SP METAL – 30 ANOS

Apesar de São Paulo não ter se livrado do frio, pelo menos não ficou refém da chuva que caiu na noite anterior. Somado ao fato de os ingressos novamente terem sido ‘sold out’, isso animou para que tivéssemos outra grande celebração dos 30 anos do lançamento de “SP Metal”. Exceto pelo Performances, representado por dois de seus integrantes na plateia da Comedoria do Sesc Belenzinho, mas que infelizmente está inativo há muitos anos, o público pôde conferir as apresentações das outras três bandas que integraram o segundo volume da lendária coletânea. Assim como o Vírus, que tocou na noite anterior, Abutre e Santuário voltaram apenas para participar dessa festa. Além destes, o Korzus, único entre todos os participantes com uma carreira ininterrupta, veio mostrar seu Thrash Metal.

Santuário deu início às 21h35 com Jorge “Rato” Bastos (baixo), Alessandro Marco (bateria) e Ricardo “Micka” Michaelis (vocal e guitarra), irmão do vocalista Júlio Michaelis, falecido em 2010. Antes de tocar, Micka contou um pouco da história do grupo santista e disse que iriam mostrar como se fazia Metal naqueles tempos. Um pouco disso foi trazido na abertura com “Homens Em Combate”, devido aos timbres e a distorção de sua guitarra, similar ao que se usava. Assim como no caso do Santuário, algumas das outras bandas que tocaram nas duas noites não gravaram outros trabalhos, então, muitas músicas eram desconhecidas para boa parte do público.

O modelo da guitarra (Eddie Van Halen) e o visual do carismático e comunicativo Micka evidenciaram sua influência. O músico explicou que as músicas seriam tocadas cronologicamente em relação à sua criação e dedicou “Fiéis De Aço” aos fãs de Metal. Em uma tirada inteligente, o idealizador do “SP Metal”, Luiz Carlos Calanca, foi homenageado com trecho de “Salém (A Cidade Das Bruxas)”, clássico do Harppia também lançado há trinta anos no EP “A Ferro e Fogo” – a letra foi alterada por uma narrativa que contava sobre o pioneirismo e visão de Calanca. No final, Micka relembrou o saudoso Hélcio Aguirra, que consertava os amplificadores da banda – ele também era conhecido por “envenenar” os amplis –, e dedicou a música aos outros integrantes do Harppia na época, Ricardo Patriota (guitarra), Ricardo Ravache (baixo, Centúrias) e Tibério Correa Neto (bateria). O final veio com as épicas “Santuário” e “Espártaco, Gladiador Rei”, ambas presentes na coletânea. No meio delas, “Micka”, que integrou mais tarde o Extravaganza com China Lee (Salário Mínimo), brincou ao comentar que “o documentário ‘Brasil Heavy Metal’ nunca sai”, mas garantiu que seu projeto irá decolar. Então, ergueu uma bandeira com o logotipo e pediu a todos que gritassem o nome do documentário para serem gravados e inseridos nele.

Às 22h15 foi a vez do Abutre matar a saudade de muitos e a curiosidade de outros. Da formação que marcou presença em “SP Metal 2” estavam o guitarrista Ricardo Giudice, o baterista Adalberto Rosado Junior e o baixista Tomas Catafay, que vieram acompanhados pelo vocalista Ramon Risso, substituindo o vocalista original, Wagner Giudice. Mas a família Giudice teve um reforço de peso com a presença de mais um dos irmãos, o guitarrista Adriano Giudice – membro do Centúrias na época do EP “Última Noite” (1986). Apesar de ter ensaiado pouco para essa apresentação, o grupo não cometeu falhas evidentes e se mostrou à vontade em palco para tocar o seu Heavy Metal Tradicional mesclado com Hard e Rock’n’Roll.

A abertura, com “Generais Da Moral”, evidenciou o peso e o lado mais Hard da banda. Na sequência veio a primeira das que integraram a coletânea, a acelerada “Quando O Fogo Começa A Arder”, com uma roupagem um pouco diferente da versão gravada. Antes da empolgante “Uma Mulher, Um Whisky, Uma Noite”, Ricardo aproveitou o ensejo e falou sobre sua gratidão por Calanca. A outra música que disponibilizaram para o “SP Metal 2”, “Rock, Rock, Rock”, foi executada com uma cara um pouco diferente da que é conhecida. Apesar do longo tempo afastado dos palcos, o Abutre mostrou boa presença de palco e destreza nos instrumentos, mas infelizmente não contou com a mesma qualidade de som que as outras bandas tiveram.

