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SÍNDROME K: DEMOCRATIZAÇÃO DO THRASH METAL

Por Thiago Prata

De uma banda cover de meados da década passada à decisão de investir em material próprio, o Síndrome K estreou no cenário fonográfico com Aqui se Paga (2021), álbum que traz uma sonoridade cheia de nuances e embasada na “democratização do thrash metal”, como definem Lula Souto (baixo e vocais), Volfer Freire (guitarra) e Pedro Hugo (bateria). Os detalhes dessa história você confere a seguir nas palavras desse power trio de Salvador (BA), que recentemente conquistou o Prêmio Dynamite de Música Independente.

Antes de conversarmos sobre história da banda, queria que nos falassem da origem do nome Síndrome K.

Pedro Hugo: A ideia foi minha. Eu gosto muito das histórias da Segunda Guerra Mundial. Não sou nenhum expert, mas sempre assisti a muitos documentários e li muito livros a respeito do tema desde minha adolescência. Um dia, eu estava no YouTube fazendo algumas pesquisas, quando apareceu na lista de sugestões um vídeo sobre a Síndrome K. Aquilo me pegou de surpresa. Apesar de eu conhecer milhões de documentários, livros, filmes e minisséries, não sabia nada sobre o que era a Síndrome K, uma doença inventada por médicos italianos. Os médicos colocaram judeus dentro de um hospital, dizendo que os judeus estavam com uma doença muito contagiosa e que não se podia chegar perto deles. Então, acabaram salvando a vida desses judeus, pois os soldados fascistas e nazistas não chegavam perto deles. Costumo dizer que essa doença, inventada para salvar judeus, é “uma doença que cura”. Coincidentemente, no dia seguinte que vi o vídeo, o Volfão (Volfer Freire) e eu estávamos conversando, pois já tínhamos sete ou oito músicas prontas, mas não um nome para a banda. Eu falei que poderia ser Síndrome K. Mandei os vídeos para ele e o Lula, e os caras gostaram da ideia.

Volfer Freire, Lula Souto e Pedro Hugo: aura old school, estética moderna na estreia do Síndrome K | Foto: Aline Loureiro

Sobre os primeiros passos, quando vocês se conheceram e se juntaram para tocar thrash metal? Como era o envolvimento de vocês com o metal até então?

Volfer Freire: No início, em 2015 ou 2016, a gente tocava covers de Metallica e Megadeth. Foram alguns anos de estrada assim. No fim de 2019, decidimos fazer um projeto autoral. O Lula estava trabalhando no interior de Tocantins, mas visava voltar para Salvador. E a galera topou essa proposta do som autoral, foi algo bem tranquilo, com todo mundo com sede de tocar. O começo mesmo foi junto à pandemia, então não nos reuníamos presencialmente no início. O processo de composição foi quase todo feito online. Eu mandava um riff ou o Peu (Pedro) mandava um groove de bateria, e cada um dava alguma sugestão. Mas o processo foi até bem rápido. No thrash, sempre tem a questão de protestos nas letras. Já tínhamos dez músicas prontas. Íamos fechar nesse número. Porém, num dia, eu estava brincando com a guitarra, fazendo firula mesmo, e me veio a ideia de um riff. Consegui desenvolver uma música a partir daí e falei para o Peu fazer uma letra sobre a Síndrome K…

Pedro: Eu dei um pulo às 5h da manhã, parece que sonhei com a letra, pois fiz 80% dela de forma “vomitada”. Em 15 minutos estava praticamente pronta. Na minha opinião, foi uma das mais complexas que escrevi, talvez a que eu mais tenha orgulho.

Volfer: Com essa música, veio também a ideia da introdução do disco, com referência italiana no instrumental, algo dramático. E o nome (Sulla Strada Per Fatebenefratelli) faz referência ao hospital (Fatebenefratelli).

Para mim, a estreia do Síndrome K possui uma aura old school, estética moderna e poética potente. É por aí? De que forma vocês definiriam a música da banda?

Pedro: Cara, achei perfeito isso o que você disse.

Volfer: Verdade! Nossa essência vem da Bay Area e do Big Four da Alemanha, mas há uma sonoridade mais moderna, com outro tipo de equipamento. Absorvemos vários gêneros do metal, e isso acaba refletindo no som.

Lula Souto: Importante ressaltar que escolhemos o português nas letras para mostrar que é possível fazer thrash em português, sem qualquer diferença com o inglês, na questão de melodias e cadência vocal. O pessoal é muito avesso a isso, mas a gente faz com todo esse cuidado.

Muitas bandas, inclusive, fazem uso do português com o intuito de que a mensagem chegue de maneira mais clara. E vocês ressaltam no release de que também é uma questão de “democratização do thrash metal”. Como as pessoas têm reagido às letras?

Pedro: Comecei ouvindo rock e metal com 11 ou 12 anos. E lá pelos meus 16 ou 17, estava ouvindo muito rap, principalmente o álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), dos Racionais MC’s. Aquilo mudou minha vida, tanto quanto os discos de metal. Eu ouvia mais rap do que metal naquela época. Nunca tive pretensão de ser rapper, mas sempre gostei de escrever letras, então foi uma influência. Sabia que havia certa resistência em compor letras em português, porém, eu iria tentar, e os caras concordaram. A galera está curtindo. E, sem falsa modéstia, eu gosto das letras de verdade. Eu as faço pensando nas características do metal, com métrica, rima, esse tipo de coisa. Não precisamos abraçar o mundo, só o Brasil.

Muitas formações do rock preferem o formato power trio. Ao longo dos anos, porém, muitas delas sentem a necessidade de incluir uma segunda guitarra, e algumas até colocam um teclado. Passa pela cabeça de vocês algo nesse sentido?

Volfer: Não foi intencional ser um power trio, mas dentro da banda o que mais importa é nossa amizade, o fato de sermos uma família, um casamento a três (risos). Quando tocávamos cover, havia outro amigo na banda, o Danilo, que se mudou para a Suécia. E quando começamos a compor, não quisemos chamar mais ninguém.

Pedro: Eu e Lula tivemos uma banda na década de 1990. Depois disso, entendi que se uma banda não for como uma família, não iria rolar para mim. Quando o Volfer me falava da vontade de fazer algo autoral, eu não estava decidido. Só que quando ele me disse que o Lula estava voltando para Salvador e seríamos nós três, eu sabia que ia dar certo. E ser um power trio facilita em quase tudo: em decisões da banda, de ‘dois contra um’, é mais fácil ensaiar e tocar em show. Mas, claro, o preço do ensaio fica mais ‘salgado’ (risos).

Por fim, quais os planos para o futuro?

Volfer: A gente não parou de produzir. Num período em que não se podia visualizar datas para shows, continuamos a compor. Tem muita coisa pronta. A prioridade seria rodar o Brasil, quando tivermos a oportunidade. E acompanhem novidades no Instagram @sindrome_K.

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