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STEVE HOGARTH – 2 de julho de 2019, Rio de Janeiro/RJ

“Eu te amo!”, gritou uma menina assim que Steve Hogarth entrou no palco do Theatro Net Rio, e o vocalista retribuiu com beijos direcionados à plateia. Foi esse o clima, de leveza e descontração, durante as duas horas de um show intimista, parte da turnê H Natural, que pode ser explicado com o título de uma das músicas do Marillion que fizeram parte do repertório – você sabe do que estou falando. “Tudo bem? O que vamos fazer?”, disse ele, já sentado ao piano, antes de iniciar uma versão única de Easter, com direito a uma interpretação vocal livre, principalmente no fim da canção. Alguém até pode perguntar como uma apresentação de piano e voz consegue fazer barulho, porque a resposta veio em seguida, com a performance visceral de Hogarth em Hollow Man.

Aliás, o que esse cara canta é um absurdo. Ele simplesmente fez queixos caírem em Instant Karma!, de John Lennon, e não apenas pela técnica, mas também pela alta carga emocional que coloca em suas interpretações. “Como você está?”, perguntou um fã. “Fantástico, afinal, estou no Rio de Janeiro. Vocês têm sorte de viver aqui”, respondeu Hogarth, dizendo o quão incrível é o sentimento de ver a cidade pela janela do avião momentos antes da aterrissagem. “Minha primeira vez aqui foi em 1990, e ainda estou me recuperando”, brincou, arrancando risos do público e errando na conta. Ao se referir ao Hollywood Rock, em sua primeira turnê como vocalista do Marillion, Hogarth disse que esteve no Rio em quatro oportunidades, mas foram sete no total (as seis anteriores, com a banda).

Steve Hogarth

Algo me diz que ele repensaria a sorte dos cariocas se morasse na cidade durante algum tempo, mas como o foco aqui é a música, You’re Gone foi simplesmente de arrepiar. Lembra-se da mistura de técnica com sentimento? Exatamente. Uma das vantagens do formato é ouvir músicas que o Marillion normalmente não tocaria no Brasil, como a belíssima Estonia, do fabuloso This Strange Engine (1997), um dos discos favoritos deste que vos escreve. E por falar em álbuns favoritos, Seasons End foi mais uma joia da obra-prima homônima lançada em 1989 e que marcou a estreia de Hogarth na banda inglesa, numa versão despida tão maravilhosa que mereceu os aplausos mais efusivos até então.

“Alguém quer falar comigo? Vamos conversar”, convocou o vocalista, e a primeira manifestação da plateia veio na congratulação pelos 30 anos no Marillion. “Trinta anos, e eu imaginava que iria durar dois anos, talvez dez”, disse Hogarth, bem-humorado e lembrando como não nos damos conta de certas coisas. “Meu Deus, já se passaram dez anos da morte de Michael Jackson, mas parece que ele se foi há apenas dois anos. Tempo é algo muito estranho.” Em seguida, um fã perguntou quando um Marillion Weekend seria realizado no Rio de Janeiro, e o vocalista não se fez de rogado. “Bem, quantas pessoas temos aqui?”, questionou, arrancando risos de quem sabe que a cidade virou um cemitério para shows de rock, mas enaltecendo quem ainda apoia. “Não é sua culpa, porque você veio. Mas não tenho certeza de que os números batem.” Não, não batem mesmo, e imaginar que o Rio ficaria fora do roteiro da H Natural na América do Sul e, por isso, muita gente reclamou, uma vez que o Marillion levou bom público nas três vezes em que tocou no Vivo Rio nesta década. Mas reclamar é o que público carioca mais tem feito atualmente, porque comparecer aos shows é outra história.

Steve Hogarth

Em mais um momento cômico da noite, um fã gaiato perguntou “Brasil ou Argentina?”, lembrando que as duas seleções jogavam naquele instante por uma vaga na final da Copa América. “Você quer saber quem eu acho que vai vencer? O jogo está acontecendo agora, então não sabemos, certo? Honestamente, espero que seja o Brasil. Mas vou para a Argentina amanhã à noite, e se me perguntarem lá, vou dizer que torci para eles.” Entre risos, um pedido por The Uninvited Guest ganhou de resposta “Mas como tocá-la no piano?”, e aí sim alguém foi atendido: The Great Escape, bonita por natureza, fez a felicidade de outro fã e antecedeu dois outros ótimos momentos: Runaway e The Model, esta um cover do Kraftwerk que, com o perdão da sinceridade, ficou melhor que o original. No mesmo pacote de EstoniaNo One Canfoi um deleite e aumentou a esperança por The Party, outra favorita de Holidays in Eden (1991), o que infelizmente não aconteceu. Mas tudo bem, porque Maybe I’m Amazed, do Wings – ou de Paul McCartney, como queira – foi emocionante. E houve nova pausa para uma interessante seção de perguntas e respostas – confundida com pedidos, diga-se, resultando numa explicação direta de Hogarth: “Não, não peçam músicas agora. Perguntem-me algo, como a cor da minha cueca, o que eu comi no café da manhã, de que é feita a minha jaqueta”. Na verdade, no entanto, a pausa foi para a ótima resposta a uma pergunta simples: “Qual foi a sua maior influência musical?”. Hogarth não poupou esforços para contar sua história.

