PENTAGRAM – SÃO PAULO (SP)

30 de março de 2025 – Fabrique Club

Por Daniel Agapito

Fotos: Belmilson dos Santos

Mesmo com mais de 50 anos de carreira, muitos só foram descobrir o Pentagram por causa de um vídeo que acabou virando meme, mostrando a presença de palco característica do lendário Robert Harold Liebling, ou simplesmente Bobby Liebling, frontman responsável por toda a identidade do grupo nativo de Virgínia. Já tiveram seus ensaios assistidos pelo KISS, tiveram oportunidade de fazer uma demo com a Columbia, foram chamados de “a banda perfeita para 1974”, mas por motivos dentro e fora do controle dos integrantes, nunca conseguiram o reconhecimento e espaço que realmente merecem. Mesmo assim, aos 71 anos, Bobby segue inabalável, com sangue nos olhos, ciente que um dia este sucesso chegará: “Este novo álbum está sensacional, estou mais animado com ele do que com qualquer outro disco que fiz na minha vida. Acho que as performances estão em outro patamar, bem melhores, e tem até alguns sons que poderiam tocar facilmente nas rádios. Ao meu ver, ainda temos uma chance”, ele me disse, quando questionado justamente se era tarde demais para o sucesso chegar.

Este novo álbum é Lightning in a Bottle, 10º trabalho de estúdio deles, lançado no final de janeiro deste ano. Com uma formação completamente reformulada, ele é basicamente uma retrospectiva da vida de Liebling, e subsequentemente da carreira do Pentagram. Para aqueles que não sabem, o vocalista é uma figura no mínimo complicada, tendo lidado com a dependência química por boa parte de sua vida, passando por inúmeras internações, recaídas e até prisões – inclusive, recomendo fortemente “Last Days Here”, documentário lançado em 2011, que mesmo não mostrando a situação completa, dá uma ótima ideia da situação tensa que ele vivia. De acordo com o próprio em entrevista (que será publicada na íntegra na edição #285 da revista ROADIE CREW), as músicas dele iriam compor boa parte do repertório do show, com o resto sendo “as velharias”. Aquele domingo não seria a primeira vez dos veteranos em terras brasileiras, pois já haviam marcado presença em 2022, com shows na capital paulista e no Rio; já dessa vez, tocariam novamente em São Paulo, passando antes por Curitiba.

A primeira banda no palco foi o mineiro Pesta, um dos grandes nomes do doom metal brasileiro. Fazem aquele som tradicional, que mesmo sendo doom traz bastante energia, principalmente pela presença de palco elétrica de Thiago Cruz, vocalista, que chegou no palco sem pompas nem circunstâncias, usando uma vestimenta bastante anos 70, com calça boca de sino, blusa de manga longa branca, adornada com alguns apanhadores de sonhos. Eles já haviam feito a abertura do show dos americanos no Paraná, no dia anterior, e agora fechavam o final de semana no Fabrique. Começaram o culto de domingo com Anthropophagic, de seu segundo álbum, Faith Bathed in Blood (2019), e a conexão com os fãs foi instantânea: ficaram vidrados! Seguiram com a pesadíssima Hand of God, do mesmo álbum, e a energia continuou lá em cima. Já nos últimos acordes, o público gritava o nome deles. Sentindo o clima de festa, deram um presente aos fãs, Marked by Hate, faixa que fará parte de seu próximo álbum, ainda não lançado. Mesmo sendo nova, a recepção foi bastante calorosa. Ao tirar sua camisa, logo no final da música, o vocalista foi recebido por um grito de “Thiago! Gostoso!” Ele morreu de rir e respondeu rápido: “Obrigado, mãe!”

