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PERC3PTION – ART IN EXTREME SITUATIONS [9,5/10]

INDEPENDENTE – NAC.

POR ALESSANDRO BONASSOLI

Lamento profundamente só conhecer Art In Extreme Situations, quarto trabalho do grupo paulista Perc3ption, em 2024. Poderia ter entrado na minha lista de “Melhores do Ano 2023” na ROADIE CREW. Porém, isso é um alívio, pois ficaria ainda mais difícil do que foi a tarefa de definir os escolhidos. Você poder saber quais foram os votos meus e de todos os redatores da revista neste link.

Logo na primeira audição de Art In Extreme Situations ficou nítido que a banda surgida em 2007, na cidade de Itapetininga, região metropolitana de Sorocaba, a 171 quilômetros da capital paulista, deu seu passo mais ambicioso na carreira. Com as novas nove canções, o quinteto automaticamente elevou seu nível. Se no EP Insights (2009) e os álbuns Reason And Faith (2013) e Once And For All (2016), o grupo era, a meu ver, “mais uma banda de prog metal”, eles entraram agora na categoria dos grupos que criaram um trabalho que já pode ser considerado um clássico do metal brasileiro.

Os fundadores do Perc3ption, Rick Leite e Glauco Barros (guitarras, backing vocals) e o baixista Wellington Consoli, na formação desde 2012, têm dois novos parceiros. Um deles é o bom baterista Alessandro Kelvin (que faz parte do Aventh e Eunomia, entre outros projetos, e integrou Attack Force, Hellish Undead e Vizaresh). O outro “novato” é Kleber Ramalho, cujas credenciais envolvem suas performances no Sagittarion e no Glory Opera.

O vocalista, por sinal, é outra comprovação de que a banda acertou e muito com sua nova empreitada. Nenhum desrespeito aos antecessores, Danilo Moraes, Luiz Poleto e Dan Figueiredo, mas Ramalho parece ter nascido para ser A VOZ do Perc3ption. O timbre e o estilo refinado dele são marcantes e combinam perfeitamente com o estilo da banda. Seu outro ponto alto é uma das coisas que mais defendo: não existe uma regra que obrigue músicos de qualquer um dos estilos do heavy metal a soar “igual” a nomes consagrados. E Ramalho é perfeito ao evitar esse erro, impondo o seu estilo próprio, evitando emular ícones como Geoff Tate e James Labrie, citando alguns dos que, normalmente, têm características que são, digamos, objeto de desejo de muitos frontmen no prog metal.

Com seus primeiros álbuns, o Perc3ption obteve boas resenhas no Brasil e marcou seu espaço, além de ter compartilhado palcos com nomes como Evergrey, Pain Of Salvation, Amorphis e Sonata Artica. Creio que a experiência acumulada certamente foi decisiva para a procura por um algo a mais. O quinteto buscou no interior paulista, primeiro em Guaratinguetá e mais tarde em Monteiro Lobato, o isolamento para fazer as composições e pré-produções. De acordo com eles, foram horas em “uma pousada bem no meio do mato”.

E o afastamento do cotidiano deu certo não só na parte instrumental. Da obra do Van Gogh (1853-1890) às histórias de Anne Frank (1929-1945), Desmond T. Doss (1919-2006) e Ernest Shackleton (1874-1922); das teorias de Viktor Frankl (1905-1997) a momentos marcantes da Segunda Guerra Mundial; eles esbanjam criatividade, fazendo a parte lírica do álbum ficar bem acima da média geral da música pesada brasileira.

Uma das mais fortes do repertório, The Gathering Storm é uma das que demonstra isso. A faixa fala sobre o irlandês Shackleton, explorador que levou três expedições britânicas ao continente antártico, durante a Idade Heroica da Exploração da Antártida. Com a Expedição Nimrod, em 1907, por exemplo, ele acabou recebendo o título de cavaleiro do Império Britânico por ter estabelecido junto com três companheiros a marca Farthest South (latitude 88° 23′ S, a 180 km do Polo Sul). A Expedição Transatlântica Imperial, 1914 a 1917, é talvez a mais conhecida. A meta era fazer a primeira travessia terrestre da Antártica, mas o navio Endurance acabou preso no gelo e foi, lentamente, esmagado. O salvamento da tripulação deu ao explorador o status de herói.

