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#TBT especial: “The Legacy”, álbum de estreia do TESTAMENT, completa 35 anos

Influenciado pelo Punk Rock, pelo Heavy Metal tradicional e pela New Wave of British Heavy Metal, o Thrash Metal surgia e bombava mundo afora na primeira metade da década de 80. Nos Estados Unidos, o gênero efervescia e pirava a cabeça de jovens rebeldes e famintos por peso e violência sonora. De um lado, Los Angeles atacava com o macabro Slayer e com os rivais Metallica e Megadeth. Do outro, a ofensiva de Nova York vinha com Anthrax, Overkill e Nuclear Assault. O Arizona respondia com Flotsam and Jetsam, Atrophy e Sacred Reich. No entanto, a cena mais prolífica do país era a da Bay Area de São Francisco. Daquela região surgiam nomes como Exodus, Vio-Lence, Forbidden, Defiance, Hirax, Lääz Rockit, Trauma, Sadus, Mordred, Hexx, Heathen, Ulysses Syren, a molecada do Death Angel, o próprio Metallica, que saiu de LA e se transferiu para São Francisco, e também um tal de Legacy.

 

“Hoje esse álbum é uma referência do estilo” – CHUCK BILLY

 

O Legacy foi formado em Berkeley, Califórnia, em meados de 1983, pelos primos guitarristas Eric Peterson e Derrick Ramirez. Completada por Steve “Zetro” Souza no vocal, Greg Christian no baixo e Louie Clemente na bateria, essa primeira formação da banda durou apenas até 1985, quando Clemente e Ramirez decidiram pular fora. Para a bateria, chegou Mike Ronchette; para a guitarra, um garoto prodígio de nome Alex Skolnick, que havia pego aulas com o mesmo professor de Kirk Hammett (Metallica, ex-Exodus), Steve Vai, Rick Hunolt (Exodus), Larry LaLonde (Possessed, Primus) e Phil Kettner (Lääz Rockit): ninguém menos do que Joe Satriani! Naquele mesmo ano, o Legacy lançou uma demo de quatro músicas, na qual principalmente Skolnick surpreendia com habilidades que não eram comuns para um guitarrista de apenas 17 anos. “Eu ainda estava na escola. Tinha muito que crescer como pessoa e adquirir muita confiança como músico para que tudo aquilo realmente funcionasse”, confessa.

Legacy, o início de tudo

O ano de 1986 foi de transformações para o Legacy. Ronchette vazou e Clemente retornou. Por sua vez, Zetro aceitou o convite da galera do Exodus para substituir o bonachão Paul Baloff, que havia gravado o impactante debut Bonded By Blood. Para não dar mancada com seus ex-companheiros, o próprio Zetro indicou para seu lugar o ‘indião’ Chuck Billy, que vinha de uma banda local chamada Guilty, onde, curiosamente, apenas tocava guitarra. Quanto a demo do Legacy, o burburinho causado pela força de suas músicas chegara aos ouvidos do casal Jon e Marsha Zazula, da Megaforce Records. E eles apostaram suas fichas na banda e a contrataram para a gravação de seu primeiro álbum.

Tudo parecia estar caminhando bem, no entanto, enquanto a banda gravava o material de estreia, a equipe descobriu que outra de gênero distinto havia registrado o nome Legacy. Não podendo mais usá-lo, Peterson, Billy, Skolnick, Christian e Clemente decidiram que pelo menos o álbum iria sim ser batizado com o título The Legacy. Agora, o quinteto passava a ser identificado como Testament. O novo nome foi uma sugestão do amigo Billy Milano, vocalista do S.O.D., projeto de hardcore que tinha também em suas fileiras Charlie Benante e Scott Ian, e também o ex-companheiro da dupla no Anthrax, Dan Lilker, que depois formaria o Nuclear Assault, além de se aventurar com um sem número de bandas.

Gravado no Pyramid Sound Studios, localizado em Ithaca, Nova York, e masterizado no mesmo estado, no Frankford Wayne Mastering Labs, The Legacy foi produzido pelo ainda iniciante Alex Perialas. “Foi uma grande experiência! Eles era grandes músicos e trabalhavam duro pelo objetivo”, declarou Chuck Billy à ROADIE CREW (#144). “O orçamento era pequeno, tal como ocorre atualmente. Mesmo assim, encaramos o trabalho e hoje esse álbum é uma referência do estilo”.

The Legacy foi forjado no orgulho de seus integrantes pela Bay Area e na raiva do que era produzido em Los Angeles durante aqueles dias. “Queríamos ser violentos, fazer música agressiva e ouvir guitarras distorcidas e baterias rápidas. Não suportávamos os posers e o Glam Metal! Eu preferiria ouvir vinte bandas soando como o Metallica a ouvir todos aqueles grupos posers de Hard Rock fazendo a mesma porcaria na TV. Era uma visão muito fechada, mas vivíamos aquilo intensamente. Por ser tão restrita ao Thrash, a Bay Area ganhou vida própria e está na história como um dos maiores movimentos da história do Metal”, constatou Billy.

