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MATIAS FRANCINO: HISTÓRIAS DA GUITARRA

Após o fim da banda chilena Lluvia Funebre, em 2010, o guitarrista Matias Francino passou a focar em outras frentes, sendo uma delas seu trabalho solo. Surgiram então álbuns como Música, Poeira e Asfalto (2013) e o EP The Earth Divided (2016), antes de Rising Agony (2021) emergir com todo seu talento nas seis cordas. Neste papo com a ROADIE CREW, o guitarrista fala um pouco sobre sua história na música, suas influências, o trabalho solo e a relação que tem com o Brasil.

Matias, primeiramente nos fale como e quando despertou em você o interesse pela música? E quando você iniciou na guitarra?

Matias Francino: Essa pergunta remonta muitos anos atrás. Foi numa tarde do ano de 1993, quando um canal de TV transmitia o show do Santana. Nossa, acabou ‘caindo’ minha carteira de identidade (risos). Na hora em que ele tocou Samba Pa Ti, eu não podia acreditar o que estava presenciando e ouvindo. Amei o som da guitarra, o jeito de tocar, enfim, uma música maravilhosa. Assisti aquele show até o final. Na época em que aconteceu aquele show, o Chile estava voltando à democracia, e certas divisões e feridas eram muito mais evidentes que nos tempos atuais. Dentro desse contexto, lembro que antes de tocar Somewhere In Heaven, ele apresentou a música com a frase: “Ló que en la tierra perdemos, el cielo lo encuentra” (N.R.: em tradução literal: o que perdemos na terra, no céu se encontra). Aquele momento foi mágico. Acho que essa frase deu um sentido mais poético de tomar o caminho mais artístico dentro da música. O início do meu caminho da música foi complicado, mas ao mesmo tempo fascinante. Acho que sempre teve aquela ideia de poder criar coisas originais. Muito mais que tocar guitarra, era poder ter uma identidade, assim como aqueles artistas que eu admirava.

Nessa época, quais eram suas maiores influências tanto da música em geral como na guitarra? E ainda neste contexto, quais guitarristas contemporâneos têm chamado sua atenção?

Matias: Quando era criança, sempre gostei de muitos estilos musicais, tinha mais afinidade com jazz, blues, flamenco, entre outros sons. Mas não era algo que me deixava com aquela paixão por tocar, era mais para ouvir. Quando tinha uns dez anos de idade, comecei a ter paixão pela música. Comecei a gostar mais de rock, principalmente de bandas como Depeche Mode, U2, Led Zeppelin, Rush, Deep Purple, Pink Floyd, Dead Can Dance, King Crimson, Genesis, Van Halen, The Beatles e Aerosmith. Começaram a criar em mim um interesse por ter banda. Os guitarristas que gostava muito, quando comecei a tocar, acho que foram Jimi Hendrix, Gary Moore, Brian May, Uli Jon Roth, Gustavo Cerati, Phil Palmer, Jose Feliciano, David Gilmour, Eddie Van Halen, The Edge, Paco de Lucía, Jimmy Page, Eric Clapton, Prince e Tony Iommi. Esses foram os guitarristas que chamaram minha atenção. Mais tarde acabaria “perdendo a cabeça” com Black Sabbath e Iron Maiden, e entrando mais na adolescência, o Yngwie Malmsteen acabou sendo uma das maiores influências, assim como o Adrian Smith (Iron Maiden) na parte melódica e na composição. Sempre gostei de muitos guitarristas, mas também sempre gostei de vocalistas e de outros instrumentistas, como Peter Gabriel, David Bowie, Peter Murphy e artistas mais contemporâneos, como o Trent Reznor. E o Ronnie James Dio e a Doro Pesch sempre foram (e até hoje são) meus vocalistas preferidos, considerando que também acostumo cantar.

Você tem uma história construída na banda chilena Lluvia Funebre. Como foi o período de formação da banda e quais suas grandes recordações dos primeiros anos com o Lluvia?

