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SWEDEN ROCK FESTIVAL 2022

SÖLVESBORG (SUE) - 8 a 11 de junho de 2022

Por Jayme Alexandre de Lima

Fotos: Mattias Astrom (ma-foto.net)

Com o cancelamento das edições de 2020 e 2021 por conta da pandemia, imagino que o público presente ao Sweden Rock Festival, em algum momento, pensou que não viveria isso novamente – ou, para quem nunca foi, que talvez não tivesse a chance de ter essa experiência. Porém, após três longos anos, finalmente estávamos de volta a esse lugar mágico! Certamente, esse longo hiato e toda a incerteza se o festival realmente aconteceria este ano, fizeram o evento ainda mais especial em 2022.

DIA 1 – quarta-feira, 8 de junho

O festival sempre começa com o warm-up day na quarta-feira, que além de iniciar mais tarde, também não há shows no palco principal (Festival). Por volta das 13h, em uma bela tarde de sol, estávamos reunidos no portão principal aguardando a abertura quando, de repente, os PAs começam a tocar os clássicos Stairway to Heaven e For Those About to Rock (We Salute You). Tanto o público quanto o pessoal do staff se abraçaram emocionados, como se estivessem tirando o peso do mundo dos ombros, pois finalmente as dúvidas e incertezas terminavam. O SRF’22 estava mesmo começando!

A estrutura este ano seguiu com cinco palcos: Festival, Rock, Sweden, Silja e a tenda Rockklassiker, que este ano estava em uma área ampliada. E para dar o pontapé inicial tivemos o VA ROCKS. O power trio sueco formado em 2006 por Ida, Klara e Frida, três meninas que à época tinham apenas 12 e 13 anos, traz aquele rock’n’roll intenso e direto nos moldes de AC/DC, Ramones e The Runaways. Com a saída da baterista Frida em 2021, o posto foi assumido pelo competente Oliver Farkas.

O show começou com Man! I Feel Like A Woman! de Shania Twain nos PAs, exaltando toda a força e protagonismo das mulheres na cena rock e metal (ao contrário do que alguns lacradores de internet insistem em “desinformar” aqui no Brasil). Dava para ouvir a vocalista e guitarrista Ida Vollmer aquecendo a voz com agudos poderosíssimos na lateral do palco e a banda já entrou com The Code of the Road, do excelente último álbum, I Love VA Rocks. O set de 45 minutos foi marcado pela energia da banda, com destaque para a dançante Hit The Road, que fez todo mundo pular.

Em seguida, fomos conferir os veteranos do OVERDRIVE. Esse é um daqueles shows aparecem no Sweden e que jamais imaginaríamos ver um dia. A banda que iniciou suas atividades em 1980 e lançou dois clássicos do heavy metal – Swords and Axes (1983) e Metal Attack (1984) – anunciou que estaria encerrando as atividades, o que fez esse set ainda mais especial.

O show aconteceu no palco da tenda, que estava totalmente renovada este ano, e os suecos chegaram chutando a porta com a acelerada Signs All Over, do álbum Angelmaker (2011). Com um visual bem característico dos saudosos anos 80, Janne Stark, Kjell Jacobsson, Johnny Granström, Kenta Svensson e o excelente vocalista Per “PerilOz” Lengsted mostraram talento e energia de sobra, fazendo clássicos como Breakin’ Out e Dream Away soarem totalmente atuais e mais revigoradas que nunca, combinando perfeitamente com as canções mais recentes como See The Light. Belo show!

De lá fomos conferir o ORBIT CULTURE, que bebe da fonte do ‘Gottemburg Metal’, mas adicionando mais técnica e melodia. Além de puxarem elementos dos conterrâneos do In Flames e At The Gates, faixas como Strangler também trazem uma clara referência ao Metallica, mas tudo sempre de uma forma bem original. E apesar do som baixo no Silja Stage, executaram um set coeso que colocou o público para bangear.

Eis que chega o momento de fazer uma escolha difícil: o veterano JEAN BEAUVOIR, ou Siena Root? Acabamos indo para o hard rock do americano. Ainda bem, porque o show foi impressionante! Jean, que desde 1978 atua na indústria musical seja como multi-instrumentista em diversas bandas, compositor, produtor e empreendedor, começou com a trinca do Crown of Thorns – Are You Ready, Dying For Love e Hike It Up, mostrando que está com a voz perfeitamente em dia.

