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SEPULTURA & DORSAL ATLÂNTICA

Circo Voador – Rio de Janeiro/RJ – 12 de fevereiro de 2022

Do dia 16 de fevereiro de 2020 – quando o Lacuna Coil apresentou no Circo Voador o seu show da turnê do “Black Anima”, cuja resenha você pode ler aqui – até o dia 12 de fevereiro de 2022, muita coisa aconteceu por causa da pandemia da Covid-19. Mas o que são dois anos sem assistir a um show se o retorno ao incomparável prazer da música ao vivo aconteceu numa noite que, em seu anúncio, já havia entrado para a história do metal nacional?

O Rio de Janeiro, com a licença poética de a histórica noite ser no Circo Voador, recebeu não apenas o primeiro show do Sepultura na turnê do excepcional “Quadra” (2020), mas especialmente o retorno da entidade Dorsal Atlântica depois de 24 anos longe dos palcos. E se o coronavírus trouxe muita coisa ruim à tona, de fato, ao menos proporcionou ao metal nacional o seu disco mais importante desde… Hum… 2016.

Se “Pandemia” (2021), por si só, já é um marco – repare bem: “é”, e não “foi” –, o que Carlos Lopes, acompanhado de Braulio Drumond (bateria) e Alexandre Castellani (baixo), fez naquela noite de sexta-feira foi absolutamente necessário. Como o mesmo Carlos escreveu numa rede social depois da antológica apresentação da Dorsal:

“Penso muito no que faço antes de agir, mas estamos em 2022, não em 1986, e voltei para uma missão. Os discursos no Rio, que irritaram os bolsonaristas, foram muito pensados para marcar território, e teriam que ser no Rio por ser o berço do bozonazismo. Não tenho interesse em discursar nas outras cidades, apenas no Rio… Escrevi ‘Canudos’ sobre o golpe contra a Dilma, e ‘Pandemia’ contra o Bozo. Eu tenho lado e não sou carreirista. Não tenho medo de perder público, e a banda tem que ser um instrumento de combate.”

E os dois primeiros terços do show – focado em músicas de “2012” para frente, ou seja, da volta da Dorsal – foram exatamente isso: um cala-boca nos apoiadores do atual governo, e apoiado pela grande maioria do público presente no Circo Voador. E se havia algum desavisado na casa (pode chamar de ingênuo, também), “Stalingrado” deixou claro o conceito da Dorsal e, claro, de Carlos: “Por Stalin, pela revolução e para os nazistas se foderem”. Sintomático num momento em que o neonazismo vem mostrando, sem vergonha alguma, a cara no Brasil – um movimento que vem crescendo de maneira assustadora desde, veja só você, 2018…

E foi aí que os primeiros coros contrários ao atual presidente da República ganharam força, e foi aí que Carlos reforçou que tem lado e não é carreirista. Não mesmo. “Só há uma pessoa que pode limpar este país, e o nome dele é Luiz Inácio Lula da Silva”, bradou antes de emendar uma mistura de “Canudos” (2017) com “2012”. Fico imaginado como teria sido lindo se “Comissão da Verdade” tivesse sido tocada neste bloco, mas “Meu Filho me Vingará”, a maravilhosa “Belo Monte” (que solo!) e “Gravata Vermelha” mostraram que aqui a música é mais do que riffs de guitarra e melodias. É mensagem e resistência.

Nos momentos em que afinava a sua guitarra baiana, Carlos não poupava discursos, acertando no futebol – “Botafoguense é uma pessoa de muita racionalidade” – e no propósito político: “Eu falava que a Dilma estava sofrendo um golpe, e as pessoas respondiam ‘tu viaja pra caralho’”. E foi assim que o bloco da obra-prima “Pandemia” se apresentou.

Não teve “Infectados (Teocracia e Narco-Estado)”, a grande música de 2021, mas teve “Resistência (Não Resiste)” – que puxou não apenas o “Diga quem são os assassinos de Marielle Franco”, mas também um estrondoso coro de “Fora Bolsonaro” – e “Burro”. E Carlos brincou com o fato de, aos 60 anos, ser maluco de compor um álbum como “Pandemia” para arrumar problema. Bom, hoje em dia, especialmente no heavy metal, arruma-se problema até mesmo escrevendo uma resenha como esta…

Do presente para o passado, com a feliz constatação de que o primeiro show da Dorsal em 24 anos não seria uma simples abertura de 40 minutos, a banda abriu o baú de “Antes do Fim” (1986) e “Dividir e Conquistar” (1988) para emocionar os mais velhos – talvez até a meia dúzia de metaleiros que nunca prestaram atenção nas letras das músicas e, por isso mesmo, estavam xingando e mandando o dedo do meio em direção ao palco.

“Tortura”, “Vitória” e “Vorkuta” arregaçaram, mas o que veio depois foi para fazer os olhos suarem. Só quem viveu o metal nos anos 1980, mesmo adolescente ou pré-adolescente, pode entender o que significou voltar a ver e ouvir “Caçador da Noite” ao vivo. Ou (re)lembrar que “Metal Desunido” é tão atual hoje quanto era 34 anos atrás. Para fechar um show emocionante e de lavar a alma, “Guerrilha”, um dos maiores clássicos do metal nacional, se mostrou adaptada à realidade que vivemos. Quatro décadas depois de sua fundação, a Dorsal Atlântica é mais necessária do que nunca ao Brasil e, ressalto eu, ao heavy metal brasileiro – e Carlos, à cultura e à arte.

