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SETEMBRO NEGRO 2018 – 29 e 30 de setembro, São Paulo/SP

Carioca Club - São Paulo/SP

Cada um tem sua opinião e sua forma de ouvir e compreender música, mas para aqueles que amam as vertentes mais extremas do metal, os últimos anos, sem edições do tradicionalíssimo festival Setembro Negro, deixaram um enorme vazio na alma. A aura deste fest, a importância que ele assumiu no cenário, o peso das bandas que se apresentaram neste palco ao longo dos anos, tudo parecia fazer com que a saudade tomasse proporções gigantescas, e todos compartilhavam de uma mesma opinião: o Setembro Negro precisava voltar!

Felizmente, o festival voltou, em dois dias, e com um cast que fez valer cada ano de espera. Entre atrações nacionais e internacionais, foram escaladas dezesseis bandas, garantia de empolgação, violência sonora e caos musical para a Capital Paulista, um ritual que desejamos ardorosamente ver repetido pelos próximos anos. Mas, como nem tudo é alegria e felicidade, justamente no dia de abertura do Setembro Negro, e justamente na região onde acontecia o evento, aconteceu uma grande manifestação, o que travou o trânsito, atrasou o metrô, e transformou em um trabalho hercúleo chegar até o Carioca Club, normalmente tão fácil de ser encontrado.

Sábado, 29 de setembro

Aeternus

Superadas as dificuldades iniciais, estávamos diante do palco para conferir a apresentação incumbida de dar a impressão inicial do evento: HUMAN ATROCITY. Talvez por conta da situação anteriormente relatada, o público no local ainda era pequeno, mas nada tímido. Honrando com ódio e violência o legado brutal do death metal, o grupo brasiliense despejou vigor e atitude em sua curta apresentação, e mandou um recado firme e forte de como as coisas seriam no Setembro Negro de 2018.

O INFESTED BLOOD não é um desconhecido aos fãs de metal extremo. Juntos na estrada desde antes da virada do século, estes pernambucanos eram mais um representante do death metal, e fizeram o chão tremer já na primeira música, Bregan D’aerthe, faixa de abertura do álbum mais recente, Demonweb Pits, lançado em 2013. A própria Demonweb Pits também deu as caras na noite, acompanhada de perto por Mind Flyers, que comprovaram a força e a boa recepção do material de estúdio mais recente do trio.

Para começar com as atrações internacionais, uma boa surpresa vinda da Alemanha. Embora o país tenha ótimos nomes no death metal (quem conhece Fleshcrawl, Revel In Flesh, Morgoth e o clássico obscuro Obscenity sabe do que estou falando), a Alemanha nunca foi incluída entre as pátrias do gênero, e dificilmente isso um dia mudará. Apesar disso, o PURGATORY pode se orgulhar de ter feito um dos shows mais matadores de todo o festival. Os mais de vinte anos de experiência e oito álbuns completos de estúdio lançados fizeram toda a diferença, e músicas como Downwards Into Unlight (do hoje clássico Necromantaeon, de 2011) e a nova In Damnation Eternal fizeram a diferença.

Iniciando a parte norueguesa da noite, veio o poderoso AETERNUS, que acaba de lançar seu mais novo álbum, Heathen. Como o novo álbum não poderia e nem deveria passar em branco, a ótima The Sword of Retribution recebeu a devida aclamação ao vivo, assim como a também nova Boudica, e as clássicas Sworn Revenge (do debut, Beyond The Wandering Moon, 1997) e There’s No Wine Like the Blood’s Crimson (…and So the Night Became, 1998).

Taake

Se o Aeternus é um grupo difícil de rotular, com a próxima atração a coisa é bem diferente: o TAAKE é uma típica banda de black metal da Noruega, suja, ríspida, violenta e polêmica. Sem procurar por problemas em tempos que já são politicamente instáveis no nosso país, Hoest e seus asseclas detonaram uma ode ao ódio no palco, a começar com Jernhaand, do mais recente álbum deles, Kong Vinter, lançado no ano passado. Os fãs das antigas não precisaram se exacerbar, já que os clássicos Nattestid ser Porten Vid (1999) e Hordalands Doedskvad (2005) também foram representados.

Chegada a vez do VULCANO, todos sabiam que a noite seria repleta de clássicos. Zhema (guitarra), Gerson Fajardo (guitarra), Carlos Diaz (baixo), Arthur Von Barbarian (bateria) e Luiz Carlos Louzada (vocal) subiram ao palco como uma das mais devastadoras formações já vistas da lenda brasileira da extremidade, e fizeram um show à altura de sua história e relevância musical. Se os eternos clássicos de Bloody Vengeance serão sempre ovacionados, foi muito engrandecedor ver a destruição que composições mais novas – como Propaganda and Terror e Thunder Metal, ambas do álbum XIV, de 2016 – podem causar ao vivo.

Vulcano

Com a noite quase chegando ao fim, era a vez do lendário COVEN. Responsável direto por boa parte do misticismo presente no rock e no metal, o grupo passou por alguns anos de silêncio antes de anunciar o retorno, e foi quase inacreditável vê-los no palco, diante dos nossos olhos. O início do espetáculo, com direito a vela e caixão, trouxe uma Jinx Dawnson tão inspirada quanto sempre, além de uma banda afiada como nunca.