O cantor disse que fez muitos trabalhos com os Ramones, como a coprodução do hit de mais sucesso da banda, Pet Sematary, que botou fogo na galera que cantou junto de ponta a ponta. Emendou com outra eternizada pelos Ramones e que está na trilha sonora do filme “Escola do Rock”, com Jack Black, a excelente My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes to Bitburg).

O ponto alto veio com Shocker, gravada por ninguém menos que Paul Stanley (como membro do supergrupo The Dudes of Wrath) e lançada na trilha sonora do filme homônimo de 1989. Ao anunciar a música, o cantor brincou com a galera dizendo “Vocês assistiram ao filme? Sim, é um bom disco!”. E como Beauvoir também colaborou com o KISS na época de Asylum, emendou com a fantástica Uh! All Night, para alegria dos fãs do quarteto mascarado de Nova Iorque ali presentes.

Antes do encerramento com I’m On Fire, Beauvoir nos brindou com outra trilha sonora que se tornou um clássico dos 80’s: Feel The Heat, de Stallone Cobra.

E então chega um dos shows mais esperados por este que vos escreve: EVERGREY! Os suecos, que estão em turnê para promover seu 13º álbum, o excepcional A Heartless Portrait (The Orphéan Testament), dessa vez tocaram no palco Rock, o segundo maior e com o melhor som.

Começaram com Save Us, música que também abre o novo play, já mostrando um peso fora do comum. E por falar em peso, a sequência veio com o petardo Weightless, da obra-prima The Atlantic (2019). O vocalista e guitarrista Tom Englund estava visivelmente emocionado com a resposta do público, que seguiu cantando a plenos pulmões o coro do início de Mindwinter Calls, mesmo depois do fim da música. Simplesmente de arrepiar!

É incrível como alguns álbuns vão se tornando mais fortes e impactantes a cada audição e é exatamente o que acontece com A Heartless Portrait. A emocional Distance levou alguns ali presentes às lágrimas, seguida por Where August Morns, Blindfolded e a destruidora My Allied Ocean. Já Eternal Nocturnal, do ótimo Escape of The Phoenix (2021), ficou ainda mais forte ao vivo. O show já caminhava para a parte final, quando vieram as duas únicas mais antigas, as intensas A Touch of Blessing e Recreation Day, ambas muito comemoradas pelos fãs.

O encerramento veio com King of Errors, música que marca o início da fase atual da banda e o retorno de Henrik Danhage e Jonas Ekdahl. Uma apresentação de tirar o fôlego, que parece ter passado em 2 minutos, tamanha a conexão com o que estava acontecendo ali. E é impressionante a versatilidade do repertório da banda que, mesmo com um set que priorizou músicas mais novas, deixando de lado os clássicos que conquistaram os fãs mais antigos, deixou todo mundo extasiado.

Em seguida, fomos conferir os alemães do VICTORY, com seu hard’n’heavy de primeiríssima. O guitarrista Herman Frank (ex-Accept) e companhia fizeram um show que surpreendeu até quem já tinha expectativas elevadas. Set list e execução perfeitas que cobriu todas as fases da banda, desde a abertura com a energética Are You Ready, de Don’t Get Mad… Get Even (1986), até as recém-lançadas Love & Hate e Gods of Tomorrow, música que dá nome ao álbum mais recente, lançado em 2021. O ponto alto foi com a excelente On The Loose, e o encerramento com o hardão ardido Rock’n’Roll Children Forever.

Chegava a hora de conferir o primeiro headliner da edição de 2022: MEGADETH! Hangar 18 certamente está entre as músicas mais poderosas para abrir um show de todos os tempos. Em um belo palco Dave Mustaine, nosso brazuca Kiko Loureiro, Dirk Verbeuren e James LoMenzo entraram com sangue nos olhos emendando a acelerada The Threat Is Real e Dread And The Fugitive Mind.

Megadeth | Foto: Dennis Barbosa

A excelente Angry Again, trilha sonora do filme “O Último Grande Herói” (1993), com Arnold Schwarzenegger, foi a grande surpresa do set. A bateria foi colocada bem no alto do palco que contou com 6 telas retangulares de cerca de 3 metros de altura que compunham um visual incrível com a iluminação. A mascote Vic Rattlehead – com o brasileiro Rafael Pensado por trás da máscara – fez sua primeira entrada durante Conquer or Die!, do álbum Dystopia (2016).

