
Por Rogério SM
Fotos: Anderson Hildebrando
Não é exclusividade do mundo do rock, mas a verdade é que nem sempre os pioneiros recebem os louros que merecem. Ao contrário, é muito comum ver quem veio depois conquistar mais fama e reconhecimento que aqueles que abriram os caminhos. Dentro dos subgêneros do metal, podemos dizer que o doom e o stoner nunca foram estilos de lotarem grandes arenas. Mas também é inegável que diversos grupos desses estilos pavimentaram suas carreiras de forma sólida e conquistaram uma legião fiel de fãs. Curiosamente, uma das bandas que tornou tudo isso possível teve um reconhecimento tão tardio (e pequeno) que precisou virar meme de internet para muitos olharem com atenção para sua obra. Essa banda é o Pentagram, liderada pelo carismático e problemático vocalista Bobby Liebling.
Formada no agora longínquo ano de 1971 na Virginia (EUA), a trajetória do grupo foi, no mínimo, errática. Incontáveis formações, problemas com drogas e gravadoras, lançamentos abortados, músicas que levaram décadas para verem a luz do Sol. Basicamente, tudo o que poderia acontecer para minar as chances de sucesso de Liebling e companhia se fez presente. O debut autointitulado, lançado por conta própria, só foi sair quase 15 anos depois da criação do conjunto, em 1985, tendo sido relançado em 1993 com o nome Relentless. Mesmo assim, o estilo ainda caminhava e havia pouquíssimos nomes despontando no cenário. Existia espaço para o Pentagram ainda se colocar como pioneiro, mas as explosões internas e os problemas pessoais de Liebling fizeram com a banda fosse apreciada apenas no mais absoluto underground.
Seja como for, 55 anos depois, Bobby finalmente conseguiu um pouco de destaque. Tudo graças à internet e aos divertidos memes. A imagem dele com olhos esbugalhados e boca aberta segurando o microfone no palco correu mundo e fez pelo grupo o que nenhuma gravadora ou assessoria chegou perto em mais de cinco décadas. Tudo bem que o nome Pentagram já estava na boca dos fãs mais fervorosos do estilo há muito tempo, coisa que o documentário “Last Days Here”, de 2011, já tinha mostrado. Só que ainda faltava uma saída de cena à altura. E, agora, Liebling pode finalmente anunciar uma última turnê do Pentagram para um número suficiente de pessoas interessadas em sua obra. Se Deus escreve certo por linhas tortas, a internet também possui seus caminhos de dar visibilidade a quem merece, ainda que por motivos estapafúrdios. Seja como for, os apreciadores de um metal pesado, arrastado e sorumbático agradecem.

E assim chegamos ao fim de uma história única no metal em uma quinta-feira nublada, mas quente o suficiente para receber a última visita no Brasil de Bobby e cia. Com um Fabrique bem cheio, podíamos notar a presença de jovens de 25, 20 anos e até adolescentes. Ah, esses memes… O importante é que, nessa noite, a coisa era real. Iniciando os trabalhos, tivemos a abertura dos cuiabanos do Fuzzly. Adeptos da máximo “pouco papo, muita música”, o power trio subiu ao palco sem alardes, mas entregou tudo. Fazendo o típico stoner/doom calcado em Black Sabbath (e quem não?), a banda abusou do peso e de timbres “gordos”. Com riffs inspirados e execução magistral, o trio mostrou segurança e identidade em músicas que empolgaram todos os presentes. O destaque ficou mesmo por conta do peso presente em todas as faixas apresentadas nos pouco mais de 40 minutos de set, onde o grupo não só deu seu recado, mas com certeza angariou centenas de fãs. Impossível também não comentar a performance do baterista Rafael Arruda, com sua mão pesada e arranjos que são mais complexos do que aparentam, e do guitarrista e vocalista Dark Jordão, com sua voz melancólica típica dos grupos pesados dos anos 90. Isso ficava ainda mais claro em algumas canções que puxavam para o space rock, com aqueles finais apoteóticos e lisérgicos estilo Candlemass da fase From the 13th Sun. No final, já extremamente ovacionada, a banda agradeceu e saiu de campo vitoriosa.
Quinze minutos depois, o som mecânico do Fabrique foi cortado e a expectativa dos presentes surgiu através de gritos, assobios e punhos para cima. Hoje formada pelo guitarrista Tony Reed, o baixista Scooter Haslip e o baterista Henry Vasquez, o Pentagram subiu pontualmente ao palco às 22h para nos dar um último adeus. Já nos primeiros acordes de Live Again, faixa presente no mais recente álbum de estúdio do quarteto, Lightning in a Bottle, de 2025, o clima na casa ficou pesado (no bom sentido). Quando Bobby Liebling apareceu, a euforia atingiu o ápice. O carisma do vocalista é tanto que quase chega antes dele mesmo. Apesar de aparentar certa fragilidade, com sua magreza extrema e tamanho diminuto, o vocalista engole o palco como poucos.