Na música, além dos riffs excelentes, o texto dá uma ideia do que viveram Shackleton e sua equipe:

We have come so far (Nós viemos tão longe)

At the end of the world (Até o fim do mundo)

The ship presentend a painful (O navio apresentou um doloroso)

Spetacle of chaos (Espetáculo de caos)

The defenses we have built (As defesas que construímos)

Collapsed in a second (Colapsaram em um segundo)

The outside world didn´t know (O mundo lá fora não sabia)

We were lost in the darkness (Que nós estávamos perdidos na escuridão)

E quando eu imaginava que o refrão…

The endless cold (O frio sem fim)

I wonder if my mind is reeling (Eu me pergunto se minha mente está vacilando)

And days go by (E os dias vão se passando)

… era o ponto alto da faixa, os caras dão um toque genial à The Gathering Storm. Nas pesquisas para compor a faixa, descobriram um áudio original, transmitido por Shackleton, via rádio, em 1909. Gravado, o material era reproduzido em um fonógrafo de cilindro, que é um precursor do fonógrafo de disco. Graças às maravilhas da Internet, você pode ouvir as palavras do explorador neste link: note que, em um dos comentários do vídeo, alguém transcreveu toda a gravação. Na música, um curto trecho da narração aparece ao fundo da voz de Ramalho, provocando um excelente efeito.

Young Voice Of The Holocaust, por motivos óbvios, não contém nenhum áudio histórico. Afinal, é sobre Anne Frank, adolescente alemã de origem judaica que passou a ser um dos símbolos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Escondida em cômodos secretos de uma empresa durante a ocupação alemã na Holanda para onde sua família fugiu, ela escreveu sobre o que viveu entre 1942 e 1944. Denunciados para a Gestapo, a temível polícia secreta do Partido Nazista, a família foi levada para vários campos de concentração. Em Bergen-Belsen, Anne acabou morrendo aos 15 anos de idade. Seu pai, Otto Frank, único sobrevivente, voltou para Amsterdã e descobriu que o diário da filha havia sido salvo por Miep Gies, que trabalhava no local onde a família tentou sobreviver. Publicado por Otto em 1947, o livro já teve tradução em mais de 70 idiomas e vendeu mais de 35 milhões de exemplares.

A música te leva para um dos momentos mais sombrios da raça humana. Lenta no início, ela vai tendo sua intensidade aumentada e com o suporte perfeito das quatro cordas guiadas por Consoli. A emoção passa a ser a parte principal no trecho em que Anne mostra-se esperançosa mesmo diante da crueldade que vivia:

I believe, in spite of everything (Eu acredito, apesar de tudo)

That people are truly good (Que as pessoas são verdadeiramente boas)

(…)

In the darkness of my thoughts i imagine a life without fear (Na escuridão dos meus pensamentos eu imagino uma vida sem medo)

Mas não há como não se entristecer com a realidade:

My father told me (Meu pai me disse)

We have to move before they come (Nós temos que se mudar antes que eles cheguem)

We´ll have to live (Nós temos que viver)

Hidden and quietly in a secret place (Escondidos e quietos em um lugar secreto)

(…)

I will try to keep the faith (Eu vou tentar manter a fé)

That someday we´ll be free (Que um dia nós seremos livres)

Se a canção conduz ao passado, a letra serve também para nos fazer pensar no presente: quantas Annes vivem agora as mesmas experiências na Ucrânia, na Palestina, em Mianmar ou em Mali? Todas estas nações estão sendo destroçadas por guerras atuais, mas que são, na prática, uma continuação dos horrores eternamente repetidos pela humanidade.

Ainda com a Segunda Guerra como pano de fundo, o Perc3ption mostra que capricho e dedicação são elementos básicos para se fazer um trabalho positivamente diferenciado. Eles pesquisaram e incluíram um trecho de uma oração cristã cujo título original em polonês – Gorzkie żale – em inglês significa Bitter Lamentations:

 

Gorzkie żale, przybywajcie, Serca nasze przenikajcie, (Lamentações amargas, penetrai em nossos corações)

Serca nasze przenikajcie, Gdy w przepaść Męki Twej wchodzę (Penetrai em nossos corações, como eu entro no abismo da Tua Paixão)

A prece foi símbolo da esperança na Polônia ocupada pelos nazistas e a faixa fala sobre o desespero de quem estava com medo em casa, sob os sons da guerra e sem noção do que aconteceria. Mas, registre-se, não se trata de algum tipo de conversão religiosa. É a sensibilidade dos músicos em utilizar um recurso diferente para abrilhantar uma das melhores faixas do álbum, onde Kelvin demonstra sua habilidade nos bumbos e baquetas. Os 7 minutos e 23 segundos de duração incluem também uma mudança de andamento e ritmo que vai agradar aos entusiastas do prog metal.