Mustaine parecia bem feliz por estar ali e interagiu bastante com o público que vibrou o show inteiro, especialmente nos clássicos como na trinca Symphony of Destruction, Peace Sells (que contou com mais uma entrada da mascote Vic, desta vez caracterizada de político) e o gran finale com o hino Holy Wars… The Punishment Due. Ao se despedir, Mustaine disse: “Vocês foram ótimos… nós fomos o Megadeth!”. Ver caras como ele, que participaram da criação do nosso estilo de vida, fazendo um p*ta show como esse aos 60 anos de idade nos faz pensar o quanto as bandas clássicas fazem e vão fazer cada vez mais falta quando decidirem aposentar as palhetas e baquetas. Nos resta aproveitar cada oportunidade de vê-los em ação.

DIA 2 – quinta-feira, 9 de junho

Às 11h30 da manhã do segundo dia, estávamos devidamente posicionados no Silja Stage para conferir os suecos do MEMORY GARDEN, nome inspirado na música dos ícones do doom americano Trouble. Como esperado, fazem jus ao estilo, mas também trazem interessantes elementos de power metal para seu som. Com um set que cobriu os seus seis registros de estúdio, priorizaram as canções do último álbum, 1349, lançado no final do ano passado. Os vocais melódicos e cheios de feeling de Stefan Berglund lembram muito o estilo de Messiah Marcolin (ex-Candlemass) e Robert Lowe (ex-Candlemass e Solitude Aeturnus), e os inspirados riffs vem com peso extra ao vivo.

Depois de esquentar os motores com o Memory Garden, tivemos mais uma escolha difícil para fazer: Eclipse ou TEN YEARS AFTER? Seguimos com o último, afinal, quantas outras oportunidades de vermos esse ícone do blues rock que completa nada menos que 56 anos em 2022? A formação atual conta com os membros originais Ric Lee (bateria) e Chick Churchill (teclados), além do genial Colin Hodgkinsin (baixo), os três no auge dos seus 76 anos de idade! Para fechar o quarteto, o talentosíssimo Marcus Bonfant que cumpre com louvor a árdua tarefa de substituir nas guitarras e vocais o ícone Alvin Lee, falecido em 2013.

A banda ficou mundialmente famosa após uma apresentação explosiva no Woodstock, em agosto de 1969, em que uma performance de mais de 9 minutos do hit I’m Going Home mudou para sempre a trajetória do grupo levando-os ao estrelato. Porém, em 1974 a banda se desfez para retomar as atividades apenas em 1988. O show foi algo simplesmente magnífico, hipnotizante. Uma aula de musicalidade e feeling em que cada canção parecia estar sendo criada ali, naquele instante, com improvisos em que os instrumentos se conectavam de uma maneira orgânica. A energia deste show mais uma vez comprova que envelhecer é, sim, opcional. Difícil escolher destaques, mas o medley I’m Going Home/ Blues Way Shoes / Hound Dog, a viajante Love Like a Man e o hit I’d Love to Change the World, do platinado álbum A Space In Time (1971), certamente ficarão marcadas na memória do público.

O próximo show foi da Metal Queen, LEE ARON, que começou bem morno e, quando percebemos que não ia mesmo engatar a quarta, saímos para ver o rolo compressor germânico do SODOM no Rock Stage. Junto com Kreator, Destruction e Tankard, o Sodom forma o ‘Big 4’ do thrash alemão. Assim, hinos do estilo, como Nuclear Winter e The Saw Is The Law fizeram com que fosse inevitável rolar um revigorante viking mosh pit. Em Iron Fist, tradicional cover do Motörhead, Tom Angelripper posicionou seu microfone acima da altura de sua cabeça e apontado para baixo, da mesma forma emblemática que o saudoso Lemmy Kilmister sempre o fez.

Do mais puro thrash metal, fomos para o mais suave AOR dos ingleses do 10cc, que fizeram uma bela apresentação no Festival Stage sendo o óbvio ponto alto o megahit I’m Not In Love.

