
Por Antonio Carlos Monteiro
Fotos: Belmilson Santos
A gente que está enfiado nessa história de jornalismo musical há mais de 40 anos sabe muito bem como funciona a cobertura de um show (já devo ter alguns milhares no currículo): basta chegar uns 20 ou 30 minutos antes do início da primeira banda, se apresentar no lugar designado, identificar-se e ter acesso ao local do show. Só que alguns, também muito experientes, preferem renegar essa lógica e complicar gratuitamente a vida de quem está, como eles, trabalhando. Foi o caso da cobertura do show do Nazareth, no Manifesto. Meia hora antes do início da banda de abertura, havia uma fila relativamente grande na porta do lugar. Como de hábito, me apresentei direto na portaria e veio a notícia, sem anestesia: “Tem que pegar a fila!” “Mas eu estou aqui a trabalho”, foi o melhor argumento que me ocorreu diante de tamanha ausência de lógica. A porteira se manteve irredutível. Tenho como política evitar qualquer tipo de bate boca, até para evitar subir demais o tom. Então, lá fui para a fila. Ela nem era tão grande (já vi muito mais gente querendo entrar em show), mas, sabe-se lá o motivo, ela andava em ritmo de carro de boi. A moral da história é que fiquei mais de uma hora nesse esquema de “barreira em jogo de futebol” (um passo pra trás, dois pra frente) e quando finalmente fui generosamente agraciado com o acesso ao local de show, a banda de abertura, o ótimo Phornax, já tinha encerrado sua apresentação. No fim das contas, saem todos prejudicados por tão pouco, mas quem mais deve se ressentir é a própria banda, que certamente preferiria estar lendo neste espaço um comentário sobre sua apresentação e não um desabafo sobre falta de profissionalismo e de bom senso.
Ainda tenho esperança de que todos os envolvidos nesse mercado um dia percebam que estamos no mesmo barco e que se não remarmos na mesma direção ele não sai do lugar – isso se não afundar… Fica aqui meu manifesto (se é que vocês me entendem).
Perrengues à parte, a casa estava bem cheia e gente de todas as gerações ostentava as mais variadas versões de camisetas da banda do sempre inesquecível Dan McCafferty. E a expectativa residia justamente no posto de vocalista. Afinal, Carl Sentance permaneceu à frente da banda por onze anos até ser substituído, sem maiores explicações, pelo suíço Gianni Pontillo no final do ano passado – ele estreou no grupo há apenas 5 meses. A curiosidade residia justamente no fato de a voz ser uma das características mais marcantes da voz do Nazareth, ou seja, se o novo cantor não desse conta do recado a coisa tinha tudo pra desandar.

Não demorou muito pra gente tirar a dúvida. Com apenas 15 minutos de atraso e após um tema de abertura, sem grandes alardes ou pirotecnias, foram entrando no pequeno palco Gianni, o baixista quase octogenário (ele arredonda a idade em setembro) Pete Agnew, único membro da formação original, seu filho Lee Agnew (bateria) e Jimmy Murrison (guitarra). Assim que a banda atacou a primeira música, Telegram (do disco Close Enough for Rock ‘N’ Roll, de 1976) ficou claro que Gianni era o nome certo para a função. Sua voz tem identidade própria, mas emula com perfeição o “agudo roufenho” que se tornou marca registrada do Nazareth. No mais, logo de cara também deu pra perceber que banda afiada esses quatro formam. Agnew, com o indefectível óculos escuros redondo, mantinha um permanente sorrisão na cara, ajudava nos backings e levantava um som sensacional no seu baixo (o fotógrafo que me acompanhou na jornada, Belmilson dos Santos, é baixista da banda Poseidon e ficou impressionado com o timbre do veterano). Seu filho é um baterista correto, pesado e preciso, além de também ajudar nos backing vocals. E a figuraça da guitarra, Jimmy Murrison, faz parte do time que dispensa o uso de palheta e tira um som cheio de identidade apenas com os dedos.

A apresentação foi um desfile de clássicos – das 17 faixas, nada menos que doze vieram diretamente dos anos 70, sendo seis do disco Hair of the Dog (1975), o mais bem sucedido da banda junto com Loud’n’Proud (1973), que teve três músicas no setlist. Também chamava a atenção a segurança de Gianni Pontillo à frente da banda. Também de sorrisão na cara, movimentando-se sem exageros, elogiando São Paulo (“que cidade grande!”, disse, sinceramente impressionado) e disparando “obrigado” a todo momento, nem parecia que estava há menos de seis meses no grupo.

E foi nesse cenário que o show promoveu sua viagem pelo túnel do tempo. Razamanaz, Shangai’d in Shangai, a bela Dream On (não confundir com a homônima do Aerosmith) e Hair of the Dog foram alguns exemplos que levaram a galera ao êxtase. Em Whiskey Drinkin’ Woman, Pontillo botou a galera pra cantar e antes de Hair of the Dog Murrison engatou um breve solo de guitarra – curto o suficiente para não aborrecer e no tamanho certo para mostrar o quão habilidoso é.

Claro, o momento mais aguardado veio com a inevitável Love Hurts (que não é do Nazareth, mas do Everly Brothers), que teve interpretação pungente de Gianni Pontillo e uma multidão tentando acompanhá-lo – o tom dessa música é desafiador, pra dizer o mínimo.
Quem saiu de casa pensando que ia se divertir assistindo a um bom show de rock, acabou com as expectativas em muito superadas, já que acompanhou uma belíssima apresentação, com quatro músicos de verdade dando o sangue no palco, sem maracutaias nem cheio de bases pré-gravadas – como sempre deveria ser, aliás.
Foi tão legal que quase deu pra esquecer o perrengue na entrada. Eu disse “quase”…

Setlist
Telegram
Miss Misery
Razamanaz
Shangai’d Shangai
Love Leads to Madness
Dream On
Holiday
This Flight Tonight
Light Comes Down
Whiskey Drinkin’ Woman
Beggar’s Day
Changin’ Times
Hair of the Dog
Love Hurts
Turn on Your Receiver
Bis
Where Are You Now
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