Texto: Guilherme Góes
Foto: Jeff Marques (@mulekedoidomemo)
Após 11 anos desde seu último show em São Paulo, o grupo holandês The Gathering retornou à cidade na última quarta-feira (28) para comemorar três décadas de carreira. Originalmente, a celebração estava agendada para setembro de 2020, porém, devido à pandemia, o evento precisou ser adiado duas vezes. O local escolhido para sediar o espetáculo da “AutoReverse: 30th Anniversary America Tour 2022” foi o Manifesto Bar, lendário “templo do rock paulistano”.
Fundada em 1989, na pacata cidade de Oss, The Gathering apresentava em seus primeiros registros oficiais um som death metal com fortes influências de nomes populares da época, como Celtic Frost e Angel Witch. No entanto, logo no início da carreira, a banda conseguiu se destacar no cenário underground europeu ao exibir algo bastante original para os padrões da época: a introdução de teclados em composições marcadas por riffs e breakdowns agressivos. Já o reconhecimento internacional veio em 1995 com a entrada da vocalista Anneke van Giersbergen e o lançamento de Mandylion, que conta com os populares singles Adrenaline, Leaves e Strangers Machines. Ao longo dos anos, a banda passou por diversas mudanças em seu lineup, incluindo a saída da carismática Anneke – responsável por comandar os trabalhos mais relevantes do quinteto neerlandês. Contudo, a cantora norueguesa Silje Wergeland, que tomou a posição de frontwoman em 2008, conseguiu manter a credibilidade do grupo. Atualmente, os holandeses comemoram 30 anos de atividade, mas também seguem pelo mundo apresentando as novas faixas do mais recente disco, Beautiful Distortion, lançado este ano, que destaca vocais calmos e passagens atmosféricas e relaxantes com sintetizadores e piano.
Apesar da chuva e do frio, os fãs formaram uma fila na Rua Iguatemi para aguardar a abertura do clube. Alguns minutos após às 20h, o acesso ao público geral foi liberado. Enquanto aguardavam a atração principal, os presentes puderam circular pelo Manifesto Bar e conferir sua excelente decoração temática, que destaca fotos e itens pessoais de celebridades do rock que já passaram pela casa, entre elas: Dave Mustaine (Megadeth), Lemmy Kilmister (Motörhead), Klaus Meine (Scorpions) e muitos outros. Além disso, a equipe de discotecagem aqueceu a plateia com músicas de bandas e artistas como Dream Theater, Kiss e Ozzy Osbourne, assim intensificado a experiência “rock n roll” do evento.
Com apenas 1 minuto de atraso em relação ao horário oficial, Silje Wergeland (voz), René Rutten (guitarra), Hugo Prinsen Geerligs (baixo), Hans Rutten (bateria) e Remco van Zandvoort (teclado) subiram ao palco e iniciaram a apresentação com Stronger, do EP Interference, uma espécie de “projeto paralelo” de Beautiful Distortion. Seguindo com novidades, veio a relaxante In Colour, cuja estrutura instrumental de sua composição destaca fortemente as influências atmosféricas que inspiraram o recente trabalho dos holandeses. Ao término da canção, Silje comentou sobre o clima cinzento que enfeitava a quarta-feira paulistana: “O céu de São Paulo é sempre tão bonito, o que aconteceu dessa vez?”, ironizou a vocalista.
A breve interação descontraída com o público foi a abertura perfeita para os singles Leaves e Strangers Machines, principais hits de Mandylon, lançado em 1995. Durante a execução desta última faixa, cuja letra faz referência ao livro “The Time Machine”, do escritor britânico H.G Wells, Silje imitou as danças da ex-vocalista Anneke van Giersbergen. Causou, assim, um leve sentimento de nostalgia das apresentações da banda em festivais como “Dynamo” e “Pinkpop” em meados dos anos 90, quando The Gathering experimentava o auge do sucesso após o hype de seu maior sucesso comercial.
Ao término do empolgante bloco, a frontwoman apresentou os demais músicos da banda e comentou que era a primeira vez que o grupo tocava no Brasil com o baixista Hugo Prinsen e o tecladista Remco van Zandvoort, que substituiu Frank Boeijen. Em seguida, foi a vez de We Rise, primeiro single e videoclipe do novo full-length. Os fãs mostraram que estavam familiarizados com a faixa ao acompanhar cada palavra do emocionante refrão (“I tried to talk, and man I talked / But you don’t listen / It’s like I’m whispering / For years and years, I tried to change / And turn it all around / But you don’t listen / Don’t listen”). Na sequência, Pulse of Life complementou a sessão de inéditas.
Após as primeiras faixas, foi possível notar que a casa não alcançou sua lotação máxima. No entanto, tal característica se tornou um mero detalhe, já que os poucos fãs presentes na plateia tornaram a interação “público – banda” em algo extremamente íntimo. Os holandeses saudaram a calorosa recepção dos paulistanos em relação às novas canções. Silje deixou a postura profissional de lado ao avistar um amigo norueguês na pista que havia ido ao show apenas para encontrá-la. “Olha lá, olha lá, é o meu amigo Jeff. Assim como eu, ele nasceu na Noruega, mas vive em São Paulo já faz algum tempo. Hoje, ele apareceu aqui apenas para me ver”, comentou a vocalista ao enxergar o conterrâneo em meio a plateia.
Para celebrar os 30 anos de carreira, o quinteto seguiu com um apanhado de canções dos álbuns Nighttime Birds (1997), How to Measure a Planet? (1998), if_then_else (2000) e Disclosure (2012), destacando uma música de cada um destes, entre elas: Probably Built in the Fifties, Heroes for Ghosts, On Most Surfaces (Inuit) e a melancólica Saturnine, onde Silje se aproximou do palco e deixou o público cantar o segundo refrão. De forma estratégica, Sand and Mercury, composição de 9 minutos do magnum opus Mandylion, foi a escolhida para fechar o set. Na ocasião, Silje chegou a sair do palco, cedendo o protagonismo da apresentação ao guitarrista René, que encantou o público com riffs coordenados.
Depois de um breve bis, o baterista Hans retornou ao palco e fez questão de comentar que tropeçou e quase caiu ao subir a íngreme escada do clube que possibilita o acesso ao camarim, arrancando gargalhadas do público. Logo após, os demais integrantes da The Gathering retornaram ao palco, e encerraram a noite com mais uma mescla de faixas que marcam as três décadas do grupo: Weightless, Great Ocean Road e I Can See Four Miles. Neste momento, a vocalista se despediu dos fãs paulistanos, e deixou espaço para que cada um de seus colegas pudesse exibir livremente suas habilidades em seus respectivos instrumentos. Depois de 1 hora e 20 minutos de música, os holandeses agradeceram o carinho dos presentes e distribuíram setlists, baquetas e palhetas.
Mesmo com público reduzido, The Gathering entregou uma performance profissional. Já os fãs aproveitaram a oportunidade única para criar uma conexão íntima com a banda. Show vazio é sinônimo de show ruim? De fato, o público que compareceu nesta gig histórica jamais terá este tipo de questionamento novamente.
Setlist:
Stronger
In Colour
Leaves
Strange Machines
We Rise
Probably Built in the Fifties
Pulse of Life
Heroes for Ghosts
On Most Surfaces (Inuït)
Saturnine
Sand & Mercury
Bis
Weightless
Great Ocean Road
I Can See Four Miles
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