Tom Angelripper (Sodom)

Em seguida, tivemos mais uma aula de heavy metal com o ACCEPT. Com um belo backdrop com a capa do último disco, o ótimo Too Mean to Die, os alemães entraram com a faixa que abre o álbum, Zombie Apocalypse. Confesso que fiquei um pouco ressabiado, já que a formação atual da banda conta apenas com um membro da formação clássica, o guitarrista Wolf Hoffmann. É claro que Peter Baltes e companhia fazem falta, mas o que vimos foi um atropelo, um show irretocável que percorreu a extensa discografia da banda com maestria, desde os hits mais novos como Teutonic Terror, que arrebentam demais ao vivo, passando por faixas inusitadas como Objection Overruled, até os clássicos obrigatórios. A configuração com três guitarras funcionou demais! Aliás, caro(a) leitor(a), se alguém algum dia alguém te perguntar o que é heavy metal, simplesmente coloque músicas como Fast As A Shark, Metal Heart e Balls to the Wall para rodar. Não há forma mais clara de explicar.

Philip Shouse, Christopher Williams e Wolf Hoffman (Accept)

Mark Tornillo se consolidou no posto de vocalista dessa instituição metálica, substituindo em alto estilo o carismático Udo Dirkschneider. O final foi uma verdadeira festa no ensolarado entardecer sueco com I’m A Rebel. Foi um daqueles shows que lavam a alma!

A quantidade de pessoas neste dia foi realmente algo muito acima de qualquer outra edição do Sweden Rock. Estima-se que havia mais de 45 mil pessoas, enquanto que antes de ser vendido à gigante empresa de eventos Live Nation, o festival vendia apenas 30 mil ingressos. Mesmo tendo ampliado a área, essa lotação incomodou o público que enfrentou grandes filas para comprar comida e bebida.

Mark Tornillo, e Wolf Hoffmann (Accept)

De Boston, o DROPKICK MURPHYS levou seu punk-rock celta para terras suecas. Com uma inusitada fórmula musical que mistura Oi! inglês, hardcore americano e a música tradicional irlandesa com instrumentos típicos como banjo, mandolin, gaita de fole e até acordeão (está aí uma coisa que jamais pensei em ver na vida, alguém bangear tocando uma sanfona), a banda composta por nada menos que sete integrantes fez uma grande festa para as cerca de 15 mil pessoas. Estas pularam, dançaram e cantaram ao som de hits como The Boys Are Back, Rose Tatoo e I’m Shipping Up To Boston, assim como nas novas Queen of Suffolk County e L-EE B-O-Y. Ken Casey disse em um momento do show que se sentia muito grato por poder ver seres-humanos na frente de um palco novamente. E nós também por estarmos ali!

O VOLBEAT foi o headliner desta noite e, com seu característico estilo “Metallica encontra Elvis Presley”, os dinamarqueses mostraram mais uma vez que merecem todo o crescimento que tiveram ao longo dos anos. Com uma impressionante produção de palco, apesar do som baixo, fizeram uma apresentação que agradou até quem não é fã da banda.

Com sucessos como Lola Montez, Sad Man’s Tongue e Evelyn, Michael Poulsen, vocalista, guitarrista e líder da banda conduziu o público para uma divertida viagem pela discografia do grupo. Na nova e feliz Wait A Minute My Girl, dois barbudos à la ZZ Top, com paletós prateados entraram para os solos de piano e saxofone. Shotgun Blues e Seal The Deal mostraram todo o peso da banda ao vivo e, após o medley com Slaytan / Hallelujah Goat / I Only Wanna Be With You, Poulsen dedicou a poderosa Becoming ao recém falecido vocalista do Entombed, Lars-Goran Petrov, dizendo que ele foi Lemmy sueco.

Antes da excelente For Evigt disseram que a música não estava no setlist e que não a ensaiaram. Poulsen brincou falando que a plateia é muito mimada, atendendo assim ao pedido do público. A saideira ficou por conta de Still Counting, em que a banda trouxe umas 10 crianças para o palco, que agitaram e cantaram a música inteira. É muito legal ver o quanto o rock e o metal são atemporais e democratizados na Suécia. Em praticamente todos os shows, sempre vemos pessoas desde 4 até mais de 70 anos que curtem a música e o espetáculo com a mesma intensidade, sem os estereótipos tão presentes em nossa cultura.