“Tudo começou com os Beatles, depois veio o The Kinks e alguma coisa de Rolling Stones. Quando cresci um pouco mais, descobri o Yes, mas não peçam para tocar nada deles (risos). Aos 17 anos, conheci o Genesis, e foi naquela época que assisti ao Yes nas turnês do Fragile (1971), Close to the Edge (1972) e Tales from Topographic Oceans (1973)’; e ao Genesis nas turnês do Nursery Cryme (1971), Foxtrot (1972), Selling England By the Pound (1973) e The Lamb Lies Down on Broadway (1974). Mas foi quando vi o The Who na turnê do The Who By Numbers(1975) que eu pirei, porque eles me deixaram maravilhado! Nunca mais fui o mesmo depois daquilo. Aprendi muito naquela noite, porque os caras subiram ao palco como se a vida deles dependesse daquilo. O sentimento que tive foi de que era entretenimento, mas que também era importante. Tudo a respeito do Who dizia que o que estava acontecendo era importante, e se você não parasse para escutar, eles desceriam do palco para sacudi-lo (risos). A energia era inacreditável! Eles me ensinaram que entrar num palco e ficar de frente para uma plateia é um grande privilégio, e você deve sempre fazer por merecer. Nunca dê nada como certo, porque cada noite tem de ser a coisa mais importante que já aconteceu para você. Tem sido assim para mim desde então, e sempre será. Não pode haver preguiça, e se alguém não estiver escutando, desça e chute a cadeira onde ele está sentado. Eu já fiz isso, tive de fazer, apesar de não precisar mais (risos). Se tivesse de chutar essas cadeiras onde vocês estão sentados, eu provavelmente quebraria a minha perna (risos). Ou seja, fui inspirado pela honestidade e pela energia do Who; pelas composições e também pela energia do Kinks; e sempre haverá os Beatles. Mas também por David Bowie, que tinha uma habilidade para usar camisas interessantes (risos).”

Steve Hogarth

E foi neste momento que outro gaiato gritou Life on Mars?, e a resposta foi um “ainda não (risos)”. “É complicado tocar essa música. Poderia deixá-la para o fim, até vocês não se importarem mais (risos)”. E música brasileira? “Não conheço nada, exceto Tom Jobim. Mas é apenas isso, porque sou inglês, ou seja, um estúpido (risos). Não se ouve música brasileira na Inglaterra.” E novas bandas que vêm fazendo um bom trabalho? “Hum…”, murmurou Hogarth, fazendo uma careta e ouvindo um fã que não entendeu a pergunta berrar “Rolling Stones” lá do fundo. “Mas eles não são uma nova banda, e é um milagre que ainda estejam vivos! (gargalhadas). Eu costumava tocar Ruby Tuesday, mas não lembro mais…”, disse H, que até tentou. “Não consigo, e é uma vergonha eu não ter ensaiado essa música (risos), mas acho que não falei todas as minhas influências. Tem a Joni Mitchell com sua poesia e honestidade, mesmas razões por que incluo o Prefab Sprout; o The Blue Nile, por causa de sua inacreditável crueza emocional, e porque Paul Buchanan é um ótimo cantor; o Daryl Hall, do Hall & Oates, que é o cantor mais incrível… Bom, ele seria uma influência se eu menos conseguisse chegar perto dele, já que ele é fora de série, tecnicamente falando, mas sou influenciado também por Peter Gabriel e Massive Attack, uma banda que gosto muito. É o tipo de música que escuto hoje em dia, na verdade, e coisas como dub reggae, R&B… Ah, Radiohead é maravilhoso. Tenho muito respeito por eles. Quando as pessoas me perguntam como eu definiria o som do Marillion, porque elas não têm ideia, eu digo: ‘Olha, se o Pink Floyd e o Radiohead tivessem um bebê, mas um que ficasse em contato com seu lado feminino, seríamos nós (risos).”

Depois de sete minutos de bate-papo, Hard as Love voltou a encher o teatro de música, e o trecho a partir de ‘It makes you hungry and it makes you high’ até ‘It makes you guilty and it makes you lie’ foi de arrepiar. Em seguida vieram Beyond YouCage, do primeiro disco solo de Hogarth, Ice Cream Genius (1997); e House, mas para recuperar o fôlego antes de The Sky Above the Rain, que foi emocionante, e da aplaudida 80 Days, mais uma grande surpresa outra de This Strange Engine – literalmente, uma vez que Hogarth soltou um “Bom, não era para eu fazer isso, mas…”. E se era para surpreender, então toma uma bonita versão de Cloudbusting, de Kate Bush, emendada com um “Obrigado e boa noite” que não fez ninguém levantar para ir embora, uma vez que ainda havia o protocolar bis.

Steve Hogarth

Enrolado a uma bandeira do Brasil, entregue por uma fã na beira do palco, Hogarth sentou novamente ao piano e perguntou: “O que vamos fazer?”. Atender a pedidos, começando com Beautiful – e só não gosta dessa música quem é muito de mal com a vida – e terminando com Afraid of Sunlight, que está no rol das músicas perfeitas do Marillion. Em ambas, H mostrou que a lição aprendida com o The Who ainda vive, porque cantou como sua vida dependesse de uma performance espetacular. Entre elas ainda teve espaço para Fantastic Place, e depois para uma bela canção de “quando eu era criança…” – se alguém souber nome e autor, por favor, entre em contato – antes do encerramento com a sempre bem-vinda Neverland (e que letra belíssima!), numa noite em que talento e simpatia deram o tom de um espetáculo sem igual.

Setlist
1. Easter
2. Hollow Man
3. Instant Karma!
4. You’re Gone
5. Estonia
6. Seasons End
7. The Great Escape
8. Runaway
9. The Model
10. No One Can
11. Maybe I’m Amazed
12. Hard as Love
13. Beyond You
14. Cage
15. House
16. The Sky Above the Rain
17. 80 Days
18. Cloudbusting
Bis
19. Beautiful
20. Fantastic Place
21. Afraid of Sunlight
22. (Desconhecida)
23. Neverland

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