NERVOSA – SÃO PAULO (SP)

07 de setembro de 2026 - Carioca Club

Por Leandro Nogueira Coppi

Fotos: Belmilson Santos

Há nove meses, a Nervosa encerrou, em São Paulo, um ano dedicado às celebrações de seus 15 primeiros anos de carreira. E se há uma medida capaz de dimensionar o alcance conquistado nesse período, ela está no mapa: desde que deixou o Brasil para levar seu thrash metal ao exterior, a banda já passou por mais de 50 países. 2025 foi especialmente movimentado, com uma agenda internacional intensa, que incluiu apresentações em países da Ásia, na Austrália e em Dubai, além de uma turnê com o Cradle of Filth e da participação na “Thrash of the Titans Tour”, na Europa, ao lado de Testament, Destruction e Obituary. Encerradas as comemorações, a Nervosa entrou em 2026 com um novo álbum, Slave Machine, lançado em abril. Bem recebido pela mídia e pelo público, o sexto trabalho de estúdio vem sendo divulgado ao vivo na primeira etapa da “Slave Machine Tour 2026”, que vem percorrendo diversas cidades brasileiras. Esta nova visita à América do Sul é a primeira no continente com a baterista Michaela Naydenova, que retornou à Nervosa em 2025 e participou das gravações de Slave Machine.

Na última segunda-feira, feriado de 7 de setembro, a banda retornou à capital paulista, dois dias após se apresentar, pela segunda vez em sua trajetória, no Rock in Rio, onde, dessa vez, dividiu o Palco Sunset com o Black Pantera. A “terra da garoa” recebeu a Nervosa em uma noite fria, com os termômetros marcando apenas 12 graus no bairro de Pinheiros, onde fica o Carioca Club. Para a abertura do show, o cartaz trazia o experiente Carro Bomba e o emergente Blades of Steel.

Pontualmente às 18h30, o Blades of Steel surgiu no palco diante de um público ainda bastante reduzido. Conduzido pela carismática vocalista Yara Haag, o quinteto apresentou, durante 40 minutos, um repertório baseado principalmente nas músicas de seu álbum homônimo de estreia, lançado no início de 2025 e relançado na Europa no primeiro semestre de 2026 pelo selo grego Alone Records. O set também contou com alguns singles inéditos, entre eles Riders of the Night, que teve a participação de Prika Amaral, fundadora, vocalista e guitarrista da Nervosa, em sua versão de estúdio e no videoclipe.

Dona de um visual que ilustra bem a proposta do grupo, Yara comandou, em certos momentos empunhando uma espada de aço, o heavy metal do Blades of Steel, que segue uma linha próxima à de bandas clássicas do gênero, como Running Wild, Warlock, Doro, Virgin Steele, Accept e Grave Digger. Na despedida, com a música que leva o nome da banda e de seu primeiro álbum, o jovem grupo deixou o palco sob aplausos e gritos de “Blades of Steel”, em uma demonstração de que, apesar do público reduzido, havia conquistado os presentes.

Cumprindo a pontualidade, vinte minutos redondos após a apresentação do Blades of Steel, o Carro Bomba surgiu no palco, aquecendo o local com o peso de Máquina, música do álbum Pragas Urbanas, de 2014. Com 23 anos de história e seis discos de estúdio lançados, o grupo conta, desde outubro de 2025, com uma nova e poderosa formação. Além do vocalista Rogério Fernandes e dos irmãos Ricardo Soneca (baixo) e Marcello Schevano (guitarra), o Carro Bomba tem agora Roby Pontes, ex-Golpe de Estado, na bateria. São músicos veteranos e tarimbados no rock nacional, que somam ainda trabalhos com outras bandas também altamente respeitadas no cenário.

A porrada sonora comeu solta no show do Carro Bomba, com músicas de vários de seus álbuns, inclusive muitas delas também presentes no ao vivo A Máquina Não Pára, de 2018, como Overdrive Rock ‘n’ Roll, O Foda-sePunhos de Aço e as aceleradas Fuga Thrash ‘n’ Roll, entre outras. Foi legal notar o quão adaptado Roby Pontes está à banda, mostrando a quem estava acostumado com seu estilo clássico de tocar no Golpe de Estado que também domina as levadas mais agressivas do Carro Bomba, inclusive os galopantes bumbos duplos de algumas músicas. Bastante comunicativo, Rogério, irmão do também vocalista Nando Fernandes (Sinistra, Cavalo Vapor, Hangar), brincou com o fato de ser raro um show rolar em plena segunda-feira. Em outro momento, enquanto Roby trocava a caixa de sua bateria, o frontman elogiou o Blades of Steel e pediu que Yara subisse ao palco com sua espada. Ela surgiu no decorrer de Mondo Plástico e fez uma breve performance com a mesma. Com uma apresentação pesada e segura, encerrada com Queimando A Largada, o Carro Bomba cumpriu muito bem seu papel de preparar o terreno para a atração principal.