Michael Poulsen (Volbeat)

Mas a noite ainda reservava mais um grande nome: NIGHTWISH. A bela e talentosíssima Floor Jansen deu um show à parte. Com uma presença hipnotizante conduziu a plateia em um tour pela carreira da banda em um palco com muitas luzes e pirotecnia. Aliás, durante o hit Nemo, fiquei pensando como alguém consegue cantar com aquela quantidade de fumaça.

O repertório sem os tradicionais vocais guturais contrastando com as partes líricas foi uma boa escolha. Particularmente, não curto muito essa linha de voz “briga e faz as pazes”, como diz um amigo meu de Curitiba. O ponto alto, sem dúvida, foi Ghost Love Score, em que Floor alcança notas altíssimas em um final apoteótico que arrepiou tudo! Minha intenção inicialmente era apenas conferir umas três músicas, mas acabei vendo o show inteiro e a banda ganhou mais um fã naquela noite.

Floor Jansen (Nightwish)

DIA 3 – sexta-feira, 10 de junho

Durante o festival, normalmente dormimos 4 a 5 horas por noite e no terceiro dia o corpo já começa a pedir arrego. Independente do cansaço naquela nublada manhã, estávamos em frente ao palco Rock para começar a maratona com a apresentação dos finlandeses do SONATA ARCTICA, que entraram no palco ao som de Always Look On The Bright Side Of Life ecoando nos PAs e já começaram mandando ver com The Wolves Die Young. Aqui está um representante daquela prolífica leva de bandas de power metal que estouraram no início da década de 90 e que soube evoluir bem, saindo dos clichês que marcaram o estilo. Um bom exemplo disto é a ótima I Have a Right, de Stones Grow Her Name (2012), em que Tony Kakko fez uma bela introdução à capela. Voltamos para 1999 com a empolgante Kingdom For A Heart, seguida da lindíssima Tallulah, com uma inspirada performance de Kakko.

Visivelmente felizes por estarem ali a banda seguiu com Fullmoon e, antes da saideira, Don’t Say A Word, o vocalista agradeceu por estarmos mantendo nosso estilo de música vivo. Baita show para dar aquela necessária carga extra de energia.

ERIC GALES, prodígio da guitarra que gravou seu primeiro álbum aos 16 anos de idade, colocou os vikings para chacoalhar o esqueleto e mostrou porque é aclamado como um dos maiores nomes do blues rock atual. Seu mais recente disco, The Crown, o décimo nono de sua carreira, foi produzido por ninguém menos que Joe Bonamassa e traz canções que exploram as experiências pessoais do artista durante os anos de abuso de substâncias químicas e suas expectativas com a fase sóbria que começou há cinco anos.

Ao final do show, Eric disse que normalmente as pessoas ficam pedindo para ele tocar Jimi Hendrix e agradeceu pela plateia do Sweden Rock ter tido a “paciência” de deixá-lo executar seu set com as músicas próprias até aquele momento, em que ele mandou uma versão incendiária do clássico Voodoo Child, do mestre Hendrix.

Com o belo sol que felizmente abriu, o D-A-D lotou o palco Festival, trazendo uma produção que lembra um circo ou um parque de diversões, com a bateria rosa-shock dentro de um carrossel. Destaque para a rocker Sleeping My Day Away, que fechou a apresentação e fez a alegria dos fãs.

Outra batida de duas bandas que queria muito ver. OPETH e KINGDOM COME. O plano era ver a primeira música do Opeth e, dependendo da energia do show, ir para o Kingdom Come.

O palco Rock estava abarrotado para receber o Opeth, que começaram com a sensacional Hjärtat Vet Vad Handen Gör, versão em sueco de Heart In Hand, do seu mais recente álbum, In Cauda Venenum – sim, eles gravaram uma versão do disco inteiro em inglês e outra em sua língua nativa.

Mikael Åkerfeldt, como sempre entrou em seu melhor estilo Tony Iommi dos anos 70, com bigodão e jaqueta de couro com franjas. A banda, completada pelo experiente guitarrista Fredrik Åkesson (ex-Talisman e Arch-Enemy), Martin Mendez (baixo), Martin Axenrot (bateria) e Joakim Svalberg (teclados), tem uma precisão impressionante na execução das suas complexas e intensas composições. Apesar do impacto inicial causado pelo show, corri para o Kingdom Come no palco Sweden.

