METALLICA: o incêndio no palco que marcou a turnê de 1992

O que deveria ser apenas mais uma apresentação de grande porte do Metallica na turnê de 1992 acabou se tornando um ponto de inflexão para a banda. Em Montreal, um acidente envolvendo efeitos pirotécnicos deixou James Hetfield gravemente ferido no palco e forçou a interrupção imediata do show, além de desencadear uma sequência de problemas dentro e fora do estádio.

Naquele momento, o grupo vivia o auge da divulgação do álbum Metallica — mais conhecido como “Black Album” —, excursionando por estádios norte-americanos em uma estrutura grandiosa, compartilhada com o Guns N’ Roses. O Estádio Olímpico de Montreal recebeu cerca de 55 mil pessoas, mas mudanças de última hora na configuração técnica acabariam se mostrando decisivas para o desfecho da noite.

Antes da apresentação, a equipe responsável pelos efeitos especiais decidiu ampliar o uso de pirotecnia, reposicionando cargas explosivas também na parte frontal e nas laterais do palco. A alteração exigia precisão absoluta de posicionamento, algo que se perdeu no meio da execução do show.

Já com o set em andamento, durante Fade to Black, Hetfield teve dificuldade para identificar seu local exato no palco enquanto colunas de fogo surgiam ao redor. Ao tentar se mover, acabou entrando na área de disparo de um dos efeitos e foi atingido diretamente por uma labareda.

Anos depois, ao comentar o episódio, o vocalista descreveu a desorientação daquele instante: “Eu estava confuso sobre onde deveria estar. O responsável pela pirotecnia não me viu e, de repente, uma chama enorme subiu bem embaixo de mim. Eu me queimei. Meu braço e minha mão foram atingidos até o osso. O lado do meu rosto, o cabelo, parte das costas. Eu via a pele reagindo, tudo dando errado ao mesmo tempo”.

Do ponto de vista da bateria, Lars Ulrich presenciou o momento em que o colega foi envolvido pelo fogo. Parte do impacto acabou sendo desviada pela guitarra de dois braços usada por Hetfield, o que evitou consequências ainda mais graves. Mesmo assim, o músico sofreu queimaduras sérias nos braços e na mão esquerda, caindo no palco e rolando no chão para conter as chamas.

A dimensão do risco foi resumida por Jason Newsted em entrevista à revista People: “Se ele estivesse respirando naquele momento, teria morrido”. Já o técnico de baixo Zach Harmon relembrou o choque ao vê-lo logo após o acidente: “Eu corri até ele e vi que estava segurando o braço, com a pele se soltando”.

Com a apresentação encerrada, Ulrich voltou ao palco para informar o público, enquanto Hetfield era encaminhado para atendimento médico. No hospital, os médicos diagnosticaram queimaduras profundas de segundo grau na mão esquerda e queimaduras de segundo e terceiro graus nos braços. O vocalista descreveu o estado em que chegou à emergência: “Eu estava em choque. Parecia que os nervos estavam expostos. Minha mão era o pior ponto. Ela criou bolhas em duas camadas que se soltaram”.

Para tratar os ferimentos, foi necessário cortar suas roupas, serrar o anel da mão esquerda e administrar morfina. Sobre a dor, Hetfield não fez rodeios: “Foi praticamente a pior dor que já senti”.

Enquanto isso, o clima no estádio se deteriorava. O Guns N’ Roses manteve seu horário original e, quando finalmente subiu ao palco, encerrou o show após poucas músicas. Antes de sair, Axl Rose afirmou ao público: “Caso alguém aqui esteja interessado, este será nosso último show por um bom tempo”. A frustração resultou em vandalismo, confrontos e destruição de patrimônio dentro e fora do estádio, com prejuízos estimados em cerca de 400 mil dólares.

Por motivos de segurança, os integrantes do Metallica permaneceram retidos nos bastidores por horas e só deixaram o local na madrugada seguinte, sem conseguir visitar Hetfield naquela noite.

Liberado do hospital no dia seguinte, o vocalista iniciou um processo rigoroso de recuperação, com sessões diárias de tratamento e fisioterapia para preservar os movimentos da mão e do braço afetados. Dezessete dias depois, ele voltou aos palcos apenas como cantor, enquanto John Marshall, do Metal Church, assumia a guitarra durante a continuidade da turnê.

Ao falar sobre o retorno, novamente à People, Hetfield comentou o impacto psicológico de encarar os efeitos de fogo no palco: “Quando voltei pela primeira vez e aquelas chamas subiram, meu coração disparou. É como quando você é criança: se algo te assusta, você vai lá e enfrenta. Eu aprendi com aquilo. É o jeito do Metallica.

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