SILENT PLANET: O FLORESCER DE UMA NOVA ERA

Logo após o lançamento do EP colaborativo Bloom in Heaven, os norte-americanos desembarcam pela primeira vez na América Latina esse mês

Por Daniel Agapito

Entre serem injustamente subestimado pelos fãs por serem rotulados como “banda cristã”, terem diversos álbuns adorados pela crítica e até serem alvo do polêmico Ronnie Radke, o Silent Planet tem se destacado como um nome diferenciado do metalcore moderno, mesclando uma sonoridade progressiva, quase djent, com bastante atmosfera e ambientação em trabalhos como seu álbum mais recente, SUPERBLOOM, de 2023. O ano mal começou, e eles não pararam um segundo: já lançaram um EP brilhante em colaboração com os texanos do Invent Animate, fizeram shows por Europa, Ásia e Austrália, e agora se preparam para algumas datas na América do Sul, antes de partir para sua terra natal com o próprio Invent Animate. Trocamos algumas palavras com Garrett Russell, vocalista e fundador da banda, que mostrou não só ter uma paixão verdadeira pelo nosso país, mesmo sem o conhecer, como é firme com suas mensagens sociais. Confira!

Foto: Aaron Marsch

Para começo de conversa, vocês têm conseguido se tornar uma banda cult aqui pela América Latina, conquistando uma base de fãs sólida. Fora razões logísticas e de falta de oportunidade, há alguma justificativa para nunca terem vindo antes?
Garrett Russell: Foi falta de oportunidade mesmo, de achar um produtor local para coordenar os shows, achar as casas etc. Parece que têm surgido mais produtoras por aí, estou vendo muito mais bandas chegando na América do Sul e na América Central do que via antes. Isso me deixa muito animado, porque é algo que precisava acontecer há tempos. Todos sabemos que a galera daí adora a música ao vivo. Curtem no mundo inteiro, mas especialmente na América Latina. Sei que aí no Brasil vocês falam português, mas dois dos caras da banda são fluentes em espanhol, então acho que já temos um pouco da paixão e influência latina, era questão de tempo. Acho incrível ver essas portas se abrirem. Para os outros países que não vamos conseguir contemplar desta vez, como a Argentina, fazer esses shows vai nos ajudar a chegar em outros lugares, e se tudo der certo o Brasil irá se tornar parada obrigatória em nossas turnês.

Não posso dizer com propriedade em relação aos outros países, mas aqui no Brasil, o metalcore (e o metal moderno no geral) sempre foi um estilo mais ‘difícil’, as pessoas geralmente gostam mais das bandas antigas, os Iron Maidens da vida.
Garrett: Há muitos covers por aí?

Com certeza! E vários ex-integrantes de bandas maiores passando por aqui…
Garrett: Então está dizendo que precisamos tocar algumas do Iron no show (risos)? Bom, pelo menos é legal saber que o metalcore está crescendo por aí. O nosso som nem sempre é metal, mas a nossa abordagem em relação à mescla de gêneros é algo bem diferente do Iron Maiden, com todo respeito a eles.

A ‘cultura de shows’ daqui é conhecida mundo afora, com nosso público tendo fama de ser um dos mais animados do mundo. O que você já sabe sobre shows no Brasil, no geral?
Garrett: Gosto de chamar o idioma de vocês de ‘spicy spanish’ (espanhol apimentado, com tempero), porque consigo mais ou menos entender o que estão falando. Não sei falar espanhol, mas consigo me virar por conta do tanto de exposição que eu tenho. O português já é mais engraçado, eu acho que entendo, aí chega uma hora em que não entendo nada. Acho que parece uma mistura entre espanhol e russo, mas na real, não sei muito, sou apenas um americano ignorante (risos). Estou tão animado para tocar aí, sei que as pessoas adoram música, futebol, o nosso ‘soccer’. O meme do ‘come to Brazil’ se tornou algo gigantesco por aqui, e isso claramente vem da indignação de vocês, e com razão. Fico feliz que as estradas tenham finalmente aberto para nós.

Dois mil e vinte e cinco já tem sido um ano mais que produtivo para o Silent Planet, com vocês já tendo feito 35 shows em 3 continentes (Europa, Ásia e Oceania), tocando até no Havaí. Nos últimos shows, o repertório foi focado majoritariamente em SUPERBLOOM (2023), mas desde então, lançaram um EP em colaboração com o Invent Animate. Podemos esperar ouvir algumas dessas músicas ao vivo?

Garrett: Talvez! Quem sabe uma delas não acaba aparecendo nos setlists? A nossa turnê conjunta com o Invent começa alguns dias depois de terminarmos a excursão pela América Latina (4 dias depois). Há chance de tocarmos alguma delas, fico curioso para saber se o público gostaria de ouvir. Ainda estamos desenhando o melhor setlist possível. Queremos tocar algumas mais antigas também, porque sabemos que tem muita gente que nos acompanha desde bem antes de SUPERBLOOM. Estamos procurando o melhor jeito de misturar tudo.

Seguindo nesta linha, como foi a dinâmica para a criação do EP entre vocês? Além disso, como surgiu essa parceria?Garrett: Somos amigos há mais de uma década, e sempre rolou uma apreciação mútua das nossas bandas. Posso dizer que o que fazemos como bandas é até parecido, é tipo um metalcore, mas não tem aquele foco na brutalidade, ao invés disso, trazemos algumas ambientações, sutileza nas técnicas. Estamos no nosso próprio nicho, nosso próprio subgênero, então foi algo que fez muito sentido. Eles lançaram Heavener e nós lançamos SUPERBLOOM mais ou menos na mesma época – estávamos em turnê juntos quando lançaram Heavener, na Europa, abrindo para o ERRA. Ambos os álbuns ressoaram com os fãs de certa forma, eram parecidos sonoramente, e um dia estava pensando e mandei mensagem para o Caleb (Sherraden, baixo): ‘Devíamos sair em turnê juntos e fazer algumas músicas para podermos tocar lá’, e ele adorou as ideias. Tinha tomado muito café quando pensei nisso, tudo veio da cafeína (risos).