Quando cheguei, pensei “quem é esse cara na bateria no lugar do (James) Kottak?!”. É, porque a figura que estava ali nem de longe parecia o carismático e enérgico baterista que já tive o privilégio de ver muitas vezes antes, seja com o Scorpions ou com o próprio Kingdom Come. Visivelmente abalado, sem energia, meio fora do ar, Kottak foi incapaz de tocar as músicas no tempo certo, fazendo com que a banda tivesse que desacelerar um absurdo o andamento. De verdade, em alguns momentos dava a impressão que a música ia parar de tão arrastada que estava. Como um fã, foi muito triste ver isso, ainda mais sabendo do histórico de Kottak com problemas com drogas e álcool. Enfim, depois de assassinarem a maravilhosa Do You Like It, resolvi correr de volta para o Opeth, torcendo para que Kottak se recupere do que quer que seja que o deixou nestas condições.

Decisão acertada, pois pude conferir o banho de melodia, peso e criatividade das canções do Opeth, como The Drapery Falls e In My Time of Need. Como o próprio líder da banda comenta, suas músicas não foram feitas para se colocar enquanto faz alguma outra coisa. Elas demandam atenção para que o ouvinte possa absorver as várias camadas e sentimentos que provocam.

Mikael Åkerfeldt (Opeth)

De lá fomos para mais uma aula com um dos maiores nomes do heavy metal mundial, os britânicos do SAXON. Com o backdrop com a capa de seu penúltimo disco, o ótimo Thunderbolt, Biff Byford e companhia entraram com tudo com Motorcycle Man, do clássico Wheels of Steel (1980), emendando com Battery Ram e a maravilhosa Wheels of Steel, sem dar tempo pra galera respirar.

A empolgação não diminuiu com a mais recente They Played Rock’n’Roll, seguida por mais um dos muitos clássicos que marcaram a vida dos bangers do mundo todo, Strong Arm of the Law, faixa-título do outro álbum também lançado em 1980 (que ano!). Já com a plateia nas mãos, a banda mandou outros dois clássicos para êxtase dos fãs: Heavy Metal Thunder e Denim And Leather. E assim a aula-magna seguiu, mesclando faixas mais antigas, como a obrigatória Crusader, com outras mais novas como Thunderbolt. Um dos momentos mais emocionantes foi durante a fantástica Broken Heroes, do irretocável Innocence Is No Excuse (1986). O céu agora totalmente aberto e ensolarado completava o cenário de uma experiência que, enquanto a vivíamos, já sabíamos que se tornaria inesquecível.

Ao anunciar a linda And The Bands Played On, um verdadeiro tributo ao nosso estilo de vida e aos festivais de rock ao redor do mundo, Byford citou ícones do gênero como Riot, April Wine, Rainbow e Twisted Sister. Realmente, temos o privilégio de viver a era dos gigantes. E, para fechar com chave de ouro, nos brindaram com 747 (Strangers In The Night) e Princess of The Night. Curioso não terem tocado nenhuma música do seu mais recente lançamento, Carpe Diem, e terem usado o backdrop do disco anterior. Mas, independente de qualquer coisa, foi simplesmente perfeito.

Byff Byford (Saxon)

Seguimos para o palco Rock para o show do THE HELLACOPTERS, que abriu a apresentação com a nova Reap A Hurricane, que traz fortes influências de The Beatles. A formação atual conta com, além do líder e multi-instrumentista Nicke Andersson (ex-Entombed, guitarra e vocais), Matz Eriksson (bateria), Anders Lindström (teclados, piano), Dolf DeBorst (baixo) e a volta do guitarrista Andreas Tyrone “Dregen” Svensson (Backyard Babies, Michael Monroe), que aliás não deixou que o pé quebrado tirasse sua empolgação e energia no palco.

Fazendo um rock’n’roll direto, com influências de KISS e Ramones, a banda se tornou um ícone da cena sueca na década de 90 e continua fazendo muita música boa e angariando novos fãs. Os pontos altos foram a deliciosa No Song Unheard, Hopeless Case of a Kid In Denial, ambas de High Visibility (2000), e I’m In The Band. Agora, uma das coisas mais inusitadas que eu já vi na minha vida de shows foi a formação de um mosh pit, muito mais intenso do que o do Sodom, em pleno show do The Hellacopters! É o poder da música…

Nicke Andersson e Dregen (The Hellacopters)

Uma das mais aguardadas atrações do festival era o MERCYFUL FATE, liderada pelo icônico Kind Diamond. Bem antes do show o público já se aglomerava em frente ao palco Rock, coberto por uma gigante cortina preta com o logo da banda. Pontualmente à meia-noite, a cortina cai, revelando um palco com escadas como se fossem de mármore, velas, pentagramas e tudo mais que adorna o visual da banda desde o início da década de 80.