Nos minutos que se seguiram à apresentação do Carro Bomba, enquanto o palco era preparado para a atração principal, com cortinas fechadas, rolou uma agradável e bem-vinda overdose de AC/DC no som ambiente, com uma banda ou outra intercalada entre os clássicos dos australianos. Nesse ínterim, a quantidade de gente no local pouco mudou em relação ao público presente desde o primeiro show da noite, diferentemente do que havia acontecido na apresentação da Nervosa em dezembro, ocasião em que o grupo encheu o teatro do Sesc Bom Retiro.

Pontualmente às 21h, as cortinas negras do Carioca Club se abriram e revelaram um palco ornamentado com dois painéis laterais, nas extremidades do praticável da bateria, exibindo a figura central da capa do novo álbum da Nervosa, Slave Machine. Simultaneamente, a introdução sombria do disco começava a rolar nos PAs, com a baterista búlgara Michaela Naydenova já posicionada atrás de seu kit. Segundos depois, a guitarrista grega Helena Kotina, a baixista belga Emmelie Herwegh e, posteriormente, a “nossa” Prika Amaral (vocal e guitarra), surgiram no palco, tocando uma das melhores músicas não só do novo álbum, mas também da carreira da banda: Impeding Doom. Sem perder tempo, ao final da música, Naydenova iniciou uma virada nos tons que deu início a Seed of Death, do álbum anterior, Jailbreak, de 2023.

Sem pausa para respirar, tocaram a música mais antiga do repertório, a clássica Masked Betrayer. Lançada em 2012 no EP Time of Death, nos tempos em que a Nervosa era formada por Prika, na guitarra e nos vocais de apoio, Fernanda Lira (atual Crypta, voz e baixo) e Fernanda Terra (bateria), a faixa rendeu o primeiro videoclipe da banda. Depois dessa, Prika enfim cumprimentou o público e arrancou risadas quando, acostumada a falar para o público estrangeiro, mandou um “The next song…”. Ela mesma riu por confundir o idioma e explicou: “Muito tempo fora do Brasil, né?”. Em seguida anunciou Ghost Notes, outra do álbum atual, que, assim como Impeding Doom, funcionou muito bem ao vivo. Destaque para a performance de Emmelie no baixo, principalmente na parte que antecipou o solo cheio de feeling de Kotina.

Vale lembrar que a Nervosa se dá ao luxo de contar com duas baixistas em sua formação: Emmelie Herwegh e Hel Pyre, conterrânea de Helena Kotina. As duas, porém, não tocam juntas e se revezam nas turnês da banda.

Por falar em destaque, certamente o principal ponto a ser ressaltado é o fato de que Prika está totalmente adaptada à função de vocalista. Segura, carismática e comunicativa, ela também desponta ao explorar, sem dificuldades aparentes, seus ‘raspy vocals’, baseados em drive e técnicas de scream, que se encaixaram muito bem ao clima caótico e ora agressivo, ora melódico, das composições.

Após a dobradinha formada por Perpetual Chaos Behind the Wall, o público se rendeu ao poder de fogo do quarteto e, em coro, entoou o nome da banda. Emocionada com a calorosa recepção, Prika Amaral declarou: “É sempre muito bom tocar em casa. São Paulo sempre foi e sempre será a casa da Nervosa!”. Aplaudida, ela soltou um sorriso maroto de satisfação quando uma garota na plateia gritou, orgulhosa: “É do Brasil, caralho!”.

Mesmo tocando para um número modesto de espectadores, o quarteto demonstrou a mesma energia, profissionalismo e vontade no palco que teria diante de um espaço lotado. Isso, claro, contou muitos pontos com os fãs, que, de sua parte, vibraram por eles e por aqueles que não puderam comparecer. Dando sequência ao show, ao rufar da caixa da bateria, a banda mandou a porradeira Nail the Coffin, outra de Jailbreak, álbum mais representado da noite. Nessa, aliás, Michaela Naydenova mostrou competência, principalmente nas levadas de bumbos.

Uma das mais aguardadas da noite veio a seguir. Prika alertou: “Agora eu quero a ajuda de vocês para cantar com a gente. Essa é bem antiga, hein!”. Então anunciou, gritando repetidas vezes: “Death!, Death!, Death!”. E Death! foi a única do primeiro álbum, Victim of Yourself (2014), a ser tocada. Após Kill the Silence, uma das músicas mais agressivas e liricamente necessárias da carreira da Nervosa, única também do álbum Downfall of Mankind (2018), Prika fez um alerta que vai muito ao encontro do que este redator pensa sobre políticos: “A próxima música tem uma mensagem muito importante. Lá fora, tem muitas guerras acontecendo agora, e guerra é sempre sobre dinheiro e poder, e, no final das contas, é a gente que paga por isso. Políticos não são ídolos, eles estão aqui para servir a sociedade!”. Então veio outra das novas: a grooveada You Are Not A Hero.