Para encerrar, mais uma lenda, o canadense RAZOR. Nem de longe uma banda popular, mas eternamente louvada pelos fãs da sonoridade da antiga escola, o grupo não decepcionou com seu speed/thrash direto e sem firulas, com destaque para as clássicas Evil Invaders (Evil Invaders, 1985), Violent Restitution (Violent Restitution, 1988) e Parricide (Shotgun Justice, 1990). Após assistir tantas lendas reunidas, era hora de voltar para casa, e torcer para que o caminho no dia seguinte fosse mais fácil e agradável que no dia anterior.

Coven

Domingo, 30 de setembro

Sem manifestações tudo foi mais fácil. Chegamos ao Carioca Club com a facilidade costumeira, e logo de cara fomos atacados pela brutalidade do MANGER CADAVRE, que tocou enquanto a maior parte do público ainda chegava ao local. Já com um público maior e ‘aquecido’, o DECOMPOSED GOD honrou o bom nome que tem diante dos fãs, um espetáculo brutal e maníaco de death metal, como esperávamos após ouvir o recente álbum de regravações (com uma ótima faixa inédita, Delusion) Storm of Blasphemies.

O AMEN CORNER foi o primeiro nome da tarde/noite a chegar empunhando a bandeira do black metal. Notório como um dos mais impactantes e influentes da cena nacional, eles não decepcionaram, e entregaram uma apresentação típica de black metal: ríspida, fria, sem grandes arrombos de contentamento ou empolgação, gerando o clima tétrico tão necessário para a aura negra e intensa do gênero. Todo esse clima não poderia ter sido melhor aproveitado do que com o show rasteiro e direto dos belgas do ENTHRONED. Poucas são as bandas que podem se orgulhar de um som tão denso e ríspido quanto o produzido por esses belgas, que se tornaram um dos maiores nomes do black metal mundial em 2002, ano em que lançaram o excelente Carnage in Worlds Beyond. Mesmo com um repertório repleto de clássicos, a escolha por músicas mais novas se mostrou certeira: Baal al-Maut (Sovereigns, 2014), Behemiron (Pentagrammaton, 2010) e Obsidium (Obsidium, 2012) formaram uma trinca imbatível, que nos fez realmente ansiar o lançamento do prometido novo álbum do grupo.

Enthroned

Para a sequência, dois grupos muito esperados: primeiro o MORBID SAINT, outro daqueles grupos sensacionais de thrash metal que nunca chegaram ao grande público. Lock Up Your Children, faixa de abertura do clássico obscuro Spectrum of Death (1990) chegou com fúria, fazendo rodas se abrirem na plateia. O clima não amenizou com Burned at the Stake, e quando Assassin finalmente chegou, parecia que o local pegaria fogo, tamanho era o calor nas dependências do Carioca Club. Existe motivo para deixar o clima amenizar? Provavelmente não, e na sequência o SCHIRENC PLAYS PUNGENT STENCH veio trazendo todo o poderio e torpor dos mestres austríacos do death metal. Happy Re-Birthday (Been Caught Buttering, 1991) e A Small Lunch (For God Your Soul… For Me Your Flesh, 1990) foram extremamente bem recebidas, e mostraram a razão do death metal ser a força metálica dominante do início dos anos 90.

Morbid Saint

Os austríacos deram lugar aos suecos, primeiro com o WOLFBRIGADE. Ainda ganhando um público no Brasil, estes suecos também estão entre as melhores surpresas do festival. Embora ‘pedras sonoras’ como CATCH 22 (Damned, 2012), Nomad Pack e Warsaw Speedwolf (ambas de Run With The Hunted, 2017) fossem velhas conhecidas deste que vos escreve, era impossível supor quanto peso extra essas canções poderiam ganhar ao vivo, tornando o Wolfbrigade uma das melhores atrações do festival.

Schirenc Plays Pungent Stench

Mas é claro que, para a surpresa de ninguém, o melhor show estava justamente escalado para o encerramento: com o também sueco AT THE GATES a edição de retorno do Setembro Negro chegava ao fim em grande estilo, com o melhor do death metal melódico sendo executado com fúria e precisão no palco do Carioca Club. Com pelo menos um álbum clássico eterno (Slaughter of the Soul, 1995) e um novo álbum recém saído do forno (To Drink From the Night Itself, 2018), ninguém esperava grandes surpresas do show destes suecos, e de fato, as surpresas não vieram (alguém reclamou? Não mesmo). Com um repertório seguro e performances inspiradas (não foi raro ver o vocalista Tomas Lindberg com um largo sorriso estampado no rosto durante o show), eles roubaram a cena, perpetrando o melhor show de todo o festival, e um dos mais memoráveis do ano.

Restava ir para casa, com ótimos shows na memória, e uma certeza animadora: o Setembro Negro 2019 já está confirmado, e também acontecerá em dois dias! Que se eternize no nosso calendário de shows, e que sempre traga tão boas atrações quando as que assistimos neste ano!

At The Gates

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