Você também falou nas redes que Bloom in Heaven é apenas a primeira fase de suas colaborações com o Invent Animate, com a turnê sendo a segunda. O que mais virá desta parceria? Pode nos dar alguns spoilers?
Garrett: Acho que talvez vá para a frente, chegamos a discutir alguns planos. Estamos abertos a continuar. As pessoas curtiram o EP mais do que estávamos esperando, está sendo bem legal ver as reações até agora. Acho que deveríamos fazer mais coisas juntos, digo mais, no geral, mais artistas do metal deveriam fazer colaborações. Se formos comparar com o hip-hop, por exemplo, quase não acontecem colaborações. Musicalmente falando, entendo o porquê, é algo que exige muito mais tempo. Não dá para comparar duas bandas se juntando para fazer uma música com o esquema do rap, que tem uma batida e é ‘ah, você canta esse verso, eu canto esse outro’. Olhando pelo lado da logística, é muito mais rápido do que fazer com duas bandas. Acho que com esta colaboração que fizemos conseguimos ver claramente que há uma demanda para material assim, os fãs querem ouvir isso. Espero que possamos influenciar outros artistas a fazerem trabalhos parecidos, experimentar algo novo.

Em uma entrevista com a Metal Injection em 2019, você falou sobre ser classificado como banda de metalcore cristão, mesmo nunca de fato considerando ser deste estilo. Mais de 5 anos depois, como diria que a percepção dos fãs tem mudado?
Garrett: Menos pessoas simplesmente assumem o que somos, hoje em dia. Se você jogar nosso nome no Google, a palavra ‘cristão’ vai aparecer logo de cara, ainda está ali, este equívoco ainda existe. Esses tempos, o Ronnie Radke, vocalista do Falling in Reverse, me chamou de ‘viadinho cristão woke’ pelo Twitter, porque é dessa maneira que ele me enxerga. Obviamente, não ligo para a opinião de alguém que claramente não é dos mais espertos, não respeito adultos que direcionam seu ódio a crianças, incentivando-as a colocar sua vida em risco (risos). Acho que pessoas assim perderam na vida. Acaba que tem gente que ainda nos vê desse jeito. Podem nos rotular do jeito que quiserem, às vezes só saem rotulando porque não entendem o que estão consumindo, ou não têm as ferramentas para entender a forma como pensam ou como se sentem em relação a tal coisa. Se é deste jeito (como banda cristã) que nos vêm, especialmente nesses tempos em que estamos vivendo aqui nos EUA, com o fascismo a mil, pessoas sendo tomadas pelas autoridades sem serem julgadas de maneira justa, uma corrupção que ‘cospe na cara’ dos ideais americanos e de nossa constituição, estamos vendo que muitas pessoas estão usando este ‘véu’ do cristianismo para justificar o fascismo; é o oposto do que queremos fazer. Muitas de nossas músicas criticam essas estruturas de poder, e como alguém que é apaixonado pela mensagem de Jesus, ela é o oposto do que tentam usar. Infelizmente, é bem comum, as mentiras mais efetivas e mais sinistras são aquelas que pegam algo bom e distorcem, escondem um veneno. É isso que estamos presenciando com o nacionalismo cristão, precisamos continuar sendo críticos aos regimes fascistas e às estruturas de poder que degradam uma mensagem poderosa, como a Dele, transformando-a em um meio de controle.

Ia fazer mais uma pergunta, mas era justamente sobre o Ronnie, que você já abordou, então, agora a bola é sua: tem alguma última mensagem para seu público latino-americano, os leitores da ROADIE CREW?
Garrett: Estamos animados para encontrar vocês nos shows, temos certeza de que passaremos tempos incríveis, tendo a oportunidade de experienciar culturas diferentes. Quero encorajar todos a se defenderem daqueles com mais poder que acham que podem simplesmente fazer o que quiserem e se safar de crimes, pessoas que acham que são grandes demais, ou fortes demais para serem desafiados. Na realidade, as pessoas que saem empurrando os mais fracos, crianças, pessoas marginalizadas, são os covardes verdadeiros. Você nunca deveria se sentir como se tivesse que assimilar essas estruturas – a vida é curta, e uma vida sem medo de falar a verdade é uma vida com significado. Isto tem que acontecer, independente de quão pouco popular seja combater a tirania. Gostaria de incentivar as pessoas a acharem suas vozes, a falarem. Às vezes, a melhor forma de demonstrar amor não é por meio de um abraço, não é por meio de palavras bonitas, às vezes vem na forma de se levantar e dizer: ‘Podemos fazer melhor, não vou deixar a violência e a ganância acontecerem sem cobrança.’ O que importa é que você viva uma vida em que possa olhar para trás e se sentir orgulhoso, a vida é mais que dinheiro, poder e conforto, é sobre amor, e às vezes o amor é a resistência.

Foto: Sarah Holick

Serviço São Paulo e Curitiba

Silent Planet em São Paulo + Nations, Emmercia, Distant Shores

Data: 12 de abril de 2025

Hora: 17h (abertura da casa)

Local: City Lights (R. Padre Garcia Velho, 61 – Pinheiros, São Paulo – SP)

 

Silent Planet em Curitiba + Declive, Heartlistener

Data: 13 de abril de 2025

Hora: 16h (abertura da casa)

Local: Belvedere Bar (Rua Inácio Lustosa 496 São Francisco, Curitiba – PR)

 

 

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