Shell
Dead Inside
Stuck Against the Wall
Wasted
Suspicious Minds
Wide Awake
Hurt Me
Sins
Dead in the Head
How the Story Ends

Setlist Eric Martin
Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song) (Mr. Big)
Take Cover (Mr. Big)
Green-Tinted Sixties Mind (Mr. Big)
Wild World (Cat Stevens, versão do Mr. Big)
Colorado Bulldog (Mr. Big)
To Be With You (Mr. Big)
Addicted to That Rush (Mr. Big)

Setlist Tim “Ripper” Owens
The Hellion (Judas Priest)
Electric Eye (Judas Priest)
Burn in Hell (Judas Priest)
Painkiller (Judas Priest)
Breaking the Law (Judas Priest)
Highway to Hell (AC/DC)
Heaven and Hell (Black Sabbath)

Setlist Edu Falaschi
Acid Rain (Angra)
Millennium Sun (Angra)
Bleeding Heart (Angra)
Waiting Silence (Angra)
Rebirth (Angra)
Heroes of Sand (Angra)

Setlist Jeff Scott Soto
One Love (W.E.T.)
Separate Ways (Worlds Apart) (Journey)
Mama, I’m Coming Home (Ozzy Osbourne)
I’ll Be Waiting (Talisman)
I Am a Viking / I’ll See the Light Tonight (Yngwie Malmsteen)
Coming Home (Sons of Apollo)
Stand Up (Steel Dragon)
Todos
Living After Midnight (Judas Priest)

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