Por Leandro Nogueira Coppi
Fotos: Roberto Sant’Anna
Olha que curioso como as últimas visitas de Paul Gilbert ao Brasil guardam uma interessante relação com a política. Sua passagem mais recente por São Paulo antes do atual retorno aconteceu em 28 de outubro de 2018, quando apresentou o workshow “An Evening with Paul Gilbert”. A data coincidiu com o segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, que terminou com a vitória de Jair Messias Bolsonaro. Agora, no último dia 8 de setembro, o respeitado guitarrista, conhecido por seus trabalhos com Mr. Big, Racer X e também por sua carreira solo, voltou à cidade para divulgar seu novo álbum, WROC, o primeiro com seus vocais em uma década. Inspirado no século XVIII, o disco transforma as chamadas “Regras da Civilidade”, atribuídas a George Washington, em um hard rock energético e divertido.
Explicando melhor o conceito do disco: ainda jovem, o futuro primeiro presidente dos Estados Unidos copiou 110 orientações sobre comportamento, convivência e etiqueta como exercício de caligrafia. O material, derivado de um manual francês do século XVI, acabou fornecendo a Gilbert a inspiração para as letras das 13 novas composições.
Se em 2018 a experiência tinha um caráter mais intimista, desta vez Paul Gilbert chegou a São Paulo disposto a fazer barulho. Naquela ocasião, o guitarrista, que havia acabado de concluir o álbum Behold Electric Guitar, veio desacompanhado de sua banda e contou com músicos sul-americanos para sustentar a apresentação, que alternava canções e momentos de perguntas e respostas com a plateia do Manifesto Bar. Oito anos depois, a configuração mudou completamente. Gilbert trouxe a formação que recentemente o acompanhou por seis semanas nos Estados Unidos: Doug Rappoport na guitarra, Timmer Blakely no baixo e, para a alegria dos mais atentos, Jeff Martin na bateria. Além de ter sido vocalista do Racer X, Martin integrou, como baterista, a formação original do Badlands, banda liderada pelo ex-guitarrista de Ozzy Osbourne, Jake E. Lee, e tocou no álbum de estreia do grupo; posteriormente, foi substituído pelo ex-Black Sabbath Eric Singer, que mais tarde faria parte do KISS. O formato de workshow também ficou para trás: desta vez, o que se viu foi um show de rock tradicional, com WROC ocupando posição central no repertório e alguns covers completando a noite.

Apesar do frio que tem feito em São Paulo, o público surpreendeu e compareceu em bom número ao Fabrique Club. Vindos de um show realizado em Curitiba (PR) na noite anterior, Paul Gilbert e seus parceiros subiram ao palco e abriram o show com a longa jam session Crazy PG Medley, que incluiu trechos de canções como Godzilla, do Blue Öyster Cult, passagens de música clássica e, entre outras, My Kinda Woman, Green-Tinted Sixties Mind — esta última com o público assumindo os vocais enquanto Gilbert reproduzia na guitarra a melodia cantada originalmente por Eric Martin — e uma econômica versão elétrica cadenciada e suingada de To Be with You — todas as três do Mr. Big — com Gilbert e Martin dividindo os vocais. De cara, chamou atenção o entrosamento do quarteto, a exuberância técnica e os timbres cristalinos de Gilbert, além da pegada e destreza de Martin – com direito a jogar baqueta para o alto e seguir tocando com tranquilidade. Ainda sobre os velhos companheiros dos tempos de Racer X, Paul Gilbert usava um chapéu tricórnio, em uma clara referência a George Washington, enquanto Martin, com seu visual atual, parece pai do Kid Rock.

Na sequência, Gilbert apresentou as primeiras músicas de WROC: Let Thy Carriage, o medley que reuniu Spark of Celestial Fire e Every Action Done in Company, e Maintain A Sweet and Cheerful Countenance. Embora boa parte do público ainda não estivesse familiarizada com o disco, lançado em fevereiro deste ano, a recepção às novas composições de “Mr. Pablo Gilberto” pareceu bastante positiva. E não é difícil entender o motivo: Gilbert está longe de ser aquele tipo de virtuose que transforma cada apresentação em maçante demonstração de técnica. Mesmo tendo construído boa parte de sua carreira solo sobre material instrumental, o guitarrista privilegia a musicalidade, as melodias e o bom humor, fazendo com que suas performances sejam tão divertidas quanto impressionantes, a ponto de não fazer falta um vocalista. Nesse sentido, como guitarrista entertainer, Gilbert talvez só fique atrás de Steve Vai, capaz de fazer a guitarra falar.