Depois, veio uma clássica, Witches’ Sabbath, hino do doom nacional, que deveria ser conhecido por qualquer fã do estilo. Àquela altura, acontecia um pequeno alvoroço no canto da casa, do lado do palco, pois Liebling, o mestre dos magos metaleiro, saiu de sua caverna (camarim) para curtir o show, e foi cercado por fãs rapidamente. Cruz & Cia. não conseguiam esconder a felicidade: “A Pesta surgiu em 2014, e nem nos nossos maiores sonhos a gente ia imaginar estar onde a gente está agora. Primeiro, estamos começando o ano em São Paulo, e eu amo vocês, vocês são foda! Segundo, estamos dividindo o palco com o Pentagram, porra!” Continuaram na sequência de seu primeiro álbum, Bring Out Your Dead (2016) com Words of a Madman, e era óbvio que o show estava chegando a seu clímax: a banda continuava apresentando uma energia absurda, os fãs a refletiam, mas a performance acabou de forma bem repentina, com o vocalista dizendo: “Essa próxima é do nosso terceiro álbum e vocês estão ouvindo em primeira mão! Opa, não… Acabou… Valeu demais!”

Às 20h começou o ritual profano da Weedevil, banda paulista conhecida por seu vocal feminino poderoso, fazendo um stoner/doom de ponta com alguns elementos de heavy metal. Aquela noite seria mais que histórica para eles, visto que não só seria seu segundo show do dia, já tendo se apresentado no São Paulo Rock Fest no Tendal da Lapa naquela tarde, como também iriam gravar a performance para ser lançada como álbum ao vivo. Assim que o relógio chegou no horário, um breve instrumental soou pelo sistema de PA, enquanto a banda dava início ao poderoso riff de Serpent’s Gaze, faixa de Profane Smoke Ritual, seu último lançamento – Carol Poison, a vocalista, chegou ao meio do palco e em seu pedestal de microfone, uma cruz invertida e um crânio.

Por ser um som mais puxado ao stoner, era óbvio que a energia não seria a mesma da banda anterior; era uma proposta diferente, mas isso não quer dizer de maneira alguma que o público não estava engajado, ou não estava curtindo, estavam praticamente hipnotizados. Continuaram na sequência do novo álbum com Chronic Abyss of Bane. Apesar de Profane… ter sido o trabalho mais contemplado no repertório, sendo executado na íntegra, não foi só ele que foi tocado, como Underwater, que pode ser considerado o maior sucesso da banda. Da formação atual, apenas dois dos membros gravaram The Return, CD de onde vem Underwater: Flávio Cavichiolli, baterista, fundador e mente por trás da banda e Paulo Ueno, guitarrista que recentemente voltou à Weedevil após alguns anos fora. Mesmo assim, ficou perfeita ao vivo, com a voz de Poison cabendo perfeitamente na música. Veil of Enchanted Shadows veio depois e no finalzinho Flávio e suas mãos levinhas simplesmente estouraram a caixa da bateria – é simplesmente Ervoy Casagrande…

Após uma rápida troca de equipamento, prosseguiram com a faixa-título do novo álbum, Profane Smoke Ritual, marcada por um riff bastante groovado no baixo. O público já estava na mão deles, prestando atenção como se o show realmente fosse um ritual ou um culto. Fecharam a sequência de Profane… com Necrotic Elegy e Serenade of Baphomet, anunciando que tinham mais uma música antes de descerem do palco. Hi, I’m Lucifer, recebida por gritos de “bom demais” e “foda pra caralho” na parte da frente, foi a escolhida para fechar a performance daquela noite, realmente demonstrando as habilidades da banda toda, seja o alcance vocal impressionante de Poison, os solos complicados de Henrique Bittencourt e Paulo Ueno, as batidas fortes de Cavichiolli e as levadas de Rafael Gama no baixo, que embrulhavam tudo perfeitamente. Na hora, foi um show de qualidade incrível; agora esperamos ansiosamente a versão gravada!