Matias: Bom, os primeiros anos com o Lluvia Funebre foram algo caótico. Tinha saído recentemente de uma banda com algumas dificuldades (mais pela parte dos objetivos do que por algum tipo de discrepância pessoal). Éramos de uma cidade pequena, e existia algo de preconceito com as bandas com gente muito nova e do interior. Comecei a tocar em shows quando tinha 14 anos, sempre era a “criancinha” dos shows, então as predisposições de alguns músicos das bandas de metal eram de não nos levar a sério. Criar um espaço com uma banda nova e sem gravação era bem mais complicado. Em 2006, começamos a criar uma pequena cena dentro da cidade e outras cidades vizinhas. Em 2008, já estávamos gravando nosso primeiro álbum de forma independente e desejava poder levar minha banda para outros países. O álbum tinha influências muito mais marcadas pelo thrash, o doom e alguns estilos que naquela época escutava mais. A sonoridade era algo mais crua e “cinza”. O primeiro álbum do Lluvia Funebre foi lançado uma semana antes de começar a tocar no Brasil na “Under The Fallen Tour 2009”. Conseguimos fazer uma turnê pela América do Sul, visitando Brasil, Argentina e Uruguai. Aquela turnê foi um aprendizado importante e uma das melhores experiências. Houve acertos e erros, mas aprendemos a melhorar para nos profissionalizar. Nosso segundo álbum, Re-Construction Of The Mind, foi para o lado mais da controvérsia, indo para o industrial, o goth e alguns conceitos de evolução, assim conseguimos chamar atenção de outro tipo de audiência. E houve uma presença maior em diferentes shows e festivais. Para quem é mais “tradicional”, estávamos quase fazendo uma heresia (risos), mas precisávamos ir pelo caminho da experimentação com sons mais “acessíveis”, e acho que foi uma decisão bastante madura e arriscada. Já para 2010, tínhamos parcerias com bandas da Europa e dos Estados Unidos, só que no fim desse ano, a banda acabou. Fico contente que, depois desses anos, ainda tem tantas pessoas que lembram do Lluvia Funebre, com tanto respeito e dizendo que foi importante a elas enquanto músicos.

Com relação à sua carreira solo, o primeiro trabalho é Música, Poeira e Asfalto. Li certa vez que o CD tinha músicas diferentes do estilo do Lluvia Funebre. Mas algo interessante, pelo menos para mim, é que mesmo com essa diferença de estilos, pode-se notar que ali está sua marca como guitarrista. Como é para você sempre se desafiar em busca de novos horizontes dentro da música e manter uma assinatura própria?

Matias: Pessoalmente, vejo os álbuns como livros. Um tem que contar uma história diferente e procurar novas ideias para criar novos conceitos, porém, as músicas são capítulos. Criar certas emoções ou reações com a música ou fazer com que alguma canção te leve a uma viagem dentro do espirito do álbum é sempre algo único. Meu trabalho solo é muito diferente ao estilo escuro do Lluvia Funebre; a única coisa que não muda é justamente a interpretação, aquilo é a personalidade do artista e tem que estar sempre presente. Sinto que foi uma necessidade fazer esse trabalho, criar coisas diferentes, mas, principalmente, o caminho da identidade própria com Música, Poeira e Asfalto foi o ponto inicial de representar a essência e a personalidade do que eu estava interpretando, já que antes daquilo, tinha minhas influências muito marcadas. Foi o ponto inicial da parte criativa das composições.

O disco mostra também uma relação sua com o Brasil, já que você tocou em diferentes cidades daqui e acompanhando outros artistas. O quanto o Brasil significa para você e como é sua relação com o país?

Matias: Sempre admirei muito o trabalho do Sepultura, principalmente na época com o Max Cavalera. Eles foram uma grande inspiração para minha banda. Então, tocar no Brasil, na terra da maior banda de metal da América do Sul, nossa, foi como um sonho se tornando realidade! O Brasil foi o primeiro país estrangeiro que visitei para tocar. Também é onde conheci pessoas e amigos fantásticos que até hoje mantenho contato. Além de ter a galera e fãs mais legais que já conheci na vida, acabei criando um vínculo muito importante dentro da minha carreira.  Num plano geral, comecei a me sentir mais parte do Brasil. No tempo em que morei no país, especificamente, levei com maior segurança e convicção minha carreira. E foi o ponto inicial de amadurecimento e da minha pesquisa autoral. Entre 2011 e 2015, já tinha escrito bastante material para um próximo trabalho, e acho que essas músicas representavam muito aquele espirito da aventura e de pesquisa pessoal num lugar tão fascinante. Quando me apresentei em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro, entre outras capitais e cidades do interior, sempre tive muita inspiração para compor. O Brasil sempre será a luz do farol que ilumina o intenso mar do meu tempo.

Falando então de Rising Agony, seu segundo álbum solo, ele possui dez faixas que mostram sua versatilidade e seu virtuosismo de uma maneira diferente do que você havia feito na carreira. Como foi o processo de composição do disco e o que achou do resultado final?