A última música do show, “Fui”, foi apresentada em tom de ironia ao nosso “querido Brasil” na letra feita pelo ex-baixista do Centúrias, Rubens Guarnieri. Porém, infelizmente as guitarras sumiram, principalmente a de Adriano, que praticamente inexistiu na hora de seu solo. Apesar das falhas no equipamento durante a apresentação, foi inesquecível conferir pela primeira vez o show do Abutre, que não tocava junto desde maio de 1986, data do sempre lembrado festival “Metal 4” – com Centúrias, Salário Mínimo e A Chave do Sol. Da mesma forma que foi falado na resenha do show do Vírus do primeiro dia do evento, fica registrado a sugestão para o pessoal do Santuário e do Abutre pensarem em, pelo menos, finalmente gravarem seus discos.

Faltava o Thrash Metal dar as caras e então o Korzus cuidou disso entrando com “Legion”, música que nomeia o novo álbum. A pancadaria sonora despejada por Marcello Pompeu (vocal), Heros Trench e Antônio Araújo (guitarras), Dick Siebert (baixo) e Rodrigo Oliveira (bateria) tirou a timidez de muitos que até então curtiram os shows anteriores moderadamente. Para a sequência, Pompeu pediu aos fãs que abrissem a roda, sendo prontamente atendido na pesadíssima “Raise Your Soul”. Antes da próxima, o vocalista se mostrou confortável com o local: “É legal tocar aqui no Sesc Belenzinho que é praticamente a segunda casa do Korzus”. Agradeceu aos fãs, amigos e as bandas presentes e emendou com um agradecimento a Luiz Calanca: “Não é só essa festa do ‘SP Metal’ que é emocionante para o Korzus, mas sim olhar para o Calanca aqui na pista e dizer que se não fosse esse cara talvez a banda não existisse”. Após uma salva de palmas solicitada em nome do empreendedor, foi a vez de “Correria”, com sua levada à la White Zombie – principalmente em relação ao andamento de baixo e bateria.

“Truth” foi dedicada a Ricardo “Micka”, que foi o diretor do videoclipe. Após novo discurso de Pompeu, o público foi nocauteado e também fez roda em “Never Die”, música de “Discipline Of Hate” (2010). O momento mais aguardado certamente havia chegado. Pompeu comentou aos mais novos e relembrou aos que viveram a época que a letra da próxima música retratava o sentimento que havia entre os headbangers que naqueles anos enfrentavam a discriminação da sociedade, sendo impedidos até de entrarem nos restaurantes, mas afirmou que hoje em dia formamos uma das maiores forças da música brasileira, além de sermos inteligentes e os fãs mais fieis entre todos os outros gêneros. Claro que estou falando de “Guerreiros Do Metal”, que hoje em dia é tocada de forma muito mais pesada que na época de seu lançamento. Fim de jogo! No dia seguinte o Korzus apresentou seu set completo no show realizado no Centro Cultural São Paulo.

Satisfeito, o mentor do “SP Metal” Luiz Carlos Calanca atendeu a equipe da ROADIE CREW e ao ser questionado se naquela época ele imaginava a importância que o projeto teria na história do Metal brasileiro, nos respondeu: “Ah, claro que não! Eu não tinha a mínima ideia disso. Só tinha a irresponsabilidade, a ignorância, a falta de conhecimento do que poderia rolar. Se eu tivesse a noção de como seria a coisa, talvez não tivesse nem coragem de ter feito. Foi pura emoção… Pura indisciplina, cabeça dura… Foi isso. Hoje eu estou feliz. Muito mais feliz hoje, por ter podido curtir esse evento, esse reencontro do pessoal.”

Logicamente que o aniversário de 30 anos de “SP Metal” não passaria em branco, e os envolvidos pela realização desse evento histórico estão de parabéns, assim como Luiz Carlos Calanca. Em tempos difíceis, ele foi em frente com a sua ideia e investiu nesse projeto, abrindo as portas não só para as bandas envolvidas, mas para muitas outras. Os cumprimentos se estendem ao público, que esgotou os ingressos para os dois dias e compareceu para prestigiar e homenagear Calanca e algumas das bandas pioneiras do Metal brasileiro.

SANTUÁRIO – Set list:
Homens Em Combate
Fiéis De Aço
Salém (A Cidade Das Bruxas) (Cover do Harppia)
Santuário
Espártaco, Gladiador Rei

ABUTRE – Set list:
Generais Da Moral
Quando O Fogo Começa A Arder
Uma Mulher, Um Whisky, Uma Noite
Rock, Rock, Rock
Fui

KORZUS – Set list:
Legion
Raise Your Soul
Correria
Truth
Never Die
Guerreiros Do Metal

 

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