KOOL METAL FEST – Belo Horizonte (MG)

Por Thiago Prata 

Fotos: Denilton Dias

A insanidade de cada headbanger sobrepujava a quantidade razoável de pessoas presentes no Mister Rock, em Belo Horizonte – muito longe de estar lotado. O fato de o local ser um “forno” não diminuía o “sangue nos olhos” das bandas nem o entusiasmo de seus fãs. Como bem disse Pedro “Poney” Arcanjo, baixista e vocalista do Violator: “Tá muito calor, mas é muito bom tocar nesse calor”. Um problema ou outro técnico era vencido pela garra, a técnica e o feeling de cada músico que pisou no palco. Na tarde e na noite de 11 de março, um dia com temperaturas altas e uma chuva quando já se aproximava da meia-noite, toda adversidade era superada por cada pessoa – seja fã, integrante de uma das sete bandas do cast ou membro da produção do evento – que estava ali para celebrar 20 anos do Kool Metal Fest. O resultado foram sete ótimos shows e uma festa regada a montanhas de riffs e turbilhões de mosh, culminando em uma catarse espiritual (ou seria catarse infernal?) na capital mineira.

Headliner do festival, a lenda norte-americana do crossover D.R.I., em turnê de celebração de 40 anos de banda (completados em 2022), fechou o evento destilando um petardo atrás o outro. Outra banda estrangeira, o alemão KHNVM (com origens em Bangladesh) foi a grata surpresa da vez, com um consistente e sólido death e suas inserções black. E as bandas brasileiras ratificaram o quão rico é nosso underground. Os mineiros do Falsa Luz e do Payback abriram muito bem os trabalhos, fazendo jus à tradição dessas terras, enquanto os santistas do Surra, os cearenses do Facada e os brasilienses do Violator aplicaram aulas de agressividade – cada uma por meio de sua respectiva sonoridade – e reiteraram o porquê de estarem entre os principais nomes do cenário nacional.

Falsa Luz

O festival teve início por volta das 17h com o Falsa Luz. Unindo elementos de black metal, hardcore e punk – para citar alguns –, o quarteto belo-horizontino cumpriu a missão de “esquentar” os primeiros headbangers que adentraram o Mister Rock em seus 20 minutos de show. Depois foi a vez de outro representante da capital mineira, o Payback, subir ao palco com um furioso thrash metal, tendo o debute Padecer (2020) como fio-condutor. No fim da apresentação de pouco mais de meia hora, o grupo chamou Poney para participar de Inner Self, clássico de Beneath the Remains (1989), do Sepultura.

Às 18h30 foi a vez do KHNVM, que já chama atenção pelo nome que, para nós brasileiros, só é possível pronunciar soletrando. A cada música, mais e mais pessoas se aproximavam do palco para conferir um som calcado no death, ora mais rápido, com muitos blast beats, ora mais cadenciado, sempre com riffs de qualidade e muito peso. O destaque do setlist de pouco mais de meia hora ficou para Heretic Ascension, de Portals to Oblivion (2021), álbum que vale sua atenção.

Passava das 19h20 quando o Surra começou seu arsenal thrash/hardcore/grind, tendo o disco Escorrendo Pelo Ralo (2019) como predominante em seu set. E que bom que foi assim. Porque O Mal Que Habita a Terra, a faixa-título e Mais Um Refém são sensacionais ao vivo. Além da qualidade de suas canções, o power trio santista esbanja carisma, com direito a discursos ácidos e sarcásticos à ala mais conservadora da sociedade e distribuição gratuita de patinhos de borracha. Passou a Boiada, de Thrashpunk Teleport: Submundo 2121 (2020), e a maravilhosa Daqui Pra Pior (com uma “homenagem” ao mais recente ex-presidente da República) foram aclamadas, assim como as também icônicas Parabéns aos Envolvidos e Bom Dia Senhor. Na moral: esse Surra é muito foda!

O Facada emergiu pouco antes das 20h10 com “jogo ganho”. Em meio a conversas com várias pessoas presentes no festival, muitas estavam ali principalmente para ver a banda cearense de grindcore. E o trio de Fortaleza não decepcionou. Muito pelo contrário, o grupo mandou ver em um set de quase 40 minutos de duração (faixas de Quebrante, de 2018, são excelentes), a ponto de uma das cordas do baixo de James, que também é vocalista, ter se soltado. O curioso é que essa situação impediu a eles de executarem Nightmare, do Sarcófago. Mas, como dito mais acima, cada empecilho era superado com uma boa solução. E a solução foi tocarem outra de INRI (1987), no caso, Deathrash.

Veio então o Violator… OK, vamos recomeçar. Veio então um set brutal, de uma hora de duração, do Violator. Chega a ser emblemático que a primeira palavra entoada pelo grupo no show seja “thrash”, na reta final da instrumental Ordered to Thrash. Outra do álbum Chemical Assault (2006), Atomic Nightmare também foi comemorada pelo público, que a cantou em uníssono. Respect Existence Or Expect Resistance, do disco Scenarios of Brutality (2013), e False Messiah (com “homenagem” ao mais recente ex-presidente da República), do EP The Hidden Face of Death (2017), mantiveram o mosh em alta (aliás, teve mosh em cada segundo da apresentação). Nem mesmo o problema na guitarra do estreante Felipe Nizuma em Futurephobia, de Annihilation Process (2010), diminuiu o ímpeto do Violator. Mesmo que dali para frente a guitarra de Nizuma não tenha tido o mesmo som, o quarteto manteve o nível de agressividade com clássicos como Endless Tyrannies e UxFxTx (United for Thrash), esta última com vários fãs sendo chamados ao palco por Ponny, no grand finale. Foi insano! Foi lindo!

Mais de quarenta minutos depois, o D.R.I. subiu ao palco. E aqui vale um ponto importante. Em nenhum outro show, o som esteve tão bom quanto o do quarteto oriundo de Houston (falo no aspecto técnico, daquilo que saía das caixas). Dava para ouvir guitarra, baixo, bateria e vocais de forma limpa e sem que um estivesse mais alto que o outro. Sobre o show, o grupo arrebatou clássico atrás de clássico e mosh atrás de mosh durante uma hora, com direito às incríveis Acid Rain, do álbum Definition (1992), e Beneath the Wheel, de Thrash Zone (1989), à punk I’d Rather be Sleeping, de Dealing with It! (1985), e à visceral The Five Year Plan, de Crossover (1987). Um fato curioso é que um headbangear subiu ao palco no fim do show, assustando um pouco o vocalista Kurt Brecht. Cada vez que o fã se aproximava, o frontman se afastava, até, enfim, o “intruso” ser retirado dali. Nada que tirasse o brilho deste que foi um showzaço!

 

A ROADIE CREW agora tem um canal no Telegram!

Participe para receber e debater as principais notícias do mundo do metal

Compartilhe:
Follow by Email
Facebook
Twitter
Youtube
Youtube
Instagram
Whatsapp
LinkedIn
Telegram

MATÉRIAS RELACIONADAS

DESTAQUES

ROADIE CREW #285
Março/Abril

SIGA-NOS

50,8k

57k

17,2k

982

23,6k

Escute todos os PodCats no

PODCAST

Cadastre-se em nossa NewsLetter

Receba nossas novidades e promoções no seu e-mail

Copyright 2025 © All rights Reserved. Design by Diego Lopes

plugins premium WordPress