Poucos minutos antes do horário marcado, a seção rítmica do Pentagram subia no palco, com as luzes da casa ainda acesas e a discotecagem rolando, sem auê nenhum, mas o público já voltava sua atenção completa a eles desde o primeiro momento. Tony Reed (guitarra), Scooter Haslip (baixo) e Henry Vasquez (baterista e gêmeo perdido de Jack Black) fizeram algumas graças, tocaram alguns acordes, mas todo mundo queria ver Bobby. O carismático senhorzinho apareceu no canto do palco, vestindo uma blusa de manga longa azul com brilhos e com – impressionante! – uma água na mão, soltando um “boa noite, São Paulo! Prontos para o rock?” antes de ecoarem as primeiras batidas da enérgica Live Again, que abre o novo álbum. Ela tem aquele clima do doom, mas é mais rápida, animada, como um rock clássico, o que a tornou ótima para abrir o show, já com ambos os pés na porta. Sobre essa letra, Bobby comenta: “Não é minha, quem escreveu foi o Henry (Vasquez), nosso baterista. Ele abordou como se fosse eu, olhando retrospectivamente para a minha vida, e ficou perfeito, a letra me expressa, expressa como me sinto. […] Ele nunca foi viciado que nem eu fui, não sou mais, mas ele tentou ver as coisas do meu jeito.”

Com pouco tempo para se recuperar daquele começo estrondoso, Bobby disse que estava com um pouco de calor, mas seguiu firme à próxima, Starlady, sobre “uma garota mística que havia conhecido”. No final dela, o público começou a gritar, mas não era o nome da banda, não era aquele “pen-ta-gram, pen-ta-gram” que você normalmente esperaria, era o nome dele, do Bobby – sim, estavam lá para vê-lo. Uma possível explicação para isso veio logo depois: “Essa próxima é sobre esse cara que sai à noite, assim como vocês, assim como eu. Às vezes ele é viral, às vezes é vil. É The Ghoul.” Quando soaram aqueles acordes sinistros, que têm dominado tudo quanto é Instagram, Facebook, TikTok e adjacentes, a casa parecia que havia entrado em erupção. Todos os fotógrafos, sem exceção, levantaram suas câmeras para registrar o momento, uma quantidade absurda de celulares foi ao ar. Estávamos presenciando um momento histórico! Para os curiosos, sim, ele recriou o meme, saltando seus olhos, ocasionando reação explosiva dos fãs. Só não ficou completamente com aquela cara de cotonete usado, lindos cabelos ao vento, porque antes mesmo de o show começar, o baterista pediu que o ventilador fosse virado, e Liebling não se reposicionou. Além da cara, também tivemos direito a uma breve rebolada do homem, cena que certamente não será esquecida, seja por bem ou por mal.

Entre sorrisos e agradecimentos, continuou na mesma toada, com pouco tempo entre as músicas: “Depois que compus The Ghoul, tive uma revelação, falei com a morte”, que emendou diretamente em I Spoke to Death, segunda representante de Lightning in a Bottle da noite. Contemplaram também Day of Reckoning, seu subestimado segundo álbum, com When the Screams Come, ligeiramente mais lenta, bastante puxada para o doom, com um solo épico no meio. Ela abriu as portas para um clássico da banda, destaque de seu álbum autointitulado, que este ano completa 40 anos de lançamento, a icônica Sign of the Wolf (Pentagram). De acordo com o setlist.fm, é a segunda mais tocada por eles, ficando atrás de Forever My Queen por menos de 10 execuções.

Vale deixar em evidência a vitalidade de Liebling no palco, que estava claramente feliz, sempre com um sorriso de orelha a orelha e esbanjando uma precisão absurda nos vocais. Mesmo com sua idade já avançada e com o tanto de drogas consumidas, sua voz segue exatamente a mesma de 50 anos atrás, e o cidadão não errou uma nota, não desafinou uma vez sequer; quando o cara sabe, o cara sabe. Mesclando eras, a segunda metade da noite foi dedicada majoritariamente ao novo disco, salvo algumas exceções para tocar uns clássicos. Primeiro, a reta e direta faixa-bônus Might Just Wanna Be Your Fool, cheia de energia e felicidade, clássica declaração de amor. Solve the Puzzle, por sua vez, já é mais pesada, com acordes mais abertos no refrão, criando um clima de incerteza, bastante sinistro, mas sem ser aquela coisa dark.