Sem perder muito tempo, a banda emenda Starlady, única do ótimo álbum Show ‘Em How, de 2004. Bobby conta uma pequena história sobre as letras antes da execução de cada música do set. Falando, sua voz é rouca e fraca, passando a impressão de que o septuagenário vocalista não vai dar conta de performar à altura. Tudo muda quando ele começa a cantar. Uma voz poderosa, única e marcante, que quase se sobrepõe aos demais instrumentos – e isso mesmo com todo peso que as músicas do Pentagram possuem.

A animação tomou conta de vez do Fabrique com a exceção do clássico The Ghoul, cantado em uníssono por todos os fãs. A presença de palco de Reed também chama a atenção, assim como sua técnica apurada e timbres potentes. Ele quase rouba a cena, mas é impossível desviar os olhos de Liebling por muito tempo. Com uma camisa colorida estilo hippie, seus olhos arregalados e pose triunfal, o vocalista domina o público como quer. Ao final da música, um pequeno problema técnico deixou um zumbido alto vindo dos amplificadores. Mas, antes mesmo que a coisa fosse resolvida totalmente, o quarteto já mandou ver em I Spoke to Death, outra faixa de Lightning in a Bottle. Haslip segurava tudo no baixo, no melhor estilo Ian Hill, do Judas Priest. Poucos movimentos, mas execução segura e com pegada.
Mesmo um pouco mais contido do que estava em sua última passagem por aqui, Liebling não privou o público de suas famosas dancinhas, caretas e balançadas de língua pra fora. Até o famoso ventiladorzinho estava presente, fazendo seus cabelos ralos balançarem ao vento. Com o jogo ganho desde o início, o grupo estava totalmente solto e a interação com os fãs era constante, especialmente por parte de Reed, que agitava sem parar. Toda essa presença de palco fazia as músicas ganharem ainda mais energia.

Na sequência, veio um dos destaques da noite: a dobradinha When the Screams Come, do excelente Day of the Reckoning, e Sign of the Wolf (Pentagram), em que Liebling mostrou toda a potência de sua voz, que lembra uma espécie de Rod Evans (ex-Deep Purple) do mal.
Assim como na apresentação do Fuzzly, o Pentagram também não estava para muita enrolação. Dull Pain mostrou a força do álbum mais recente e Review Your Choices fez os fãs gritarem a plenos pulmões. Um mais exaltado até mandou um “Bobby gostoso”, arrancando algumas risadas dos que puderam ouvir tamanha ironia. O encerramento veio com duas de Lightning in a Bottle: Thundercrast e Walk the Sociopath, com seu final épico.
Claro que ainda havia tempo para mais e o bis contou com dois clássicos atemporais não só da banda, mas de todo o estilo. Primeiro, Forever My Queen preparou o terreno para a derradeira 20 Buck Spin. Seja pelo pioneirismo, pelos memes, peças canções clássicas ou por qualquer outro motivo, o fato é que finalmente o Pentagram está tendo a chance de colher um pouco dos frutos da semente que ajudou a plantar há 55 anos. Se essa foi mesmo a despedida, todo fã de música pesada precisa comemorar essa saída feliz de uma história tão conturbada e errática. Talvez tivesse mesmo que ser assim, já que nada representa melhor a história do Pentagram e, principalmente, da figura de Bobby Liebling.

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