Coube ao Rio de Janeiro receber também a largada da turnê do “Quadra”, que o Sepultura lançou em fevereiro de 2020, ou seja, um mês antes de a Covid-19 ganhar proporção de crise sanitária global. Foram dois anos com o novo disco restrito às plataformas de streaming e aos formatos físicos, e você deve ter lido por aí um sem-número de elogios ao 15º álbum de estúdio da banda, até mesmo que se trata do melhor trabalho do Sepultura na era Derrick Green.

Não é exagero, e o setlist foi uma bênção para quem entende e quer que a banda viva do presente. Mas um pesadelo para os fãs que ainda vivem presos ao passado – aqueles que são chamados, jocosamente ou não, de viúvas. Num show felizmente mais longo que o esperado, 13 das 20 músicas foram extraídas de discos com Derrick, sendo dez dos dois trabalhos mais recentes – três de “Machine Messiah” (2017) e sete do “Quadra”. E entre as sete da fase Max Cavalera, duas não estão no rol de clássicos.

Pontos para o Sepultura de Derrick Green, Andreas Kisser, Paulo Xisto e Eloy Casagrande, porque o fim apoteótico com “Ratamahatta” e “Roots Bloody Roots” foi apenas a cereja do bolo de uma apresentação impecável – mesmo com a limitação de movimentos de Derrick, que subiu ao palco com uma proteção em forma de muleta na perna esquerda. O vocalista quebrou o pé ao ser atropelado nos EUA, onde voltou a residir já faz algum tempo.

E vamos falar de “Quadra”, o prato principal do show. “Isolation”, cuja estreia foi no Rock in Rio de 2019, abriu os serviços e pavimentou o caminho para as outras seis joias do disco. “Agony of Defeat”, “Guardians of Earth” e “Means to an End” soaram absolutamente bem ao vivo, e a espetacular instrumental “The Pentagram” foi – assim como “Iceberg Dances”, do disco anterior – mais uma prova de que o Sepultura tanto continua não tendo barreiras musicais quanto é capaz de explorar qualquer ambiente musical.

E se ainda há alguém que ache um exagero tocar sete músicas de “Quadra”, digo que a banda poderia ter incluído “Fear, Pain, Chaos, Suffering”. “Phantom Self” e “Sworn Oath” foram as bem conhecidas representantes de “Machine Messiah”, que brilhou mesmo com a faixa-título, na qual Derrick pôde – e pode – mostrar uma versatilidade que ainda não foi bem compreendida por muitos.

Se “Kairos” já se tornou um clássico do Sepultura pós-Max, e “Convicted in Life”, do ótimo “Dante XXI” (2006), foi um ótimo retorno ao repertório, “Choke” soou deslocada. A música que foi o cartão de visitas de Derrick na banda, quase 1/4 de século atrás, desta vez teve uma plateia mais contemplativa do que participativa. Algo que, na verdade, não mudou muito numa das melhores surpresas do Sepultura nos últimos anos: a sensacional “Slaves of Pain”, faixa do “Beneath the Remains” (1989) que estava fora do set desde 1993.

Azar de quem não curtiu ou preferia “Inner Self”, de novo, porque foi “Slaves of Pain” foi avassaladora! E os fãs que esperavam “Desperate Cry” talvez tenham se decepcionado com “Infected Voice”, mas é aí mesmo que o Sepultura de hoje acerta: faz um show para quem é fã do Sepultura, não de determinada fase da banda. E é claro que, além do óbvio bis, determinados clássicos não poderiam ficar fora.

“Territory” foi a segunda do set, o que ajudou a estourar o termômetro da empolgação, e teve “Arise” na íntegra – ou seja, sem aquele medley com “Dead Embryonic Cells”. E outro clássico acabou involuntariamente sendo tocada num momento simbólico da noite. Depois de “Agony of Defeat”, o público bradou em alto e bom som um “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c*”, e a banda acompanhou o coro no que Derrick definiu com um “Vocês acabaram de compor uma nova música com a gente”.

Qual clássico veio em seguida a esse momento? “Refuse/Resist”, completamente à vontade, em casa mesmo, com o que aconteceu naquela sexta-feira. De fato, o que foram dois anos sem assistir a um show se o retorno à música ao vivo foi numa noite que entrou para a história?

Nota do redator: resenha de show é observação + opinião. Ou seja, reflete a percepção e a opinião do autor, de quem assina, e não do veículo.

Setlist Dorsal Atlântica

Imperium
Stalingrado
Meu Filho me Vingará
Belo Monte
A Invasão do Brasil
Corrupto Corruptor
Gravata Vermelha
Pandemia
Burro
Combaterei
Gorilas (No Passarán)
Resistência (Não Resiste)
Tortura
Vitória
Vorkuta
Metal Desunido
Caçador da Noite
Guerrilha

Setlist Sepultura

Isolation
Territory
Capital Enslavement
Means to an End
Last Time
Kairos
Sworn Oath
Choke
Slaves of Pain
Guardians of Earth
The Pentagram
Machine Messiah
Phantom Self
Convicted in Life
Infected Voice
Agony of Defeat
Refuse/Resist
Arise
Bis
Ratamahatta
Roots Bloody Roots

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