Mercyful Fate

Eis que surge uma figura macabra, com um sobretudo vermelho por trás da fumaça no alto da estrutura montada, enquanto os arrepiantes acordes introdutórios da faixa The Oath tomam a noite. A teatralidade de King Diamond parece ter atingido seu ponto máximo nesse show, tamanho os cuidados com os detalhes visuais que formam uma atmosfera imersiva em que a música parece ser a trilha sonora para um filme de terror.

A banda composta por nada menos que Hank Shermann (guitarra), Joey Vera (baixo, Armored Saint e Fates Warning), Mike Wead (guitarra) e Bjarne T Holm (bateria), entra com o riff cortante fazendo todo mundo pular naquela fria madrugada! Na sequência veio a primeira música nova depois de 23 anos, que King anuncia como ainda não terminada: The Jackal of Salzburg, que traz aquela típica atmosfera misteriosa intercalada com riffs pesados e os legendários falsetes do Rei. Fora esta, todas as músicas do set foram dos primeiros álbuns – Melissa, Don’t Break The Oath e The Beginning –, que influenciaram toda uma geração de bandas como Metallica, Slayer, Kreator, Exodus e Testament.

Clássicos como A Dangerous Meeting, Curse of the Pharaos, Evil e Come To The Sabbath foram de tirar o fôlego! Para mim, faltaram Gypsy e o rolo compressor The Uninvited Guest, de Into The Unknown (1996), que marcou a passagem da banda no Brasil para a terceira edição do saudoso Monsters of Rock.

DIA 3 – sábado, 11 de junho

No último dia sempre bate aquela nostalgia antecipada por saber que só daqui um ano viveremos toda essa emoção novamente. Mas exatamente por isso, aproveitamos cada segundo do dia, que começou um show animal do SORCERER, banda de traz um heavy metal com uma pegada à la Candlemass de altíssima qualidade. Começaram com as primeiras faixas do mais recente álbum, o excelente Lamenting Of The Innocent, já mostrando o peso da banda ao vivo e todo o talento do experiente vocalista Anders Engberg (220 Volt, ex-Lion’ Share).

Com um set que cobriu todos os álbuns lançados, ficamos na expectativa de tocarem alguns dos excelentes covers que gravaram durante a pandemia, como Gates of Babylon (Rainbow), ou When Death Calls, clássico da era Sabbath com Tony Martin, o que não rolou, mas não tirou o brilho da apresentação.

Em seguida fomos conferir a apresentação de uma banda nova que tem dado o que falar nos últimos meses. O NESTOR, que foi inicialmente formado em 1989, quando os integrantes tinham entre 14 e 16 anos, não foi para frente. Porém, se reuniram no ano passado e lançaram o fantástico Kids In A Ghost Town, trazendo um hard rock de altíssima qualidade, com refrãos grudentos e riffs cativantes.

Como a proposta da banda hoje é trazer de uma forma bem humorada a atmosfera da década de 80, muitos (eu, inclusive) acabamos julgando o livro pela capa. Os exageros visuais e até mesmo o nome da banda me fizeram não ter prestado muita atenção no trabalho dos caras até então, mas logo no primeiro acorde de On The Run eu me rendi e percebi que a música fala mais alto que qualquer imagem. Que som fantástico!

Os integrantes realmente se vestem de forma bem caricata e extravagante, mas dá para perceber o quanto se conectam com a música que fazem com maestria e talento, especialmente o vocalista Tobias Gustavsson, que canta um absurdo!

Do hard rock 80’s para a instituição do punk rock/rockabilly californiano, SOCIAL DISTORTION. A lotação no Festival Stage era impressionante e os caras entraram ao som de Gimme Shelter nos PAs e já começaram com a excelente Bad Luck, seguida de Bye Bye Baby, ambas de Somewhere Between Heaven And Hell (1992). So Far Away colocou todo mundo para dançar, e o set seguiu com o astral lá em cima com os grandes hits da banda com Sick Boys e a sensacional Story of my Life. O fechamento veio com Ring of Fire, cover de Johnny Cash.