Com mixagem e masterização feita nos Estados Unidos pelo experiente Adair Daufembach (Angra, Tony Macalpine, As The Palaces Burn, Hibria, entre outros), Art In Extreme Situations é sempre surpreendente. Como na pesada Dissident Words, onde o grupo “abre a caixa de ferramentas” e desce a porrada sem dó. As fronteiras do prog são abertas e momentaneamente ultrapassadas para um quase thrash metal de responsa. Nela, novamente as guitarras são destaque com ótimos solos. Silence Of God, que abre o play, também merece audição atenta. Principalmente pela sutileza das intercalações de arranjos mais suaves com os riffs cortantes e de novas cargas de peso com a agressividade entusiasmante de alguns gang vocals que contrastam com partes onde a calma e a suavidade impostas por Ramalho são um primor.

Ainda que não seja conceitual, o álbum aparenta ser uma coletânea de personagens históricos. Além dos já citados nesta resenha, há mais dois que têm espaços de destaque. Um deles é o cerne de My Way to Serve, que fala de Desmond T. Doss. Você não sabe quem é? Quem assistiu ao filme Até o Último Homem, dirigido por Mel Gibson em 2017 e estrelado pelo ator Andrew Garfield, vai lembrar do  socorrista do exército norte-americano que fez parte de uma companhia de atiradores na Segunda Guerra Mundial. E mesmo recusando-se a usar armas no conflito, salvou 75 soldados em meio à Batalha de Okinawa, no Japão.

I´m sorry sir, I´ll not bear arms (Me desculpe senhor, eu não vou usar armas)

I hope you don´t get me wrong (Espero que o senhor não me entenda mal)

While everybody is taking lives (Enquanto todos estão tirando vidas)

I´m goig to save it (Eu estou indo salvá-las)

(…)

I found what is my duty, my destiny (Eu encontrei minha missão, meu destino)

The real heroes are buried over there (Os heróis verdadeiros estão lá enterrados)

Nos 7 minutos e 47 segundos de My Way To Serve você encontrará melodias doces e imponentes, peso, técnica e feeling. Tudo permeado por muito bem dosadas influências vindas do Queensrÿche no auge da carreira. Sem dúvida, uma canção marcante.

Vamos para mais um personagem? O austríaco Viktor Emil Frankl também sobreviveu aos terrores do nazismo, tendo passado por quatro campos de concentração. E, ao sair de Auschwitz, escreveu um livro sobre a importância de termos um propósito para a vida. Em Busca de Sentido virou best-seller e seu autor ganhou destaque e relevância mundial como conferencista e professor de várias universidades. Suas teses, acabaram sendo inspiração para A Beautiful Ride, a mais curta das peças de Art In Extreme Situations. Mas os 3min38s não são um problema. Muito pelo contrário, dão agilidade ao álbum, além de reforçar minha tese de que o Perc3ption realmente encontrou o cantor ideal.

Por fim, não posso deixar de comentar a épica e longa (12mi55s) The Starry Night. Nela, o Perc3ption inova ao levar o ouvinte para uma “viagem” misturando o heavy metal com a arte Pós-Impressionista de Vincent Van Gogh. O “narrador” canta como se estivesse caminhando entre as obras mais clássicas do pintor: A Noite Estrelada, O Homem Velho Com A Cabeça Em Sua Mão, Campo de Trigo com Corvos e Girassóis. Não é uma análise teórica de um crítico de arte, mas uma interpretação do que foi a vida de um gênio que morreu aos 37 anos.

My restless mind (Minha mente inquieta)

I feel that i found a new world (Sinto que encontrei um novo mundo)

What if it´s not enough? (E se não for suficiente?)

I dream my painting and them paint may dream (Sonho com minha pintura e elas pintam meu sonho)

I´m so broken that i can feel it (Estou tão quebrado)

Why can´t people accept me as i am? (Por què as pessoas não me aceitam como sou?)

Só reconhecido tardiamente como um dos maiores expoentes da arte, ele teve uma árdua existência, vivendo praticamente em total anonimato. Com tantas crises pessoais, incluindo depressão, produziu mais de mil obras, sempre com cores dramáticas e fortes. Seu estilo inconfundível e incomparável por pouco não ficou ofuscado pela briga com o amigo – e também pintor – Paul Gauguin (1840-1903), quando, em um acesso de ira, Van Gogh cortou parte de uma de suas orelhas com uma lâmina.

E The Starry Night deve ser apreciada como os quadros do holandês injustiçado em vida: sem expectativas ou divagações tipo “é melhor do que as demais?”, “será que parece com obras de outros autores?”. Ligue o som, deixe a música fluir, feche os olhos e ouça os muitos caminhos percorridos pelo Perc3ption. Trechos lentos e rápidos se intercalam e se confundem como as pinceladas fortemente impressionantes de Van Gogh. Definitivamente e por isso tudo, o Perc3ption estará sempre a partir de agora no meu radar musical.

Foto: Renan Facciolo

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