Numa só rajada, vieram a seguir UngratefulEndless Ambition e a “slayeriana” Guided By Evil. Após a trinca, que resultou em outra ovação, com o nome da banda novamente sendo gritado em coro, Prika anunciou uma surpresa: “Dois dias atrás a gente tocou lá no Rock in Rio, fizemos uma homenagem a uma grande artista, e a gente quis trazer isso em exclusivo para São Paulo.” A grande artista em questão era Rita Lee, celebrada com uma versão meio punk rock de Obrigado Não, na qual Prika ficou apenas nos vocais limpos, enquanto agitava no palco, sem sua guitarra.

Já se aproximando do final da apresentação, era hora de a Nervosa voltar ao peso de suas próprias composições, então Prika Amaral perguntou: “Chega de cantar, vamos gritar?”. E anunciou a faixa que dá nome a Slave Machine. Particularmente falando, atualmente tenho essa como minha música favorita da Nervosa, especialmente pelas linhas vocais, que considero as melhores de Prika, inclusive levando em conta a era Fernanda Lira, período em que muitas músicas já tinham suas construções vocais criadas pela então guitarrista. Foi muito legal ver ao vivo Prika e Emmelie Herwegh fazendo um duo vocal nos refrões, a primeira explorando os guturais e a segunda os ‘clean vocals’.

Ainda dava tempo para uma última música, mas antes Prika relatou seu sentimento por estar de volta ao Brasil. “Puta que pariu, eu não consigo descrever a nossa felicidade de estar trazendo a nossa tour com exclusividade pela primeira vez aqui no Brasil. A gente está começando essa nova era desse novo disco aqui para vocês. A gente promete voltar, vamos vir com a parte 2 e, quem sabe, com a parte 3, não é mesmo? A gente está fazendo o possível, é muito difícil fazer a logística hoje em dia, independente se é uma banda do Brasil ou internacional, tudo sobe, né? A gente está pagando pela guerra, tá foda, né? Pois é, a área do entretenimento é a que fica por último, é a última em que os valores sobem, não é justo. Mas a gente está aqui fazendo o nosso máximo para sobreviver de música e de metal junto com vocês.”

Aplaudida pelo discurso, a front woman lamentou só ter tempo para mais uma música: “Essa é a pior frase que eu tenho para falar para vocês, eu odeio falar isso”. Prometendo voltar, inflamou o público ao dizer: “A próxima música a gente escreveu inspiradas em todos vocês: metalheads, headbangers, metaleiros do mundo inteiro, para vocês serem orgulhosos de serem quem vocês são, porque muitas vezes a gente troca a nossa camiseta para ir no trabalho. Porra, a gente quer ir do jeito que a gente é, né? Caralho, não se percam de vocês mesmos, com orgulho!” Com alguns fãs agitando o circle pit, a banda encerrou sua passagem por São Paulo tocando a faixa-título do penúltimo álbum, Jailbreak. Alguns longos minutos após o fim da apresentação, as quatro integrantes cumpriram o que Prika havia prometido antes de deixar o palco e apareceram na pista para atender aos fãs e amigos. Pena que não tenha havido tempo para outras músicas novas ou, por exemplo, para Into Moshpit, Urânio Em Nós e Intolerance Means War, que, na verdade, sequer estavam no setlist.

Como já dito, mesmo diante de um público bem menor do que aquele que a Nervosa costuma encontrar em São Paulo, a banda entregou uma apresentação intensa, segura e repleta de personalidade. Mais do que simplesmente divulgar Slave Machine, o show serviu para mostrar que a atual formação está plenamente entrosada. Entre porradas sonoras, discursos e até uma inesperada homenagem a Rita Lee, a noite no Carioca Club deixou a sensação de que a Nervosa ainda tem muita estrada pela frente nesta nova era, além de alimentar a expectativa pelo que o grupo irá preparar para a segunda e, quiçá, terceira parte da “Slave Machine Tour”. E nós estaremos lá para conferir e contar!

Nervosa – setlist:
Impending Doom 
Seed of Death 
Masked Betrayer 
Ghost Notes 
Perpetual Chaos 
Behind the Wall 
Nail the Coffin 
Death! 
Kill the Silence 
You Are Not A Hero 
Ungrateful 
Endless Ambition 
Guided By Evil
Obrigado Não (cover da Rita Lee)
Slave Machine 
Jailbreak (Jailbreak, 2023)

Carro Bomba – setlist
Máquina 
O Foda-se 
Carcaça 
Fuga 
Punhos de Aço 
Thrash ‘n’ Roll 
Overdrive Rock and Roll 
Mondo Plástico 
Migalhas 
Queimando A Largada 

Blades of Steel – setlist
Ruler of the Waves
Into the War
Unholy Scrolls
Vengeance is Mine
Riders of the Night
Hands of Fire
Blades of Steel 

 

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