Matias: No início, o objetivo principal era fazer um álbum instrumental. Sempre criei canções com uma voz principal abrindo espaços para que certos instrumentos ocupassem o centro do palco em determinados momentos. Mas já vinha desenvolvendo esta atual proposta instrumental há algum tempo. As músicas têm identidade própria, são bem diferentes umas das outras, mas todas têm uma conexão entre si. Têm muitas paisagens, o que permite viver uma experiência sonora como se fosse uma espécie de viagem através de um mar sonoro. Com relação às composições, muitas delas não estavam concluídas, eram ideias incipientes que surgiam na base da improvisação, que, com o passar dos anos, acabei deixando para lá. Foi muito mais demorado compor o álbum, comecei a gravar as primeiras músicas no fim de 2018, e até o início do 2020 sempre estava mudando algum detalhe. Até o último momento cheguei a pensar que nunca teria o resultado definitivo (risos). Queria que fosse um álbum especial. É algo bizarro dizer que o álbum foi feito como uma obra de música clássica dividida em dez peças, mas tem certas características que, se fossem interpretadas por uma orquestra, acredito que dariam aquele resultado clássico, porque foi feito com o maior cuidado e muito arranjado. Eu achei o resultado satisfatório, também porque tem um som que não é genérico, era algo que eu queria conseguir.

Sei que é uma pergunta difícil, mas acredita que Rising Agony é seu ápice criativo como guitarrista?

Matias: Tanto em composição como guitarrista, eu acho que sim. Em trabalhos de guitarristas solos, em geral, sempre estão demostrando “o quão técnico” ou “o quão mais complicado” conseguem tocar. O Rising Agony faz o contrário, a guitarra tem um evidente protagonismo, mas também os outros instrumentos têm intervenções importantes. Minha ideia era projetar uma história, onde as ações em cada música transmitissem interpretações pessoais do ouvinte, fazer algo totalmente diferente do que costumava gravar, já que as músicas são divididas em partes, muito no estilo de uma peça incidental de teatro. Acho que sem dúvida alguma, Rising Agony é meu melhor álbum.

Você disse certa vez que gostaria de lançar vários singles e videoclipes para que as pessoas pudessem se familiarizar com suas novas canções. Como vem sendo a repercussão do trabalho neste sentido?

Matias: Minha ideia era lançar tantos singles fossem possíveis desse trabalho, para que as pessoas pudessem estar em sintonia com as músicas do Rising Agony. A repercussão do álbum está melhor do que o esperado. Minha ideia é poder lançar o álbum físico, representando a história das dez faixas com um desenho descrevendo certos acontecimentos e com um diálogo de cada personagem… Não vou entrar em muitos detalhes da história, mas posso dizer que dentro do mundo fantástico dos personagens há situações que estamos vivendo.

Quais os planos futuros? O que mais você está preparando?

Matias: Tenho alguns objetivos prévios em 2022. Já retomei as gravações do álbum Ride To Horizon, que previa lançar em 2015. Primeiramente, queria um melhor tratamento nas músicas; segundo, certas decisões da qualidade da gravação e as constantes mudanças de produtores fizeram com que tudo ficasse parado num limbo; e terceiro, grande parte das melhores músicas que já fiz na minha carreira estão no Ride To Horizon, porém, precisavam de um melhor tratamento possível. Aquele trabalho foi escrito na época em que estive viajando pelo Brasil, então tenho a obrigação de que seja um álbum magnifico. Conta com convidados muito importantes, como Kell Reis (Sacrificed), Gustavo Rogers (Blood Dress, da Argentina), Gabriel Hidalgo (Sadism e Violent Passion Surrogate, do Chile) Diego Pizón (Man On The Living Road, da Colômbia), entre outros músicos. Sinto uma dívida pessoal com aquele álbum e com aqueles músicos talentosos que deram vida às faixas. Logo estarei anunciando pelas minhas redes sociais e no webisite: www.matiasfrancino.cl. Tenho planos do relançamento do Música, Poeira e Asfalto, com uma remixagem e algumas novidades, mas só depois de lançar Ride To Horizon.

Muito obrigado pela entrevista. O espaço é seu para deixar uma mensagem. Sucesso, meu amigo!

Matias: Gostaria de agradecer primeiramente a você pela oportunidade desta entrevista e a todas aquelas pessoas que, ao longo dos anos, estiveram apoiando meu trabalho, como também aqueles músicos que tocaram, gravaram ou compartilharam alguma experiência comigo. Estejam atentos às novidades que estão por vir. Podem me seguir nas minhas redes (Instagram, Facebook e YouTube). Espero enormemente que possamos superar a pandemia e voltar às nossas vidas normais. Não está sendo fácil para ninguém, principalmente para quem perdeu algum ente querido ou perdeu seu trabalho. É tarefa de todos superar esse momento crucial que estamos passando no mundo.

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