E há outro aspecto que torna ainda mais impressionante a capacidade de Gilbert de se expressar através do instrumento. O guitarrista convive há décadas com uma perda auditiva significativa, especialmente nas frequências mais agudas, além de tinnitus (ruídos). Ele percebeu a dimensão do problema em 1998, durante a mixagem de King of Clubs, quando não conseguia ouvir os pratos da bateria mesmo com eles já no volume máximo. Desde então, precisou adaptar sua maneira de ouvir e se monitorar no palco. Durante muitos anos, os enormes fones de ouvido que se tornaram uma de suas marcas serviram justamente para protegê-lo do volume externo e, ao mesmo tempo, oferecer uma monitoração controlada. Nos últimos anos, Gilbert passou a preferir protetores auriculares personalizados. Ainda assim, sua perda auditiva não parece ter diminuído sua capacidade de fazer a guitarra cantar: o próprio músico acredita que, ao perder parte da percepção das frequências agudas, acabou desenvolvendo uma espécie de “gerador melódico interno”, recorrendo cada vez mais àquilo que consegue imaginar musicalmente. E foi exatamente essa musicalidade que voltou a se destacar no Fabrique Club.

Outro ponto a se considerar é o espaço que Gilbert dava, em alguns momentos, para Doug Rappoport brilhar, deixando o também talentoso guitarrista assumir o protagonismo do instrumento. Depois da sequência de músicas de WROC, Gilbert e banda executaram o primeiro cover completo da noite, para Mother Father, do Journey. Em seguida, P. G. fez um ótimo solo num violão com formato de guitarra, sem deixar nenhuma nota sequer engasgar — algo que não é tão fácil quanto pode parecer para quem se arrisca a fazer o mesmo.

Com o quarteto novamente a postos, vieram dois outros clássicos do rock: Thunderbird, do ZZ Top, seguida por Last Child, do Aerosmith. A primeira ganhou um peso especial diante da recente morte de Frank Beard, baterista da banda texana, enquanto a segunda manteve o clima setentista com a pegada característica do grupo de Steven Tyler e Joe Perry.

Com uma discografia solo extensa, confesso que senti falta de Paul Gilbert tocar músicas de seus outros álbuns, como, por exemplo, a divertida e descompromissada I Like Rock, do meu disco favorito do guitarrista, Burning Organ, de 2002. Por outro lado, achei interessante a ênfase dada ao novo trabalho. Foi dele que veio a trinca formada por If You Soak Bread in the Sauce, Orderly and Distinctly e Keep Your Feet Firm and Even. Apesar de ainda serem novas para o público, todas, sem exceção, funcionaram bem no show e soaram bastante agradáveis. No meu caso, já consigo apontar WROC entre os discos de destaque da discografia de Gilbert.

Dois dos covers mais aclamados da noite vieram em sequência. O primeiro, muito familiar para os fãs de Mr. Big, foi Baba O Riley, clássico do The Who que encerra o álbum Mr. Big – Live, gravado ao vivo em São Francisco em 28 de março de 1992 pela ex-banda de Gilbert. Em seguida, foi a vez da manjada Rock and Roll, do Led Zeppelin, com uma grande performance de Jeff Martin. Ao longo do show, o baterista foi reverenciado várias vezes por Gilbert, que não poupou elogios ao velho companheiro.

O show rumava para seu final. Para o encerramento, Gilbert optou por outras duas músicas de WROC — álbum que, vale ressaltar, não foi executado na íntegra —: Show Not Yourself Glad (at the Misfortune of Another) e Go Not Thither. Pelo local, encontrei e cumprimentei o baterista Edu Cominato, que, durante a turnê de despedida do Mr. Big, fez algumas apresentações substituindo Nick D’Virgilio. Ao vê-lo por ali, cheguei a imaginar que pudesse participar da apresentação, o que seria, convenhamos, uma ótima surpresa. Não foi dessa vez. Edu estava no Fabrique Club apenas para prestigiar e curtir o show do guitarrista.

Depois de pouco mais de uma hora e meia de apresentação, em que a única ressalva ficou por conta do som muito ruim do microfone de Gilbert, ficou a sensação de que, mesmo tendo um repertório tão vasto e uma carreira marcada por diferentes fases, o guitarrista encontrou no novo álbum uma maneira especialmente divertida de revisitar sua própria identidade musical. Entre riffs, melodias, improvisos e demonstrações de técnica sempre a serviço da música, Gilbert mostrou mais uma vez por que permanece como um dos guitarristas mais carismáticos de sua geração. E, com uma banda tão bem entrosada ao seu lado, deixou o palco tendo feito muito mais do que simplesmente apresentar WROC: proporcionou uma aula de guitarra que, felizmente, não teve nada de entediante.

Paul Gilbert – setlist
Crazy PG Medley
Let Thy Carriage
Spark of Celestial Fire / Every Action Done in Company
Maintain A Sweet and Cheerful Countenance
Mother Father (cover do Journey)
PG Acoustic Solo
Thunderbird (cover do ZZ Top)
Last Child (cover do Aerosmith)
If You Soak Bread in the Sauce
Orderly and Distinctly
Keep Your Feet Firm and Even
Baba O Riley (cover do The Who)
Rock and Roll (cover do Led Zeppelin)
Show Not Yourself Glad (at the Misfortune of Another)
Go Not Thither

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