Os veteranos do NIGHT RANGER ensinaram como se faz um show de hard rock. Que energia Jack Blades (baixo e vocais), Kelly Keagy (bateria e vocais), Brad Gillis (guitarra), Eric Levy (teclados) e Keri Kelly (guitarra) passaram para as milhares de pessoas presentes nesse impecável show. Abriram com (You Can Still) Rock In America e passaram pelos grandes sucessos da banda, além de tocarem duas do maravilhoso álbum de estreia do supergrupo Damn Yankess, formado por Blades, Tommy Shaw (Styx) e Ted Nugent: Coming of Age e High Enough – este, um dos momentos mais emocionantes desta edição do Sweden Rock.

Fecharam com o megahit Sister Christian, em que o Kelly Keagy mostrou que também é um ótimo vocalista, e Don’t Tell Me You Love Me. Após os agradecimentos efusivos da banda ao público, Jack Blades seguiu no palco vibrando com a galera, nitidamente emocionado por estar ali. Que cena bacana…

Jack Blades (Night Ranger)
Brad Gillis (Night Ranger)

Na sequência HARDCORE SUPERSTAR fez o que talvez tenha sido o show mais animado de todo o festival, com destaque para os sucessos Last Call For Alcohol e We Don’t Celebrate Sundays, fechando com a ótima You Can’t Kill My Rock’n’Roll. Os caras realmente se tornaram grandes em sua terra natal e possivelmente serão headliners do SRF em um futuro breve.

Vic Zino e Jocke Borg (Hardcore Superstar)

Deu para dar uma passada no show do WALTER TROUT que agitou a galera no Silja Stage com seu blues rock de primeira e sua voz rasgada. Ainda passamos pelo palco Rock, onde o WITHIN TEMPTATION estava detonando com uma produção de cair o queixo. Nem no show do Slayer em 2019 eu vi tanto fogo no palco como ali. Realmente impressionante! Nesta via sacra, ainda deu tempo de dar uma rápida conferida na festa promovida pelo lendário MICHAEL MONROE, que parece um adolescente de 16 anos, tamanha a energia no palco, e na talentosa ROSALIE CUNNINGHAM com seu retro-rock de muita qualidade.

Within Temptation – Palco 3

E, para fechar este ano tão especial do Sweden Rock, tínhamos nada menos que GUNS N’ROSES. A banda atrasou meia hora, algo bastante incomum ali, e recebeu muitas vaias do público por conta disso. Especialmente depois de 4 dias de maratona, atrasar é uma baita falta de respeito. Às 22h30, a banda entrou com a sensacional It’s So Easy, do álbum que marcou toda uma geração, Appetite For Destruction (1987). De cara, deu para notar o andamento bem mais lento do que o normal. Seguiram com Mr. Brownstone, com Slash, Duff e Cia. mandando bem, mas ainda com o tempo bem estranho.

A sequência veio com Chinese Democracy e o cover do Velvet Revolver, Slither, todas bem arrastadas e sem energia. Nessa altura, o público frustrado começou a debandar, algo inédito nas minhas 14 edições de Sweden Rock. E o show continuou com grandes sucessos, como Welcome To The Jungle e outros covers como Back In Black (AC/DC), com zero interação entre os integrantes. Parecia que estavam cumprindo um trabalho totalmente burocrático.

Guns N’ Roses | Foto: Fernando Jorge
Guns N’ Roses | Foto: Fernando Jorge

A quantidade de solos e enrolações intermináveis no meio das músicas começou a irritar a maioria das pessoas que seguiram saindo durante a apresentação. Inclusive nós, depois de uma hora, seguimos rumo à saída. O frio, o cansaço e as inevitáveis dores no corpo faziam não valer a pena estar ali para ver uma performance tão sem sal como aquela. Como estávamos em um grupo, esperamos até o final do show que demorou duas horas e meia. Até para os fãs mais ardorosos, foi uma experiência no mínimo frustrante.

E assim foi mais uma edição do Sweden Rock Festival, quatro dias com pessoas de todo o mundo, de todas as idades, que compartilham a mesma paixão pela música. Essa (re)conexão carrega as baterias para todo o ano! E seguimos já contando os dias para o SRF’23…

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