Com distribuição mundial da Atlantic Records, The Legacy foi lançado no dia 21 de abril de 1987. Esteticamente, o álbum contava com arte de capa de Alexis Olson, sob fotografia e efeitos especiais de Dan Muro. Já o logotipo do novo nome Testament, era de concepção do próprio Eric Peterson, porém desenvolvido por Bill Benson. A maioria das músicas do disco davam créditos a Steve “Zetro” Souza entre seus compositores. Quanto aos temas abordados em The Legacy, eles variavam entre ocultismo, feitiçaria, guerra nuclear e destruição global. O carro-chefe do disco foi a música de abertura, a ultra-agressiva Over the Wall, que teve seu videoclipe exibido na MTV.

Apesar de a produção ter ficado um tanto quanto magra e abafada, as músicas brilhavam e mostravam uma banda afiada em termos de técnica e de senso melódico. Clemente não era tão exímio quanto seus parças, mas tinha sede de agressividade e sentava à mão na base da raça. Greg Christian compensava dando propulsão à cozinha e uma competente cobertura para que Peterson e Skolnick despejassem suas rajadas de riffs e solos instigantes. De sua parte, Billy mostrava que Zetro provou ser um amigo leal ao indicar à seus ex-companheiros a melhor opção para substituí-lo. “Esse primeiro disco foi complicado porque não tínhamos experiência. Todos os músicos do meu círculo de amizades tinham, no máximo, gravado demos. Ninguém tinha pisado num estúdio profissional”, recorda Skolnick.

 

“The Legacy foi como um batismo” – CHUCK BILLY

 

Na edição #80 da ROADIE CREW, Billy também comentou sobre a inexperiência da banda em estúdio. “Foi nossa primeira vez gravando um álbum em estúdio profissionalmente. Éramos todos muito jovens, e o Alex tinha apenas dezessete anos. Aquela época é memorável e foi muito divertida para nós, pois estávamos com o Alex Perialas no estúdio, o mesmo que trabalhou com o S.O.D. e o Anthrax. Naqueles dias, o Speak English or Die, do S.O.D., era um álbum importantíssimo para a cena do Metal, e o fato de estarmos trabalhando com pessoas que estavam envolvidas nele nos deixou muito empolgados. Não conseguíamos acreditar naquilo tudo. Estávamos também trabalhando com o Johnny Z., da Megaforce, que foi simplesmente o cara que descobriu o Metallica. Foram dias ótimos e todos nós tínhamos grandes expectativas para um enorme futuro do Testament”.

Chuck Billy (vocal), Greg Christian (baixo), Alex Skolnick (guitarra), Louie Clemente (bateria) e Eric Peterson (guitarra): se não a mais técnica, a mais clássica formação do Testament

Desde sua estreia fonográfica, o Testament passou a ser comparado por muitos fãs e críticos com o Metallica. A banda nunca escondeu ter sido influenciada por seus contemporâneos, porém jamais se acomodou em copiar a mesma fórmula. Pelo contrário, sempre soou mais técnica, nunca abriu mão do peso e nem foi infectada pelo vírus da “sonoridade mais comercial”. Billy comenta: “Mesmo que tivéssemos o Metallica como ídolos, não queríamos copiá-lo. Acho que isso fez daquela cena algo especial: seguíamos uma atitude, não um estilo”. E o grandalhão ressaltou que as demais bandas da Bay Area tinham suas peculiaridades: “Se fôssemos dez iguais ao Metallica, nada teria sido especial. Mas cada banda tinha seus próprios fãs, que amavam o som que cada uma fazia”.

Falando sobre as músicas de The Legacy, agressividade absoluta, velocidade e criatividade são qualidades notórias nas rasteiras The Hauting, Raging Waters, C.O.T.L.O.D. (Curse of the Legions of Death), First Strike is Deadly e Do Or Die. Entretanto, os grandes destaques são a mencionada e visceral Over the Wall; a hipnotizante Apocalyptic City, que inicia com dedilhados sombrios, algo que se tornaria trivial nos álbuns do Testament; Alone in the Dark, com seu refrão diferenciado, impossível de sair da mente a cada audição; e (a minha preferida) a obscura Burnt Offerings.

A recepção para The Legacy foi bastante positiva. Entre junho de 1987 a abril de ’88, o Testament caiu na estrada para uma turnê mundial para divulgar o disco. Nos Estados Unidos, o quinteto abriu para o Anthrax, que fazia a divulgação de seu elogiado Among the Living. O grupo também tocou com o Overkill e depois com o Megadeth. Depois disso, foi uma das atrações do lendário “Dynamo Open Air” e sua apresentação rendeu o EP ao vivo Live at Eindhoven. Em seguida, o grupo deu sequência à sua primeira turnê europeia, reencontrando-se com o pessoal do Anthrax. Durante esse período excursionando pelo mundo, o Testament começou a compor as músicas que fariam parte de seu segundo álbum, The New Order. Mas isso é outra história…

Olhando para o passado,  Billy analisa o primeiro álbum do Testament: “The Legacy foi como um batismo. Estávamos muito empolgados com tudo aquilo”, recorda. “Era aquele sentimento de conseguir realizar o que você tinha sonhado”.

A importância de The Legacy para o metal é tamanha, que Gary Holt (Exodus, ex-Slayer), um dos maiores guitarristas do gênero, o aponta, junto de Bonded By Blood (Exodus), Ride the Lightning (Metallica), Forbidden Evil (Forbidden), The Ultra-Violence (Death Angel) e Eternal Nightmare (Vio-Lence), como um dos grandes destaques que exemplificam o que é o Thrash Metal da Bay Area. E aí, você concorda com Holt?

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