TETRIC TONE – TETRIC ONE [8,0/10]

INDEPENDENTE – NAC.

Por Alessandro Bonassoli

Década de 1980. Amigos unidos pelo mesmo gosto musical montam uma banda, começam a ensaiar. Surgem os shows e o público. Gravam a primeira demo tape, vem a repercussão em zines e revistas especializadas e a vontade de seguir os passos dos ídolos só aumenta. Mas aí vem a realidade de uma nação de Terceiro Mundo onde a música pesada, mesmo estando sendo mainstream no exterior, aqui não recebe espaço nem respeito. A idade e a responsabilidade chegam, cada um vai para um rumo: faculdade, trabalho, família. Algumas décadas depois, a parte ruim é a mesma, mas a tecnologia é outra e hoje é possível gravar um álbum em casa. A amizade e o amor pelo heavy metal não acabaram: “e se a gente voltasse a tocar?”. Quantas centenas, talvez milhares, de brasileiros viveram isso? Vou contar para vocês a história de cinco deles, que em Florianópolis (SC), do passado trouxeram a experiência de trabalhos anteriores e agora vivem novamente o sonho sob o nome Tetric Tone.

Xande “Camisão” (voz), Rafael “Grilo” (bateria) e Claudio Regis (baixo), eram de uma das pioneiras bandas de thrash metal da capital catarinense: Vastness (1988-1994). Depois, Camisão e Claudio tocaram na Agony (1992-1994) e Grilo, Gian Domingues e David Victor (guitarras) fizeram parte da Morbus Inferno (1996-2002), banda de death/thrash que também marcou a cena underground da cidade. A reunião começou em 2016, quando a ideia era “vamos tocar uns covers do que a gente gosta”. Foi questão de tempo para surgirem as composições próprias, reunindo influências de metal tradicional, doom e thrash. O resultado é Tetric One, lançado de modo independente e gravado no home studio do baixista entre dezembro de 2025 e março de 2026.

Com o produtor Rhino Rocha responsável pelas captações dos instrumentos e vozes e pela mixagem e masterização, a “busca do passado para o presente” tem um resultado muito positivo.

Logo na abertura, Mayday é puro Black Sabbath no instrumental e thrash oitentista nas letras:

 

Danger in the water – Danger in the air [Perigo na água – perigo no ar]

Danger in the land – In everywhere [Perigo na terra – em todo os lugares]

 

Mayday, Mayday (SOS) – Don’t let their soul away [Socorro, socorro (SOS) – Não deixe a alma deles partir]

Mayday, Mayday (SOS) – It’s all that can i say [Socorro, socorro (SOS) – É tudo o que posso dizer]

 

Holy wars, profane peace – Children with guns no future [Guerras santas, paz profana – Crianças com armas sem futuro]

World divided by ideologies – Living between the poor culture [Mundo dividido por ideologias – Vivendo em meio a uma cultura pobre]

 

O doom metal, daqueles arrastados e que faria os suecos do Candlemass felizes, impera em Poison Smoke. Nesta, a parte lírica com raízes nos grupos que criticavam os velhos, porém infelizmente eternos, erros da humanidade continua:

 

Something evil is in the air [Algo mal está no ar]

A toxic dance, a deadly affair [Uma dança tóxica, um caso mortal]

Invisible a silent stroke [invísivel como um AVC silencioso]

Beware the shadow of poison smoke [Cuidado com a sobra da fumaça venenosa]

 

Outro destaque é Oniric Reality, na qual ouvi um tanto de grunge. Mas a parte boa daquela era: Alice In Chains e Soundgarden com thrash metal. O peso constante conduz para uma mudança de andamento excelente após os solos, quando a velocidade aumenta e o pescoço instintivamente inicia um headbanging daqueles. A estratégia se repete de modo vencedor em Evil Ghouls, que começa com uma levada em que Trouble e Mercyful Fate parecem estar no mesmo palco. Mais um ótimo solo, uma nova “quebrada” no ritmo e lá vem um riff da escola germânica de thrash metal.

Quando vi o nome da ótima Lethal Lady, me perguntei se era uma balada. Claro que não! Até há romance na letra, afinal é uma homenagem de Camisão à sua amada esposa. Mas é metal tradicional e thrash se mesclando como se nunca tivessem sido em eras distintas. A vantagem do Tetric Tone é o entrosamento do quinteto que, como dito acima, vem das antigas parcerias em bandas de estilos diferentes, porém complementares. Daí a facilidade para eles navegarem em linhas sonoras que poderiam facilmente entrar em rota de colisão em um álbum apenas.

Quem presta atenção nas letras, pode facilmente imagina que Masks Of Terror é sobre algum filme ou seriado de mundo pós-apocalíptico. Na verdade, é sobre uma trama real que todos vivemos recentemente. Um assunto que não pode ser esquecido para que nunca mais volte a ocorrer: a “pandemônia”.

 

Masks of terror – Worn by the deads [Máscaras de terror – Vestidas pelos mortos]

Masks of terror – Disease has been spread [Máscaras de terror – A doença foi espalhada]

 

We’re falling into a hole in the ground [Nós estamos caindo em um buraco no chão]

Skulls and bones can be seen all around [Crânios e ossos podem ser vistos em todos os lugares]

A daunting vision of coffins piled up [Uma visão assustadora de caixões empilhados]

There’s no escape we’re being buried in the mud [Não há escapatória, estamos sendo enterrados na lama]

 

Deixei para o final Infectus Bar, uma ode aos botecos e inferninhos que todo fã de metal pesado já frequentou e continuará sempre a ir. Abertas as garrafas, brinde feito e o que se escuta é puro Metallica da fase Kill´em All. Thrash rápido, cortante, com aquele odor de punk rock e jaquetas de couro. Me sinto na obrigação de agradecer ao Tetric Tone pela aula de como não deixar a tristeza do mundo atual, afundado em crises econômicas e na cegueira coletiva das redes sociais, na banalização de coisas desnecessárias, na violência urbana e digital. Tetric One é uma lição de que, SIM, o passado não é “velharia”, “cringe” ou qualquer outro sinônimo negativo. É, e sempre será um aprendizado e uma porta de acesso para tempos melhores.

Confira:


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