Voltando aos clássicos, veio Review Your Choices, originalmente lançada no álbum de 1999 do mesmo nome. Não ficaram nas velharias, pois a próxima foi Thundercrest, primeiro single do trabalho mais recente, que em sua versão ao vivo ficou ainda mais pesada, deixando palpável a força de cada palhetada de Tony Reed. Tudo que é bom tem que chegar ao fim, e aquela sensação agridoce dominou o Fabrique quando Liebling disse que tinham tempo para “só mais uma”. Também de Lightning, fecharam com Walk the Sociopath, faixa realmente sinistra, desconcertante, abordando, como o título já sugere, as questões psicológicas da psicopatia. Apesar de sua letra pesada, no finalzinho dela a banda conseguiu puxar aquele famigerado “ei, ei, ei” com os presentes. Conhecendo o elemento à frente da banda, ela realmente coloca em perspectiva o retrato ora deprimente, ora otimista da vida de Bobby que Lightning in a Bottle apresenta. Talvez todo este emaranhado de complicações na sua vida contribua ainda mais para seu status como lenda, um ciclo vicioso de superação e autossabotagem.

Houve aquele “obrigado, São Paulo, fiquem bem”, e os fãs agradeciam, batiam palmas e gritavam o nome da banda, mas no fundo todos sabiam que voltariam para tocar mais algumas. Foi só eles descerem do palco que a galera já começou a gritar o nome da banda. Nem 2 minutos depois já estavam de volta. “Obrigado, gente, amo vocês, de verdade, sem zoeira, muito obrigado. Esta é a última noite da turnê latino-americana, e espero ver vocês de novo já já. Quero que cantem alto essa aqui…” Bastou uma batida na caixa e todos já sabiam o que estava por vir: “I’m running away with myself, I think I ran a little too far”, Forever My Queen, declaração de amor que Liebling fez para sua primeira namorada, na época do colégio, lá em 2340 antes de Cristo. Para fechar lá no alto, escolheram 20 Buck Spin, agradeceram mais uma vez, tiraram aquela foto de lei com o público, e desceram do palco, agora pra valer.

Mais uma vez, Bobby Liebling e companhia mostraram exatamente porque são um dos maiores nomes do metal, apesar de não terem nem parte do reconhecimento que merecem. Nem tudo são flores, o próprio vocalista é uma pessoa bastante complicada, e quem viu esta formação talvez não veja de novo, caso voltem, como aconteceu com aqueles que vieram em 2022. Fora isso, não há dúvida de que aquele domingo foi uma noite histórica. “Ah, mas parte do público só foi no show por causa do meme”. Sim, isso estava óbvio, mas, convenhamos, a expressão facial diferenciada de Liebling trouxe a eles uma fama que deveriam ter atingido há mais de 50 anos. Fecho o texto com a mesma declaração dele que coloquei no começo, e vale lembrar que falei com ele em janeiro, ou seja, ninguém fazia ideia que alguns meses depois seriam uma das bandas mais faladas do rock: “Ao meu ver, ainda temos uma chance. Mesmo assim, não me importo com a fama. Acima de tudo, só quero espalhar minha arte, meu coração, fazer coisas que as pessoas possam curtir.”

 

Setlist Pesta

Anthropophagic

Hand of God

Marked By Hate

Witches Sabbath

Black Death

Words of a Madman


Setlist Weedevil

Serpent’s Gaze

Chronic Abyss of Bane

Underwater

Veil of Enchanted Shadows

Profane Smoke Ritual

Necrotic Elegy

Serenade of Baphomet

Hi, I’m Lucifer

 

Setlist Pentagram

Live Again

Starlady

The Ghoul

I Spoke to Death

When the Screams Come

Sign of the Wolf (Pentagram)

Might Just Wanna Be Your Fool

Solve the Puzzle

Review Your Choices

Thundercrest

Walk the Sociopath

 

Bis

Forever My Queen

Walk the Sociopath

Compartilhe:
Follow by Email
Facebook
Twitter
Youtube
Youtube
Instagram
Whatsapp
LinkedIn
Telegram

MATÉRIAS RELACIONADAS

DESTAQUES

ROADIE CREW #284
Janeiro/Fevereiro

SIGA-NOS

50,5k

57k

17,2k

982

23,6k

Escute todos os PodCats no

PODCAST

Cadastre-se em nossa NewsLetter

Receba nossas novidades e promoções no seu e-mail

Copyright 2025 © All rights Reserved. Design by Diego Lopes

plugins premium WordPress